segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Novas tecnologias reprodutivas e a desnaturalização dos espaços de gênero - final



Considerávamos que por si só um óvulo fecundado não se desenvolve. Falamos da necessidade de um útero que o suporte e o nutra durante meses de gravidez. Mas, evidentemente, essa é só uma parte da estória, como fica claro nos processos de reprodução assistida, de fertilização in vitro. Nesses casos, há de existir um aparato médico e hospitalar adequado, em condições, de implantar este óvulo, na verdade estes óvulos, e preparar o útero que os suporte. E isso significa um processo desgastante de submissão do corpo feminino a um longo e dispendioso tratamento que compreende, entre outras etapas, indução de ovulação mediante drogas injetáveis, acompanhamento através de ultra-sonografia, aplicação de hormônio, punção folicular etc. Como não há certeza de que todo esse tratamento resulte em embriões viáveis, o processo pode se repetir algumas vezes. A esse respeito, Débora Diniz observa algo importante:

“São raras as situações em que tanto a mulher quanto seu companheiroapresentam restrições clínicas de fertilidade. Regra geral, os limites físicos estão no corpo de apenas um dos parceiros, muito embora grande parte dos tratamentos e induções hormonais ocorra no corpo da mulher” (Diniz, In Ferreira et al., 2007, p. 51).
Esse tipo específico de mediação tecnológica traz consigo, naturalmente, uma série de variáveis que precisam ser de algum modo equacionadas. ‘Quantos embriões devem ser implantados para tornar o procedimento mais garantido, mais seguro e mais rentável?’, pergunta-se o aparato médico-hospitalar. E nós perguntamos muito simplesmente: por que os interesses desse ator teriam automaticamente que se compatibilizar com as expectativas femininas com relação às suas gestações? Obviamente, não têm e dificilmente se harmonizariam com elas.

Ao se perguntar “O que torna uma mulher elegível para as novas tecnologias conceptivas?”, Débora Diniz chama ainda nossa atenção para um dado importante dos processos de fertilização in vitro. Os “critérios de eligibilidade” de uma mulher para semelhante tratamento têm sido marcados pela pressuposição da heterossexualidade, ou seja, que o impedimento técnico para a fertilização seja de ordem biológica. Uma mulher lésbica, cuja infecundidade é voluntária, que deseje se candidatar a esse tipo de atendimento médico deve ser considerada como elegível? A resposta que as clínicas de FIV têm dado a essa questão têm sido conservadoras, o que nos leva mais uma vez ao nosso argumento. Se é verdade que as novas tecnologias de reprodução abrem espaço para a desnaturalização, desessencialização, dos espaços de gênero, tanto mais verdade é que a ocupação desses espaço é uma questão política. Nada, de antemão, garante que as velhas polaridades que fundam o modelo falogocêntrico e heterossexual de poder sejam simplesmente abolidas quando sua historicidade se torna patente. O contrário tem sido percebido com freqüência.

Hoje, quando temos diante de nós a molecularização da saúde e da vida, multiplicam-se nossas ansiedades. Esse ‘mal-estar’ se potencializa na exata medida que acreditamos exercer um controle cada vez mais completo e complexo, nanométrico, sobre o mundo biológico, físico. Por isso mesmo, as biotecnologias e os novos campos de biopoder que elas abrem tornam-se parte fundamental da discussão da contemporaneidade. Se isso é verdade, não há como desvincular as discussões acerca das novas formas de reprodução, do diagnóstico genético pré-implantação, ou da pesquisa com células-tronco embrionárias, de lutas políticas mais amplas que dizem, certamente, respeito à emancipação das mulheres. Porém, de um modo mais amplo, essas questões dizem respeito à elaboração do sentido da vida nas sociedades contemporâneas. Nesse sentido, acredito que elas não podem ser evitadas por quem quer que se posicione criticamente diante das formas de poder que buscam determinar a vida que devemos viver.

Pronto! Acabou.

Referências

DAVIES-FLOYD, R.; J. DUMIT. 1998. Ciborg Babies. London, Routledge.

EDWARDS, J.; S. FRANKLIN; E. HIRSCH; F. PRICE; M. STRATHERN. 1999. Technologies of Procreation. Kinship in the age of assisted conception. Londres, Routledge.

FERNANDES, A.C.; LIMA, J.P. 2006. “Cluster de serviços: contribuições conceituais a partir de evidências do pólo médico do Recife”. In Nova Economia, 16 (1): 11-47.

FERREIRA, V.; M.B. ÁVILA; A.P. PORTELLA. 2007. Feminismo e Novas Tecnologias Reprodutivas. Recife, SOS Corpo.

FRANKLIN, S.; H. RAGONÉ. 1998. Reproducing Reproduction. Kinship, Power and Technological Innovation. Philadelphia, University of Pennsylvania Press.

HABERMAS, J. 2004. O Futuro da Natureza Humana. São Paulo, Martins Fontes.

ROHDEN, F. 2001. Uma Ciência da Diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. Rio de Janeiro, Editora Fiocruz.

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(por editar)

4 comentários:

Lena disse...

Nem é reprodução nem é gênero, mas tá tudo ligado (especialmente pra Butler,né?):

Homofobia na Casa do Estudante. De novo:
http://jc.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2008/11/25/denuncia_de_homofobia_na_casa_do_estudante_da_ufpe_36830.php

Le Cazzo disse...

Estava disposto a colocar uma chamada sobre a matéria que saiu no JC essa semana. Bom que você tomou a iniciativa, Lena. Acredito que são denúncias graves e que a UFPE tem de se posicionar a respeito.Jonatas

Lena disse...

Ih, põe no blog mesmo, Jonatas Quase ninguém lê comentários perdidos,né?

Enfim, o problema é que essa não é a primeira vez que ocorrem fatos do tipo e, a bem da verdade, o tratamento dado pela mal treinado corpo de seguranças e também por docentes da UFPE aos raros casais que se dipõem a namorar no campus piora muito a situação.

Enquanto não houver um posicionamento institucional a respeito (que inclua, no mínimo, oficinas sobre diversidade para os funcionários), fica muito complicado recorrer à universidade.

VITÓRIA disse...

tem palavras erradas
mais me ajudo mto
(: