domingo, 20 de janeiro de 2008

Consertando o Equilíbrio de Gênero na Comuna Smurf



Transcrevo, abaixo, notícia importantíssima que recebi por e-mail, retirada do jornal alemão Der Spiegel. O Cazzo também é cultura!

A colônia dos Smurfs azuis supostamente é a concretização perfeita do comunismo que deu certo, com Papai Smurf, com barba branca e calças vermelhas, simbolizando Karl Marx. Mas onde estão todas as garotas?

R. Jay Magill Jr.
Em Berlim

Tra-la-la-la-la-la, la-la-la-la-la. Vida livre, música e cogumelos. Para muitos, os Smurfs são a concretização perfeita da utopia de Marx e Engels.

O dinheiro não significa nada na sociedade Smurf de 100 pessoas, onde a propriedade pertence a todos e não há moeda. O trabalho comunitário é realizado junto. As divisões de trabalho são claras: Habilidoso (comerciante), Fazendeiro (planejamento agrícola), Gênio (intelligentsia), Harmonia (as artes) e assim por diante. [Como é isso mesmo??].

Todo mundo é igual, até mesmo na idade: ativos 100 anos (exceto, Papai, a suposta personificação de Karl Marx; ele tem 542). Apenas o maligno feiticeiro Gargamel e seu gato Cruel -considerados agentes do capitalismo global- podem perturbar a bem-aventurança socialista da sociedade.

Só há um problema neste utopia marxista -onde estão todas as mulheres? Até agora, o refúgio coberto de musgo contava com apenas uma garota proeminente: a Smurfete, com seu cabelo loiro esvoaçante, salto alto e movimentos femininos. (Apesar de ninguém se lembrar delas, havia na verdade três mulheres Smurfs, segundo a enciclopédia online Wikipedia.)

Mas agora tudo vai mudar. Um novo filme dos Smurfs, o primeiro de uma trilogia, apresentará uma população estrangeira ao reduto dos baixinhos: mulheres.

"Ocorreram grandes mudanças nos valores socioculturais nos últimos 20 a 25 anos", disse Hendrik Coysman, chefe da International Merchandising Promotion & Services, a empresa que é dona dos direitos dos Smurfs, em uma coletiva de imprensa em Bruxelas, na segunda-feira. "Uma delas foi a valorização das mulheres." Coysman prosseguiu: "Haverá uma maior presença feminina na vila dos Smurfs, e isto, é claro, será uma base para novas histórias. Isto provavelmente virará de cabeça para baixo certas situações tradicionais dentro da vila".

Malgorzata Tarasiewicz uma especialista em política da União Européia e gênero e diretora do Fórum Feminista Europeu, com sede em Amsterdã, acha que os Smurfs podem dar o exemplo. "Mesmo no mundo dos Smurfs é aceito o que muitos políticos e outros tomadores de decisões ainda não querem entender: que as mulheres necessitam de igualdade e representação igual", ela disse à "Spiegel Online" na sexta-feira. "Se tornou um fato difícil de ignorar, o de que as mulheres estão mais visíveis na esfera pública, na mídia e nos negócios -a ponto de até contos de fadas precisarem refletir este importante desenvolvimento da civilização."

A International Merchandising está celebrando o 50º aniversário dos Smurfs em 2008 com um "Feliz Dia Smurf", que ocorrerá durante todo o ano. Coletivas de imprensa em Berlim, Bruxelas e Paris, uma exposição, um dirigível Smurf gigante, um site e uma parceria com a Unicef -que compartilhará dos lucros- tudo faz parte da comemoração.

Detalhes de um futuro filme e outras surpresas estão sendo mantidos sob sigilo na International Merchandising. Mas se sabe que o retorno dos Smurfs às telas, em um desenho animado por computador em 3D com lançamento previsto para novembro de 2008, está sendo desenvolvido pela unidade Nickelodeon Films da Paramount Pictures, produzido por Jordan Kerner ("A Menina e o Porquinho", "Inspetor Bugiganga").

E com rumores de que o filme dos Smurfs contará com as vozes de algumas das mulheres mais talentosas de Hollywood, incluindo Sally Field, Lucy Liu, Julia Sweeney, Jessica Simpson e Marisa Tomei, as coisas estão prestes a ficar muito mais modernas na casa de cogumelo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

6 comentários:

Jonatas disse...

Como a Smurfete aprendeu seus maneirismos supostamente femininos sempre foi uma interrogação em minha vida - se ela não tem outras mulheres com quem compartilhar, aprender, socializar-se qua entidade mulher. Até agora, Smurfete era a prova viva de que uma essência feminina seria possível. Mas eis que..

metodologia disse...

...Eis que chegam os construtivistas e arrasam com tudo. Mas, independentemente de sua "femininidade", o que vai ser realmente bizarro é a mudança nas relações de produção da comuna. Se Marx estiver certo nos Manuscritos, a divisão do trabalho sexual é natural e precede a alienação. Neste caso, desconfio que os smurfs devem se preparar para o pior, já que introduzir as mulheres na jogada será alienação na certa - e trabalho alienado a gente já sabe onde leva: propriedade privada!

