domingo, 27 de março de 2011

Fabiana Quem???

Estou aqui roubando tempo de um artigo que preciso terminar porque estou com a séria impressão de que meu cérebro travou. Sabe essas travadas que não só fazem com que a gente fique horas olhando para uma página em branco que se recusa a cooperar, mas que impedem a compreensão das coisas mais simples do cotidiano? Pois resolvi tomar uma atitude e, já que não posso pedir ajuda para terminar meu artigo, peço ajuda para entender o que diabos se passou na cabeça do pessoal da Reitoria da UFPE quando teve a ideia abaixo:



Sinceramente, não bastassem as singelíssimas "homenagens" que ajudam a reproduzir os estereótipos de feminilidade mais infames, agora, dentro da academia, financiado com dinheiro público, somos homenageadas com o que tem tudo para ser um monólogo intelectual de altíssimo nível por alguém cujas credenciais são definidas pela própria reitoria como "atriz da globo". Nada contra Fabiana Carla, que deve ser super gente-boa. Mas, convenhamos, não se trata de nenhuma Simone de Beauvoir para merecer um lugar exclusivo num ambiente que deveria se orientar por debates intelectuais que promovam a articulação entre Universidade e sociedade. Cadê as representantes da Universidade? Cadê o debate? Será que a Progepe, incidentemente, gerida por uma mulher, não consegue pensar em uma programação que traga ao menos algumas das questões relevantes que vêm sendo debatidas pelas intelectuais da UFPE? 

Juro que tenho o maior orgulho da Universidade onde trabalho, mas essa foi de dar vergonha alheia. 

