domingo, 29 de maio de 2011

Lançamento de livro: Magistério Masculino: (re)despertar tardio da docência


Marcelo Miranda, doutorando do PPGS/UFPE, convida para lançamento de seu livro, Magistério Masculino.

Onde: Térreo da Livraria Cultura, Recife
Quando: terça-feira, 31 de maio, 19:00h

Parabéns, Marcelo!

domingo, 22 de maio de 2011

Sandra Harding, sobre objetividade forte e outros babados

Estamos discutindo o trabalho de Sandra Harding no Grupo de Epistemologia e Teoria Feminista. Conforme prometido em nossa última reunião, estou postando uma série de vídeos relativos a uma conferência proferida por ela em março último, na Universidade de Guelph. Infelizmente, não consegui encontrar o primeiro da série. Se alguém encontrar, por favor, coloque o link nos comentários.

Cynthia





terça-feira, 17 de maio de 2011

Hegel, os hegelianos e o Romantismo 6 (versão 0.1)



Retrato de um psiquiatra quando jovem Marx

Jonatas Ferreira

Feuerbach e Marx

Já tivemos a oportunidade de afirmar que, sendo eminentemente religiosa, a ideia de alienação, a ideia do ser humano estranhado de sua essência tem a marca do Romantismo. Isso não é de admirar dado o próprio sentido religioso que este movimento estético adquiriu na Alemanha do século XIX. Por isso mesmo, para Hegel, o cristianismo teria no Romantismo sua expressão artística paradigmática e vice-versa, a arte romântica era fundamentalmente cristã. A propósito, isso me faz lembrar, e esse talvez seja um bom exemplo, da fábula de Novalis, de seu pequeno romance que é Os Discípulos em Saís. Já contamos aqui no Cazzo a história de Hiacinto, este novo Adão, que, vivendo num paraíso terreno, decide empreender uma viagem para conhecer a deusa de Saís – aliás, recordemos que a deusa de Saís é ali associada a Ísis, capaz de refazer a inteireza do corpo desmembrado de seu marido, Osíris, assassinado por Seth. Depois de muitas andanças e sofrimentos, a deusa é finalmente revelada a Hiacinto. Há duas versões para este final na obra de Novalis: na primeira, Hiacinto descobre o seu próprio rosto ao levantar o véu da deusa; na segunda, ele descobre o rosto da amada que ele havia deixado para trás havia muito tempo.

Impossível não perceber os motivos religiosos naquele pequeno texto: há um primeiro momento em que o indivíduo está pleno, mas não se reconhece; um  segundo momento se segue, momento de queda e sofrimento; e , finalmente, um instante de reconciliação com a própria essência, de reconhecimento, de desalienação, se o barbarismo me for perdoado. Que, numa das versões, o  reconhecimento seja também um momento de amor, de abertura para a amada, é algo bastante relevante. Que a temporalidade aqui envolvida seja circular, como em inúmeros contos e romances românticos – em contraposição à linearidade do tempo industrial – também é um dado importante. Recordemos, a propósito, também dos contos de Tieck. No mais, parece claro o sentido religioso de procurar realizar o infinito no finito, como buscavam os românticos através de várias estratégias – falamos algo a esse respeito quando discorremos sobre Schelling e Fichte; também quando falamos da influência destes dois na ironia de Friedrich Schlegel.

