quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O xixi masculino e o processo civilizador


Vênus e Cupido, Lorenzo Lotto (cerca de 1520)

Por Luciano Oliveira

Para que serve ler? Segundo um personagem do filme Terra das Sombras, “lemos para saber que não estamos sós”. Lemos igualmente, acrescento, para saber que as coisas também não estão sós; que elas têm nexos, causas, história. Ler, nesse caso, é tomar conhecimento dos processos que determinam por que as coisas são como são, de que elas já foram diferentes e que, da mesma forma, podem ser alteradas. Ler, em resumo, é aprender a reler o mundo!

Foi depois que li o livro clássico de Norbert Elias, O Processo Civilizador, que tomei consciência de que usos e costumes que nos parecem tão naturais ─ como comer com garfo e faca, por exemplo ─ têm uma história. Ao lê-lo, relembrei uma imagem que guardo da infância: minha avó comendo com a mão! Revejo-a à mesa, mergulhando a mão no prato de feijão, arroz e farinha, e amassando a mistura até ela tomar a forma de um quibe, que depois molhava no caldo de carne guisada e levava à boca, arrancando um naco com as gengivas duras de tanto uso, pois já não tinha dentes. A leitura de Norbert Elias como que reabilitou aos meus olhos a prática “primitiva” da minha avó, pois descobri que seus modos à mesa já fizeram parte dos costumes das mais nobres Casas de velha Europa!

Mas não apenas comer com a mão. Assoar o nariz com os dedos e voltar a servir-se da carne, arrotar sem nenhum constrangimento e até mesmo soltar sonoras e fedorentas flatulências à mesa, tudo isso já compôs modos normais de comportamento. Até que... A história é muito longa e quem estiver interessado em saber como e por que adquirimos modos civilizados à mesa e em outras circunstâncias, algumas constrangedoras ─ na hora de evacuar, por exemplo ─, sugiro ler o livro de Elias.

Todo esse intróito tratando de coisas menores e até sujas, com alguma tinta de erudição, tem a finalidade de não chocar o leitor com uma questão séria (juro que não estou ironizando): por que os homens, em vez de urinarem em pé, não fazem xixi sentados, como as mulheres? A uma primeira reflexão, a resposta parece evidente: dispondo de uma “mangueirinha”, os homens podem se aliviar com facilidade na posição bípede ─ o que, aliás, é muito prático em eventos como o Pré-Caju ou o Carnaval de Olinda... Já as mulheres, coitadas, não dispondo desse apêndice bastante funcional, para elas a posição abaixada é a mais cômoda! Até aqui, estamos na lógica da natureza. Mas o homem é bem mais do que um animal natural. Exemplo: é mais natural comermos com as mãos. Mas comemos com garfo! Ora, da mesma forma que inventamos a mesa, inventamos o vaso sanitário. Por que então não poderíamos, nós homens, sentar no vazo em vez de nos aliviarmos em pé e, por mais certeiros que sejamos, respingar pelas bordas e chão gotículas de urina que, depois de secas, vão provocar aquele odor desagradável de uréia?

Aqui entram considerações de ordem cultural. Urinar em pé, a princípio um gesto facilitado pela simples anatomia masculina, adquire um valor de afirmação viril e passa a integrar a ideologia do macho. Sem quê nem pra quê, é verdade, mas muitas vezes é assim que as coisas são. No caso, abaixar-se para urinar, assemelhando-se a um gesto feminino, passa a ser considerado coisa de “bicha”. Existe mesmo uma expressão grosseira para se referir a um lugar que se quer injuriar: “terra em que homem mija de cócoras”! Quem não a conhece?

Santa estupidez! Urinar sentado no vaso da nossa casa não tem outro significado senão ser um hábito de higiene e de respeito pelas pessoas que vivem no mesmo lar. Informo, aliás, que este é um hábito que tenho desde muito tempo, cujo início não consigo precisar direito mas que, certamente, desenvolvi convivendo com duas mulheres: minha esposa e a filhinha que tivemos. Isso me lembra um prognóstico feito há muito tempo pelo poeta francês Louis Aragon, o de que “a mulher é o futuro do homem”. Éramos eu e duas mulheres, e elas me civilizaram. O que me leva a concluir com o autor que citei no início, Norbert Elias, que termina sua obra monumental afirmando que “a civilização ainda não está terminada”. Pois bem: modestamente, esta é a minha singela contribuição para essa obra ainda em aberto. Senhores, sentai!