Cynthia




quarta-feira, 23 de março de 2011

Egoísta


Por Fernando da Mota Lima

Durante muito tempo subestimei a centralidade do egoísmo na organização  biopsíquica do ser humano. Esse é um fato correntemente reprimido na noção que temos do que somos e de como nos relacionamos com o outro, assim como com a realidade em geral. Formado dentro da tradição cristã em cujas raízes pulsa um humanismo sentimental e idealizador da natureza humana, cresci embalado pela crença na minha própria bondade. Por extensão, também na bondade do meu semelhante. Sei que simplifico a representação da natureza humana dentro da tradição cristã, pois não esqueço de que ela convive com uma representação também negativa e falível do ser humano. Medindo-me bem melhor do que de fato era, expressava inconscientemente meu narcisismo, além de um desejo de ilusão que anulava ou coloria a percepção rotineira de nosso egoísmo impregnado de maldade.
Essa representação  da natureza humana é patente na nossa idealização da infância, no mito baseado na pureza e inocência da criança. Ora, a observação mais elementar demonstra precisamente o contrário. É impressionante nossa cegueira diante da maldade que tão corriqueira e espontaneamente se manifesta no comportamento da criança. Bastaria observar, por exemplo, o que acontece em qualquer família de filho único quando nasce um segundo, isto é, um competidor do amor e atenção até então absolutos desfrutados pelo primogênito, até então rei ou rainha do lar. Além de observar essa realidade rotineira em muitas famílias depois que lavei os olhos da minha percepção ingênua, tolhida pela necessidade de idealizar a infância, acrescentei a essa matéria empírica relatos de amigas que me esclareceram sobre o egoísmo cruel desfechado contra a irmã que vinha ao mundo para subtrair-lhes a condição de rainha do lar, objeto absoluto do amor dos pais.
Conto uma que vale por muitas. Minha amiga, hoje médica e filha de uma psicanalista, também minha amiga, contou-me esta história exemplar que acabou convertida em brincadeira muitas vezes repetida no nosso convívio prazeroso. Era filha única quando, aos 3 anos, nasceu não apenas uma, mas duas gêmeas. Destronada, começou a hostilizar as irmãs recém-nascidas. Um dia a mãe, ocupada em amamentar as gêmeas, tentava conter seus ciúmes, seu desejo imperioso de amor exclusivo advertindo-a para o fato de que, privadas de amamentação, as gêmeas morreriam. “Ah, é, mãe? Então não amamenta não”.
Isso rendeu-nos bom motivos de gargalhada, um riso então esclarecido pelo egoísmo competitivo que se manifesta já na origem da nossa vida. Mas quantos pais e adultos não continuam testemunhando histórias desse tipo com a inocência cega ou a inconsciência passiva dos que se deliciam pontuando complacentemente: “como minha filha é engraçada, como as crianças são deliciosamente inocentes”. Será isso pura e simples insciência do universo infantil ou sintoma do narcisismo que nos tolhe a percepção realista e desilusória da nossa natureza?  
Também a observação de grupos de crianças, do modo como convivem na família, na escola, nas brincadeiras e projeções do seu imaginário infantil, são reveladores da nossa poderosa disposição para o mal já pronunciada na infância. Bertrand Russell foi um filósofo racionalista de extraordinária lucidez. No entanto, só muito tardiamente se apercebeu desses traços do nosso egoísmo votado ao mal, à competição e fantasias de destruição do outro. Já por volta dos 50 anos, fundou com Dora Russell, sua segunda mulher, uma escola pioneira na Inglaterra. O propósito de ambos era instituir uma educação libertária inspirada em modelos educacionais supostamente científicos que marchavam, em síntese, contra a tradição vitoriana asperamente repressiva. Quando no entanto se deu conta de que os “anjinhos” aos quais aspirava converter em seres saudáveis e liberados de padrões repressivos tendentes apenas a produzir o mal eram capazes de misturar alfinetes à sopa dos coleguinhas à hora da refeição, precisou revisar toda sua concepção pedagógica.
Crianças são espontaneamente cruéis. São cruéis entre si, no convívio que travam tecido por brincadeiras de nítido fundo sado-masoquista. O bullying, palavra que designa um fenômeno psicossocial que ingressou no circuito da mídia de forma muito positiva, constitui evidência exemplar das nossas disposições agressivas. O romance O Senhor das Moscas (Lord of the Flies), de William Golding, retrata em clima de antiutopia imaginária o que seria uma sociedade composta por crianças isoladas numa ilha. Esta obra, e sei de muitas outras de sentido semelhante dentro da tradição literária e cinematográfica, desdobra-se no avesso de todas as idealizações da infância nutridas pela tradição religiosa, pedagógica, antes de tudo por nossa natureza narcisista.
É também oportuno mencionar duas teorias que muito concorreram para reforçar nossa idealização da condição humana: o marxismo e o culturalismo que se tornou moeda corrente no discurso sobre o egoísmo e o mal nas nossas relações sociais. Segundo a primeira, de nítido viés historicista, não existe a natureza humana enquanto tal, mas apenas variantes humanas produzidas pelas condições materiais e históricas das relações humanas. É essa concepção que induz Marx, Engels e seus seguidores a projetarem num futuro incerto a sociedade ideal, um ideal de humanidade reconciliada segundo o qual transitaríamos do reino da necessidade para o reino da liberdade. Nesse ideal paradisíaco, transposto do céu para a terra, seriam abolidas as classes sociais e portanto todas as manifestações da opressão e do mal decorrentes da injusta e cruel divisão da humanidade entre senhores e escravos, entre capitalistas e proletários e variantes antagônicas equivalentes. Logo, a representação do mal e da injustiça como constitutivos da nossa condição humana não passaria de metafísica ou justificação ideológica da desigualdade e da opressão de classe.
Quanto à segunda, o culturalismo, postula a cultura como fundamento último da nossa natureza mutável na medida em que mudam as culturas. Seguindo coerentemente esse princípio, todo mal, toda injustiça, tudo  que há de negativo no ser humano seria atribuível às condições da cultura. Esse culturalismo, quando progressista, postula a mudança cultural como meio eficaz de transformação positiva das relações humanas; quando conservador, opõe-se veementemente à mudança cultural encarando-a sempre como uma ameaça às constantes humanas, à identidade de um determinado grupo ou sociedade.
O que ambas teorias, a marxista e a culturalista, compartilham é a convicção de que não existem constantes humanas  também decorrentes da nossa natureza biológica. Claro que a inversão de ambas, substituídas por uma concepção puramente biológica, incorre no mesmo excesso teórico determinado por um princípio monista ou absoluto. Num extremo teríamos o historicismo econômico-social ou cultural; noutro, o extremismo biológico. Ora, acredito que a verdade não radica nem num extremo nem no outro. A verdade é que nossa natureza humana resulta da articulação complexa entre natureza e cultura. Noutros termos, nem somos determinados pelas condições materiais da nossa existência social, postulado do marxismo, nem pelas condições culturais, postulado do culturalismo, tanto o de corte progressista quanto o conservador. Por fim, também não somos redutíveis à nossa natureza de fundo biológico.  A chave de tudo, que todavia não abre porta ideal nenhuma, consiste na complexa interação dos fatores naturais com os culturais. Dentro dessa moldura teórica, acredito que temos alcançado realizar em graus variáveis estados mais ou menos imperfeitos de organização humana. Solução última, sonho de todo utopista, isso não existe.  
Seria também preciso frisar que há certa sabedoria no nosso egoísmo, ou pelo menos inconsciente dispositivo de autossobrevivência. Isto é, nosso egoísmo nos poupa do sofrimento decorrente da empatia e simples compaixão diante da miséria corrente do nosso semelhante. Como suportá-la se nossas forças altruístas, se nosso senso de compaixão nos inclinassem ativamente para a miséria alheia? Nosso sofrimento e nossa culpa seriam insuportáveis se verdadeiramente empatizássemos com a dor e o sofrimento que a todos os momentos irrompem à nossa volta. É talvez por isso, e nisso há algo de saudável força de preservação do nosso ego, que de ordinário sofremos apenas diante do sofrimento daqueles que amamos, sejam parentes, amigos, o cãozinho de estimação...
Novamente, a formulação acima não deve ser compreendida em termos absolutos. Embora movidos por nosso egoísmo espontâneo tendamos bem mais para o polo da sobrevivência e do interesse enraizado nas nossas disposições egoístas, quantos exemplos extraordinários e desconcertantes não temos de sacrifício, renúncia e empatia com a dor e a necessidade do outro humano? Que medida humana poderia afinal esgotar nossa humanidade inexplicável?
Salvador, 7 de fevereiro de 2011.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ressonâncias involuntárias do jasmim: movimentos no oriente médio como quadro de interpretação do ocidente e de um punhado de chineses



Tâmara de Oliveira

«Com que roupa eu vou/ao samba que você me convidou ?» Não conheço o professor Robert Brym, mas, lendo seu texto postado no Cazzo sobre os movimentos insurreicionais árabes que têm abalado gregos e troianos mundo a fora, comecei a cantorolar esse samba de Noel Rosa, como se Brym fosse um velho companheiro de cervejas sociológicas fazendo um convite tentador a uma amiga em plena crise hepática ! É verdade, caro cazziano, essas cervejas singulares, se consumidas excessivamente, provocam secreção demasiada de uma bílis simbólica, numa tentativa desesperada da imaginação sociológica para digerir excessos e conseguir uma interpretação validável (ou não) de fenômenos sociais. Deixando bem claro, minha crise hepático-sociológica não foi provocada pelo texto de Robert Brym. Pelo contrário, ele foi o detonador de minha lenta convalescência – ainda não concluída, previno ao leitor potencial. O problema é que eu já ando bebendo muita cerveja da sociologia dos movimentos sociais, embriagando-me com a profusão de conceitos e siglas em torno de suas dimensões simbólicas.

Por outro lado, estando num país (França) que colonizou e/ou mantém relações fortes e complicadíssimas com muitos dos países árabes em movimento, eu já andava tonta « de alegria e preguiça » de « ler tanta notícia » : Ben Ali (Babá) e seus quarenta ladrões caíram na Tunísia, levando consigo a ministra francesa das relações exteriores (a tal ministra teve a idéia genial de passar o natal em Túnis em plena insurreição, sem que se saiba direito quem pagou suas despesas, para fechar negócios familiares ilegais com um próximo do clã Ben Ali) ; o exército abandonou o presidente egípcio e o Maior Barraco do Mohammed Hosni teve seus dias contados ; a Líbia amanhece pegando fogo ; Yémen, Jordânia, Argélia, Marrocos e etc. também mobilizam-se contra seus regimes ; pequena aglomeração de chineses ( ?!) responde a um apelo internáutico de dissidentes afirmando que « a China também plecisa de uma levolução zasmim », mas são rapidamente desmobilizados pela polícia…

Minha cabeça ficava girando em torno dos conceitos, das notícias e das questões levantadas no texto, sem conseguir ir além de interrogações exclamativas : « primavera de Praga árabe » ?!; « revolução francesa do oriente médio » com un punhado de chineses no meio ?!; « twitter revolutions»?! Finalmente, retomei cuidadosamente o texto de Robert Brym, onde ele põe em questão a interpretação que mídias norte-americanas importantes estão dando das mobilizações nos países árabes, ao definirem esses fenômenos como « twitter revolutions », ou seja, como movimentos revolucionários propelidos pelas redes sociais da internet.

O fundamento de sua crítica sustenta-se num eminente representante da sociologia norte-americana dos movimentos sociais, D. McAdam – considerado fonte original da renovação teórica da sub-disciplina nos EUA, através de uma abordagem sintética e aberta à dimensão simbólica da ação coletiva protestatária ; essa teoria define-se como modelo do processo político integrado ou PPI:
(…), il propose un schéma qui, pour rendre compte de l’émergence d’un mouvement social, fait sa place aux processus macro-socioéconomiques, à l’expansion des opportunités politiques, à ce qu’il nomme la « force des organisations indigènes », mais aussi à un processus de « libération cognitive » décrit comme un intermédiaire nécessaire entre les variables structurelles – socioéconomiques, politiques et organisationnelles – et l’action (Contamin, 2010, pp. 60/61).
A evolução desse modelo teria se beneficiado inclusive da corrente européia chamada Novos Movimentos Sociais, em sua busca de como desigualdades estruturais são subjetivamente interiorizadas e podem tornar-se objeto de mobilizações concretas(Contamin, 2010, p. 57). Além disso, forjou o conceito de quadro (frame) como um dos instrumentos de apreensão e análise das representações construídas na dinâmica dos movimentos sociais :

On le doit initialement à Batson [1954] qui affirme que chaque interaction suppose de ceux qui y participent des « cadres interprétatifs » par lesquels ils définissent comment les actions et les paroles des autres doivent être comprises. Il est ensuite introduit en sociologie par Goffman pour rendre compte des « schémas d’interprétation » qui permettent à des individus de « localiser, percevoir, identifier et étiqueter » des événements dans leur espace quotidien et le monde en général, et qui contribuent à les guider dans leurs actions et dans leurs interactions [Goffman, 1991, p. 21]. Il est finalement importé dans un cadre macrosociologique, d’abord pour étudier les processus de cadrage médiatique [Tuchman, 1973], ensuite pour travailler plus spécifiquement sur la façon dons les médias « cadrent » les mouvements sociaux [Gitlin, 1980…] et, enfin, pour rendre compte de la manière dont les acteurs des mouvements sociaux eux-mêmes « cadrent » leurs propres activités [Gamson, Fireman, Rytina, 1982 ; Snow et al, 1986 ; Benford, Snow, 2000]. (Contamin, 2010, p. 57)
Referenciando-se explicitamente em McAdam, Robert Brym propõe que se considere as novas TICs como um fator adjuvante desses movimentos, enquanto instrumento de propagação das percepções dos atores sobre as condições estruturais e as possibilidades de ação, mas não como variável determinante de seu surgimento nem, sobretudo, de seu êxito. Segundo seu texto, são certas condições estruturais da vida – a pobreza, o desemprego e a mobilidade social descendente que caracterizam socioeconomicamente esses países – o que propaga esses movimentos. No que diz respeito especificamente à « liberação cognitiva » de que fala McAdam e que se refere aos quadros interpretativos das mobilizações, para Brym, mais determinantes são os laços sociais fortes e anteriores entre ativistas concretos e potenciais, já que a intensificação e o êxito de um movimento exigem sacrifícios dificilmente assumidos por pessoas cujos laços são fracos – como no caso do Twitter e similares. Reforçando seu argumento, Robert Brym coloca o exemplo do Facebook que, embora diferentemente do Twitter seja caracterizado por laços entre pessoas que já se conhecem, também não consegue ser um meio muito eficaz de intensificação de ações coletivas, se estas solicitam muito dos participantes.

Mas há uma articulação feita por Robert Brym entre os movimentos árabes e a historicidade dos movimentos sociais que parece-me ainda mais significativa para entender sua discordância para com a definição de « twitter revolutions ». Trata-se da aproximação entre os movimentos da classe trabalhadora no século XIX e o que acontece agora no oriente médio, ou seja, a relação entre o aumento da alfabetização de populações desfavorecidas objetiva e/ou simbolicamente e a maior circulação de idéias protestárias e reivindicativas, como fundamento do surgimento de movimentos sociais exitosos. Com efeito, embora os países árabes em movimento tenham diferenças importantes entre si, em geral eles são marcados pela crescente escolarização formal de uma juventude que sofre particularmente de desemprego estrutural e de relações de submissão clientelista para sobreviver sob regimes políticos autoritários, corruptos e/ou tribais, mas que se distancia da memória histórica do islã político fundamentalista.

Assim, citando membros das mesmas associações, cooperativas, fraternidades, dormitórios de colégio, igrejas, mesquitas e vizinhanças, como os verdadeiros sustentáculos dos movimentos em questão, Brym nos revela o que as mídias que ele critica dificulta enxergar : o mundo árabe não é o que, principalmente depois do 11 de Setembro, estamos acostumados a representar com o auxílio mais do que construtivo dessas mesmas mídias. Com efeito, se de uma hora para outra podemos nos surpreender com expressões como « revolução francesa » ou « primavera de Praga » do oriente médio, é porque estamos presos a representações sociais bem ancoradas que nos informam que o mundo árabe é um « outro essencial », um mundo anti-moderno e substancialmente produtor de terrorismo religioso fundamentalista. Em tal contexto simbólico, a realidade mesma dos movimentos árabes apresenta-se como problema para a estabilidade de nossa realidade social subjetiva (Berger/Luckmann, 1996). Como solucioná-lo ? Seguindo esses autores (Berger/Luckmann, 1996), logo que uma experiência contraria nossas definições habituais, um dos mecanismos simbólicos possíveis para estabilizar nossa realidade social subjetiva assim problematizada, é adaptar essas definições para incluir a experiência contrastante.

Apropriando-me de um trecho específico do texto de Brym [facts suggest that it was not American inventions (Twitter, Facebook, the Internet itself) that propelled the pro-democracy movement in the Middle East and North Africa], eu diria então que a definição “twitter revolutions” funciona perfeitamente como um mecanismo desse tipo. Melhor dizendo, ao sugerirem insistentemente que esses movimentos foram propalados por invenções norte-americanas (Twitter, Facebook e Internet em geral), ao nomearem esses fenômenos como “twitter revolutions”, as mídias postas em questão por Brym estariam incluindo a experiência dos movimentos insurreicionais árabes no que pode ser um elemento do núcleo central de suas representações (Abric, 1994) sobre a democracia: esta é uma propriedade ocidental, logo, não seriam as sociedades árabes que criariam demandas democráticas, mas a tecnologia ocidental que, globalizando-se, é potencialmente capaz de civilizar até terroristas barbudos filhos de Alá.
Confortadas subjetivamente com essa adaptação, essas mídias podem continuar deixando de lado, em sua definição, o que elas já costumavam deixar: o enfraquecimento de movimentos e organizações pró-democráticas no oriente médio nos anos 1970, o concomitante crescimento do fundamentalismo islâmico, assim como os regimes autoritários e corruputos sustentados aparentemente para combater esse fundamentalismo, são parte da dinâmica geopolítica desde a Guerra Fria e foram co-produzidos pelo ocidente-maravilha; o mundo árabe, como qualquer outro, também é dinâmico e atravessado por diversidade sócio-cultural, econômica e política e são essa diversidade e essa dinâmica que devem ser investigadas antes de tudo para se compreender os movimentos insurreicionais atuais. Eis, ao meu ver, a grande lição que o professor Brym nos dá, utilizando a contribuição do modelo do processo político integrado (PPI) para comentar a(s) revolução(s) do jasmim.

Esse modelo teórico é uma referência sine qua non para todos os que se consagram ao estudo das ações coletivas e movimentos sociais na contemporaneidade, mas não sem críticas. Autores franceses que eu costumo chamar de “mais ou menos bourdieusianos” por exemplo, criticam em geral a manutenção dos viéses estruturalista e estratégico-racionalista das teorias que deram base ao PPI. No que diz respeito particularmente aos instrumentos do PPI para a apreensão das representações sociais em jogo nas mobilizações e movimentos, ou seja, quanto à noção de quadros (frames) de interpretação, vejamos ainda o que diz J.-G. Contamin :
Ces critiques se concentrent sur le biais stratégiste de cette perspective et lui reprochent tout à la fois de sous-estimer, de surestimer et de mal estimer la capacité de réflexion des acteurs engagés. Il s’agit notamment de s’interroger sur le rapport entre processus de cadrage et idéologies, et sur les processus de réception, d’appropriation et d’alignement des cadres d’une mobilisation. (2010, p. 70)
Mas este não é o momento para discutir essas críticas. Prefiro então explorar livremente um termo recorrente do PPI, porque ele tem sido parte de minha reflexão sobre esses fenômenos. Esse termo é ressonância, concebe-se como condição de êxito de um movimento e refere-se à convergência entre as atividades militantes de enquadramento interpretativo (framing) da situação detonadora de um movimento e, o terreno cultural onde este acontece:
Elle depend d’abord de la crédibilité du cadrage auprès d’une population donnée (cohérence de celui-ci, crédibilité de ceux qui en sont les porteurs) et, ensuite, de la saillance des problèmes pris en compte, de leur proximité avec la vie quotidienne et de leur adéquation avec les mythes essentiels de la population-cible. (Contamin, 2010, p. 58)

Tentando concluir minha cerveja sociológica para além dos limites estruturalistas e, principalmente, estratégico-racionalistas que o modelo do processo político integrado parece manter, eu citaria duas ressonâncias involuntárias do jasmim em movimento. Por um lado, os movimentos nos países árabes ressoam velhas representações de um « outro oriental inferior e perigoso», reduzindo-os às potencialidades das novas tecnologias « ocidentais » de comunicação e informação (redução contra a qual Robert Brym se coloca em seu post).

