quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os livros que Habermas não escreveu



Frédéric Vandenberghe (tradução de Cynthia Hamlin)

Ano passado, no dia 28 de junho, Jürgen Habermas celebrou seu octagésimo aniversário. Seu editor em Frankfurt aproveitou a ocasião para publicar uma edição para estudantes de seus textos filosóficos, em uma caixa com cinco volumes (Habermas, J. (2009) Philosophische Texte. Studienausgabe in fünf Bänden. Frankfurt am Main: Suhrkamp). Cada um dos volumes contém uma introdução que justifica e contextualiza a seleção das cerca de 1.600 páginas que compõem a vasta obra. Em um curto prefácio geral à coleção, o autor enfatiza que os 36 artigos não constituem uma coletânea de suas obras completas. Em vez disso, trata-se de uma seleção temática e sistemática que substitui uma série de livros, que ele não escreveu, acerca de temas importantes como os fundamentos filosóficos da sociologia, a pragmática universal, a teoria da linguagem e da racionalidade, a ética do discurso, a filosofia política ou o pensamento posmetafísico. A seleção, efetuada pelo próprio Habermas, revela aquilo que ele considera como sua contribuição à tradição filosófica do século XX. À exceção de um único texto, todos são posteriores ao seu rompimento com a filosofia do sujeito. Na medida em que não há textos dos anos sessenta ou setenta, parece evidente que o sucessor de Horkheimer quer ser lembrado não tanto por continuar (ou descontinuar) a Escola de Frankfurt, mas por sua contribuição à “virada linguistica”, na verdade, uma virada para a ação simbolicamente mediada e para uma teoria do discurso acerca da sociedade, da ética, do direito e da política.

Uma rápida olhadela no índice do livro é suficiente para se perceber o escopo de seus interesses, assim como o fio condutor que lhes confere uma unidade sistemática. O primeiro volume contém ensaios na fronteira da sociologia e da filosofia que buscam esclarecer os fundamentos filosóficos da teoria da ação comunicativa. Enquanto este reúne um número significativo de textos sobre linguagem, comunicação e a coordenação da ação, o mundo da vida e o sistema, racionalização e modernização que preparam, anunciam e acompanham a publicação da TAC em 1981, os próximos três volumes se afastam da sociologia e da ação comunicativa em direção à filosofia e ao discurso. De uma forma ou de outra, todos os três exploram o papel do discurso e do consenso para a fundamentação discursiva das pretensões de validade dos enunciados. O segundo volume contém artigos anteriormente publicados sobre a teoria da verdade como consenso, o terceiro, sobre a ética do discurso e, o quarto, sobre teoria do direito e democracia. O quinto volume é o único que contém artigos inéditos. Defendendo um conceito fraco de filosofia, foca na relação entre filosofia, ciência e religião.

5 comentários:

Bruno disse...

Cinthia tais on-line? Eu ENTENDI TUDO TUDO, so não consigo concatenar as idéias! Não sei por onde começar! Se é pela distinção realizada entre os metodo concebidos pela ciencias naturais ou sociais! Ou pela independencia da primeira quanto a filosofia, vista essa como uma ajudante de obra diante da idéia de wittgesteins de que a linguagem é o meio pelo qual se concebe a idéia e a idéia é o significado ou a regra pelo qual intermedia a ação social. Que compreender não é ter uma experiência e tampouco qualquer coisa que aconteça na mente do ouvinte, mas uma capacidade manifesta no modo como ouvinte reage ao que foi dito. Onde mudando regras, muda-se os pontos de vistas... Das regras estabelecidas em um determinado contexto... "Compreendi" de forma muito etérea, é possivel algum sinal ai do outro lado? Aqui quem fala é Bruno Mesquita!

Cynthia disse...

Oi, Bruno,

Te respondo por e-mail, ok?

Abç

Cynthia disse...

Ooops! Acabo de me dar conta que não tenho seu email. Se precisar, mande uma mensagem.

Tâmara disse...

Bom demais esse texto de Vandenberghe. Faz realmente um état des lieux do pensamento de Habermas. Eu tenho o maior respeito do mundo por Habermas, embora não dissesse que ele seja o maior filo'sofo do século XX (de qualquer forma, eu nunca sei dizer o que é maior em nada; deve ser porque sou pequeninha...).
Apesar do respeito e se eu entendi razoavelmente o texto, tendo a ir mais longe na sugestão de Vandenberghe sobre o estabelecimento de um tribunal da razão sobre o mundo da vida, logo que Habermas se desloca de uma teoria da sociedade para uma teoria da verdade via discurso. Melhor dizendo, eu sempre tendo a achar que, ja' em sua teoria da sociedade pela mediação da comunicação, Habermas opera um tribunal da razão sobre o mundo da vida. Isso por causa da distinção entre este u'ltimo e sistemas: o poder e o dinheiro são analisados como sistêmicos, enquanto o mundo da vida é analisado interativamente. Fica assim a impressão de que poder e dinheiro (interesses) não são mediações potenciais do mundo da vida - são apenas exterioridades colonizadoras. No mundo da vida, o que seria intri'nseco é o consenso, a solidariedade. Como disse mais ou menos Reiner Rochlitz, viria dai' a possibilidade de criticar Habermas com seu pro'prio veneno contra Rawls, ou seja, o de uma "aposta na razão". Ainda partindo de Rochlitz, diria que a complementaridade entre sociologia e filosofia, no pensamento de Habermas, foi afastando-se cada vez mais da idéia de uso filoso'fico do estudo de interesses empiricamente verifica'veis, em favor do pro'prio conceito de interesse.
Mas é verdade que eu li Direito e Democracia antes de ler Teoria da Ação Comunicativa e que isso pode ter mediado minha compreensão sobre as relações habermasianas entre filosofia e sociologia...

João Carlos Correia disse...

O Post de Tâmara resumiu muio bem o problema focado sobre a obra de Habermas: a essencialização do mundo da vida como se este fosse imune a elementos sistémicos a fim de undamentar duas formas de racionalidade : instrumental (sistemas), comunicacional ( mundo da vida).