sábado, 30 de outubro de 2010

Viva Pedrinho, Narizinho, Emília e tia Nastácia


Sítio do Pica-Pau Amarelo, por Arthur Milan Parreira (aqui)

O Conselho Nacional de Educação considerou "racista" a obra Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, que poderá ser banida das escolas públicas brasileiras (veja post scriptum, abaixo). Talvez fosse uma boa ideia sugerir ao MEC que também banisse das universidades autores como Rousseau, Marx, Freud, Nietzsche, Durkheim, Gilberto Freyre (vai sobrar alguém?) - já que todos podem ser acusados de divulgar estereótipos do senso comum de sua época acerca de mulheres e minorias raciais e étnicas. Melhor: façamos como Rui Barbosa, que mandou queimar os documentos relativos à escravidão no Brasil. Aproveitemos o clima das eleições e façamos uma grande fogueira santa, no melhor estilo inquisitorial. Alternativamente, façamos como o Careca e apelemos para o Gilberto Gil.

Cynthia

Li na Folha e na coluna do Marcos Guterman no Estadão que o Conselho Nacional de Educação recomendou que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído a escolas públicas ou, se for, que venha acompanhado de um aviso de que se trata de obra “racista".

Pô, que sacanagem. Gilberto Gil, que foi Ministro da Cultura e não pode ser chamado de racista por nenhum burocrata idiota, bem que poderia vir a público passar um pito nos caras que fizeram essa recomendação. No mínimo porque cantou o Sítio do Picapau Amarelo para mim e toda a meninada dos anos setenta.


As bobagens do correção política começam a chegar nas prateleiras dos já escassos clássicos brasileiros com as já conhecidas excelentes intenções que levam ao exílio de títulos e depois à queima de livros em praças públicas. Nessa toada, "A Moreninha" terá de trocar de nome para "A levemente bronzeada" só para não ferir nenhuma suscetibilidade. A Escrava Isaura não poderá ser mais implacavelmente perseguida por aquele ator da Globo, o Rubens de Falco, e sumirá das prateleiras por evocar a imagem da Lucélia Santos, ao invés de alguma outra branquela menos estrábica. Desconfio que Guimarães Rosa também será gravemente atingido pela onda politicamente correta, afinal de contas o grande drama das veredas de Riobaldo é amar Diadorim sem saber que ela finge que é homem só para poder andar junto com a jagunçada, matar Hermógenes e vingar o pai. "Riobaldo pensa que é gay e não existe nenhum problema nisso", alguém ainda vai alegar, antes que o livro seja qualificado de homofóbico e de apologia ao chapéu de couro.


Mas é no campo da música que estaremos fritos. Marchinhas de Carnaval terão versos inteiros substituídos. Ninguém mais vai poder cantar que o cabelo da afrodescendente não nega que ela procede do outro continente. Estrofes dos axés bahianos dos anos 80 serão banidos das discotecas. Não será possível dizer olha a afrodescendente do cabelo "hard", que não gosta de pentear, quando passa na boca do tubo, o grande afro-brasileiro começa a gritar, pega ela aí, pega ela aí, pra quê, pra passar batom, de que cor, de violeta, na boca e na boca do céu...


E sobretudo, ficaremos sem escutar aquele clássico dos clássicos, do tempo da lambada, que começava assim: tem, tem, tem, tem dois neguinho, tem, tem, tem, tem dois neguinho, um morava na Jamaica, outro mora no Brasil, um chamava Bob Marley, outro é Gilberto Gil...




Post Scriptum, em 31/10/2010:

