sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Heidegger, Agamben e o Animal (Introdução ao artigo)



Jonatas Ferreira
Ao passar a fronteira ou os fins do homem, chego ao animal: ao animal em si, ao animal em mim e ao animal em falta de si-mesmo, a esse homem de que Nietzsche dizia, aproximadamente, não sei exatamente onde, ser um animal ainda indeterminado, um animal em falta de si-mesmo (Derrida, 2002, p. 15)

A metafísica é uma interrogação na qual nos inserimos de modo questionador na totalidade e perguntamos de uma tal maneira que, na questão, nós mesmos, os questionadores, somos colocados como questão (Heidegger, 2006, p. 11)

Introdução
Há um conjunto de fenômenos contemporâneos ao qual comumente se atribui a qualificação de “dessimbolizadores”. Já escutei algumas coisas a esse respeito: que a única democracia que hoje podemos ter é a do consumo, que as várias formas de investimento corporal com as quais nos deparamos seriam algo como a emergência do Real lacaniano, que hoje é impossível o exercício crítico, que assistimos ao fim das utopias, ao fim do real, à hiperrealização da vida, à emergência do biopoder como possibilidade única do político, à transformação do labor na essência de todas as relações sociais, à conversão da “vida nua” em investimento cultural, político, existencial. Minhas estudantes, aquelas que fazem dissertações no campo da sociologia do corpo, não parecem mais otimistas: falam do fim da terapia, da medicalização da vida, da sertralinização dos humores, do “império do efêmero”, da ditadura da juventude. Meus colegas lacanianos falam na morte do pai. Aumentou a criminalidade? Isso não é de espantar uma vez que o pai morreu. Há uma cultura do pânico se instalando? O pai morreu.

Já na década de 1930, Martin Heidegger (2006) advertia contra o perigo de um certo sociologismo, daquilo que ele também chamava de filosofia da cultura, um tipo de pensar distanciado em que quadros culturais, históricos amplos são traçados sem que o intelectual se veja implicado neste pensar. Uma forma de reflexão, portanto, metafísica, em que um olhar transcendente observa as pequenas e grandes misérias da humanidade. Embora não tenha nada a dizer diretamente acerca do conjunto de questões que absorvem minhas orientandas, Heidegger parece por outro lado alimentar essa visão pessimista da sociedade contemporânea. De fato, a partir da constatação de que o niilismo é a essência da cultura tecnológica, de seu imperativo da aceleração, da disponibilização total do mundo natural que essa cultura promove, a partir da suposição de que a própria linguagem tem sido apropriada pelas demandas de desempenho das tecnologias de informação e comunicação, não há como não chegar àquele tipo de conclusão sombria, distópica. Tudo isso é compatível com a idéia de dessimbolização, da morte do pai, investimento no concreto do corpo, perda de valores supremos. Se a linguagem é o âmbito onde o pensar se realiza e se essa linguagem se encontra mobilizada pela técnica, por seu afã inovador, acelerador, em que espaço a crítica seria possível? Essa linha de argumentação é bem conhecida pelos estudiosos de Heidegger e diz respeito, sobretudo, às suas contribuições da década de 1960, tais como, “Linguagem de tradição e linguagem técnica”, “A caminho da linguagem”, por exemplo. Cito aqui o próprio Heidegger:


7 comentários:

Le Cazzo disse...

Como não pude ainda escrever o post sobre consumo de medicamentos nem outro sobre subjetividades e modernidades, vai a introdução de este outro que tenho de escrever para uma coletânea sobre Agamben. Jonatas

victor simoes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
victor simoes disse...

Caríssimos, fiquei hoje a conhecer o vosso blogue, que apreciei bastante. Desde já aqui vos deixo o registo de parabéns e o incentivo para que continuem.
O colocarei o vosso link, no nosso suciologicus.

http://suciologicus.blogspot.com

Um abraço

Le Cazzo disse...

Bacana, Victor. Seja bem-vindo. Estamos todos meio atrapalhados com dissertações, teses e prévias carnavalescas (sobretudo Artur que é um folião conhecido), mas em breve estaremos postando mais regularmente. E irei agora mesmo fazer uma visita no seu sociologicus. Abraço.

Cynthia disse...

Muito legal seu blog, Victor. E seja bem-vindo!

Abraço.

Qualquer coisa disse...

Jonatas, minha tese de mestrado é sobre o Aberto, me interessei pelo seu artigo "Heidegger, Agamben e o animal. Gostaria de ter acesso ao artigo completo, é possível? Meu email é: thiago.libertad@gmail.com

Obrigado!

Thiago

Sr. Anísio disse...

Cadê a continuação do artigo?