segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A discussão da Ideia de democracia digital a partir da obra de Heidegger



Jonatas Ferreira

Introdução

Em Março de 2009, o Comité Gestor da Internet no Brasil publicou os primeiros resultados da Pesquisa sobre o Uso de Tecnologias de Informação e Comunicação no Brasil realizada no ano de 2008. Esses primeiros resultados indicam que continuamos a avançar na difusão de tecnologias de informação e comunicação (TICs), embora os problemas apresentados nas avaliações anuais anteriores ainda não tenham sido suficientemente equacionados: i) “O custo elevado continua a ser a principal barreira para a posse do computador e da conexão à internet nos domicílios”; ii) “a falta de disponibilidade de internet passa também a figurar como um dos principais desafios para a inclusão digital em todo o país”; iii) a “posse do computador nos domicílios cresceu mais rapidamente do que a posse da conexão à internet. A diferença entre domicílios com computador e domicílios com conexão à internet era de 4 p.p. em 2005 e passou para 8 p.p. em 2008”; iv) o acesso à telefonia móvel apresenta uma penetração consideravelmente superior à da telefonia fixa em todo o país; v) a “falta de habilidade foi, mais uma vez, apontada como a principal barreira para o uso da internet”; vi) As lan houses ainda são a única possibilidade de acesso à internet para uma parte considerável da população (pobre) brasileira, o que significa pagar mais pelo acesso à internet quem menos pode pagar . Além de tudo isto, a velocidade de tranmissão continua lenta, o que restringe fortemente o acesso a conteúdos que exijam uma maior largura de banda.

Este quadro ajuda-nos sem dúvida a traçar os contornos mais gerais daquilo a que se convencionou chamar exclusão digital, e dos resultados das políticas de inclusão tentadas até o momento no Brasil. Evidentemente, este panorama requer uma análise ampla das políticas governamentais neste campo, do modo como os estados vêm assumindo os compromissos da Federação no que toca ao ingresso de largas parcelas da população na Sociedade da Informação, do modo como entidades da sociedade civil, organizações não-governamentais se têm dedicado a atenuar as desigualdades no acesso às TICs. No que se refere à necessidade de analisar os obstáculos que se colocam à inclusão digital, em particular nas regiões de maior pobreza, e entre as parcelas mais pobres da população, acredito que pensar a desigualdade a partir da perspectiva da inclusão/exclusão digital é insuficiente (Warschauer, 2003). A desigualdade nesse, como em outros casos, não deve ser tratada apenas do ponto de vista da restrição ao acesso, mas da possibilidade de apropriação criativa que essas tecnologias demandam (Maciel e Albagli, 2007). Apropriação é uma chave importante para que possamos refletir criticamente acerca do significado daquilo que se convencionou chamar inclusão digital, ou, mais propriamente, para que possamos tratar a questão política implicada na democratização da tecnologia. Dessa perspectiva, o que e garantiria exactamente a democratização das tecnologias de informação e comunicação na sociedade brasileira? A resposta parece óbvia, mas não é.

(O artigo completo foi publicado na revista Análise Social. É só clicar para baixar o arquivo PDF)

domingo, 26 de setembro de 2010

As conversações interiores de um espectador imparcial



Por Frédéric Vandenberghe
Artigo originalmente publicado em Theory: The Newsletter of the Research Committee on Sociological Theory. International Sociological Association, Spring/Summer 2008. Gentilmente cedido ao Cazzo pelo autor e traduzido por Cynthia Hamlin, sob intensa chantagem emocional.