Como diz o Mia Couto, “meia culpa, meia máxima culpa”: contrariamente ao que ajudei a divulgar aqui, a estória não é bem assim. O documento redigido pelo Conselho Nacional de Educação emite parecer sobre denúncia efetuada por Antônio Gomes Costa Neto “no sentido de se abster a Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal de utilizar livros, material didático ou qualquer outra forma de expressão que, em tese, contenham expressões de prática de racismo cultural, institucional ou individual na Educação Básica e na Educação Superior do Distrito Federal”. O parecer, que aguarda homologação, considera que a denúncia está em consonância com os critérios de seleção do próprio MEC para as obras que deverão compor os acervos das escolas e que se baseiam na “qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo”. Com base nisso o CNE, propõe as seguintes ações:
a) a necessária indução de política pública pelo Governo do Distrito Federal junto às instituições do ensino superior – e aqui acrescenta-se, também, de Educação Básica – com vistas a formar professores que sejam capazes de lidar pedagogicamente e criticamente com o tipo de situação narrada pelo requerente, a saber, obras consideradas clássicas presentes na biblioteca das escolas que apresentem estereótipos raciais. Nesse caso, serão sujeitos dessas políticas não só os docentes da rede pública de ensino, mas, também, aqueles que atuam na rede particular. (…)
b) cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor;
c) caso algumas das obras selecionadas pelos especialistas, e que componham o acervo do PNBE, ainda apresentem preconceitos e estereótipos, tais como aqueles que foram denunciados pelo Sr. Antônio Gomes Costa Neto e pela Ouvidoria da SEPPIR, a Coordenação-Geral de Material Didático e a Secretaria de Educação Básica do MEC deverão exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante. (…)

Justíssimo. E obrigada ao Joselito, por ter enviado o link para o site do Sérgio Leo, e ao próprio, por ter tido mais juízo do que eu e desconfiado da notícia.

Cynthia

14 comentários:

Artur disse...

Muito bons os comentários. O politicamente correto, essa forma de puritanismo, ainda dará muito trabalho.

Le Cazzo disse...

E depois, acerca de toda a obra do Sítio, é bom não esquecer que Narizinho e Pedrinho cheiravam o pó de pirlimpimpim. Depois entravam naquela viagem, em que sabugo é sábio, boneca de pano é fala, a Grécia Clássica é revisitada etc. etc. Sério, podem reler no original, o tal pó é inalado. Eu acho que a obra deveria ser queimada em praça pública por estimular o consumo de drogas e o nome Monteiro Lobato apagado dos arquivos da literatura brasileira. Jonatas

Le Cazzo disse...

E é bom não esquecer do nome escandaloso que esse tal Sítio tem... Jonatas

joselito disse...

Outro ponto de vista:

http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2010/10/o-racismo-de-monteiro-lobato-e-o-primarismo-dos-fas.html

joselito disse...

The 'politically correct' controversy

http://pubs.socialistreviewindex.org.uk/isj61/molyneux.htm

Le Cazzo disse...

Joselito,

Que bom ler o seu ponto de vista, bem, o ponto de vista de Leo que, talvez, você compartilhe.

Vamos então, pelo que entendi, concordar a respeito de algo. Racismo é algo terrível e deve ser sempre objeto de crítica e de questionamento: como é que isso se torna possível? Em que contexto faz sentido? E aí podemos amadurecer acerca, não do racismo lá, no outro, mas do racismo, do preconceito, em nós próprios. E é sempre preciso enfrentá-los para amadurecer.

Lembro-me de um amigo com quem dividi escritório durante o doutorado. Tornamo-nos amigos apesar do começo desastrado de nossa relação. Em um seminário coordenado pelo meu orientador e que versava sobre alteridade, meu amigo chegou a um momento de auto-crítica radical, com uma honestidade que me cativou. Lembro de ele ter dito em sala de aula: "Veja, sou gay e vejo diante de mim esse sul-americano que vem de uma cultura que aprendi como sendo machista, homofóbica, intolerante. Mas talvez ele não seja o filho da puta que eu espero que ele seja". Momento de tensão que se seguiu a uma gargalhada minha. Não me lembro de um exercício de auto-crítica tão fulminante, tão belo em sua falta de jeito. Tornamo-nos amigos.

Preconceito não é para ser escondido como um tabu. É para ser exposto, entendido e criticado. E é preciso que nossos filhos (talvez você ainda não os tenha) leiam Lobato e aprendam que o melhor pode conviver com o precário, com o condeável; que um grande sujeito como o meu grande amigo Mcghee pode ser vítima de preconceitos acerca de latino americanos, afrodescendentes, como eu e ser capaz de aprender. O verdadeiro processo de educação é aquele que não tolhe o erro, mas aprende a compreendê-lo para dele retirar o acerto. Acho isso. E, por isso, acho esse negócio de censurar, rotular, colocar selos de radiotividade em Lobato uma atitude obscurantista. Jonatas

Cynthia disse...