Por outro lado, se o que estiver correto for sua concepção de alienação da Ideologia Alemã ou do Capital, a simples ausência de propriedade privada deverá ser uma condição suficiente para que a divisão sexual do trabalho não degenere em alienação ou, como Marx prefere, "emasculação do trabalhador".

Será que não seria mais simples pensar em uma divisão do trabalho mais igualitária em termos de gênero?

Cynthia

Rodrigo Dantas disse...

Olá Prof. Cynthia =]

Coitados dos Smurfs, apesar de terem uma vida livre de exploração, a falta da presença feminina com certeza devem ter tornado a vida na comuna bastante monótona hehehe

Sobre a relação entre feminismo e marxismo, penso que é inútil lutar por mais igualdade em termos de gênero se a exploração humana persiste e tornar-se cada vez mais intensa. O racismo, a homofobia, o machismo, todos são como chagas de nossa sociedade marcada pela discriminação mútua, em que um homem negro é vítima de racismo e luta contra isto, mas as vezes ele mesmo discrimina mulheres e gays.

Creio que se especificarmos os problemas de nossa sociedade ao ponto de fatia-los em pedaços e só então esperarmos que cada grupo consiga conserta-los, então chegaremos a século XXX e nada irá mudar significativamente. Os problemas são antes de tudo estruturais. Não podemos lutar pelos direitos dos negros e esquecer os das mulheres, da mesma forma, penso eu, que não podemos lutar pela igualdade de gênero e esquecer da desigualdade social, que no Brasil chega a ser a mais alta de toda a américa latina.

Os problemas de nosso tempo, mais do que antes, possuêm diversas especificidades e não podem ser encarados como se fossêm uma única coisa, isto seria um grande erro. No entanto, considero um erro da mesma forma separarmos os problemas de nossa sociedade, como se cada um não tivesse relação alguma com o outro.

Bem, é mais ou menos assim que penso à respeito do assunto.

PS: Sinto bastante por não ter podido ir para a homenagem que minha turma fez para você, infelizmente não pude mesmo comparecer.


Até mais =]

metodologia disse...

Oi, Rodrigo,

Eu concordo com você que uma fragmentação excessiva dessas questões leva a um imobilismo político que não beneficia nenhum grupo social. No entanto, a necessidade de se pensar a especificidade de determinados grupos decorre justamente do fato que você menciona em seu comentário: "Não podemos lutar pelos direitos dos negros e esquecer os das mulheres, da mesma forma, penso eu, que não podemos lutar pela igualdade de gênero e esquecer da desigualdade social".

O que as abordagens "clássicas" de classe, gênero e raça fizeram até recentemente foi tratar dessas questões como se elas não tivessem relação alguma uma com a outra ou, no máximo, achando que ao se resolver uma delas, as outras estariam automaticamente resolvidas. As feministas esqueceram que as mulheres são diferentes em termos de classe e de raça; os marxistas, que as classes contém grupos de gênero e de raça heterogêneos etc.

A questão é que uma abordagem que pressuponha a prioridade absoluta de um desses grupos enquanto sujeitos políticos, ou que apenas seus interesses sejam considerados importantes ou mais fundamentais que os outros, acaba por separar essas questões, como se elas não se reforçassem mutuamente.

No que se refere a gênero, especificamente, existe hoje um relativo consenso de que não se pode trabalhar esta categoria sem as categorias de classe e raça. O problema é como fazer isso. Muitas das soluções apresentadas não dão conta do problema e, na minha opinião, ainda não encontrei uma que fizesse isso. Mas o ponto é que precisamos continuar tentando, o que significa incorporar teorias de outras áreas que nos permitam "corrigir" a visão parcial que vinha sendo apresentada - e não "fatiar" essas questões, como você coloca.

Este tipo de preocupação pode ser ilustrado com o trabalho de Joanildo Burity, um pós-marxista muito sério e competente que define a sua abordagem como uma articulação entre “o arsenal analítico e político do marxismo e as correntes e movimentos externos àquele com os quais se buscaram alianças para enfrentar aspectos do desenvolvimento da sociedade capitalista ausentes ou mal trabalhados nos clássicos do marxismo”.

O ponto importante, portanto, é nos mantermos abertos para as contribuições de áreas distintas e estarmos sempre prontos a reconhecer as limitações de nossas abordagens. No final das contas, as contribuições realmente importantes da teoria social só foram possíveis porque os gigantes da nossa área perceberam isso. Já pensou no que teria sido de Marx se ele não tivesse rompido com os jovens hegelianos e incorporado idéias de uma diversidade enorme de abordagens? Provavelmente nem estaríamos falando dele hoje em dia...

Quanto à festa, foi uma homenagem muito emocionante. Apesar de acreditar que não fiz mais do que minha obrigação e por isso não merecia homenagem alguma, recebi-a com carinho. Bem, o que posso dizer é que você perdeu uma grande farra que se estendeu noite adentro. Mas podemos planejar outra, independente de homenagens.

Abraço,
Cynthia

metodologia disse...

Vixe! Acho que me empolguei com a resposta!

metodologia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.