segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Universalismo, Particularismo e Relativismo: a Mutilação Genital Feminina nos Meios de Comunicação de Massa



The Guardian, 25 de julho de 2010.

Por Cynthia Hamlin

Creio que a primeira vez que tive contato com algumas das questões levantadas pelo relativismo cultural foi na adolescência. À mesa do jantar, após um plantão emocionalmente desgastante, minha mãe lamentava a morte de uma menina indígena que teve uma parada cardíaca durante uma sessão de hemodiálise. Assim que seu coração parou, minha mãe iniciou uma massagem cardíaca, enquanto lutava para se livrar do pai da menina, que tentava a todo custo impedir a ressuscitação. O antropólogo que acompanhava pai e filha tentava segurá-lo enquanto traduzia seus gritos desesperados de que parassem com aquilo porque o espírito dela já havia partido. Minha mãe solicitou aos enfermeiros que o tirassem dali e prosseguiu com a ressuscitação. Para o bem ou para o mal, a menina morreu. Mais tarde, o antropólogo explicou que, caso a menina “voltasse”, seria com um espírito diferente do seu e não seria mais aceita na tribo. Perguntei à minha mãe por que ela simplesmente não deixou a menina morrer, e ela disse que aquilo se chocaria profundamente com seus princípios éticos.

Anos mais tarde, em 1994, um de meus irmãos me apresentou um problema semelhante: num artigo publicado naquele ano no New England Journal of Medicine, um médico estadunidense se perguntava o que fazer quando mulheres que já haviam passado por uma infibulação - a forma mais radical de mutilação genital feminina, envolvendo a remoção do clitóris, dos pequenos lábios e de parte dos grandes lábios, que são depois costurados - solicitavam que ele as costurasse novamente após o parto. Naquela época, diversos estados dos EUA proibiram a prática, sob a alegação de que constituía violação dos direitos humanos. Embora concordasse com o argumento presente no discurso universalista que embasava a legislação, o médico dizia empatizar com o que poderíamos qualificar de dimensão particularista do problema presente no discurso das mulheres que o procuravam: sem a infibulação, perderiam sua identidade étnica, seriam rejeitadas por seus maridos, sentir-se-iam “sujas”, “feias” e pouco “femininas”. Ciente de que sua recusa levaria muitas dessas mulheres a voltar aos seus países de origem e efetuar o procedimento com ajuda de uma pessoa não-qualificada do ponto de vista médico e sob condições de higiene inadequadas, ele se perguntava se a coisa certa a fazer não era ir adiante e fazer o que elas pediam.


16 comentários:

Le Cazzo disse...

Muito bom texto, Cynthia. Só não ousei ver o vídeo, no entanto. Na verdade, quase não li seu artigo por conta dele.

Há uns cinco anos, creio, li um livro de Habermas, sobre o qual falei em alguns textos, que trata de problemas parecidos. A partir da tal perspectiva da razão comunicacional ele se colocava o problema de pensar eticamente os diagnósticos genéticos pré-implantação. Para facilitar, pensemos em processos de intervenção genética em embriões humanos. Para ele, trata-se de algo imoral e como tal deve ser combatido por não permitir a(o) outro(a) condições de redefinir uma intervenção feita a partir de princípios, muitas vezes transitórios, de algo como uma melhoria biológica. A solução que Habermas apresenta para o problema é bastante fraca, mas o problema, não. Aplica-se ao nosso compromisso com as meninas submetidas aos processos de mutilação genital.

A perspectiva habermasiana é a de um liberal, mas um liberal que vê o seu liberalismo fazendo água: não há como pensar em um diálogo entre cidadãos em busca de um consenso quando a principal parte interessada ainda não pode exercer cidadania. Agora, é claro que valores como cidadania, respeito ao corpo das crianças (penso também em um amigo judeu que me falava do trauma que para ele significou sua circuncisão, este ato de vínculo entre o judeu e seu Deus), respeito à diferença são parte de nosso repertório cultural. Como tratar um contexto cultural como este, sabendo que ali ocorre tamanha violência contra o corpo de meninas indefesas - questão com a qual dona Magnólia já se deparara, de certo modo, há muitos anos?

Como não sou liberal, e não acredito em uma perspectiva olímpica para pensar a diferença, creio que deveremos tentar entender essas práticas para simplesmente tentar transformá-las. Porque não consigo em relação a isso falar de uma perspectiva que não seja da imanência de minha indignação. Resposta pífia à sutileza e complexidade de seu texto. Jonatas

Tâmara disse...

Gostei muito de seu texto também, Cynthia. E sua complexidade, hélas, é perfeitamente adequada à complexidade do problema.