Não é fortuito que parte da crítica que os jovens hegelianos fizeram ao mestre tenha sido de caráter religioso. McLellan comenta a esse respeito que o rigor da censura não deixava muitos outros espaços onde essa crítica pudesse ser realizada. Teóricos como David F. Strauss e Ludwing Feuerbach condenaram em Hegel a confusão entre filosofia e doutrina religiosa. Em A Vida de Jesus, Strauss já concluíra que a essência da religião cristã não era o seu valor simbólico, mas os “desejos do povo” que ela refletia (McLellan, 1969, p. 15). Ora, isso é um passo importante para a constituição de uma certa antropologia da religião que será a base da contribuição feuerbachiana, ou seja, esse gesto de buscar entender o fenômeno religioso não como produto de uma divindade, mas, pelo contrário, procurar entender o divino e o religioso como produção da vida coletiva, da vida humana. Feuerbach é aqui particularmente relevante pelo modo como, ao longo de sua vida acadêmica, se afasta e se aproxima de Hegel, por vezes num mesmo gesto. Tomemos sua tese de que a religião nada mais é do que a essência alienada do ser humano, e mais especificamente do ser humano em seu sentido coletivo, o ser humano como “ser da espécie”, como dirá mais tarde, sob sua influência direta, Marx. Sua solução para esse processo de estranhamento, embora marcada por um empirismo em tudo anti-dialético, é nitidamente hegeliana: pois é assim que entendo a ideia de realização do potencial divino da coletividade humana, e não simplesmente o repúdio, a negação da transcendência religiosa. A vida religiosa não é simplesmente um equívoco, mas a essência alienada do humano que ser realizada: a divindade é o nosso destino, o chamado vindo da plenitude de nossa essência. Assim, lemos em Princípios para uma Filosofia do Futuro:
“O mistério da teologia é a antropologia, mas o segredo da filosofia especulativa [ou seja, Hegel] é a teologia – a teologia especulativa que se distingue da teologia comum, porque se transpõe para o aquém, isto é, actualiza, determina e realiza a essência divina, que a outra leva para o além, por medo estupidez” (FEUERBACH, 2002, p. 19)
A argumentação feuerbachiana é sempre de um humanismo cristalino tanto em sua convicção quanto estilo. Marx, em seus primeiros escritos nem sempre consegue atingir essa qualidade, como o atesta a prosa demasiado rebuscada de Para a Questão Judaica ou da Crítica à Filosofia do Direito de Hegel. Os argumentos de Feuerbach, no que pese essa diferença de estilos, produzem um efeito evidente no jovem Marx. Para ambos, o segredo da especulação hegeliana é transformar atributos de sujeito em predicado e vice-versa. Mas o que isso quer dizer? O ser humano é o sujeito da história e suas são qualidades tais como, capacidade de criar, bondade, amor. O divino é apenas um predicado, uma produção histórica do ser humano quando este encontra-se alienado de sua essência, de suas qualidades. No hegelianismo, afirma Feuerbach, e depois dele Marx, o divino, de sua condição de predicado, transforma-se em sujeito e o ser humano passa a predicar essa subjetividade como sua criatura.
“A lógica hegeliana é a teologia reconduzida à razão e ao presente, a teologia feita lógica. Assim como o ser divino da teologia é a quinta essência ideal ou abstracta de todas as realidades, isto é, de todas as determinações, de todas as finidades, assim também a lógica. Tudo o que existe sobre a Terra reencontra-se no céu da teologia – assim também tudo o que existe na natureza reencontra-se no céu da lógica divina [...]. A essência da teologia é a essência do homem transcendent3e, projectada para fora do homem; a essência da lógica de Hegel é o pensamento transcendente, o pensamento do homem posto para fora do homem” (p.21)
O uso de aforismos por Feuerbach é algo plenamente coerente com seu empirismo, mas sobretudo com seu humanismo romântico, seu desejo de reconduzir infinitude ao finito – e isso se opõe ao pensamento dialético que, ao seu ver, cancelaria a dignidade concreta, atual do ser humano em nome da realização da Ideia através da história. A propósito, podemos citar uma observação de Feuerbach acerca da arte. Para ele, a arte “promana do sentimento de que a vida neste mundo é a vida verdadeira, de que o finito é o infinito – promana do entusiasmo que vislumbra num ser determinado e real o ser supremo e divino” (p. 23). Na tradição ocidental, o humanismo grego, seu politeísmo, seria o lugar adequado de surgimento da arte. “Os cristãos foram artistas e poetas em contradição com a essência da sua religião, tal como a representavam, tal como era objecto de sua consciência” (Ibid.). A rigor, não há aqui uma contradição com a estética hegeliana, a não ser quando percebemos que Feuerbach deseja assentar os princípios de sua filosofia para o futuro na precariedade da imanência humana; enquanto Hegel constata  nisso tudo o próprio limite da arte em realizar plenamente a essência do ser humano. A esse respeito já discorremos anteriormente. Falemos, então, disto que me parece tão simpático: a precariedade humana como princípio ético.
