terça-feira, 22 de abril de 2008

Simmel e os sujeitos da modernidade




O pessoal da TCS (a revista Theory, Culture & Society) parece ter um interesse particular na obra de Simmel. Ao longo dos anos, ensaios sobre este importante cientista social, ou traduções de textos de sua obra, têm aparecido regularmente na prestigiosa revista. Em 2007, especificamente, a TCS publicou um número especial (Vol. 24, Nos. 7 e 8) com tradução para o inglês de ensaios menos conhecidos de Simmel, como ‘Individualismo’, ‘Estilo germânico e românico clássico’, ‘Kant e Goethe. Sobre a história da visão de mundo Moderna’ e o impressionante ‘Para uma metafísica da morte’, entre outros. Retornar a Simmel é uma necessidade na formação de jovens cientistas sociais e na reforma dos antigos.

Não fosse pelo interesse que Simmel despertou na Escola de Chicago, no começo do século XX, a recepção desta contribuição ímpar poderia ser ainda mais discreta do que tem sido. Naquele contexto, o ensaísmo, o impressionismo simmeliano parecia ser um antídoto para a hegemonia macroestrutural do funcionalismo parsoniano. A ênfase simmeliana na ação adequava-se plenamente com as convicções interacionistas da EC.

A iniciativa da TCS deve, portanto, ser louvada - e parece coerente com sua orientação mais pós-estruturalista. Tomo os textos ‘Individualismo’ e ‘Estilos germânico e românico clássico’, como exemplo. Há ali uma importante fonte de reflexão para aqueles que operam formulações demasiado esquemáticas da idéia de subjetividade na modernidade. Parece ser um efeito não pretendido da emergência de um discurso pós-moderno, no começo da década de 1980, o fato de a noção moderna de subjetividade ter sido reduzida a algo monolítico: autonomia, racionalidade, postura calculadora diante do mundo, disciplina, oposição cognitiva com respeito ao mundo natural etc. Afinal, não se aprendeu com Bauman que a modernidade é a exclusão da ambigüidade, o império da razão, a defecção da incerteza etc etc? Se quiser conferir, recomendo uma olhadinha no Modernidade e Ambivalência, mas Bauman é obstinado em sua tese central - qualquer outro livro, dos que eu li, produz o mesmo efeito.

Já na década de 70, no entanto, Marshall Berman alertava para a necessidade de distinguir entre uma modernidade sólida (racionalizadora) e outra diluidora, entre modernidade e modernismo. Se tomarmos essa lição com alguma atenção, é possível perceber que a modernidade tem sido não apenas o lugar de realização dos sonhos iluministas, mas da crítica romântica; não apenas o império do positivismo científico, mas da hermenêutica filosófica; não apenas a mesa da dissecação, da razão instrumental, mas o grito do desejo dadaísta ou surrealista; não apenas a busca de controle sobre o mecanismo das coisas, mas a busca do significado da existência.

De modo semelhante ao texto de Berman, Simmel ajuda a perceber na formação do projeto moderno duas noções bastante distintas de individualidade e subjetividade, tipificadas na oposição entre caráter latino e caráter germânico, entre a subsunção do primeiro a um estilo, a uma totalidade que o limita, e a resistência do segundo tipo a qualquer estilização predeterminada. Em um post antigo deste CAZZO,"O Romantismo e as Ciências Sociais", já havia aproveitado um excelente texto de Gerd Bornheim (In Guinsburg, O Romantismo) para discutir uma oposição semelhante. Ali tratava-se de pensar dentro da própria tradição romântica alemã dois romantismos: um nórdico, irracional, apegado a idéias como genialidade e ímpeto pessoal, cultura local, e outro kantiano, latino, mais sensível ao discurso iluminista, mais universalista. Acho que vale reler pois lança certa luz sobre o que afirmo a partir de Simmel: assim como o "projeto moderno" é mais complexo do que alguns querem, também acredito que não haja apenas uma idéia de subjetidade neste contexto histórico, mas várias em constante negociação. No "Individualismo", ou no "Kant e Goethe", por exemplo, Simmel delineia através de uma oposição duas dessas possibilidades.

“Subjacente a modos de vida românicos [...] há uma luta básica pelo geral, pelo tipo. Aqui o ‘geral’ não significa a coletividade ou um amalgamar prático em uma figuração totalizadora, ou a fusão de indivíduos em uma totalidade de algum modo maior; significa antes a generalidade do conceito, implicando uma forma ou lei que determinam um número indefinido de vidas levadas de modo individual, em cujo contexto cada indivíduo é mais ou menos um representante, quer por natureza ou por esforço da vontade. Toda liberdade individual, distinção e excelência são buscadas dentro desses limites, e não são de fato nada além de manifestações particularmente puras e fortes de atributos típicos nomeáveis”. (Simmel, Individualismo)


A tradução da tradução (acima) poderia ser melhor realizada, se eu tivesse algum tempo para melhorá-la. Não obstante, caro(a) leitor(a), o trecho citado ajuda a formular algo que para o pensamento iluminista (francês, latino, em grande medida) parece claro: entre o indivíduo livre e a totalidade há uma interseção virtuosa que pode ser elaborada na idéia de uma lei universal que é válida para todos os seres humanos ‘verdadeiramente livres’. Todo indivíduo livre (livre de suas necessidades animais, plenamente sintonizado com sua espiritualidade) é necessariamente ético, o que vale também dizer que ele é racional e afinado com a vontade universal. Kant, dessa perspectiva, era para Simmel um latino, como a leitura do “Kant e Goethe” nos ajuda a depreender.