Como muitos dentre no's, às vezes sinto-me universalista, às vezes relativista - os contextos de pra'ticas e representações dessas mutilações ou circuncisões são bastante diversos e seu texto nos mergulha nessa diversidade.

Agora, so' para complicar mais um pouco, sua argumentação sobre o tratamento das mi'dias fez-me pensar num aspecto grave do contexto globalizado nessa segunda década do século XXI, qual seja o do aumento da xenofobia, do medo e desprezo do outro (ou de quem é classificado como outro) nos ditos pai'ses capitalistas avançados. Coisas como o véu, o Ramadan, as circuncisões, têm sido cada vez mais apresentadas e tratadas como a manifestação da "incompatibilidade" entre "imigrantes" (ou seus descendentes) e "ocidentais". Quando não são os pro'prios governos desses pai'ses a exibi-las como "taras" de muçulmanos, ciganos e outros "selvagens" - como é o caso da França sarkozysta. De formas que estamos, neste caso, diante de formas de universalismo voluntariamente implicadas com um etnocentrismo poli'tico, banalizando e legitimando discursos que, até dez anos atra's, eram classificados como de extrema-direita; legislando e executando poli'ticas de repressão ou expulsão pura e simples de quem é classificado como "o outro". E tudo isso em nome da cidadania e da liberdade.

E nem sei como terminar meu comenta'rio...Espero que outros leitores consigam refletir mais; quando voltar ao ar daqui a duas semanas, passarei pelo Cazzo para ver o que outros pensaram e escreveram sobre o seu texto. Abração.

João Paulo Rodrigues disse...

Também não sei como sair deste labirinto e só posso elogiar texto tão rico e instigante. Vou me permitir apenas uns comentarios crus, quase banais e provavelmente exagerados.
1. “Ou a tendência a se julgar cada cultura a partir de seu próprio contexto” – na realidade, para se manter coerente com a perspectiva advogada de relativismo, não se deveria falar em julgar, mas em compreender. Mas acho que o sentido do post é esse, e ele é muito bem vindo.
2. Se bem me lembro, acho que a perspectiva relativista-metodológica prescreve a ausência de um julgamento holístico da cultura, mas nada diz sobre o julgamento de uma prática ou outra. Não sei faz diferença, mas o esclarecimento poderia ajudar na procura por um caminho que resultasse num diálogo e combate efetivo em direção à mudança.
3. O problema é que este relativismo deixou de ser uma parte do processo para se tornar o processo – nos obriga cada vez mais a não falar um ai sobre quem quer que seja, como se criticar um procedimento qualquer fosse a própria negação do outro. Isso impede, inclusive, que se chame em questão os procedimentos de determinada cultura em relação a seus próprios princípios, como se somente o “Homem do Iluminismo” fosse incoerente e criasse seus “monstros da razão”. Somente nós somos bárbaros, os outros sempre possuem uma razão compreensível ao que fazem. Mais: nos coloca um imperativo ético de adaptação, de cuidado para não ofendermos ninguém, sem um procedimentos igualitário de apresentar o mesmo comportamento aos membros de outras culturas.
4. E aí, numa volta do parafuso, essa perspectiva fica sendo a única exótica. Somente os gregos, os teólogos medievais ou os iluministas seriam uns “coitados” que, muito etnocentricamente, imaginavam que um apelo universal não passava de um aspecto irredutível de sua cultura particular. Em vez de desetnetizar e procurar realçar nossa comunhão, todos eles são apresentados como pertinentes apenas a seu restrito universos histórico-cultural, de forma a que eles só possam se comunicar à comunidade de descendência – nós.
5. Isso acaba então, tendo um certo apelo paternalista. Nós os entendemos, os outros não. No fundo, é isso que a direita diz. Daí que seja ela, na Europa, pelo menos, a que mais utiliza o discurso universalista de forma efetiva e direta, mesmo quando nega sua essência na prática.
6. O meu palpite é que isso não é tão novo. A forma pela qual certos costumes populares na própria Europa foram combatidos guarda certa relação com essa manipulação do universalismo. Mas, naquelas épocas, não se achava que a luta por direitos, respeito ou cidadania passava pela defesa da cultura originária, embora resistências cotidianas fossem exercidas, às vezes com afinco. Nosso problema é que no mundo da hipercultura, da assertiva "cultura é política", das guerras culturais, do acesso à cidadania através das políticas culturais e do reconhecimento cultural, isso se tornou impossível.

Cynthia disse...

Jonatas,

Eu também não acredito muito nessa estória de consenso. Mas acredito no "é conversando que a gente se entende". O que fazer com esse entendimento são outros quinhentos...