Uma Teoria da Justiça, de John Rawls (1972) é, sem dúvida, um dos livros mais importantes da segunda metade do século XX. Embora cada página e nota de rodapé do livro tenha sido repetidamente submetida à análise e a comentários, ele é principalmente lido como uma versão liberal da escolha racional. Consequentemente, suas conexões com a teoria da simpatia de Adam Smith foram desconsideradas (embora sua filha, Anne Rawls (1988), uma microssocióloga que trabalhou com Garfinkel, tenha introduzido a noção de simpatia na ordem interacional de Goffman e na análise conversacional de Sacks). A teoria da justiça de Rawls é, de fato, uma teoria dos sentimentos morais. Seguindo os moralistas do iluminismo escocês, o filósofo estadunidense ressucitou o “observador simpatético” e introduziu o “juiz imparcial, porém benevolente” como um protagonista de uma sociedade liberal bem organizada. A ideia central da teoria da justiça é simples: uma sociedade seria justa se redistribuísse os direitos e deveres de tal forma que cada um de seus membros pudesse subscrever ao princípio de justiça (fairness) sem reservas, dado que ele garantiria os direitos e liberdades de todos, ao mesmo tempo que aceitaria as desigualdades sociais apenas na medida em que se compensasse os que têm menos vantagens.

A teoria da justiça é uma teoria forte do contrato social. O principal instrumento dessa teoria do contrato é a chamada “posição original”, em que cada um seria convidado a adotar a perspectiva de um espectador racional (reasonable), embora simpatético, antes de assinar o contrato que sela a aliança entre seus membros. Assim, cada um se imaginaria na posição do outro ou da outra e quando cada um/a tivesse adotado a perspectiva de todos os outros, um de cada vez, hipoteticamente, ele/a chegaria aos princípios de justiça para a estrutura básica da sociedade bem-ordenada. Claro, esse mecanismo de identificação seriada de todos com cada um/a só pode funcionar sob a condição de que todo mundo faça uma abstração de sua situação pessoal e social a fim de reter apenas o que é comum a todos os seres humanos, sem distinção. Em outras palavras, ao se imaginar na situação do/a outro/a de forma a ascender à posição geral e superior do espectador imparcial, cada um/a é colocado/a sob o “véu da ignorância”. Como não se saberia se o/a outro/a é rico ou pobre, negro/a ou branco/a, homem ou mulher, podemos presumir que os princípios que os membros hipoteticamente adotariam para ordenar sua sociedade seriam justo, não apesar do caráter anônimo do/a outro/a, mas por causa dele.

Até aqui, tudo bem, mas o que isso tem a ver com “conversações internas”? Bem, em Rawls, a justificação e validação dos princípios do contrato social são resultado das conversações interiores simuladas que o espectador imparcial tem com seus concidadãos. Tudo ocorre como se o espectador simpatético, confortavelmente sentado em seu sofá depois de um longo dia de trabalho, tivesse chamado à sua mente qualquer pessoa de seu conhecimento e convidado ele ou ela para sua conversa interior da noite (veja o experimento mental de Goethe em Wiley, 1994:54). Em sua mente, ele convidava seus amigos e conhecidos a sentar-se junto de si, discutindo com eles os princípios que seriam objeto do acordo original. Ao deixar seus queridos amigos, ao mesmo tempo que os envolvia nas profundezas do seu coração, continuava a conversa imaginária ao convidar os amigos de seus amigos para o diálogo. Eventualmente, por meio de uma variação eidética do amigos de seus amigos, chegaria a um cidadão genérico e sem face, porém bem-informado, preocupado e cuidadoso, que “olharia para o sistema da perspectiva do homem [e da mulher] representativo[a] dotado[a] das menores vantagens” (Rawls, 1972, p. 151).

Por meio do mecanismo engenhoso da representação da posição original, Ralws criou um espaço público no mais profundo de seu coração (in foro interno, como Kant diria). Habermas objetou à privacidade das conversações interiores de seu amigo. Ao convidar seu colega americano para um debate público (cf. Journal of Philosophy, 1995, 93, 3), o filósofo alemão gentilmente convenceu seu colega, in actu, da necessidade de continuar a conversação interior por meio de uma comunicação entre iguais que ocorre na esfera pública. É através da comunicação pública, não apenas pela conversação interior, que os falantes progressivamente chegam à visão comum e imparcial do “outro generalizado” (Mead). Ao convidar não apenas seus amigos que compartilham de seus pontos de vista, mas também os vizinhos que não as compartilham para dar voz a suas opiniões em público, que os cidadãos se convencem uns aos outros, por meio da força do melhor argumento, do que é justo ou errado.

