segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Novas tecnologias reprodutivas e a desnaturalização dos espaços de gênero - p 2



(continuação)

Elaboremos um pouco mais nosso argumento. Pouparei vocês de uma literatura que deve ser de conhecimento geral e que tratou de uma forma pioneira do tema desta comunicação, ou seja, da importância das novas tecnologias na problematização dos espaços de gênero. Refiro-me ao Manifesto Ciborgue de Donnah Haraway, de sua reivindicação que a velha estória do papai e mamãe que cerca os processos reprodutivos tende a ser desmantelada pela mediação, pela opacidade da tecnologia, pelo fato de a fantasia de um corpo natural já não poder ser sustentada. Não irei adiante porque, como vocês, não agüento mais ouvir falar deste texto após uma década orientando monografias, dissertações versando de algum modo sobre cultura tecnológica. Parece-me que o Manifesto Ciborgue foi uma parada obrigatória destes meus alunos e alunas; seu otimismo, ou ironia, contagiou muitos trabalhos acadêmicos.

Mencionarei, ao invés disso, um caso que se tornou famoso no começo da década de 1990 e que pode ser ilustrativo do argumento que estamos constituindo. Em 1992, uma clínica de fertilização italiana anunciava a gravidez pós-menopausa de uma senhora de 65 anos de idade. Uma polêmica muito grande surgiu não apenas na Europa. Os ecos de uma discussão acalorada, é claro, foram ouvidos também no Brasil. “É anti-natural”, diziam alguns; “a ciência descobriu como gerar órfãos”, diziam outros; “como poderá uma mulher de 70 anos lidar com a energia de uma criança de 5”? As questões a serem respondidas são inúmeras e efetivamente espinhosas. Esse caso limite, no entanto, mostra que a reprodução humana não é meramente um fato natural, mas pressupõe competências técnicas que se tornam mais ou menos visíveis.

Mediante a liminalidade desse caso percebemos que os lugares tradicionalmente atribuídos ao feminino, mas também ao masculino, são objetos de uma intensa negociação. Sarah Franklin expõe isso de uma forma bastante interessante. A fertilização in vitro mostra que a natureza precisa de assistência: “a natureza se tornou uma autoridade mediada” (Fanklin, In Edwards et al, 1998). Já não se pode dizer muito confortavelmente o que é e o que não é natural, qual o lugar do feminino, qual o lugar do masculino. Se a competência de parteiras, ou das matronas que até o século XVIII decidiam se um homem era ou não impotente, poderia ficar na sombra, poderiam tornar-se transparente para a o pensamento falogocêntrico, a tecnociência não deve ficar.

E se alguém tem dúvidas acerca da importância que essa técnica de reprodução, isto é, a FIV tem em nossa realidade pernambucana, recifense, é bom lembrar que produzimos no último ano 900 gestações in vitro. O Recife é um dos cinco maiores pólos de FIV do país. Em artigo do Diário de Pernambuco (16/11/2008) a médica Madalena Caldas afirma que 60% das pacientes atendidas em sua clínica são mulheres com idade acima dos 38 anos.

“São mulheres que muitas vezes adiaram a gravidez e quando resolveram ter um filho sentiram dificuldades”.
Recorrerei a outros exemplos para enfatizar minha hipótese. Num livro de 1998, Charis Cussins (In Davis-Floyd e Dumit) se debruçava sobre alguns casos de fertilização in vitro que merecem nossa apreciação. Entre esses casos citarei dois, o de uma senhora que decide engravidar para satisfazer ao desejo de seu parceiro consideravelmente mais jovem. Não podendo mais produzir óvulos, ela os obtém de sua filha. Mediante FIV desses óvulos, ela pode finalmente gestar o filho biológico de sua filha e de seu companheiro. Um segundo caso é de uma mulher que se dispõe a gestar o óvulo fecundado de sua cunhada, isto é, gestar o seu próprio sobrinho. Barreiras culturais bastante sólidas (e que são facilmente associadas ao incesto) são aparentemente abaladas nesses dois casos. Mais uma vez, o que é natural e o que não é tem de ser objeto de negociação diante da opacidade de um ator: o aparato médico contemporâneo.

Esse jogo de opacidade e transparência é de fato bastante importante. A negociação do que poderia parecer incestuoso, por exemplo, passa por tornar transparentes alguns dados, para que o paciente possa viver a experiência de “ser mãe de sua própria neta” ou “mãe de sua sobrinha” - ou “pais de sua cunhada”, “tio de sua filha”. No artigo de Cussins, essas evidências embaraçosas são desvalorizadas pel@s pacientes e o aparato técnico ganha destaque.

Quem é a mãe ‘verdadeira’: a mãe biológica ou a mãe que acolhe o feto em seu útero? O pai genético, um eventual doador de sêmen, por exemplo, ou o pai que 'adota'. As respostas, mais uma vez, não são simples. No começo da década, cientistas israelenses conseguiram amadurecer células ovarianas do feto de uma ratazana e posteriormente fecundá-las. Caso curioso, portanto, de uma ninhada de ratos cuja mãe biológica nunca chegou a viver como indivíduo. Na época os cientistas comemoraram o feito por acreditarem que ele abrisse novas possibilidades para casais inférteis.

Ainda explorando esse jogo de opacidade e transparência, percebemos como os médicos são chamados a ocupar um papel de destaque que muitas vezes eles preferiam não ocupar, ou não estariam preparados para ocupar. Em algumas clínicas de fertilização in vitro, os médicos e as médicas são chmado(a)s para responder a questões do tipo: devo ter filhos com essa idade avançada? O espaço em que essa pergunta e uma eventual resposta são produzidos é um espaço biopolítico, que diz respeito a desnaturalização das questões de gênero, mas também a possibilidade de sua re-essencialização mediante algum aparato tecnocientífico. A tecnociência é portanto uma questão política central para pensarmos as novas e as antigas formas de reprodução da vida.

(continua)

5 comentários:

Anônimo disse...

Jonatas sou Emanuela,do núcleo de comunicação do SOS Corpo, gostaria de saber se podemos colocar seu texto no site do sos corpo, citando as fontes.
Espero sua resposta,
Emanuela

Le Cazzo disse...

Oi, Emanuela.

Claro que pode. Duas coisas: 1. o texto ainda não está revisado e eu gostaria de revisar antes; 2. o texto será a base de um artigo mais extenso que Ana Paula me encomendou. Não havendo problema para vocês, não há pra mim. Mas deixa eu terminar de publicar tudo e revisar, que vocês podem usar à vontade. Abraço, Jonatas

Ester disse...

oba! até q enfim vc tá sistematizando essa questão! quero ver o resto!
bjus
Ester

Le Cazzo disse...

Essa semana posto o resto. E quando tiver o artigo mesmo, mando uma cópia para você. Beijo, Jonatas

Anônimo disse...

Certo Jonatas, esperamos então a sua revisão. Assim que estiver ok, será que pode enviar para meu e-mail : emanuelacastro@hotmail.com.br Obrigada!
Emanuela