domingo, 6 de abril de 2008

O homem-objeto da Lebensphilosophie



Outro dia falamos na Lebensphilosophie, ou filosofia da vida, numa aula sobre Schütz. A idéia era esclarecer o conceito de durée de Henri Bergson. Não vou falar disso aqui, mas de homens-objeto. Ou melhor, vou falar da comédia como uma forma de reificação do outro, que é a tese de Bergson.

Assim como Dilthey e Simmel, Bergson concebe a vida como um fluxo contínuo de um ser que envelhece sem cessar. Na vida, não há repetições, não há um “voltar atrás”. Os seres vivos caracterizam-se por uma mudança contínua, uma individualidade perfeita, dado que são irreversíveis. A repetição e a reversibilidade é própria dos seres mecânicos, determinados por séries causais externas e independentes. Por isso, a rigidez mecânica de corpo, de espírito e de caráter seria contrária à vida, pois impede a maleabilidade, a sociabilidade, a adaptação, o próprio fluxo da vida.

Ao trazer essas idéias para o fenômeno cômico, Bergson concebe a comédia como um jogo que imita a vida. Nesta imitação, perde seu caráter de fluxo, de singularidade. Daí sua definição de cômico: “todo arranjo de actos e acontecimentos que nos dá, inseridos uns nos outros, a ilusão da vida e a sensação nítida dum arranjo mecânico” (Bergson, 1993 [1900]: 58). De acordo com esta perspectiva, o riso gerado pelo fenômeno cômico seria um mecanismo de correção da rigidez e da inflexibilidade que impedem o fluxo da vida. A causa do cômico é algo que atenta contra a vida social e à qual a sociedade reage com o riso, que é nada menos do que uma reação de defesa: “o riso é, antes de tudo, uma correção. Feito para humilhar, deve dar à pessoa que é objeto dele uma impressão penosa. Através dele se vinga a sociedade das liberdades praticadas contra ela” (Ibid.: 134).

Por se manifestar como uma espécie de vingança, de repressão da insociabilidade e das tendências separatistas que surgem no seio de grupos de uma sociedade mais ampla, o riso não poderia se basear na simpatia ou na bondade, mas na humilhação e na intimidação de quem não é flexível o bastante para se adaptar ao fluxo da vida. Neste sentido, à insociabilidade do personagem deve se juntar a insensibilidade do espectador, cuja atenção é dirigida ao mero gesto do outro. Diferentemente da ação, o gesto não exprime uma personalidade total do ator, mas apenas uma parte isolada de sua pessoa. Isto gera o desconhecimento ou o afastamento da consciência do outro, reificando-o.

Contrariamente ao que afirmam autores como Verena Alberti (1999:95), para quem o sujeito bergsoniano não ri por superioridade ou por orgulho, a tese da superioridade está implícita em seu estudo sobre o riso: a insensibilidade, a ausência de emoção e de empatia reduz o outro a um mero objeto, a uma vida defeituosa. De fato, para Bergson, a insensibilidade (dos que riem) seria um dos indicadores fundamentais da presença do humor. É por esta razão que aquele que ri “afirma-se mais ou menos orgulhosamente ele próprio e tende para considerar a pessoa de outrem como um fantoche do qual segura os cordelinhos” (Bergson, 1993 [1900]: 135).

A sociologia é mesmo fascinante. E eu, que nunca tinha pensado em Mr. Bean como homem-objeto... Smoooooth!

Cynthia

Referências

ALBERTI, Verena (1999). O riso e o risível na história do pensamento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
BERGSON, Henri (1993[1900]). O riso: ensaio sobre o significado do cómico. Lisboa: Guimarães editores.

12 comentários:

Pedro Monteiro disse...

em primeiro lugar queria dizer que os post sobre o humor são ótimos!
uma perguntinha...

se falou no post anterior sobre as diferentes correntes e perspectivas: Kant, Freud, Bergson...

me parece que nenhuma (estou chutando, não li os livros nas referencias!!!) considera o humor como uma capacidade de rir de si mesmo. Ou seja, uma forma de pensar criticamente, rever a normalidade da nossa vida e das nossas ações. Falo isso pensando em Veríssimo. Gosto muito das suas crônicas e as vejo como muito iluminantes de "banalidades" do nosso quotidiano.

não sei se faz muito sentido a pergunta...era so uma consideração...