De acordo com Habermas, os princípios morais e políticos se tornam objetivos e universais por meio do uso público da fala e da razão. De fato, graças à comunicação, os cidadãos têm conhecimento mutuo das posições dos outros e, assim, chegam, através da sobreposição do conteúdo comum que é publicamente comunicado e compartilhado por todos, a um consenso acerca dos próprios princípios que ordenam uma sociedade justa. Ao transformar as conversações internas que o observador simpatético tem consigo mesmo e com todos os outros em uma comunicação real entre participantes de uma conversação externa, nos movemos do uso privado (Rawls) para o uso público (Habermas) da fala. Assim, eu concluo que existe uma dialética em processo – ou uma morfogênese dupla, como Archer diria – entre as conversações interiores e exteriores. Quando a comunicação cessa, os participantes podem continuar o debate internamente e, depois de amadurecer a reflexão, podem se juntar novamente à conversa externa.

Bibliografia

Rawls, A. (1988), “The Interaction Order sui generis: Goffman’s Contribution to Social Theory”. Sociological Theory, 5, pp. 136-149.
Rawls, J. (1972), A Theory of Justice. Oxford, OUP.
Wiley, N. (1994), The Semiotic Self. Chicago, University of Chicago Press.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Filosofices


Retrato da coisa-em-si Kantiana

Semana que vem tem prova de metodologia científica na graduação. O pessoal anda meio agitado, de forma que decidi recorrer a dois filósofos eminentes a fim de esclarecer alguns conceitos que temos usado no curso. As definições abaixo foram retiradas de Thomas Cathcart e Daniel Klein (Plato and Platipus walk into a bar... Londres, Penguin Books, 2007) e estão terminantemente proibidas de serem usadas na prova (para uma definição de "coisas terminantemente proibidas de serem usadas na prova", ver glossário abaixo).

Cynthia

Metafísica: A metafísica entra de cabeça nas Grandes Questões: O que é o ser? Qual a natureza da realidade? Nós temos livre arbítrio? Quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete? Quantos deles são necessários para trocar uma lâmpada?

Lógica: Sem a lógica, a razão é inútil. Com ela, você pode vencer debates e alienar multidões.

Epistemologia: A Teoria do Conhecimento. Como você sabe que sabe as coisas que acha que sabe? Exclua a opção de responder “eu simplesmente sei que sei” e o que sobrar é epistemologia.

Ética: Separar o bem do mal é a província da ética. Também é ela que mantém ocupados os padres, os intelectuais e os pais. Infelizmente, o que mantém ocupadas as crianças e os filósofos é perguntar aos padres, aos intelectuais e aos pais “Por que?”.

Filosofia da Religião: O Deus que os filósofos da religião gostam de discutir não é um Deus que a maioria de nós reconheceria. Ele tende a se situar no lado mais abstrato, mais como “A Força” em Guerra nas Estrelas e menos como um Pai Nosso que fica acordado durante a noite se preocupando com você.

Filosofia da Linguagem: Quando o ex-presidente William Jefferson Clinton respondeu em um debate “depende do que a sua definição de ‘é’ é”, ele estava fazendo filosofia da linguagem. Ele também poderia estar fazendo outras coisas.

Filosofia Social e Política
: A filosofia social e política examina questões de justiça na sociedade. Por que precisamos de governos? Como os bens devem ser distribuídos? Como podemos estabelecer um sistema social justo? Essas questões costumavam ser respondidas com um cara mais forte tacando um osso na cabeça de um cara mais fraco, mas depois de séculos de filosofia social e política, a sociedade percebeu que os mísseis são muito mais eficazes.