Onde não existe nenhum limite, nenhum tempo, nenhuma aflição, também aí não existe nenhuma qualidade, nenhuma energia, nenhum espírito, nenhuma chama, nenhum amor. Só o ser indigente é o ser necessário. A existência sem necessidades é uma existência supérflua. O que é em geral isento de necessidades também não tem qualquer necessidade de existência. Quer ele seja ou não é tudo um – um para si mesmo, um para os outros. Um ser sem indigência é um ser sem fundamento. Só merece existir o que pode sofrer. Só o ser doloroso é um ser divino” (Ibid., p. 27)
Sempre me emociono quando leio essas linhas. “Só o ser indigente é o ser necessário”. Assim, o amor não é um atributo do divino, do ser que se basta. Como este ser poderia amar? Só ama quem sofre; apenas a minha precariedade é a possibilidade de abertura para o outro, para o infinito que é o outro. “Apenas na sensação, unicamente no amor, tem ‘isto’ – esta pessoa, esta coisa – Isto é, o singular, um valor absoluto, o finito é o infinito; apenas nisto consiste a profundidade, a divindade e a verdade infinita do amor. Só no amor é que Deus que conta os cabelos da cabeça é verdade” (Ibid., p. 80). Belíssimas linhas. O amor é a constatação empírica de que eu não me basto, de que sofrerei necessariamente, pois a existência da pessoa que me falta não me pode ser indiferente. E é desta perspectiva que as afirmações abaixo se tornam mais propriamente compreensíveis:
A nova filosofia funda-se na verdade do amor, na verdade do sentimento. É no amor, no sentimento em geral, que cada homem reconhece a verdade da filosofia nova. A nova filosofia, relativamente à sua base, nada mais é do que a essência do sentimento elevada à consciência – afirma apenas na e com a razão o que cada homem – o homem real – reconhece no coração. Ela é o coração elevado ao entendimento. O coração não quer objetos e seres abstratos, metafísicos ou teológicos – quer objetos e seres reais e sensíveis” (Ibid., p. 81)
Tudo isso significa também que, para Feuerbach, a vida do indivíduo humano só encontra sentido no coletivo. E daqui algumas conclusões controvertidas são tiradas - maldita pressa intelectual que o faz querer derivar de uma grande ideia consequências não elaboradas. “O homem é a essência fundamental do Estado. O Estado é a essência realizada, elaborada da essência humana. [….] O chefe do Estado é o representante do homem universal” (Ibid., p. 35). Como se chega aqui ao Estado como realização da essência humana e ao chefe do Estado como representante do homem universal? Se tomarmos Marx da Crítica à Filosofia do Direito de Hegel como contraponto, concluiríamos que a resposta evidente seria: a religiosidade realizada afinal não se distingue tão radicalmente das conclusões que Hegel havia chegado acerca do significado do Estado e do monarca. O monoteísmo realizado na concretude do homem coletivo ainda é monoteísmo.  (E eu diria que o amor não é fundamento apenas da coesão; também podemos odiar e amar num mesmo gesto quem nos é fundamental) Se o amor é o vínculo que permite sequer a Feuerbach conceber a existência dessa coletividade, já no jovem Marx, no que pese a grande influência de Feuerbach, uma outra categoria se insinua. Entre o indivíduo e o Estado, a sociedade civil é proposta como espaço em que o político se instaura. E a sua dinâmica, fundada nos interesses particulares dos grupos, é fundada no conflito. Alienação, então, nesse contexto, significa o particular se instaurando com reivindicações de universalidade, ou seja, a alienação é produzida pela reivindicação de um grupo particular à universalidade; alienação é a impossibilidade histórica, não ontológica, de que o particular não possa encontrar em si o universal. Isto posto, o jovem Marx também acredita na possibilidade de vencer a alienação, na possibilidade de realização da  essência humana no homem universal, no “ser da espécie”.