Caro Joselito,

interessantes os links que você enviou. E concordo com o Sérgio Léo quando ele diz que ler livros (como os de Lobato) "sem cuidado é perpetuar preconceitos do século passado". Eu iria ainda mais longe, e diria que lê-los sem cuidado é perpetuar preconceitos do presente. Mas uma boa leitura se faz a partir da contextualização histórica da obra, feita a partir de elementos do presente. Essa é a lição mais elementar da hermenêutica.

Mas não concordo que "expurgar o racismo dos livros não os compromete na essência". Literatura não é somente entretenimento, mas algo que deve nos confrontar com outros contextos, até para que possamos enxergar melhor o nosso. Alterar os clássicos ou, pior, baní-los, é impossibilitar a compreensão de como chegamos até aqui.

Sou uma defensora ardorosa de uma linguagem inclusiva e, neste sentido, de um certo grau de correção política. Faço isso em todos os meus livros e artigos e vivo chamando atenção para o uso do termo "homem" em lugar de ser humano em sala de aula. Acho que, como educadora, tenho a obrigação de chamar atenção para as desigualdades que estruturam nossa linguagem, e vice-versa - e isso às vezes envolve o uso de termos constantes do index prohibitorum da cartilha do PC radical.

Que o MEC insista na contextualização da obra. Mas num país em que os professores fossem melhor formados, isso nem deveria ser digno de menção.

Cynthia disse...

Eita, nem tinha visto o comentário de Jonatas. Mas concordo em gênero, número e grau.

Rafael disse...

Debate complexo que gera muito pano pra manga. Acredito que o grande dilema do politicamente correto é como jogar a agua de banho fora, sem a criança ir junto. Esse caso do Lobato exemplifica bem isso. Li o texto do Sergio Leo e achei interessante e pelo o que entendi ele fala justamente de ler a obra levando em conta o contexto da obra. A grande pergunta é: como fazer uma contextualização sócio-histórica para uma criança de 7 anos que está aprendendo a ler? Então nao acredito que se deva excluir as obras do Sítio do Pica Pau Amarelo, mas sim saber como e quando introduzir os livros na educação escolar.

Le Cazzo disse...

Li com minha filha uma ou duas obras de Monteiro Lobato quando ela tinha sete ou oito - Reinações de Narizinho, acho, e outra coisa que não me lembro. Acho totalmente possível discutir conteúdos da obra nessa idade, mesmo antes disso. Contar, ou ler uma estória em conjunto com uma criança pode passar por uma conversa, perguntas após trechos como: "Mentira de Narizinho! Essa negra não é fada nenhuma, nem nunca foi branca. nasceu preta e ainda mais preta há de morrer", citado por Sergio Leo em seu blog. Assim: "O que você acha disso? Fadas podem ser negras? E a fadinha de Sandrina (minha filha era muito amiga de duas menininhas do Burundi), que cor ela deve ter? Como será que eles chamam fadinha lá no Borundi? Ah, não, Emília está errada etc. etc." E nada impede de comentarmos a historicidade da obra também. Crianças são muito espertas, não as subestime. Mas tudo isso implica que professores, professoras, pais e mães devam estar atentos, discutindo o que as suas crianças lêem. O grande lance da educação não é esconder, evitar temas problemáticos (eles aparecem inevitavelmente numa sociedade injusta, preconceituosa como a nossa), mas educar e fortalecer as crianças para que elas saibam enfrentá-los quando eles surgirem. Bom, é claro também que certas leituras não valem a pena, mas não creio que isso seja o caso de Lobato. Jonatas

Cynthia disse...