Tâmara,

realmente, o governo do Sarkozy é meio punk. Parece que eles traçam a linha demarcatória no lugar errado: se, por um lado, concordo com a prisão da "parteira" que foi flagrada efetuando MFG na França, ainda tenho muitíssimas dúvidas em relação à questão do véu.

João Paulo,

Acho que o sentido de "julgar" que a Ellen Gruenbaum utiliza quando fala de relativismo cultural refere-se à emissão de juízos de fato a partir da suspensão temporária de nossos valores éticos. Como diz um neo-kantiano qualquer que ajudou a criar a tradição compreensiva na sociologia (que não me lembro mais quem pode ter sido), "pensar é julgar". Sendo assim, não faria muito sentido a distinção entre "julgar" uma cultura como um todo ou aspectos desta a partir de seus próprios padrões. A impossibilidade do primeiro julgamento sob critérios relativistas só se dá em termos do referente, que se torna ausente (relativo a que, se não pode haver critério externo à própria cultura?).

No mais, concordo com você que vivemos na era da hipercultura.

Abraços.

João Paulo Rodrigues disse...

Cynthia,
Bom ponto. A despeito disso, há que se levar em consideração dois aspectos: nenhuma cultura é um universo isolado (padrões são semelhantes ou até compartilhados) e a atividade de compreensão necessita tanto da suspensão quanto da reafirmação de nossos próprios valores. "É preciso outra cultura para conhecer outra cultura", na bela síntese de Marshall Sahlins. Ele não advogava, é claro, o julgamento, como se estivéssemos numa agência de classificação dos bons modos culturais, mas acho que a gente pode apelar para essa epistemologia com o fito de permitir a crítica sem recair no etnocentrismo.
Um abraço.

Cynthia disse...

Você tem razão, João Paulo. E é por isso que devem existir limites: compreender algo não significa necessariamente aceitá-lo como justo ou como verdadeiro.

Abraço

Ana Paula disse...

Excelente texto, Cynthia! E, como você bem diz no final ao lembrar as cirurgias plásticas de vulva e etc., lança luzes sobre outras situações nada distantes de nós. Falo da violência, claro, e da imensa dificuldade que temos de compreender e explicar as razões das mulheres para entrarem e permanecerem em relações amorosas abusivas. Vítimas absolutas ou cúmplices do poder masculino tem sido as alternativas explicativas usuais. Acho pouco e frágil. Seu texto aponta para o grau de complexidade com que temos que lidar nesses casos. Muito bacana.

Cynthia disse...

Obrigada, Ana Paula. Como o Gabriel colocou no seu texto sobre o a dor do outro distante, sempre há essa possibilidade de essas questões serem vistas como puro entretenimento e nos fazerem pensar como somos "diferentes" e superiores. Mas acho que uma perspectiva menos simplista gera a possibilidade de exergarmos que, em muitos casos, as formas de violência mudam, mas o fato persiste. Vinhos velhos em novas garrafas...

Quando teremos o prazer de publicar alguns dados sobre seus estudos sobre violência aqui no Cazzo?

Ester disse...

Eita Ana, lembrei justamente de vc e essa sua observação/exemplo ao ler o texto!

Ana Paula disse...

Quando eu (re)começar a escrever, nem se preocupe, mando alguma coisa pra vocês. Adoraria ouvir seus comentários. No momento, tô revendo tudo, aproveitando o luxo que é poder para estudar e entender melhor as coisas...

gabriel disse...

Cynthia,

Passei aqui para juntar-me ao coro: um texto instigante e corajoso sobre um tema dos mais complicados. Concordo com a tese de que a via média que buscamos é a de um universalismo, mas um universalismo contextualmente informado e que não dê a si próprio uma vida fácil, incorporando a “técnica mental” relativista como um indispensável regulador ou momento (com o perdão da hegelianice) dos seus juízos ético-políticos. Parabéns pelo ótimo post (mais um!).

verí disse...

uau...

