terça-feira, 12 de maio de 2009

NORBERT ELIAS, OS JOGOS E SUAS REGRAS



Jorge Ventura de Morais (PPGS/UFPE)

Na seqüência dos artigos aqui postados sobre jogos, exponho a seguir a contribuição de Norbert Elias para o entendimento do jogo, principalmente o futebol, e suas regras. Neste sentido, diferentemente de Pierre Bourdieu, que utilizava a idéia de jogo como metáfora para o entendimento dos fenômenos sociais, Elias – apesar de ter se utilizado deste mesmo recurso em O Que é Sociologia? – teorizou, ao lado de Eric Dunning, sobre a dinâmica do mais popular dos esportes com ênfase em suas regras.

Norbert Elias é mais conhecido nos círculos acadêmicos por sua obra devotada ao entendimento do que ele chamou de processo civilizador (Elias, 1993 e 1994a). Este processo se refere ao fenômeno, tal como entendido por Elias, do crescente auto-controle das emoções na vida societária ocidental.

A partir de sua colaboração com Eric Dunning (Elias e Dunning, 1966 e 1995), Elias tem causado considerável impacto em estudos sobre esportes nas sociedades contemporâneas. Fazendo eco à principal contribuição de Elias à teoria sociológica, a maioria dos estudos nesta área tem focado sua atenção nos aspectos do esporte como um processo civilizador (Dunning & Sheard, 2005; Maguire, 1986; Malcolm, Sheard & White, 2000; Sheard, 1997; Varner & Knottnerus, 2002, entre outros).

No entanto, há um outro aspecto da contribuição de Elias aos estudos sobre esportes e jogos, qual seja, a discussão das regras do jogo como componente importante na construção da identidade de qualquer esporte (Elias e Dunning, 1966 e 1995), que tem merecido escassa atenção dos estudiosos de sua obra e mesmo de especialistas em sociologia do esporte que adotam a abordagem figuracional.

É, pois, meu objetivo neste artigo apresentar e discutir, mesmo que brevemente, a contribuição de Elias (e Dunning) para o entendimento sociológico das regras de jogos, com especial referência ao futebol.

Norbert Elias, as Figurações e o Futebol

Norbert Elias propõe que, quando vemos um jogo, estamos observando “pequenos grupos de seres humanos que mudam suas relações em constante interdependência uns com os outros” (Elias & Dunning, 1995, p.233).

Esta constante interdependência de uma equipe em relação à outra – o fato de que a localização dinâmica de cada jogador durante uma partida é uma espécie de reação à movimentação não somente de um ou outro jogador adversário, mas de toda a equipe adversária – é o que caracteriza, para Elias, a figuração de cada jogo. Em outras palavras, não é a disposição de somente uma equipe em campo, mas o arranjo, mais ou menos estável, gerado pelas sucessivas e mútuas ações e reações de ambos os lados, que define o que ele chama de figuração (Cf. Elias in Elias & Dunning, 1995).

A dinâmica do agrupamento e reagrupamento dos jogadores durante o jogo é fixa em alguns aspectos e elástica e variável em outros. A dimensão fixa e comum permite que o jogo seja jogado como tal e não como uma disputa generalizada, sem objetivos e desregulada. E é variável porque cada jogo é diferente do outro, o que é da natureza da própria definição do jogo. Elias afirma ainda que, em um jogo, deve estabelecer-se um equilíbrio situado em um intervalo de graus ótimos de rigidez e de elasticidade das regras e que deste equilíbrio resultaria a dinâmica do jogo. Regras muito rígidas ou muito flexíveis afetarão diretamente os padrões do jogo. Adicione-se a isso o fato de que Elias entende que, sem regras, não somente o futebol, mas todos os jogos esportivos não teriam se constituído ou mesmo mantido sua identidade (Cf. Elias & Dunning, 1995, p.232).
Neste sentido, Elias apresenta um exemplo relativo à regra definidora do início de uma partida de futebol. Apesar de apresentar algum nível de rigidez, ao estabelecer determinações precisas sobre como a partida deve começar, tal regra é suficientemente elástica para permitir uma grande variação de jogadas, táticas e estratégias do time que “bate o centro” e também, em contrapartida, uma gama ampla de possibilidades de reação da equipe adversária.
Eis o que diz a regra 8 das Regras do Jogo do futebol:

Procedimentos: 1) Todos os jogadores encontram-se em seu
próprio campo; 2) Os adversários da equipe que executa o tiro de saída
encontram-se no mínimo a 9,15m da bola, até que essa esteja em jogo; 3) a bola
está imóvel no ponto central; 4) o árbitro dá o sinal; 5) a bola está em jogo
quando é chutada e se move para frente; 6) o executor do tiro não toca na bola
pela segunda vez até que essa toque em outro jogador; 7) sepois que uma equipe
marcou um gol, o tiro de saída é executado pela outra equipe” (http://cbfnews.uol.com.br/).