* * *
A relação entre Estado e sociedade civil constitui o âmbito onde Marx procurará afinar sua reflexão política. Ele encontra uma boa oportunidade para fazer isso ao se debruçar numa análise da Questão Judaica, de Bruno Bauer. Qual o argumento de Bauer, sobre o qual ele se debruça? O judeu, enquanto particular, não pode pretender um reconhecimento no âmbito de universalidade que é o Estado? Sendo este um âmbito do homem universal, ali não cabe o reconhecimento de qualquer religião. Pretende o judeu obter reconhecimento civil, emancipação civil? Abandone a particularidade do judaísmo. Apenas na universalidade de sua condição humana pode ele reivindicar direitos civis. “Só de um modo sofístico, segundo a aparência, poderia o judeu permanecer judeu na vida do Estado” (Bauer apud Marx, 2009, p. 42). O que Marx não pode aceitar nessa argumentação é a existência de um espaço político não contraditório, de um espaço em que apenas a razão universal, para além de toda contingência, possa imperar. Em outras palavras, Marx critica o privilégio dado ao Estado, em detrimento da sociedade civil, para explicar a dinâmica política da sociedade alemã, ou das sociedades modernas como um todo. “A emancipação política relativamente à religião não é a emancipação consumada, a [emancipação] desprovida de contradição, relativamente à religião, porque a emancipação política não é o modo consumado, o [modo] desprovido de contradição da emancipação humana” (Marx, 2009, p. 48). Creio que essas linhas só fazem sentido diante de um grande ceticismo com respeito à percepção do Estado como lugar de suspensão das diferenças e conflitos, ou seja, diante de um direcionamento teórico que procura e encontra na sociedade civil, nas diferenças do povo, a base de uma dinâmica verdadeiramente política. Diante de tudo isso, podemos entender a inversão crítica do sentido hegeliano do Estado com a qual Marx já começa a operar neste texto.
“A religião é, precisamente, o reconhecimento do homem por um atalho. Por um mediador. O Estado é o mediador entre o homem e a liberdade do homem. Assim como Cristo é mediador a quem o homem imputa toda a sua divindade, todo o seu constrangimento religioso [religiöse Befangenheit], também o Estado é o mediador para qual ele transfere toda a sua não-divindade, toda a sua ingenuidade humana” (Marx, 2009, p. 49).
Para Marx, parece estranho que a universalidade do Estado possa conviver com a legalização da propriedade privada.
“O homem, na sua realidade mais próxima, na sociedade civil, é um ser profano. Aqui onde ele se [faz] valer a si próprio e aos outros como indivíduo real – é um fenômeno não-verdadeiro. No Estado, ao contrário – em que o homem vale como ser genérico -, ele é o membro imaginário de uma soberania imaginada, é roubado da sua vida individual real e repleto de uma universalidade irreal” (Marx, 2009, p. 51)
Já neste opúsculo, para Marx, a democracia é a possibilidade de que, na sociedade civil, o ser humano descubra não apenas suas necessidades egoístas, mas a si próprio como ser genérico – o que nos remete a Feuerbach e sua afirmação de no seio de toda individualidade verdadeiramente humana reside não apenas o EU, mas o TU. Passarei ao largo das considerações que Marx faz ao judaísmo e ao cristianismo. Mencionarei apenas isto: “Qual é o fundamento mundano do judaísmo? A precisão prática, o interesse próprio [...] Qual é o culta mundano do judeu? O Tráfico (Schacher). Qual é o seu Deus mundano? O dinheiro” (Ibid., 75). O judaísmo é o espírito do capitalismo, de sua cultura do dinheiro. Para que não se tenha a impressão de anti-semitismo neste velho judeu, vejamos: “O cristianismo é o pensamento sublime do judaísmo; o judaísmo é a comum aplicação útil do cristianismo; mas essa aplicação útil só podia se tornar uma [aplicação] universal depois de o cristianismo, como religião acabada, ter completado teoricamente a autoalienação do homem relativamente a si [próprio] e à natureza” (Ibid., p. 80). E o dinheiro é a essência alienada do ser humano. Mais uma vez temos aqui algo que Marx vai desenvolver nos Manuscritos e na Crítica à Filosofia do Direito: o capitalismo reduz o ser humano à particularidade, ao egoísmo e, no limite, à animalidade desejante. E é por essa via que reproduz a alienação.