mutchas cositas a se pensar...
mas, sem retirar a validade de toda a complexificação analítica da situação, me lembrei da biografia de Ayaan Ali. e pensei na repulsa do jonatas ao ver (ou não ver) o vídeo.
tenho a impressão de que o nosso medo de etnocentrizar as coisas está nos tornando meio "educadinhos” demais, quase medrosos. Mornos diante de coisas que pedem posturas enfáticas.
O fato é que eu não tenho muita certeza de que escutar a versão desta galera que (apóia ou compreende ou relativiza) a validade da circuncisão mudaria algo em mim acerca da cretinice que ela me parece. Andamos com muito medo de radicalizar, temendo que nos tornemos intolerantes e propagadores de ódio cultural.
Mas eu creio na validade de certos radicalismos. Até mesmo, admiro certos radicais. (da mesma forma que também odeeeeio tantos outros).
Pensando que o conceito de Benhabib de “igualdade pela diferença” é a forma mais pragmática e aplicável de um universalismo saudável, penso que temos direito de não endossar nada que nos pareça desumano, nem mesmo escutando as supostas motivações que conduzem a isso. Por outro lado, se alguém quiser fazê-lo, por mim, tudo bem.
Assim, na minha cabecinha medíocre, corroborando com Ayaan (ela própria, circuncisada), esse tipo de prática não merece nenhum tipo de tentativa de explicação. Ela é criminosa, cruel e algumas vezes fatal. Algo que deve ser plenamente criminalizado e suprimido. E eu me dou o direito de radicalizar diante daquilo que me parece desumano. Não vejo possibilidade de diálogo. Entretanto, meu radicalismo jamais dará margem à qualquer tipo de violência como forma de punição. Abomino todas as formas de violência, mas se proibir tal prática é entendido como exercer violência cultural, me descubro uma violentadora.
É isso. Espero ter me feito entender e não ser execrada pela comunidade mais educadinha.

Cynthia disse...

Oi, Gabriel,

Como eu havia lhe dito por email, a publicação do seu post e esse que escrevi tinham como objetivo lançar algumas possibilidades de reflexão para um seminário na minha turma de fundamentos de sociologia. O objetivo do seminário era incorporar conceitos como culura, etnocentrismo e relativismo cultural em um debate sobre política social. Eu acho que o que deixa os alunos desse nível de ensino mais aflitos é o reconhecimento da dificuldade de uma proposta política universal quando se considera os diversos elementos de uma situação qualquer. Eu acho um exercício muito interessante para destruir as concepções simplistas e demonstrar a necessidade de uma argumentação bem construída.

No seminário em questão, os alunos chegaram ao conceito de "universalismo contextual" como solução para o problema da relação "universalismo/relativismo", mas era interessante perceber como os elementos universalistas ("vida", "liberdade" etc.) eram tomados de forma absoluta. Tornou-se óbvio que o problema era que, implicitamente, eles haviam estabelecido uma relação bastante rígida e automática entre universalismo/etnocentrismo e particularismo/relativismo. Não me restou outra saída que não "relativizar" o relativismo e expor a ideia de "universalismo contextual" como um oxímoro (da próxima vez, vou seguir seu exemplo e usar o termo "hegelianice" - haha!).

Não tenho certeza de que o problema ficou 100% claro, mas a julgar pelas expressões atônitas, creio que saíram da aula questionando suas certezas, o que é o primeiro passo para a construção do conhecimento.

Mais uma vez, obrigada por ter contribuído para o nosso debate. Espero que possamos contar com outras contribuições suas num futuro próximo.

Beijo.

Cynthia disse...

Verí,

Concordo com você em relação a diversos pontos, mas não acho que a ideia de diálogo e de compreensão implique a ideia de relativização. De um ponto de vista teórico-metodológico, a questão que me interessa é como o diálogo pode gerar entendimento sem, necessariamente, recorrer à tradição como elemento de validação (o que geraria o relativismo a que vc se refere). Neste sentido, concordo com a ideia Habermasiana de crítica da tradição, mas não com sua solução, que se baseia no estabelecimento de um consenso construído a partir de um diálogo que ocorre em uma situação ideal de fala.

Creio que o perigo de uma "fusão de horizontes" cuja validação depende exclusivamente do apoio na tradição está bem ilustrado na fala da Kavita Ramdas, no vídeo acima: coisas tão distintas como o uso da burca com fins estritamente estratégicos por parte de uma mulher jurada de morte pelo talibã é percebido como algo equivalente a um coral de mulheres lésbicas que recorrem a canções tradicionais da Bósnia e da Sérvia a fim de promover a integração entre tradições culturais que se colocaram de forma antagônica e beligerante nos conflitos dos Balcãs. Sem nenhum desrespeito ao trabalho dessas últimas, e reconhecendo o significado que "sair do armário" pode ter em um lugar como a Bósnia, simplesmente não dá para dizer que o uso que que se faz da tradição é equivalente nos dois casos. Em outros termos, a compreensão jamais pode envolver uma relativização que torne equivalentes coisas que não o são. Creio, neste sentido, que o relativismo deve estar a serviço da compreensão, mas não necessariamente o contrário.

Beijo.

Anônimo disse...

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