quinta-feira, 23 de abril de 2009

Gadamer e o Jogo 2 (preliminares para um artigo sobre Jogos Eletrônicos)



Pensei em tornar esses dois posts sobre Gadamer algo mais palatável, mas não consigo. É tamanha a quantidade de referências na discussão que ele propõe, que eu teria de produzir um artigo acadêmico se quisesse fazer de maneira razoavelmente competente o que me propunha. Não me dou por vencido, todavia. Mesmo que não saia muito amigável, concluirei o texto. E a segunda e última parte da coisa poderia principiar assim:

Começaria essa segunda parte do texto sobre Gadamer e o jogo com uma citação razoavelmente longa. E aí vai:
“Da mesma maneira, quem consegue ver o conjunto da realidade como um círculo de sentido fechado, no qual tudo se plenifica, falará propriamente da comédia e da tragédia da vida. Nesses casos em que a realidade é entendida como jogo, sobressai o que é a realidade do jogo, que caracterizamos como jogo da arte. O ser de todo jogo é sempre resgate, pura realização, energeia, que traz seu telos em si mesmo”. (190)

O prazer psicológico do jogo, e Gadamer está longe de se interessar por esse aspecto, radicaria precisamente em fugir da possibilidade de pensar o real, como algo desprovido de sentido, algo inacessível ao conhecimento, ou, mais precisamente, algo angustiante em sua abertura infinita. Compreender o mundo que nos cerca é um impulso existencial e primordial mediante o qual procuramos escapar da absoluta contingência das coisas. Ao oferecer um “círculo de sentido fechado”, o jogo nos retira do risco absoluto e nos abre a possibilidade de conhecimento. O jogo e o culto, não é fortuito, aparecem na argumentação de Gadamer como fenômenos próximos. Ambos respondem a essa inquietação fundamental.

Assim, como Gadamer, poderíamos dizer com relação ao sentido da obra de arte, ao jogo que é sua essência, ou seja, com relação à busca pelo círculo de sentido do real, que o que nos impele é poder dizer: “é assim mesmo” (190). O prazer do jogo é de certo modo a possibilidade ontológica do conhecimento. Diria, afastando-me ainda um pouco mais de Gadamer, que o jogo é prazeroso porque nele a contingência pode sempre ser remetida a algo essencial e reconhecível: “é assim mesmo”.

Não há em tal remissão algum tipo de subsunção do que é contingente ao que é essencial, mas a identificação do prazer de encontrar no “vai-e-vem” (essa expressão gadameriana sempre me dá idéias) que o jogo proporciona: brincando entre esses extremos com a possibilidade do sentido. Esse sentido, é preciso ser dito, não é algo que se coloque fora desse “movimento de vai-e-vem”. Ele não transcende de forma alguma o próprio jogar, mas lhe é imanente. “O ser de todo jogo é sempre resgate, pura realização, energeia, que traz seu telos em si mesmo”.

A relação entre jogar e conhecer, para Gadamer, leva necessariamente à idéia de representação. Mas representar aqui não significa re-apresentar o real mediante um conceito, mas o ato pelo qual o jogador, a criança, o ator submergem no seu “papel”. Representar significa imitar, mas o próprio ato de imitar, reproduzir, deve ser aqui precisado, delimitado. Platão acreditava que toda imitação significaria um afastamento da essência das coisa, de seu conceito ideal. Para Gadamer, por outro lado, “O sentido do conhecimento da mimesis é reconhecimento”. Mediante a imitação, a representação, o jogador, o ator, a criança já realizam o ato fundamental de atribuir um circuito de sentido ao real. Não há imitação que já não seja um processo de interpretação: ao distinguir o que é importante do que é acessório, por exemplo. No ato de representar, nesse ato fundamental ao jogo, o humano se reconhece. “A imitação e a representação não são apenas uma repetição figurativa, mas conhecimento da natureza” (193)

E é claro que a reapropriação dos conceitos de representação, mimesis tem um sentido claro: oferecer uma idéia de conhecimento e de verdade que se diferencie do caminho oferecido pela razão científica, instrumental. Trata-se de resgatar como contribuição fundamental da hermenêutica uma dimensão artística, lúdica, do conhecer e do postar-se na verdade do mundo. Diria que o que importa aqui é encontrar um caminho para a interpretação do mundo que não seja transcendente, que não busque uma verdade acima da contingência; e que, por outro lado, não venha a sucumbir de relativismo. O jogo, para Gadamer, já o dissemos, é a possibilidade de brincar entre a continência, a transitoriedade do mundo, e a busca de sua essência. Um exemplo: O Rei Édipo de Sófocles é clássico, grego, inteiramente submerso em seu tempo, ou seja, em sua temporalidade. Isso não nos impede de encontrarmos ali algo fundamental, capaz de continuar a comover através dos séculos.

Começamos esse texto sobre Gadamer dizendo que para ele a essência da arte seria o jogo. Gostaria agora de explorar neste último parágrafo o inverso dessa proposição, ou seja, gostaria de perguntar em que medida poderíamos encontrar no jogo essa possibilidade de conhecimento e de verdade que encontramos na arte. Dito de outra forma: em que medida o jogo diz respeito a uma forma alternativa de conhecer o mundo, ou seja, uma forma distinta da razão instrumental, de sua busca de controle e transcendência.

Diria que acredito não ser fortuito o fato de o jogo desempenhar um papel tão importante nas sociedades contemporâneas, precisamente agora em que uma sensibilidade mais “estética”, diante de um mundo mais fluído e mais descrente das promessas da razão técnica e científica, parece envolver nossa vida. Precisamente agora que o mundo parece se mostrar inacessível e sem sentido.No jogo, a contingência não nos esmaga, mas existe sempre a promessa de que podemos encontrar o sentido das coisas. É claro que esse raciocínio é de certo modo uma traição a intenção inicial de Gadamer. A arte era ali uma alternativa ao pensar instrumental e técnico. Segundo a hipótese que agora ofereço, arte e jogo podem ser capturadas pela dinâmica técnica. Assim é que podemos falar da bilionária indústria de jogos eletrônicos. Mas certamente poderemos voltar aos jogos ali produzidos e tentar entender seu sentido cultural particular – que não se submete completamente à lógica econômica daquela indústria. Mas isso já é a continuação dessa estória. Sobre isso ainda voltaremos a falar.

(por editar)

Jonatas Ferreira

2 comentários:

Micheline Batista disse...

Gadamer realmente sabe das coisas. A vivência do jogo nos permite ver o mundo sob uma ótica diferente, não-cartesiana, antirracionalista.O texto caminha bem.

Le Cazzo disse...

Gracias, Senhora. Depois vem o teu. E o Jorge também já se comprometeu com algo na área. Abraço, Jonatas