Metafilosofia: A filosofia da filosofia. Não confundir com a filosofia da filosofia da filosofia.

Sentença Analítica (ou juízo analítico): Uma sentença que é verdadeira por definição. Por exemplo, “todos os patos são aves” é analítica porque parte do que significamos por “pato” é que se trata de um membro da família das aves. “Todas as aves são patos”, por outro lado, não é analítica porque a paticidade não é parte da definição de “ave”. Obviamente, “todos os patos são patos” é analítica, assim como “todos as aves são aves”. É comovente observar a ajuda prática que a filosofia pode fornecer a outras disciplinas, tais como a ornitologia. Contraste com sentença sintética.

Sentença Sintética (ou juízo sintético): Uma sentença que não é verdadeira por definição. Por exemplo, “sua mãe usa botas do exército” é uma sentença sintética; ela adiciona informação não incluída na definição de “sua mãe”. O mesmo se aplica ao corolário “Ei, sua mãe usa botas do exército”. Contraste com sentença analítica.

A posteriori: Conhecido pela experiência; conhecido empiricamente. Para saber que algumas cervejas têm um gosto bom mas não fazem você se sentir estufado, você teria que experimentar pelo menos uma cerveja que tem um gosto bom e não faz você se sentir estufado. Contraste com a priori.

A priori: Conhecido anteriormente à experiência. Por exemplo, pode-se saber, antes de se assistir ao programa, que todos os participantes de American Idol acreditam ser cantores porque American Idol é um concurso de canto para pessoas que – por razões melhor conhecidas por elas próprias – acreditam ser cantores. Contraste com a posteriori.

Coisa-em-si: a coisa-em-si, como oposta à representação sensorial de uma coisa. A ideia aqui é a de que um objeto é mais do que simplesmente a soma de seus dados sensórios (i.e., aquilo que podemos ver, ouvir, sentir, cheirar) e que existe alguma coisa-em-si por trás de todos esses dados sensórios que é distinto dos dados. Alguns filósofos acreditam que essa noção pertence à mesma categoria que os unicórnios e papai Noel.

Empirismo: a visão de que a experiência, em particular a experiência dos sentidos, é a fonte primária – ou única – do conhecimento. “Como você sabe que existem unicórnios?” “Porque eu acabo de ver um no jardim”. Isso é o que chamamos de empirismo extremo. Contraste com racionalismo.

Racionalismo: a visão de que a razão é a fonte primária - ou única – do conhecimento. É geralmente contrastado com empirismo, que é a visão de que a experiência sensorial é a fonte primária de conhecimento. Tradicionalmente, os racionalistas têm preferido a razão porque os sentidos são notadamente pouco confiáveis e o conhecimento baseado neles é, portanto, incerto. Eles preferem a certeza absoluta de juízos alcançados por meio da razão como “esse é o melhor dos mundos possíveis”.

E, para finalizar, uma definição mezzo filosófica, mezzo sociológica:

Coisas terminantemente proibidas de serem usadas na prova: coisas que, contrariamente à coisa-em-si kantiana, podem ser intuídas. Costumam ter como efeitos sensíveis notas baixas, diminuição na autoestima dos alunos e na estima pela professora.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Vitória de Orwell



Fernando da Mota Lima

George Orwell é um desses raros escritores que se tornam parte de todo um clima de opinião. Aviso o leitor que esta expressão é traduzida de um poema de Auden: “In Memory of Sigmund Freud”. Talvez a maior evidência de tão elevado status consista no fato de que escritores dessa natureza influenciam a linguagem usada até pelos que nunca os leram, até por aqueles inconscientes de uma obra como 1984, e de personagens e conceitos como Big Brother, Polícia do Pensamento, Pensamento Duplo etc. Aviso novamente o leitor que traduzo aqui livremente conceitos fundamentais de 1984 sem cotejá-los com a tradução brasileira deste livro emblemático do pensamento antiutópico. Melhor diria se usasse a expressão pensamento antitotalitário, pois Orwell nunca renunciou ao seu ideal de socialismo libertário, que é ainda um modo de ser utópico. Em suma, você fala de Orwell mesmo sem saber quem é ele, mesmo ignorando sua obra que exerceu e exerce ainda um papel decisivo no clima de opinião dominante na história contemporânea assaltada de modo catastrófico por totalitarismos de esquerda e direita.

Orwell é talvez a mais alta expressão do intelectual independente que conheço. Não me esqueço de que alguns leitores puxaram minha orelha quando usei o conceito de intelectual independente para criticar a conivência de José Saramago com regimes totalitários ou ditatoriais de esquerda. Há quem considere a relação do intelectual com o partido, ou mais amplamente com a realidade política, e conclua em termos simplistas que não existe tal coisa, isto é, você é sempre contra ou a favor, está com o partido x ou com o partido y. Essa linha de argumentação é claramente maniqueísta e assim estamos conversados. Você está com o bem ou com o mal e assim qualquer nuance, qualquer possibilidade de inserção entre os dois extremos excludentes é automaticamente suprimida.

A grandeza ética e política de Orwell – ou sua vitória, assim traduzo o sentido do livro que Christopher Hitchens lhe dedica – reside na sua capacidade extraordinária de denunciar o totalitarismo gestado pelos ideais utópicos da esquerda, o nome mais simples desse Big Brother é Stálin, sem renunciar a suas convicções socialistas e libertárias. É claro que este fato foi refutado por seus críticos à esquerda e à direita. Os primeiros o perseguiram e caluniaram por supostamente trair a esquerda, ou fazer o jogo do inimigo; os segundos tentaram apropriar-se de Animal Farm (A Revolução dos Bichos) e 1984 como se fossem simplesmente obras anticomunistas. O fato ilustra admiravelmente o quanto é difícil ser independente, mas não anula a possibilidade da independência ideológica do intelectual. Orwell converte a possibilidade em fato.


domingo, 19 de setembro de 2010

E por falar em meios de comunicação de massa...



Cynthia Hamlin

Atribuir a especialistas frases nunca ditas a fim de justificar as opiniões particulares dos jornalistas parece estar se tornando tradição entre alguns veículos de comunicação. O caso recente mais gritante ocorreu na matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), onde se atribui ao antropólogo Eduardo Viveiros de Castro a seguinte frase: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original”. Qualquer pessoa que conheça minimamente o trabalho de Viveiros de Castro (ou de qualquer antropólogo!) sabe que, em sã consciência, ele jamais afirmaria tal barbaridade.

Pois hoje o jornalista Rafael Dias, do Diário de Pernambuco, fez algo semelhante ao atribuir a Silke Weber, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE, a seguinte afirmação: "O dado que tenho é que já são 50% do total de inscritos no vestibular da UFPE provenientes de escola pública. Obviamente que a escola pública não tem a qualidade da particular, mas já existem iniciativas de programas pré-vestibular que estão melhorando essa situação" ("Quem tem mais chance de entrar na faculdade?". Caderno C4, Diário de Pernambuco, Recife, domingo, 19 de setembro de 2010).

Abaixo, a resposta de Silke:

Prezado Rafael,

Com muita estranheza li o que me atribuiu na conversa telefônica a respeito da origem social dos estudantes da UFPE na matéira intitulada Quem tem mais chance de entrar na Faculdade? publicada no Caderno Vida Urbana - C4... Em nenhum momento falei que a escola particular era melhor do que a pública e nem referi-me a pré-vestibular do modo como escreveu... Não reconheço, portanto, como minha a citação feita na matéria que produziu e, desse modo, solicito que a sua interpretação pessoal seja imediatamente corrigida.