Cynthia disse...

Oi, Pedro,

Andou sumido. Seja bem-vindo de volta.

Que bom que gostou dos posts: tenho um monte de coisa escrita sobre humor e nenhuma idéia do que vou fazer com isso. Acho que a gente vai sendo atropelado pela demanda por coisas "sérias". Felizmente, tenho uma orientanda de graduação, Stephanie, que vai escrever algo sério sobre isso.

Quanto à sua pergunta, tanto Berger quanto Freud escrevem sobre a importância do humor como capacidade de rir de si mesmo. De fato, muita gente da área de saúde tem se baseado nisso - um exemplo importante é aquele povo que se veste de palhaço nos hospitais.

Sobre a perspectiva de Freud a respeito da capacidade de rir de si mesmo como um sinal de saúde mental e como uma evidência do papel "criativo" (e não apenas restritivo) do superego, veja um dos comentários que escrevi num post sobre humor em novembro de 2007. Tá lá.

Veríssimo: grande sociólogo espontâneo da vida cotidiana...

Abraço.

Lucas disse...

Perguntas bobas de alguém que pegou o bonde andando:

Por que ele acha que o cômico é uma imitação da vida? E por que isso impede o seu fluxo? Que há de mecânico, rígido e repetitivo nessa "imitação"?

Não entendi o porquê do riso também.

asadebaratatorta disse...

Nossa, o negócio aqui é profissional mesmo. ^^' Nem precisa falar que o texto é acessível e muito bem escrito.

Lendo o texto, eu levantei algumas reflexões parecidas com a de Pedro Monteiro. É confuso, pois o humor pode ser uma capacidade de rir de si, como também de "diminuir" o outro. Penso que rir de si mesmo ao assistir no Casseta e Planeta uma narrativa cômica sobre o fracasso do eleitor brasileiro em encontrar políticos confiáveis seria problemático. Por outro lado, rir de si mesmo em uma situação constrangedora, em que se rompe com as normas do espaço, pode aliviar as sanções sérias e partidas do próprio ator. Não sei. Fico pensando no "senso de humor" como uma forma de amenizar a culpa diante de um espaço social.

Talvez fosse preciso tipificar o humor. Pois também não esqueço as piadas que denigrem a imagem de certos grupos e que seguem muitas vezes uma estratégia parecida: hiperbolizam determinadas características dos grupos e os definem de acordo com elas.
É tão interessante, por exemplo, um texto como o de Frantz Fanon (Peles Negras, Máscaras Brancas), que mostra diferentes tipos de racialização entre os judeus e os negros. Os judeus seriam atacados pelo cérebro e os negros pela bestialização de sua sexualidade. Até hoje conseguimos encontrar estereótipos como esses nas piadas: os judeus são os mesquinhos, não-confiáveis, fazem tudo por dinheiro e etc. E os negros são os "negões" musculosos e com pênis enormes. Não sei como estaria representada a mulher judia, mas a mulher negra seria a lasciva. Porém, vejo pouco humor feito a partir delas. Talvez por que eu conheça pouco sobre o assunto.

[com a impressão de que 'falei' demais. ^^''']



.Raphael

Cynthia disse...

Lucas,

Para perceber melhor como Bergson identifica o cômico como algo que impede o fluxo da vida, você teria que ler o livro dele, que consiste numa série de exemplos de um grande número de fenômenos cômicos, como a caricatura, gestos, palhaços de mola que saltam de caixas etc. De maneira geral, no entanto, o que essas coisas teriam em comum seria a falta de maleabilidade, de flexibilidade, de equilíbrio (nas linhas da caricatura, por ex.), a deformação. Uma caricatura, um homem andando de forma trôpega, uma careta, um movimento repetitivo (como Chaplin apertando parafusos em Tempos Modernos)seriam exemplos dessas coisas. Enfim, tudo o que ele caracteriza como rigidez mecânica.

Quanto ao "por quê" do riso, talvez o mais adequado fosse perguntar o seu "para quê". Para o controle social. É por isso que às vezes vejo a perspectiva de Bergson como excessivamente funcionalista: ele busca dar conta da finalidade do fenômeno, não de suas causas. Na minha opinião, entretanto, o riso não existe para controlar os outros, embora ele possa ser utilizado dessa forma com frequência.