“O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem – e transforma-os numa mercadoria. O dinheiro é o valor universal – construindo para si próprio – de todas as coisas. Roubou portanto ao mundo inteiro – ao mundo dos homens tal como à natureza – o seu valor peculiar. O dinheiro é a essência – alienada ao homem – do seu trabalho e da sua existência; e essa essência estranha domina-o, e ele adora-a” (Marx, 2009, p. 78).
A oposição Estado – sociedade civil, obviamente, Marx toma de Hegel. A redação da Crítica à Filosofia do Direiro de Hegel constitui, portanto, um momento importante de afirmação de sua fé na democracia em contraposição a regimes políticos autoritários (monoteístas).  Embora mobilizando argumentos feuerbachianos, o objeto final da crítica marxista afasta-se, como já afirmamos acima, da ideia de um monoteísmo realizado na coletividade.
“A Ideia é subjetivada e a relação real da família e da sociedade civil com o Estado é apreendida como sua atividade interna imaginária. Família e sociedade civil são os pressupostos do Estado; elas são os elementos propriamente ativos; mas, na especulação, isso se inverte. No entanto, se Ideia é subjetivada, os sujeitos reais, família, sociedade civil, “circunstâncias, arbítrio” etc. convertem-se em momentos objetivos da Ideia, irreais e com um outro significado” (Marx, 2010, p. 30)
O Espírito, “a ideia real”, na figura do Estado se divide, materializa-se, na particularidade da família e da sociedade civil. Ora, para Marx, esta formulação reduz o político à questão da soberania, à figura de universalidade que encapsularia o espírito do povo. Neste sentido é que ele afirma que a monarquia vive a consciência culpada de afirmar que no povo reside a materialização do espírito, mas, por outro lado, entender que apenas na figura do monarca esse espírito pode ganhar espiritualidade, universalidade. Todos sabemos o quanto Hegel foi importante para a teoria da soberania no século XIX; menos explorada é proposição de uma democracia radicalizada como Aufhebung, como superação realizadora, das contradições da monarquia. Hegel acreditava que o poder soberano continha em si três momentos distintos: i. a universalidade da constituição, suas leis; ii. a capacidade de deliberar com relação à particularidade a partir da universalidade das leis; iii. a decisão última, que submete os dois momentos anteriores. Em outras palavras, entre a lei, a constituição e sua interpretação, sua aplicação no caso particular haverá de existir um ato que seja mais fundamental que a universalidade da primeira e a particularidade da segunda. Já havíamos insinuado a importância desse gesto quando falamos aqui no Cazzo sobre Kant e a aporia do julgamento. Vocês haverão de se lembrar: como, pergunta-se Kant, realizo um procedimento tão simples do entendimento quanto aplicar uma regra a um caso particular, um conceito a um fato empírico, o conceito de mesa a uma mesa particular em minha frente? As dificuldades ali envolvidas eram tão grandes que Kant escreveu uma Crítica inteira para tratar do problema, a Crítica do Julgamento. Hegel tira daquela aporia conclusões políticas centrais para o pensamento político ocidental a partir do paradigama da soberania. “Soberano é aquele que decide”, dirá muitos anos depois Carl Schmitt, é aquele que vence a aporia do julgamento com a violência de uma decisão que, afinal legitima tanto a regra quanto o caso particular. O verdadeiro ato político, e esta é a interpretação que Marx faz também de Hegel, significaria o cancelamento último de todas as particularidades em nome do soberano, único ente verdadeiramente sujeito no/do processo político. Embora não possa desenvolver essa relação aqui, cito Hegel a partir da Crítica à Filosofia do Direito e não posso deixar de escutar ali também as palavras que dirá Schmitt. Hegel diz: 
“Em situação de paz, as esferas e funções particulares dão prosseguimento à satisfação de suas funções particulares, e isso é, por outro lado, apenas o modo da necessidade  inconsciente da coisa, segundo a qual seu egoísmo se transforma na contribuição à conservação recíproca e à conservação de todos; mas, por outro lado, é a  ação direta  vinda Don alto, pela qual elas são tanto reconduzidas continuamente ao fim do todo, quanto limitadas pela obrigação de contribuir diretamente para a conservação; em  situação de urgência, porém, seja ela interna ou externa, impõe-se a soberania, em cujo conceito simples conflui o organismo existente em suas particularidades e à qual é confiada a salvação do Estado com o sacrifício daquilo que seria legítimo, situação na qual aquele idealismo chega à sua realidade própria” (apud Marx, 2010, p. 43).

