segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Deixe sua mensagem após o sinal": telefonia celular e novas formas de sociabilidade (final)



Jonatas Ferreira e Marcia Longhi

Se, como vimos, a telefonia móvel invade e confunde espaços de intimidade, além de fazer penetrar o mais privado no espaço público, por outro lado, o celular é também um instrumento que suscita a idéia de individualização, de personalização. Cada usuário desse tipo de serviço possui o seu aparelho, com um número exclusivo, que não precisa compartilhar com familiares, colegas de trabalho ou amigos. Com a telefonia fixa, com o rádio, telégrafo, sinal de fumaça e mesmo o PC não é necessariamente assim. Se um dos segredos da comunicação digital foi o processo de criptografia que permitiu que uma mensagem trafegasse em alta velocidade e fosse aberta apenas por seu destinatário, é possível dizer que essa comunicação de um(a) para um(a) se realiza plenamente com a telefonia móvel – mais radicalmente que o PC. O uso doméstico dos PCs é em geral familiar.

Muitos usuários desse tipo de serviço têm mais de um aparelho, podendo selecionar as chamadas por categoria – família, namorada, amigos, trabalho etc. Além disso, opções como toque personalizado, capinhas com desenhos etc., reforçam a tendência à 'customização' de produtos e serviços que impulsiona o consumo nas sociedades contemporâneas. A sociedade de consumo nos esquarteja, pulveriza, decompõe, sempre acenando com a idéia de que sejamos únicos, especiais, clientes selecionados, um time muito seleto, peças raras.

Assim, salvo engano, cada um sabe quando o “seu” celular toca. Claro que quem está por perto também sabe e, através desse toque, sabe algo mais a respeito de seu proprietário: gosto musical, time de futebol pelo qual torce, música favorita. Isso me remete a uma cena que presenciei há algum tempo atrás. Estava em uma palestra, na universidade, proferida por uma professora de grande renome. A palestrante era uma senhora, em torno dos sessenta anos, muito elegante em sua forma de se expressar e de se vestir. Inesperadamente, uma música bastante popular começa a tocar criando um certo constrangimento: a música em questão era um hit de Adilson Ramos. Constrangimento – mas por quê?! Eu gosto - que se transformou em gargalhada quando a palestrante abre precipitadamente a bolsa e desliga o próprio celular. Não se trata de iniciar aqui uma discussão de gosto, claro, mas de perceber as duas tendências mencionadas neste texto em claro conflito aqui: a customização de uma ferramenta universal como parte de uma tendência da sociedade de consumo e a exposição daquilo que seria em princípio íntimo num espaço privado.

A esse respeito, mencionaria o Twiter como última forma de uso dos celulares. Trata-se, como sabemos, de “uma rede social e servidor para microblogging que permite aos usuários que enviem e leiam atualizações pessoais de outros contatos (em textos de até 140 caracteres, conhecidos como "tweets"), através da própria Web ou por SMS”, segundo a definição da Wikipédia. Esse uso permite acompanhar, mais ou menos em tempo real, o que está acontecendo na vida de pessoas, personalidades, que você eventualmente acompanhe. É possível dizer que a “espetacularização da vida íntima” é uma tendência tecnológica e cultural da contemporaneidade, com seus reality shows, blogs, fotologs etc. É possível pensar aqui na efetivação de um tipo de controle social em que não somos reprimido(a)s, constrangido(a)s a fazer algo que fere nosso desejo, mas que o controle se instala como desejo. Essas máquinas nos desejam, para fazer uma paráfrase do texto deleuzeano.

Por outro lado, não devemos esquecer que nenhuma tecnologia determina o mundo; artefatos humanos, os instrumentos compartilham nossas ambigüidades mais profundas. Por isso mesmo, é possível sempre reconfigurar-lhes o uso. Seria importante estudar os diversos tipos de redes sociais que se configuram através do twiter. Esse, no entanto, é um esforço maior do que seria adequado a um texto como esse.

5 comentários:

Soroco disse...

Até eu que gosto de Vivaldi... Será que não dava pra botar a música de Gretchen novamente?

Cynthia disse...

Claro que dá, Soroco. Só não me lembro qual era a música. Jonatas, nosso especialista em Deleuze, Gretchen e Adilson Ramos, vai ajudar você.

Le Cazzo disse...

E quem disse que eu gosto de Deleuze? Ou de Adilson Ramos? Gostar de Gretchen é algo completamente diferente. E, caro Soroco, reservo Gretchen só para momentos especiais desse blog. Vá se contentando como Vivaldi por enquanto. Jonatas

cela disse...

Além do efeito GPS (e principalmente os celulares supernovos cheios de bugingangas) facilitaram aquela coisa do trabalho 24h. Seja no avião, ônibus, na beira da piscina no domingo, na sala de aula, etc, aquelas ferramentazinhas vão sempre dizer aos chefes (ou a você mesmo) que você poderia ter feito aquela coisinha a mais naquele fim de semana...

Le Cazzo disse...

É verdade, Marcela. Acho que falta um último post para tratar desses modelos mais recentes de celular e o que eles possibilitam - assim como desenvolver essa estória do twiter, que é muito interessante. Obrigado pela contribuição. Jonatas