Cynthia disse...

Raphael,

É confuso mesmo, pois o humor possui aquela característica fundamental para a etnometodologia, que é a indicialidade. Seu significado depende de contextos micro-sociais específicos, embora também se possa percebê-lo de uma perspectiva macro-social.

Por exemplo, em estudos comparativos acerca dos tipos de pessoas/grupos que são objeto do humor, percebe-se que sempre se trata de grupos em situação de liminaridade ou marginalidade. É por isso que negros, judeus, mulheres e minorias étnicas são os alvos preferidos do humor. No entanto, os significados deste humor são variáveis: uma coisa é alguém branco contar uma piada de negro para um negro. Outra, completamente diferente, são os negros rirem de si próprios ao contarem piadas racistas dentro do movimento negro(o que, aliás, é bem comum). No primeiro caso, provavelmente está em jogo um mecanismo de exclusão social; no segundo, o estabelecimento das fronteiras do grupo e a inversão do significado original da piada.

Hoje mesmo, recebi um email de uma aluna (loira e muito bonita de acordo com os padrões dominantes) que ria de si própria ao afirmar que estava amadurecendo umas idéias em sua "cabecinha tingida e semi-oca". Tenho certeza que se você chamá-la de lôra burra ela vai se ofender, embora ela própria tenha dado a entender isso. Qual a diferença? A forma irônica como ela usou o termo e o fato de ter dirigido a ironia a si mesma. Em outros termos: o caráter indexical ou indicial da piada.

Quanto à mulher judia, ela é geralmente caracterizada nas piadas como a mãe dominadora. Um exemplo clássico:

Duas mães judias conversando.

_ Meu filho está fazendo terapia. O terapeuta descobriu que ele tem um tal de complexo de édipo.

_ É mesmo? Complexo de édipo? Isso é grave?

- Ah, édipo, shmedipus... o que importa é que ele ama a mamãe.

Lucas disse...

Tá. Eu continuo sem entender direito, mas é porque eu tenho dificuldade com esse tipo de linguagem. Essa tal "rigidez mecânica" ainda não desceu.

É "mecanicamente rígido" por ser uma representação, uma imitação, e não a vida em fluxo espontâneo e "não repetitivo"?

Se for isso, tenho duas perguntitas na seqüência...

asadebaratatorta disse...

hahahaha ^^'

vou mostrar isso pra minha mãe. hiueaheaiueauihhae ^^'

Cynthia disse...

É por aí, Lucas. A ênfase é no "mecânico"; a rigidez é secundária e deve ser entendida como o contrário de um fluxo contínuo, autodeterminado. O movimento dos seres mecânicos é artificial, determinado a partir de causas externas (heteronomia), daí a falta de controle dos movimentos. Claro que esta concepção de vida é meio complicada, pois cada ser vivo é tido "um sistema fechado de fenômenos, incapaz de interferir em outros sistemas". Numa linguagem de teoria dos sistemas, seriam completamente autopoiéticos, auto-gerados.

Abraço

Cynthia disse...

Mostre, Raphael. Mas aproveite os seus conhecimentos de etnometodologia para escolher bem o contexto, caso contrário, em vez do riso, pode ser que você receba um ar ofendido. E nada pior do que ar ofendido de mãe judia: a fonte de todo sentimento de culpa do universo...

(E este último comentário, talvez não seja uma boa idéia mostrar para ela.)

asadebaratatorta disse...

Não se preocupe, Cynthia. Minha mãe não é judia. heiauheaiuheaiu

Era pr a ser uma piada. ^^'''

hiueahaiuehiuaehiheihiueh

Convido você a passar lá no meu blog. Fiz umas reformas um tanto engraçadas(rs).

Bom fim de semana!

Cynthia disse...

Raphael,

Engraçado: seu comentário de que sua mãe não é judia me levou a pensar se isso determinaria o significado que ela atribuiria à piada, ou mesmo se "constituiria" a piada como piada. Certamente que isso deve alterar alguma coisa, mas acho que o contexto aí pode ser mais importante. Enfim, são só reflexões mal-ajambradas que, por enquanto, vou deixar nos bastidores.

Muito legal o seu blog. Deixei um comentário lá para você.

Abraço!