Para Marx, por outro lado, apenas a sociedade civil é âmbito em que o político pode se realizar. Mas é possível também que ali o político se realize apenas de forma alienada, que o ser humano seja incapaz de se reconhecer no outro, e, portanto, incapaz de reconhecer seu mais alto potencial, a si próprio como ser da espécie, sua universalidade, sua infinitude, para voltarmos ao ponto de onde começamos mais esse post. E neste ponto recorreremos a uma breve revisão dos Manuscritos Econômicos Filosóficos.
Acho que precisarei de mais um post para concluir... E esse vai sem revisão alguma.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Laurent Blanc X Lilian Thuram: futebol e sociedade na França de hoje em dia. Notas de desespero e socorro semi-sociológico



Tâmara de Oliveira

            Quem assistiu àquela sombria (para nós) final da Copa de 1998, há de se lembrar de dois jogadores da defesa francesa naquele ano : Lilian Thuram e Laurent Blanc. Dois homens lindos e unidos que, com Zidane e os outros, realizaram uma utopia de vida curta : a da integração universalista francesa como campeã do mundo, quando nos Champs Elysées  o « b » do apelido da seleção francesa foi triplicado  e « les bleus » viraram « les blancs, blacks et beurs ». En passant, « beurs » é o termo coloquial que designa franceses com ascendência árabe da África do norte. Pois, nessa França desoladora de hoje em dia, tenho me perguntado se Lilian (que tem uma fundação chamada « éducation contre le racisme ») e Laurent (atual treinador da seleção francesa) ainda são capazes de conversar.
É que entre os dois ex-jogadores e amigos explodiu o que eu, inspirando-me mas fazendo malabarismo com o conceito de « fato social total » de Marcel Mauss ( Paris, 1985), chamarei aqui de « acontecimento francês total ». Podemos dizer que para Mauss os fatos sociais totais são conjuntos de práticas e/ou representações que põem em movimento a totalidade da sociedade ou um grande número de suas instituições (Marcel, 2007), tendo a característica de revelar fenômenos que são ao mesmo tempo econômicos, religiosos, políticos, jurídicos, morfológicos, etc., de uma sociedade. Não tratarei aqui imediatamente de conjuntos de práticas ou representações, o que implicaria na consideração de fenômenos relativamente estruturados, mas de um episódio particular e, à primeira vista, aberrante para com as principais instituições da sociedade francesa, assim como para com o principal símbolo de sua República : a divisa « liberté, égalité et fraternité ». Logo, não se trata de « fato social total » propriamente dito. Entretanto, as reverberações do tal episódio envolvem e desvelam com tal intensidade a dinâmica multidimensional dos problemas societais da França contemporânea, bem como práticas e representações que os animam que, passando apenas um dia lendo, ouvindo, vendo atores e comentadores a seu respeito, pensei : eita cabrunco ! Taí uma espécie de acontecimento social total – e dos bem ruins, daqueles que tem parte com o diabo de Riobaldo.
A desgraça explodiu num site de jornalismo independente chamado Mediapart, no final de abril, com a publicação de um artigo sobre uma reunião de uma alta instância da FFF (Fédération Française de Football), a DTN (division technique nationale), occorida em 08 de novembro de 2010. Nessa reunião, Laurent, qu’en plus s’appelle Blanc, teria se declarado inteiramente favorável a uma proposta de restrição do acesso aos polos de formação da FFF  de um certo tipo de adolescentes aspirantes à carreira de futebol na França: os que têm dupla-nacionalidade (« binationaux »), ou seja que são em geral filhos de estrangeiros e podem, segundo regras recentes da FIFA, mudar de seleção nacional mesmo depois de 21 anos. Apresentando pequenos trechos de falas da reunião, Mediapart declarou, entre outras coisas, que se falou em criação oficiosa de cotas discriminatórias desses adolescentes, espécie de ação negativa estabelecendo 30% como teto máximo de recrutamento desses binacionais.
Et c’est parti : « l’laffaire des quotas » no futebol francês foi lançada, sendo cercada por duas sindicâncias administrativas – uma da própria FFF e outra do ministério dos esportes e da juventude, esta última passível de processo no equivalente de nosso Ministério Público. Por trás das repercussões multidimensionais que esse episódio manifesta, argumentarei que o que chamei de « acontecimento francês total » foi desvelando seu sentido profundo : o da racialização dos problemas da sociedade francesa contemporânea, o de sua impregnação em diversas práticas, representações, instituições e conflitos, tornando-a fenômeno revelador de dinâmicas ao mesmo tempo políticas, jurídicas, culturais, econômicas, etc.   
De fato, o primeiro artigo de Mediapart já era assim intitulado : « Foot français : les dirigeants veulent moins de noirs et d’arabes ». Por que tal título, se as tais cotas negativo-discriminatórias teriam como alvo adolescentes com dupla nacionalidade, sob a justificativa de salvaguarda da seleção francesa – ou seja, para diminuir a fuga de jovens talentos, formados pela DTN, para outros países ? O leitor poderia pensar num fato implícito : na França contemporânea, a maior parte de filhos de estrangeiros tem uma segunda nacionalidade africana ou árabo-africana (norte da África). Mas o título não se deve ao implícito e sim ao que teria sido explicitado verbalmente por participantes da reunião : ausência de referência a qualquer nacionalidade particular, concentração argumentativa sobre os « blacks » e « beurs » como problema, descrição eventual destes como estrangeiros.
Depois que o conteúdo de seu artigo foi refutado categoricamente pela FFF e pelo própro Laurent Blanc, Mediapart publicou outro onde apresenta extratos fiéis de uma transcrição da tal reunião, retomados depois por outras mídias, como o jornal L’Équipe. A transcrição teria chegado às mãos de Mediapart por uma fonte interna da FFF. Desesperemo-nos um pouco com alguns dos extratos, todos da fala de Laurent Blanc :
(...)E isso não tem nenhuma conotação racista. Quando pessoas usam a camisa de equipe nacional dos 16, 17, 18, 19 e 20 anos, dos Espoirs, e que depois eles vão jogar em equipes norte-africanas ou africanas, isso me incomoda enormemente. Isso é preciso de fato limitar.
(…)Quanto a mim, não são as pessoas de cor que me põem um problema. Não é um problema com as pessoas norte-africanas. Eu, eu não tenho nenhum problema com eles. Mas o problema é que essas pessoas daí devem se determinar e tentar ajudá-los a se determinar. Se há apenas – e eu falo cruamente – blacks nos polos e esses blacks daí sentem-se franceses e querem jogar na equipe de França, tudo ótimo para mim.
(…)Não queremos eliminar os estrangeiros, de forma alguma, mas fazer com que os polos Espoirs ou os polos da DTN testem a partir de critérios melhor definidos, porque se a gente tem sempre os mesmos critérios, haverá sempre as mesmas pessoas.(…) Grandes, musculosos e potentes. O que existe hoje como grande, musculoso e potente ? Os blacks.  E é assim. Deus sabe o quanto eles são numerosos nos centros de formação. Eu acredito que é preciso recentrar, ter outros critérios, modificados com nossa própria cultura.
(…)Com nossa cultura, nossa história, etc. Os espanhóis disseram-me : « nós não temos problema. Blacks, nós não temos ». (L’Équipe, lundi, le 02 mai 2011) 
              
É de alucinar ! Afinal de contas, qual o núcleo justificativo dessa proposta de discriminação negativa? Binacionalidade jurídica como fator de fuga de talentos ? Pessoas « de cor » e pessoas norte-africanas cuja ausência de sentimento de identidade nacional prejudica a Equipe de França ? Certas caracterísiticas físicas dos « blacks » que prejudicam a qualidade do futebol francês ?  Lilian Thuram, tendo pele negra mas nascido em Guadalupe (território francês, logo, ao abrigo das tais cotas de discriminação negativa) foi um dos primeiro a se desesperar ; numa de suas declarações, teria dito : « espero que seja apenas um pesadelo ». Dado seu conhecido engajamento anti-racista, foi procurado por gregos e troianos midiáticos e concedeu várias entrevistas (inclusive à Mediapart). Inicialmente indignado com a fala de Blanc, mas já afirmando que este não é racista, atenuou depois seu discurso – talvez por ver-se objeto de comentários de leitores como os três que se seguem :
Vocês se lembram quando Thuram marcou aqueles gols contra a Croácia, 60 milhões de franceses aplaudiram-no mas ele pôs um dedo sobre a boca como para dizer « pshi, calem a boca !, não foi para vocês que eu fiz esse gol », fazendo acreditar que estava interiorizando suas emoções…Partilhar essa alegria conosco ?!, ele teria preferido morrer. Uma vez mais : onde ele está, o racismo, não do lado que se acredita, em minha opinião (L’Équipe, le 03 mai 2011)

(…)Se o futebol africano fosse tão forte ele já teria ganhado algumas copas do mundo e isso está longe de se o caso. Eu sei que nessa França bem pensante não se pode mais dizer nada, senão a gente é tratado de racista, mas eu gostaria de dizer que as reações de todos os blacks de todos os tipos, estilo Thuram, é isso que faz subirem os extremos, isso vai ao encontro do que eles denunciam. Quanto aos bi-nacionais, é pior, nos fizeram acreditar que os da terceira geração se sentiriam franceses, mas são piores do que os pais. Mas nesse caso, é antes a FIFA que é preciso implicar, é uma lei que serve aos interesses das federações africanas, então, da reeleição de Blatter »

(…)vamos jogar cartas sobre a mesa. Uma, os blacks são mais físicos (Diawara Taiwo, por exemplo) e não é racismo dizer isso, é uma constatação, uma questão de genes e de morfologia ; não misturar africanos e antilheses (para a dupla nacionalidade). Duas, agora, se a gente recensear todos os blacks e brancos e a gente quiser ver quais são os mais técnicos, todos conhecem a resposta : brancos e sul-americanos. (L’Équipe, le 03 mai 2011)

