domingo, 30 de dezembro de 2007

Wittgenstein, o Filme



Cena do filme “Wittgenstein” (1993), dirigido por Derek Jarman, com roteiro de Terry Eagleton. E para quem ainda não está com o inglês em dia, aí vai uma tradução aproximada.

Wittgenstein: Um cachorro não pode mentir. Nem ser sincero. Um cachorro pode esperar seu dono chegar. Por que ele não pode esperar que ele chegue na próxima quarta feira? Seria porque ele não tem uma linguagem? Se um leão pudesse falar, nós não seríamos capazes de entender o que ele disse. Por que eu diria tal coisa?

Estudante 1: Se nós pudéssemos entendê-lo, eu diria que não teríamos problema para entender um leão.

Estudante 2: Nós poderíamos conseguir um tradutor.

Wittgenstein: Para mim ou para o leão? Sim, sim, nós poderíamos conseguir um tradutor. Mas que diferença isso faria? Imaginar uma linguagem é imaginar uma forma de vida. É o que nós fazemos e o que nós somos que confere significado às nossas palavras. Eu não posso entender a linguagem de um leão porque eu não sei como é o seu mundo. Como eu posso conhecer o mundo que um leão habita? Será que eu não consigo compreendê-lo porque não posso espiar o que se passa em sua mente? (Desenhando um abacaxi). O que está se passando por trás das minhas palavras quando eu digo “este é um abacaxi muito agradável”? Podem pensar com calma.

Estudante 1: O pensamento, professor.

Wittgenstein: Sei... Qual é o pensamento que se esconde por trás das palavras “este é um abacaxi muito agradável”?

Estudante 1: “Este é um abacaxi muito agradável”.

Wittgenstein: Ouça: nós imaginamos o significado do que dizemos como algo estranho, misterioso, escondido das nossas vistas, mas nada é oculto, tudo está aberto à visão. São os filósofos que turvam as águas.

Estudante 1 (batendo na própria face): Professor Wittgenstein! O senhor não pode conhecer essa dor. Só eu posso.

Wittgenstein: Você tem certeza que a conhece? Você duvida de que sentiu dor?

Estudante 1: Como eu poderia duvidar disso?

Wittgenstein: Se não podemos falar de dúvida, também não podemos falar de conhecimento.

Estudante 1: Não estou entendendo.

Wittgenstein: Não faz sentido falar de conhecer alguma coisa num contexto em que não podemos duvidar, portanto, “eu sei que estou sentindo dor” é completamente desprovido de significado. Quando você quer conhecer o significado de uma palavra, não procure dentro de você, procure pelos usos daquela palavra em nossa forma de vida. Olhe para como nos comportamos.

Bertrand Russell: Você está dizendo que não existem problemas filosóficos?

Wittgenstein: Existem problemas lingüísticos, matemáticos, éticos, lógicos e religiosos, mas não existem problemas filosóficos genuínos.

Bertrand Russell: Você está banalizando a filosofia.

Wittgenstein: A filosofia é apenas um subproduto da incompreensão da linguagem! Por que vocês não percebem isso?

Bertrand Russell: Ai, meu deus... ele não tolera discordâncias, não é?

9 comentários:

Sérgio Coutinho disse...

Prezados, parabéns pelo blog. Tenho visitado há alguns meses mas apenas agora deixo esse recado. Sugiro que cadastrem-no no site www.blogblogs.com.br. é o maior endereço para buscas por blogs no Brasil. Grande abraço e feliz 2008 para todos.

Ulisses Adirt disse...

Foi mais divertido ainda ver esse vídeo após o texto anterior (" Ma Che Cazzo Dici Tu??! O Leão de Wittgenstein e a Virada Lingüística"). Obrigado.

Jonatas disse...

Recomendo também o vídeo de Deleuze - e que está relacionado. Ele acha que Wittgenstein é algo como assassinato da filosofia. More-se por tão pouco, não é?

ronaldo moura disse...

Ei jonatas, tu podia recomendar a si mesmo a tradução das duas outras partes do vídeo que aparecem ao fim do mesmo.

metodologia disse...

Apoiado!

Cynthia

Jonatas disse...

Primeiro: onde escrevi no último comentário "more-se", leia-se "morre-se". E quanto à sugestão, Ronaldo, não sei se entendi. Você recomenda que eu traduza os vídeos que coloco no blog?... Acho que é isso. Fico devendo (alas! e talvez para sempre): já acho a garimpagem um trabalho danado. Burilar as pepitas ou peritas...

Jonatas disse...

Ah, quanto minha à sugestão de ver Deleuze, trata-se simplesmente da oportunidade de ver como Wittgenstein é percebido por outros intelectuais - embora Deleuze não seja exatamente generoso, ou explique-se devidamente, em sua crítica a Witt. "Morre-se por tão pouco" é uma ironia à pretensão de GD de definir algo como um não plus ultra da filosofia.

Pessoalmente, acho todo pensar que leva a algum tipo de confinamento uma possibilidade da filosofia - e do ser que somos. Mas não é uma possibilidade que me interesse terrivelmente. Como é que o ser que somos é para que ele se abra lingüisticamente? Essa pergunta, obviamente, pode ser interpretada como um jogo lingüístico, uma série de incompreensões sobre o que a linguagem é, ou seja, o desconhecimento do "fundamento impermeável além do qual nenhuma pá pode penetrar" (creio que é mais ou menos assim o célebre dictum do moço).

A relação do ser com a linguagem só pode ser elaborada, pensada, pela própria linguagem - como o descobriram na prática ou em teoria pensadores de toda a sorte, do Dadá até Cá. (Nietzsche já dizia umas coisas interessantes a esse respeito na Gaia Ciência) Gosto de ver a linguagem e o ser como creio que os entendia Heidegger: como uma abertura. E como creio ser este o caso, acredito que a possibilidade de se auto-confinar está aberto para todos que não queiram, ou não consigam, ver outra possibilidade na filosofia.

asadebaratatorta disse...

Mas, saber se há ou não um problema filosófico já não seria, de fato, um problema filosófico? =P

k disse...

Esse Wittgenstein é o mesmo citado no filme "Enigmas de um crime"?