Vi hoje pela manhã que tem novo post sobre o assunto no site do Sérgio Léo (aliás, ótimo site!). O parecer do MEC, ao que tudo indica, insiste na contextualização da obra. Cito um trecho que achei relevante, retirado do site do próprio Sérgio Léo (desculpem, mas estou sem tempo de ir atrás do documento original ou de fazer uma análise detalhada do mesmo):

b) cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor;
c) caso algumas das obras selecionadas pelos especialistas, e que componham o acervo do PNBE, ainda apresentem preconceitos e estereótipos, tais como aqueles que foram denunciados pelo Sr. Antônio Gomes Costa Neto e pela Ouvidoria da SEPPIR, a Coordenação-Geral de Material Didático e a Secretaria de Educação Básica do MEC deverão exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante."

Acho bastante razoável uma apresentação que envolva esse tipo de referência e que é bem diferente de se banir a obra ou de simplesmente rotulá-la de racista.

Depois altero o texto do post.

Artur disse...

Incrível, a notícia sobre a obra de Monteiro Lobato foi dada da seguinte forma (jornalismo profissional):

RIO - O livro "Caçadas de Pedrinho" de Monteiro Lobato, um dos maiores autores de literatura infantil, pode ser barrado nas escolas públicas. Segundo o parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) a obra é racista. A alegação foi aprovada por unanimidade pela Câmara de Educação Básica do CNE e foi feito a partir de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. O parecer do CNE será avaliado pela Secretaria de Educação Básica e a decisão final cabe ao Ministério da Educação (MEC). O livro já foi distribuído pelo próprio MEC a colégios de ensino fundamental pelo Programa Nacional de Biblioteca na Escola (PNBE).

Ainda bem que um jornalista profissional, como Sérgio L., corrigiu a notícia. A discussão, assim, passa a ser outra.

Cynthia disse...

É, eu também vi essa notícia, Arture. E acho que o Careca também. Realmente, a discussão é outra...

Anônimo disse...

Bem, fazia tempos que não lia o blog. Chamou-me atenção os comentários, da discussão já passada e um tanto quanto "fria", mas permitam-me requentá-la.
Creio que o foco do MEC, como em muitos outros casos, está equivocado. De fato, a questão do livro didático (paradidático no caso) é fundamental. Para quem não conhece de perto a realidade da escola pública, como aluno, professor, formador de professores enfim, não tem uma ideia precisa do locus que o livro ocupa nestes espaços.
São colocados por vezes como biblias, os professores e professoras se agarram a eles como se ali houvesse "a verdade", e a prática destes docentes é a sua utilização sem a devida apropriação crítica. Quando falamos de escolas privadas o livro é "a verdade" que além do mais deve ser bebida até a última gota.
Bem, lembrada a "fala" de Cynthia sobre a hermenêutica, ainda que a maior parte dos docentes do país desconheçam o significado da palavra.
Creio que o foco deva se voltar justamente para o processo formativo do professor. Professores mal formados, sem atualização teórica e pedagógica, com baixos salários (sim, as condições materias de existência), se sentem pouco habilitados para tal contextualização. Certa vez fui para um evento numa escola pública, discutindo a questão do ensino de história e culturas africanas no Brasil, fui indagado acerca da razão de se discutir tal temática "afinal não há racismo no Brasil", foi o que ouvi.
O foco do MEC é sempre o caminho mais curto, um aviso, uma advertência, uma proibição, o que seja, menos investir onde deveria ser investido. Não nego com isso os avanços, mas chamo a atenção para o que devemos realmente discutir.
Este processo formativo perpassa não apenas uma boa universidade, bons docentes, boa bibliotca, mas também elementos mais subjetivos, como o fato de que os cursos precisam se pensar como cursos de formação de professores, o que é raro no caso das graduações em ciências sociais, era o que outro dia estava discutindo com a Anita Handfas via e-mail.
Cursos que não se pensam como cursos de formação de professores (inclusive seus bachareis, já que 90% das pesquisas no Brasil são ralizadas em universidades), terã sempre esta barreira a romper, pois a forma como nos pensamos reflete na forma como olhamos para o mundo. Nós cientistas sociais sabemos bem disso, pois creio que todos após mergulharem no universo da SOCIOLOGIA, ANTROPOLOGIA e POLÍTICA somos INCAPAZES de enxergar o mundo da mesma forma.

Amurabi Oliveira