Assim, tanto os jogadores da equipe que inicia a partida, quanto os da equipe adversária, sofrem certas restrições. Por exemplo, os que iniciam a partida não podem fazer a bola rolar, em primeiro lugar, para trás; devem fazê-la rolar para frente, antes de, se o quiserem, fazer um passe para um companheiro localizado mais atrás, segundo a disposição tática de seu treinador.
Por outro lado, os jogadores da equipe adversária devem guardar uma distância mínima da bola e não podem adentrar o campo adversário até que a bola tenha rolado.

Em ambas as situações, apesar das restrições impostas, o repertório de alternativas (jogadas) à disposição das duas equipes é grande. Por exemplo, dois atacantes da equipe que dá início à partida podem combinar que um deles “bata o centro” e que o outro imediatamente chute a gol na tentativa de surpreender o goleiro adversário.

O goleiro adversário, por sua vez, deve se manter atento para esta possibilidade. A disposição de ambos – atacante e goleiro, em tensão mútua – em querer surpreender e tentar evitar ser surpreendido, ao lado das ações de todos os outros jogadores em campo –, é o que caracteriza a dinâmica e a identidade do futebol, e é o que Elias chama de figuração.

Decorrente desse ponto, outro elemento proposto por Elias é a concepção de que o futebol, como outros esportes, constitui um tipo de dinâmica de grupo (o conjunto dos dois times) produzida por tensões controladas entre pelo menos dois subgrupos (os dois times separadamente). E que a dinâmica do grupo pressupõe tensão e cooperação em diferentes níveis e ao mesmo tempo. Portanto, podemos supor que a regulação do futebol é também a regulação das tensões entre estes subgrupos.

Consideremos a regra do impedimento para ilustrar esta discussão:

REGRA 11 – IMPEDIMENTO
Posição de impedimento

O ato de estar em uma
posição de impedimento não constitui uma infração em si. Um jogador está em
posição de impedimento se:
· encontra-se mais próximo da
linha de meta adversária do que a bola e o penúltimo adversário
Um jogador
não está em posição de impedimento se: 1) encontra-se em sua própria metade de
campo de jogo; ou 2) está na mesma linha do penúltimo adversário; 3) ou está na
mesma linha dos dois últimos adversários.
Infração
Um jogador em posição
de impedimento somente é punido se, no momento em que a bola toca ou é jogada
por um de seus companheiros, está, na opinião do árbitro, envolvido em jogo
ativo: 1) interferindo no jogo; ou 2) interferindo um adversário; 3) ou ganhando
vantagem por estar naquela posição.
Não há infração
Não há infração por
impedimento se um jogador recebe a bola diretamente de: 1) um tiro de meta; ou
2) um arremesso lateral; ou 3) um tiro de canto (http://cbfnews.uol.com.br/).
A formulação teórica de Elias pode ser bem ilustrada a partir desta regra. Por um lado, cooperação dos jogadores de defesa, para impedir o gol, através de uma atitude coletiva de deixar os atacantes adversários em impedimento. Por outro lado, mais cooperação, dos jogadores que atacam, buscando “sair” do impedimento para conseguir marcar gols. As cooperações mútuas “dentro” de cada lado e a interdependência das alternativas provocadas (ou tornadas disponíveis) por cada oponente em relação ao outro estabelecem uma tensão, que é originária e permanente e conforma a dinâmica do próprio jogo. Esta combinação de tensão e cooperação auxilia a produzir as figurações, conceito central na obra de Elias.

Vale ressaltar que a regra do impedimento, embora tenha sofrido modificações e adaptações desde os primórdios do futebol moderno, tem importância fundamental na definição do que é o próprio futebol, especialmente na definição das mudanças figuracionais (táticas) ocorridas ao longo da história deste esporte, embora não possa ser considerada uma regra pétrea, imutável, como aquela que proíbe, implícita ou explicitamente, a utilização das mãos para a condução da bola pelos jogadores “de linha”.

Podemos agora voltar ao nosso autor. O primeiro ponto é que, para Elias, e possivelmente para os fãs do futebol, uma regra muito rígida ou muito elástica tornaria o jogo monótono, provocaria falta de interesse do público, afetando o caráter de espetáculo do jogo. Tal fato se daria porque, para este autor, o futebol, como visto acima, é um equilíbrio dinâmico de tensões provocadas mutuamente. Se a regra – no caso, a do impedimento – se torna muito rígida, o equilíbrio favorece a “defesa”, o que, provavelmente, implicaria na diminuição do número de gols (jogo feio, truncado, com poucas situações de gol). Se a regra, por outro lado, se torna muito “frouxa”, o pêndulo passa a favorecer o “ataque”, provocando, possivelmente, tamanho aumento do número de gols em quase todas as partidas, que levaria à descaracterização da própria identidade do futebol como jogo, tornando banal a situação de gol e retirando dela a carga emocional que carrega.