Em oposição ao estilo românico, a arte de Rembrandt, Herder, dos românticos em geral, são portadores de outra idéia de subjetividade. “Esses últimos procuram individualidade apenas no self único, e são profundamente indiferentes se isso porventura implica um tipo de alguma espécie ou se, num sentido numérico, indivíduos podem existir mais de uma vez no mundo”. Parece claro, e Simmel mesmo o indica, que, romântico e não românico, esse último tipo de individualidade é, por definição, portador dos valores estéticos que poderíamos associar com mais facilidade a um certo ímpeto vanguardista que encontramos no modernismo, do que de valores universais facilmente associáveis ao projeto ético do iluminismo.

Tomemos o “Metrópole e vida mental” para complementar essas observações. Ora, a oposição que há ali entre “cultura subjetiva” e “cultura objetiva”, o temor de que, sob condições modernas, a mecanização das formas da cultura estaria impedindo a vida (individual) de se expressar plenamente, não apenas recoloca a tensão entre duas formas de individualização, mas ajuda a entender como Simmel se posiciona diante deste quadro.

“A atrofia da cultura individual e a hipertrofia da cultura objetiva está na raiz do ódio amargo que os pregadores do mais extremo individualismo, nas pegadas de Nietzsche, nutriram contra a metrópole. Mas ela também é a explicação porque eles são de fato amados com paixão e aparecem de fato para os seus residentes com salvadores de seus desejos insatisfeitos”(Simmel, Metrópole e vida mental).


Há evidentemente muitas outras formas de abordar a questão da subjetividade na modernidade: Novalis, por exemplo, apresentou em vários de seus escritos uma idéia interessante de subjetividade como produtividade poética; Freud, esse romântico, desloca a idéia de auto-conhecimento como forma de libertação para a esfera da desrazão - a verdade do ser humano não é seu mundo consciente, os sentidos racionais que ele elabora. Os dois tipos ideais definidos por Georg Simmel, que constituem como que duas grandes tenazes em sua vida intelectual, ou seja, sua admiração por Kant, de um lado, e por Goethe, de outro, são apenas duas maneiras clássicas de tratar esse tema.

Os ensaios traduzidos pela TCS devem ser lidos por esse motivo. Mas também por ser uma fonte importante de reflexão sobre a importância do vitalismo no pensamento alemão do final do século XX. A esse respeito falarei no próximo post.


(por revisar)
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Jonatas Ferreira

8 comentários:

Cynthia disse...

Opa, Jonfer! Grande texto. Fazia tempo que você anunciava algo sobre os sujeitos da modernidade e eu já estava curiosa. Vou seqüestrar sua revista. E me enviar para o periódicos Capes não vale, que eu já ando meio cega.

Beijo!

metodologia disse...

Cynthia,
Reformulei um pouco o texto. Obrigado pelo elogio. Quanto à revista, é só passar na minha sala que eu repasso os arquivos digitais - os anos me têm sido generosos: miopia em um olho, hipermetria no outro.
Jonatas

asadebaratatorta disse...

Olá, pessoal. Pisando de leve para não atrapalhar muito o interlúdio, ok? ^^'

Eu achei o texto difícil e denso. Provavelmente pelo meu mínimo conhecimento de Simmel. Não entendi o "dualismo latino-germânico."
Durante meu tempo de curso na UFPE, só tive duas aulas de Simmel, e uma foi um seminário. A outra aula sobre Simmel foi dada por Paulo Marcondes em sociologia da arte. Parece um autor muito interessante e, pelo que prof. Remo me falou, valeria a pena estuda-lo com mais profundidade na academia.

Gostaria de saber se será oferecido novamente o curso de sociologia da (pós?)moderindade.

Bom final de semana. ;D

metodologia disse...

Olá!
Procurarei tornar mais clara a oposição entre tipos latinos e germânicos. Releia o texto nos próximos dias, car@ Asadeb... Obrigado pela crítica. Quanto ao curso de sociologia da pós, não sei ao certo o que nos aguarda no próximo semestre. Jonatas

Cynthia disse...

Inter quem? Meu caro asa de barata, como responder a essa provocação, exceto por meio da lembrança de que tenho como refém uma certa prova de teoria?

asadebaratatorta disse...

Ah, minha prova não! =X hiuehiuehaiuhaeieahiuehiuh

^^'

Pelo menos eu não defini o interlúdio, né? Dá um desconto por eu ter esquecido de acrescentar que a noção de self em Goffman assume um caráter fragmentário, como foi discutido em aula =P ^^'''''
Ops... Será que você ia lembrar disso na hor a da correção? ^^'
hiuehiueahiuehe

=D

Bom feriado. ^^

Cynthia disse...

Raphael,

Sabe a noção de memória de Bergson que Jonatas descreveu num post desses? Pois é: a minha veio com defeito. Não tenho memória para essas coisas, apenas vagas lembranças. Na maioria das vezes, irrecuperáveis como as reações químicas. Passa um instante e elas se esvaem...

asadebaratatorta disse...

Hun... desconfio... =P hiheaiuhiauha
^^