12 comentários:

Anônimo disse...

Esse é o espírito de Natal: pensar no próximo usuário da Casa de Banhos. Há, evidentemente, questões ergonômicas que não foram devidamente consideradas, mas quem sou eu para contar vantagem num espaço tão acadêmico. Zé da Goma.

Lena disse...

E a festa de final de ano do Cazzo? Esqueceram de marcar? Soube até que Joelma gostaria de animar o ambiente mais uma vez!

Le Cazzo disse...

Olha, menino, é mesmo. Qualquer coisa, estou a postos. Jonatas

Cynthia disse...

Ah, o velho truque índio das "questões ergonômicas". Pois eu apóio a campanha de Luciano! Senhores, sentai! E abaixai a tampa do vaso!

Festa de final de ano? Só se tiver ambulância a postos com paramédicos qualificados para eventuais serviços de ressucitação.

Fabiana Ferreira disse...

Concordo plenamente com Luciano. Além de ser uma questão de higiene é também de educação.

Lena disse...

Precisa disso tudo não, basta forrar o bucho e levar uns chocolates pra repôr a glicose

Anônimo disse...

Interessante, mas não concordo no tocante a higiene.
Como pode ser mais higiênico sentar e encostar seu corpo, partes próximas aos órgãos tão protegidos por nós, à simplesmente fazer xixi em pé, mesmo que respingue?
Isso vai ficar por conta da opção de cada um! Porém num dia qualquer quando era menino, eu fazia meu xixi em pé e assim minha irmã ficou curiosa da posição. Ela tentou fazer como faço, felizmente conseguiu e me deixou mais curioso que ela!
Baseado nesse fato proponho: mulheres, levantai-vos!
E vale salientar que não tem graça alguma dar "aquela mijada" que nos deixa orgulhosos e satisfeitos se estamos sentados e controlando a velocidade do xixi para não molhar tudo, nós e a louça!
Bem, esta a minha posição! De pé!?

Anônimo disse...

Luciano Oliveira mija de cócoras!!!
tou ligado....

verí disse...

kkkk...

mas esse luciano eh uma figura... admirei sinceramente a dignidade ao assumir uma coisa tão culturalmente rechaçada...
um abração

verí disse...

ah, e outra coisa desta ordem escatológica q me espantou; nos estados unidos (acabo de chegar de lá) ninguem usa chuveirinho de limpeza pós defecação!!!! nem bidê!nem nos hotéis nem nas casas das pessoas!!!! ninguém se utiliza de água para limpeza do precioso! esquisitíssimo!!!!
norbert elias explica...

Trick disse...

Tô com o anônimo da primeira postagem, é muito incômodo dar aquela balançadinha final sentado no vaso. A menos que você seja masoquista, não acho agradável ficar "batendo cabeça" (desculpem a expressão) nas laterais do vaso. E antes que falem na alternativa de usar papel higiênico para secar as últimas gotas, também não é alternativa, uma vez que se fica com o papel grudado no corpo e, numa região sensível assim, é muito chato de tirar. Ser civilizado neste sentido é simplesmente limpar a borda do vaso e as proximidades no chão com papel higiênico como minha esposa insiste que eu faça todos os dias, e que salvo esquecimento, procuro seguir em respeito ao seu direito de uso de um ambiente limpo. Mais que isto, é afetamento puro, não civilidade.

Anônimo disse...

Sobre o fazer xixi dos homens ainda não pesquisei por que mesmo em paises antigos, civilizados e de modernos banheiros públicos os homens fazem xixi em pé ao mesmo tempo, todos lado a lado mesmo sendo completos desconhecidos.
Qual o motivo para tanta exposição, falsa igualidade, ou até mesmo uma certa intimidade pervertida?