Essas representações não são inocentes em seu « esquecimento » da história do mundo árabo-muçulmano, do papel fundamental desse mundo na conservação/transmissão do patrimônio filosófico grego, numa época em que a europa medieval comprazia-se em esconder, queimar, em suma reprimir a sobrevivência desse patrimônio que terminou transformando-se numa das bases da chamada civilização « ocidental » moderna. Em outras palavras, o « outro oriental », assim como « o outro » que foi colonizado e/ou escravizado nas Américas, África e Ásia, não são outros, não são exteriores ao processo civililizatório, mas parte integrante desse processo. E a persistência de esquemas de classificação que distinguem um « ocidente » do resto do mundo é uma das fontes da monstruosa e assustadora xenofobia que atualmente volta à ordem do dia em vários países europeus, como na França, onde enquetes, embora enviesadas e demasiadamente antecipadas, apresentaram a candidata à presidência da república do Front National (extrema direita) em primeiro lugar nas intenções de voto. Eis uma ressonância dolorosamente negativa desses fenômenos.

Por outro lado, vejam mais uma ressonância involuntária que me vem à cabeça : os países árabes em movimento ressoam certas condições sócio-econômicas e políticas que são globais e que podem dar luz ao punhado de chineses no meio do jasmim árabe, como indica o seguinte slogan proposto via Internet pelos chineses dissidentes vivendo no estrangeiro : « nós queremos trabalho, moradia e um sistema equitável ». Eis uma ressonância prazeirozamente positiva, embora suas consequências não possam ser previstas agora, que mantém a vontade de beber cervejas sociais e sociológicas.

BIBLIOGRAFIA

ABRIC, J.-C. Pratiques sociales et représentations. Paris : PUF, 1994.
BERGER, P./LUCKMANN, T. La construction sociale de la réalité. Paris : Masson/Armand Colin, 1996.
BRYM, R. « Twitter Revolutions ? ». Que cazzo é esse ?!!, 18 de fevereiro de 2011 [on ligne]. http://quecazzo.blogspot.com/
CONTAMIN, J.-G. « Carages et luttes de sens ». In : FILLIEULE, O. /AGRIKOLIANSKY, É . /SOMMIER, I. (orgs.). Penser les mouvements sociaux – conflits sociaus et contestations dans les sociétés contemporaines. Paris : La Découverte, 2010.
FILLIEULE, O. « Tombeau pur Charles Tilly ». In : FILLIEULE, O. /AGRIKOLIANSKY, É . /SOMMIER, I. (orgs.). Penser les mouvements sociaux – conflits sociaus et contestations dans les sociétés contemporaines. Paris : La Découverte, 2010.
NEVEU, E. Sociologie des mouvements sociaux. Paris : La Découverte, 2003.
VOEGTLI, M. “Quatre pattes oui, deux pattes, non! L’identité collective comme mode d’analyse des entreprises de mouvement social ». In : FILLIEULE, O. /AGRIKOLIANSKY, É . /SOMMIER, I. (orgs.). Penser les mouvements sociaux – conflits sociaus et contestations dans les sociétés contemporaines. Paris : La Découverte, 2010.

sábado, 5 de março de 2011

A controvérsia do Rei Momo e a paródia moderna dos corpos


Por Liana Lewis
Departamento de Ciências Sociais da UFPE

No período pré carnavalesco a Prefeitura da Cidade do Recife, em uma atitude inédita, modificou os critérios do concurso de Rei Momo e o resultado foi, para surpresa dos carnavalescos de plantão, e mesmo dos avessos a esta festa popular, um Rei Momo “sarado”. A Prefeitura tem sido acusada pela mídia de lipofobia e de findar, por decreto, uma tradição centenária das mais populares.

Nós poderíamos afirmar que a valorização da magreza e consequente desvalorização das pessoas gordas é resultado de um processo mais amplo de individualização do ser humano que vem ocorrendo desde o final da idade média. Naquela época, era valorizado, nos termos de Mikhail Bakhtin, um corpo aberto, poroso e relacional com o mundo e outros corpos. A nova ordem industrial precisava, para otimizar sua produção, de uma reestruturação do espaço de trabalho, bem como de corpos disciplinados e individualizados que se conformassem à arquitetura e jornada de trabalho das fábricas.