O primeiro caso – em que o equilíbrio se desloca para a defesa, os gols escasseiam e aumenta a monotonia e o interesse do público decresce – tem ocorrido ao longo da história do futebol. As diferentes mudanças ocorridas na regra do impedimento estão relacionadas a tais fatos.
Por sua vez, essas mudanças provocaram impactos nas táticas, estratégias e dinâmicas do futebol. Por exemplo, quando a regra determinava que entre o atacante e o gol houvesse, pelo menos, três adversários, tanto as jogadas da defesa, quanto as do ataque – em suas limitações e em suas possibilidades – estavam determinadas por esta forma específica da regra e pelas alternativas que ela engendrava (Cf. Giulianotti, 2002, p.166-187).

O fato é que, dadas as condições e o desenvolvimento do futebol (preparação física, surgimento de novas alternativas táticas etc), o formato “antigo” da regra do impedimento tornou, cada vez mais, a balança das tensões do jogo favorável à defesa. A modificação da regra – diminuindo a exigência de três para dois jogadores entre o atacante e o gol, por exemplo – permitiu uma nova dinâmica de jogo, acrescentando outras possibilidades de jogadas, especialmente variações táticas, diretamente relacionadas às novas interações entre os jogadores das duas equipes em embate.

Esta nova figuração, para utilizar o jargão de Elias, levou as tensões do jogo para um novo equilíbrio, tanto para os ataques, quanto para as defesas. Desta maneira, surgiu outro conjunto de condições balanceadas, que, anos depois, teria sido rompido novamente, provavelmente devido às novas táticas criadas por treinadores e pelos jogadores de defesa. Tal fato levou o International Football Association Board, órgão responsável pela normatização das regras do futebol, a introduzir nova modificação na regra do impedimento, com vistas à reconstrução do equilíbrio em outros termos.

À Guisa de Conclusão

Em suma, por ora, é relevante destacar que a contribuição da sociologia figuracional de Norbert Elias permite-nos visualizar vários aspectos sociológicos do jogo de futebol que estão interligados: a) a importância das regras na definição da identidade do jogo – no caso, o futebol – e seu impacto sobre as táticas, estratégias e dinâmicas desse esporte; e b) a figuração, síntese das alternativas concretas de organização coletiva, relacional e recíproca das ações individuais factíveis de jogadores e técnicos durante o jogo.

Bibliografia

DUNNING, Eric & CURRY, Graham. (2006), “Escolas públicas, rivalidade social e o desenvolvimento do futebol”, in A. Gebara & L.A. Pilatti (orgs.), Ensaios sobre história e sociologia nos esportes, Jundiaí, Fontoura.
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__________. (2006), “Figuração”, in Escritos & ensaios 1: estado, processo, opinião pública. Vários Tradutores. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.
__________ & DUNNING, Eric. (1966), “Dynamics of group sports with special reference to football”. British Journal of Sociology, 17, 4: 388-402.
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GIULIANOTTI, Richard. (2002), Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. Tradução de Wanda N.C. Brant e Marcelo de O. Nunes. São Paulo, Nova Alexandria.
MAGUIRE, Joe. (1986), “The emergence of football spectating as a social problem 1880-1985: a figurational and developmental perspective”. Sociology of Sport Journal, 3, 3: 217-244.
MALCOLM, Dominic, SHEARD, Ken & WHITE, Andy. (2000), “The changing structure and culture of English rugby union football”. Culture, Sport & Society, 3, 3: 63-87.
SHEARD, K.G. (1997). “Aspects of boxing in the western ‘civilizing process’”. International Review for the Sociology of Sport, 32, 1: 31-57.
VARNER, M.K. & KNOTTNERUS, J.D. (2002). “Civility, rituals, and exclusion: the emergence of American golf during the late 19th and early 20th centuries”. Sociological Inquiry, 72, 3: 426-441.

4 comentários:

Le Cazzo disse...

Uma coisa só eu não entendi: o que fez o Leão da Ilha tremer diante de São Marcos? Jonatas

Argonauta disse...

Ótima reflexão! Realmente, esta abordagem do futebol feita pelo Elias, a partir da análise das regras do jogo é muito pouco conhecida e discutida, até mesmo entre quem trabalha diretamente com Sociologia do Esporte. Quanto ao comentário sobre o "treme-treme" do Leão do Norte, um workshop, na Ilha do Retiro, intitulado "O penâlti e seus macetes: Fundamentos Básicos" talvez resolvesse a questão...

Anônimo disse...

penso que o problema é a maldição da paulistanidade! e olhe que eu sou tricolor!!!

Anônimo disse...

As dúvidas tanbém podem ser encaminhadas ao goleiro do Náutico diante do Internacional.