quarta-feira, 7 de julho de 2010

Projeto Cartão Universidade



Diana e Acteon (cerca de 1530-1540), pintura de Lucas Cranach. Furiosa por um mortal ousar contemplar sua nudez, Diana (Ártemis) transforma o caçador Acteon em cervo, que é então devorado por seus próprios cães.


Cynthia Hamlin

E por falar em mecenato, a UFPE está avaliando o estabelecimento de um convênio com o Banco Santander para a implantação do projeto “cartão universidade”. De acordo com a proposta redigida pelo banco, este se compromete à emissão de até 80.000 cartões de identificação de alunos e servidores em troca do acesso aos campi da UFPE três vezes ao ano para a realização de eventos de venda e promoção de produtos, do direito de divulgar sua marca nos cartões e nos eventos “de interesse comum” e da abertura de uma conta corrente, em nome da Universidade, no referido banco. O convênio garantiria ainda o acesso da UFPE ao Portal Universia e a montagem de um espaço digital para diminuir a exclusão digital, cujas instalações e características devem ser acordadas em documento específico para este fim.

Além das questões levantadas por Ricardo Antunes e Marcus Orione Correia em relação à introdução da iniciativa privada nas universidades públicas (post abaixo) e das implicações de uma instituição pública abrir uma conta corrente em um banco privado, uma outra questão vem à tona num pequeno detalhe do documento: a fim de garantir a implantação e utilização dos cartões, a UFPE deve garantir o acesso a dados pessoais de todos seus alunos e servidores (foto, nome, RG, CPF e endereço) e manter o banco informado de quaisquer alterações nesses dados. Ah! Por uma indiscrição muito menor Acteon foi transformado em cervo e devorado por seus cães de caça ao espiar Diana e suas ninfas no banho!

Diferente do que ocorria na Grécia Antiga, na Era Big Brother as pessoas parecem mais do que felizes com a submissão voluntária ao panóptico. Seja em troca dos proverbiais cinco minutos de fama, do sentimento de “segurança” ou de novas formas de diagnóstico e de terapia, temos desnudado nossos corpos, nossas almas, nossas contas bancárias e até nosso genoma. Expomos nossa vida privada em sites de relacionamentos; fornecemos nossas digitais para entrar em academias de ginástica; nas lojas, preenchemos cadastros com um grau de detalhamento de causar inveja nos responsáveis pela formulação dos questionários do Censo; nos aeroportos, aceitamos, aliviados, passar por scanners corporais que exibem os detalhes mais recônditos de nossos corpos. Que mal pode haver nisso? Afinal de contas, quem não deve não teme e pode até ser que o nosso objeto de desejo caia fulminado de amor quando vir nossa foto no Orkut.

Num mundo onde a informação é uma mercadoria como outra qualquer, não existe, na maioria dos países, regulamentação para a venda e o uso de dados pessoais por parte de empresas privadas para fins de crédito ou de marketing. Nunca poderemos ter certeza de que aquele cadastro que a vendedora jurou que era “bem rapidinho, só para nossos arquivos!” não irá parar nos bancos de dados daquele banco simpático e tão eficiente que já nos envia a cobrança junto com o cartão de crédito que nos deu de presente.

E isso é só a ponta do iceberg. À medida que a caixa de Pandora vai sendo aberta, as novas tecnologias de informação vão gerando um sem número de possibilidades. Atualmente, existe nos EUA um grande debate sobre o controle de informações coletadas por empresas responsáveis por mapeamentos genéticos de indivíduos que recorrem cada vez mais a esse tipo de serviço. Os bancos de dados dessas empresas contém informações preciosas sobre coisas como longevidade e a probabilidade do desenvolvimento de determinadas doenças e fariam a festa de companhias de seguros e de empregadores, pavimentando o caminho para uma série de práticas discriminatórias.

É difícil saber o que o banco pode ou pretende fazer com os nossos dados pessoais. Dado que os cartões serão utilizados para o acesso a empréstimos de livros nas bibliotecas, a determinadas áreas dos campi e “outras funções a serem definidas e implantadas pelos convenentes”, a questão de fundo é que, se aprovado, este convênio estará nos obrigando a fornecer nossos dados a fim de que possamos trabalhar e estudar. Em troca de que, mesmo?

Que o espírito de Diana desça sobre os membros do Conselho Universitário.

16 comentários:

Le Cazzo disse...

Oi, Cynthia.

Sinto-me da mesma forma em relação à possibilidade desse convênio. E sobre os nossos dados irem parar nesse tipo de instituição, diria: sem que a instituição para a qual eu trabalho forneça meus dados pessoais eu já sou incomodado quase que diariamente por alguém que me telefona para conhecer serviços do banco a, b ou c, imagine com essa ajudinha... Jonatas

Cynthia disse...

... é verdade, Jonatas. E o pior do telemarketing é que não dá pra soltar os cachorros em cima da figura. Nem os metafóricos.

Anônimo disse...

Cynthia:
Concordo integralmente com o argumento que você expõe no seu artigo até porque fundamentei em argumentos afins o que escrevi aqui no Cazzo sobre o affair Geisy Arruda, que infelizmente me valeu alguma incompreensão. O affair era evidentemente distinto, e mantém suas especificidades próprias, mas a substância da questão parece-me ser a mesma.
Fernando.