Obviamente que aqui não interessa mais um corpo lúdico e indisciplinado. O corpo começa a ser vigiado, punido e disciplinado através das instituições nascentes como prisões, escolas e asilos. Além de professores e moralistas, a figura do médico começa a ganhar destaque e, se antes a medicina operava como minimizadora da dor frente aos vários males, começa a ganhar o status de prolongador da vida. O corpo passa a ser escrutinizado cada vez mais detalhadamente pelo poder médico.

Ao longo da última década, além do desejo de perpetuação do corpo, temos assistido a uma circulação em escala global de imagens de corpos vendidos como modelos desejáveis. Começamos a testemunhar uma mercantilização sem precedentes de produtos de beleza, produtos da linha diet/light, próteses de silicone, empresas estéticas que prometem dentes e corpos perfeitos e programas de computador cada vez mais sofisticados cuja missão é erradicar marcas, saliências, manchas. Além de um corpo magro, apenas um corpo liso e isento das marcas do tempo, do próprio processo histórico do indivíduo, deve ser considerado.

É interessante observar que, no início da crise mundial, quando o futuro imediato do Brasil era bastante incerto, a indústria da beleza não apenas não foi afetada, como continuou crescendo a contento. Vale ainda ressaltar que não é qualquer corpo que está submetido aos rigores desta indústria, é o corpo feminino que historicamente é visto como coisa, como um objeto a ser manipulado, imaginado e transformado.

Ser gordo acaba se tornando um ato pecaminosos para algumas instituições e poderes como o médico, os meios de comunicação de massa, a indústria de cosméticos, parte da indústria alimentícia e, especialmente, para as mulheres de classe média, alvos privilegiados do controle de uma estética da modernidade. Estas mulheres, em especial, estão submetidas a técnicas cada vez mais minuciosas de escrutinamento de seus corpos como, por exemplo, balanças digitais que não apenas fornecem o peso como medida, mas a porcentagem de gordura, de músculo, etc.

Já o padrão estético da classe popular tem como ideal formas mais arredondadas, mais volumosas. É um corpo que foge à rígida disciplina que conforma os corpos das mulheres de classe média. Quando observamos os anúncios televisivos, revistas de fofoca e de saúde ou estética, são estes os corpos representados, e é sobretudo às mulheres que eles comunicam.

Quanto à decisão da Prefeitura, a figura do Rei Momo é proveniente da tradição popular, do corpo lúdico da idade média e vem sendo apropriada pelo poder público a partir de um gerenciamento, uma governança do carnaval. Acredito que a questão da obesidade, uma questão de saúde pública, teria muito mais a ver com um controle público de uma indústria alimentícia perversa que massifica exponencialmente alimentos pobres em valor nutritivo, barateando sua circulação. Já ficou provado, por exemplo, que o açúcar e a gordura trans, o tipo mais maléfico, leva à dependência. Por outro lado, somos um dos países mais ricos em possibilidade de produção de frutas, verduras e legumes e a produção destes alimentos vêm sendo cada vez mais solapada pelo agronegócio, que atende à demanda da exportação e utiliza produtos químicos os mais nocivos à saúde.

Em contraposição à governança do carnaval, foi produzido um concurso popular do Rei Momo, cujo vencedor foi o professor universitário Everson Melchiades Araújo Silva de 34 anos que pesa 116 Kg. A governança do poder público, além de ter se constituído em um ato de violência simbólica em relação à cultura popular, deveria lançar seu controle sobre as poderosas indústrias que invadem os corpos dos indivíduos com alimentos perversamente beneficiados, estes sim, inimigos atrozes da saúde pública, bem como da indústria da estética, que transforma corpos de mulheres saudáveis em uma paródia do humano.