O que falei foi:

1. que é sabido que alunos da escola pública têm menos chance de aprovação no vestibular até porque, infelizmente, ainda hoje nem todos têm direito, sistematicamente, a aulas de matemática, física, química, biologia;
2. que metade dos alunos da escola pública que se inscrevem no vestibular tendem a ser aprovados e
3. que diante deste quadro, há iniciativas na própria UFPE de preparar alunos da escola pública para o vestibular e elas são realizadas por centros acadêmicos, departamentos e cursos.

Informo que mensagem com o mesmo teor está sendo enviada para a redação do DP, ASCOM UFPE e para a seção Carta ao Leitor.

Atenciosamente,
Silke Weber


Aguardemos a resposta...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Universalismo, Particularismo e Relativismo: a Mutilação Genital Feminina nos Meios de Comunicação de Massa



The Guardian, 25 de julho de 2010.

Por Cynthia Hamlin

Creio que a primeira vez que tive contato com algumas das questões levantadas pelo relativismo cultural foi na adolescência. À mesa do jantar, após um plantão emocionalmente desgastante, minha mãe lamentava a morte de uma menina indígena que teve uma parada cardíaca durante uma sessão de hemodiálise. Assim que seu coração parou, minha mãe iniciou uma massagem cardíaca, enquanto lutava para se livrar do pai da menina, que tentava a todo custo impedir a ressuscitação. O antropólogo que acompanhava pai e filha tentava segurá-lo enquanto traduzia seus gritos desesperados de que parassem com aquilo porque o espírito dela já havia partido. Minha mãe solicitou aos enfermeiros que o tirassem dali e prosseguiu com a ressuscitação. Para o bem ou para o mal, a menina morreu. Mais tarde, o antropólogo explicou que, caso a menina “voltasse”, seria com um espírito diferente do seu e não seria mais aceita na tribo. Perguntei à minha mãe por que ela simplesmente não deixou a menina morrer, e ela disse que aquilo se chocaria profundamente com seus princípios éticos.

Anos mais tarde, em 1994, um de meus irmãos me apresentou um problema semelhante: num artigo publicado naquele ano no New England Journal of Medicine, um médico estadunidense se perguntava o que fazer quando mulheres que já haviam passado por uma infibulação - a forma mais radical de mutilação genital feminina, envolvendo a remoção do clitóris, dos pequenos lábios e de parte dos grandes lábios, que são depois costurados - solicitavam que ele as costurasse novamente após o parto. Naquela época, diversos estados dos EUA proibiram a prática, sob a alegação de que constituía violação dos direitos humanos. Embora concordasse com o argumento presente no discurso universalista que embasava a legislação, o médico dizia empatizar com o que poderíamos qualificar de dimensão particularista do problema presente no discurso das mulheres que o procuravam: sem a infibulação, perderiam sua identidade étnica, seriam rejeitadas por seus maridos, sentir-se-iam “sujas”, “feias” e pouco “femininas”. Ciente de que sua recusa levaria muitas dessas mulheres a voltar aos seus países de origem e efetuar o procedimento com ajuda de uma pessoa não-qualificada do ponto de vista médico e sob condições de higiene inadequadas, ele se perguntava se a coisa certa a fazer não era ir adiante e fazer o que elas pediam.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cazzo faz 3 anos


Cynthia lembrou-me ontem que o Cazzo faz aniversário no dia 2 de setembro. É verdade! Ele é pois do signo de virgem. Acho. Com o sol em vênus, o céu em plutão, o ascendente de fogo, o chão de terra batida, um cachorro chamado Xaréu e uma plantação de macaxeira no quintal da terceira casa. Noves fora, vou pedir para Artur, que incorpora Zé da Bola toda sexta-feira anterior a um jogo do Santinha, que faça as previsões para o ano vindouro. Mas já prometemos trabalhar um pouco mais e algumas novidades - que estamos planejando já há uns dois anos.

Quanto à foto: ainda conseguimos organizar um baile funk para comemorar. (Cynthia tentou contacto com Isaac Karabichevski, mas ele já tinha um compromisso em Olinda).

E estamos esperando os presentes.