Cynthia disse...

Fernando,

mesmo guardadas todas as especificidades, não creio que há comparação possível entre nossa exposição voluntária (na verdade, com graus distintos de 'voluntarismo') ao que genericamente chamei de panóptico e o affair Geisy Arruda. Parece-me que o que estava (ou deveria estar) em questão naquele caso foi a atitude selvagem dos alunos e da direção da Uniban que, incidentemente, ocorreu antes de sua exposição na mídia. Isso significa que a relação estabelecida (por você) entre a exposição de Geisy e a agressão de que foi vítima teria um elemento de fundo que possibilitaria manter a relação (causal ou lógica) entre sua personalidade (ou seu comportamento) e a violência da turba da Uniban. Sendo assim, ainda que involuntariamente, você termina por dar margem a algum tipo de atenuante para aquela barbárie.

E já que estamos no terreno das comparações, parece-me que o mesmo tipo de relação tem sido estabelecido neste caso do goleiro do flamengo. Com frequência, ouço as pessoas usarem expressões como "maria chuteira", "vagabunda", "aproveitadora" etc para se referir a Eliza - seguidas das qualificações de praxe: "não que isso justifique..." . Que o mundo dos famosos tem um lado sórdido movido por toda espécie de interesse financeiro, não está em questão. A questão é que, por mais sórdido e degradante que seja este universo, ele não tem relação com esse outro que, de tão abjeto, sequer tem um nome que o descreva adequadamente: o relativo a essa máquina de assassinatos brutais que se revelou para a maioria das pessoas que acompanharam o caso minimamente. São mundos incomensuráveis e que devem ser mantidos distintos, sob o risco de se utilizar um como atenuante do outro.

Abraço

Fernando disse...

Cynthia:
Fui desastradamente elogiar seu artigo e pelo visto acabei gerando ou reacendendo uma polêmica associada àqueles meus artigos sobre Geisy Arruda. Por coindência, você recorre ao crime imputado ao goleiro Bruno para reforçar seu argumento. Digo coincidência porque acabei de escrever um artigo sobre Bruno, que aliás enviei para Jonatas decidir se poderia acaso ser postado no Cazzo. O artigo está no meu blog. Acho que meu argumento tem novamente muito em comum com o seu exposto na réplica ao meu comentário. Em suma, estamos divergindo de forma irônica, pois vai muito de concordância no sal da nossa divergência.
Fernando.

Le Cazzo disse...

E haverá,então, oportunidade para vocês conferirem as divergências e convergências, pois postarei o artigo de Fernando amanhã. Jonatas

Rafael disse...

Sei não, mas rifar os dados pessoais da comunidade universitária para um empresa privada, para que a propria comunidade tenha acesso a Universidade me cheira a atentado contra os princípios mais básicos de nossa carta magna.

A minha preocupação é se o espírito de Diana tirar folga justo no dia de reunião do conselho...

Cynthia disse...

Fernando,

A divergência é parte integrante do nosso metier e não vejo problemas nisso, especialmente quando respeitamos as idéias aquel@s de quem divergimos. Aguardo ansiosa seu novo artigo.

Cynthia disse...

Rafael,

talvez devêssemos lançar a campanha "libere a Diana que existe em você".

Fernando disse...

Cynthia:
Também nisso concordamos, isto é,estamos aqui para discutir ideias. Esse é ou deveria ser o papel de todo intelectual. Infelizmente,a vida intelectual no Brasil, dentro e fora da academia,é ainda regida pelo princípio da cordialidade, da ação entre amigos e parceiros. Uma das coisas que mais admiro no Cazzo, até onde o acompanho, é o franco exercício da liberdade de expressão.
Fernando.

Antonio Lino Jr disse...

Cynthia,

Por questões eminentementes éticas (são concorrentes), não posso discorrer a despeito do que vem depois do acesso desses bichos de finanças ao banco de dados dessas instituições públicas.Você manda bem quanda prega a reivindicação do mito de Diana, grosso modo, o caminho a ser perseguido, caso não queiram corroer a cidadania dos atores públicos na UFPE.

Cynthia disse...

Ei, Lino! Você joga essa informação no nosso colo e vai embora???? Volte aqui, volte aqui!

Antônio Lino Jr disse...

Essas coisas pra serem discutidas em vias públicas difusas é comprometedor, sobretudo pra mim que sou monitorado por um código de ética (não que vc não seja rsrsrsr), mas tenho acesso, diariamente, a registros absurdos de crimes patrocinados por essa via privada quando alcançam banco de dados, públicos e privados. Recomendo que celebrem negócios com instituições públicas, por mais paradoxal que venha a ser, uma vez que distam dos requisitos de eficiência e eficácia, que a esfera privada melhor oferece. Perdemos de um lado, mas nos preservamos do outro. Mais ou menos aquilo que Baumman observa, quando discorre sobre entre exercer a liberdade e comprometer um certo estado de certezas e seguranças: eminências pardas da pós-modernidade, penso eu rsrsr.

Cynthia disse...

Lino, eu troco essa informação por uma foto de Scarlett. Quer???

Antônio Lino Jr disse...

Olha que a proposta é tentadora rsrsrsrsr.

grito no vacuo disse...

A Diana! Cadê você?