Tentemos agora sair desse desespero com um socorro da sociologia, porque foi um sociólogo francês, Éric Fassin, que tem blog no mesmo Mediapart aqui tão citado, quem escreveu um dos primeiros artigos analíticos sobre esse pesadelo real. Argumentando que as representações de « raça » funcionam exatamente na flutuação semântica e lexical, Fassin desfia pouco a pouco o conteúdo das falas dos participantes da reunião, reconstruindo o que ele chama de vocabulário deslizante. Referindo-se assim às diferentes justificativas para a proposta de cotas negativo-discriminatórias que, mesmo em seus momentos explicitamente contraditórios (Laurent Blanc, por exemplo, insiste mais de uma vez em afirmar que não se trata de racismo nem de discriminação de estrangeiros), deslizam entre diferentes sentidos de nacionalidade que fundem lógica de nação e lógica de raça, desvelando uma racialização da nação francesa : da nacionalidade jurídica à identidade nacional, da identidade nacional como sentimento de pertencimeno à identidade nacional como cultura, da cultura como pertencimento a um dado contexto sócio-histórico à cultura como cor de pele e outras características físicas (ou morfológicas). Eu concordo com ele, seguindo as pistas dos extratos por mim aqui citados. Fassin faz também uma distinção entre « racisme d’intention » e « racismo en effet », que tem se mostrado útil para pôr luz dentro do olho desse redemoinho dos infernos.
Logo de um debate televisivo no Canal Plus Sports de 06 de maio, por exemplo, em certos momentos eu tinha imagens cristalinas de um conflito racializado e mais dicotomizado do que se esperava. Com efeito, talvez porque na transcrição haja uma surrepresentação de referências a « blacks » em relação aos « beurs » (estes andam sumidos da seleção nacional desde a última Copa), « blancs » e « blacks » aparecem como os protagonistas visíveis. Já um sociológo que foi àquele programa na TV, Stéphane Beaud, mediatizado porque lançou recentemente um livro sobre aquela greve da Equipe de França na Copa da África do Sul, relatado aqui no Cazzo, aos poucos conseguiu emplacar um argumento, embora sua retórica acadêmica não fosse páreo para os jornalistas e futebolistas experimentados na TV ali presentes. Pois Beaud também fez uma distinção que parecia muito importante no debate televisivo: separar a suspeita de qualquer proposição de cotas restringindo certos jovens do recrutamento nos polos (problema social, político e jurídico exigindo averiguação séria), da discussão sobre o possível racismo dos indivíduos cuja fala na reunião foi transcrita. Outro debatedor, ex-presidente do Olimpique de Marseille, insistia também nessa distinção, mas principalmente na necessidade de não se transformar o problema de proposta inadimissível de cotas negativas numa guerra entre brancos e negros, apesar das palavras chocantes e que exprimem, ele está convencido, muito da realidade do futebol francês e do racismo.
Nesse debate, o momento em que a imagem era mais visivelmente a de um conflito racializado e dicotômico, foi encarnado por Laurent Blanc e Lilian Thuran, pois que eram eles os sujeitos das questões : qual deles teria razão, se Blanc é racista, se Thuram também é racista, como os colegas estão divididos entre os dois – notadamente os de 1998 – e o porque do silêncio ensurdecedor de « Zizou » (Zinedine Zidane) nesse episódio, até agora.
Num balanço aéreo, diria que a maioria está mais preocupada com a sustentação de Blanc como treinador da seleção e com os conflitos internos de poder na FFF, justificando isso principalmente por uma razão pragmática (ele seria necessário à seleção francesa neste momento). E, do ponto de vista de seu racismo ou não, todos os colegas, inclusive Thuram, declaram que « Laurent não é racista ». Assim como os participantes do debate televisivo, todos claramente compadecidos com a situação terrível onde Laurent Blanc se meteu – com suas declarações « maladroites » (desajeitadas) e sua recuperação pelos conflitos de poder na FFF. A avaliação de Thuram era claramente mais negativa. Embora existam certos colegas cuja posição é parecida com a dele, a grande maioria o põe em questão. Desde um colega que requentou um suposto episódio da final de 1998 nunca revelado, para representar Thuram como alguém que também pode ter comportamentos racistas, até outros que condenam sua tendência a ver racismo em tudo, devido ao seu engajamento militante. O black ícone do conflito está então numa posição delicada entre seus companheiros de vitória e os debatedores televisivos – assim como em sondagens de opinião via internet, onde sua posição e/ou ele próprio são julgados e condenados pela maioria. 
Não deixa de ter sua graça…para mim desesperante. Digo desesperante porque tenho visto as principais entrevistas e declarações públicas de Thuram e, embora a falta de espaço impeça que eu as reproduza aqui, afirmo ao leitor do Cazzo que elas são sensatas e com requinte argumentativo. Mesmo num primeiro momento de indignação mantinha um discurso de respeito e afeto por Blanc, depois disse que já falou com ele por telefone, usa uma linguagem psicanalítica e impessoal quando aborda a dimensão racista do episódio, sustenta um discurso anti-racista não identitário  e, para prová-lo, centra sua reivindicação pública na apuração da suposta proposta de cotas de discriminação dos « binationaux », afirmando que o racismo é fato do « inconsciente coletivo » e não o centro do problema. Por sua vez, Laurent Blanc, embora com apoio da maioria dos colegas, das mídias esportivas e da opinião nas sondagens que andei sobrevoando, também está numa situação para lá de desconfortável. Mete os pés pelas mãos desde o início, primeiro negando tudo, depois, quando foi impossível negar, pedindo desculpas mas afirmando sua indignação por ser acusado de racista e, finalmente, sumindo na Itália. Mas já está voltando : como o episódio acionou o aparato jurídico-administrativo do ministério dos esportes e da juventude e pode chegar à justiça, deporá sobre o ocorrido. Algumas imagens mostram-no absolutamente perdido, para não dizer subjetivamente demolido.
Falando nas dimensões jurídico-estatal e política do imbróglio, a nova ministra dos esportes tem sido estrita numa abordagem jurídica do caso, há mil anos luz das  patacoadas da ex-ministra (do tempo da greve na Copa), manifestando em seu discurso a mesma preocupação de tantos que vi no debate televisivo : impedir que o problema derive em crise sócio-racial no país. Dir-se-ia que não estamos mais no governo Sarkozy, tanto a postura dessa ministra parece adequada aos princípios estruturais do estado republicano francês, princípios que fariam desse episódio, não um revelador de sua totalidade societal mas uma aberração contra as instituições, práticas e representações da sociedade francesa. Essa ministra pareceu-me chata, confesso ao leitor : a priori, sua postura parecia desautorizar meu malabarismo com o conceito maussiano… 
Por outro lado, uma tendência oficial do partido do governo Sarkozy (Droite Populaire, responsável por um projeto de lei para suspender o direito à dupla nacionalidade e dispostíssima a alianças com o Front National), recolocou-me na hipótese do acontecimento francês total : lançou um documento acusando Mediapart por « maccarthysme de gauche » e defendendo a restrição dos «binacionaux » para salvaguardar o futebol francês. Sem usar nenhum termo com conotação racializada ou etnicizada, o documento abunda, todavia, na direção de um sentido xenofóbico, como se o futebol francês estivesse ameaçado por estrangeiros. De tal sorte que volto a Éric Fassin para retomar meu malabarismo com Mauss :
Nos Estados Unidos como na França, para compreender essa racialização da nação, não é suficiente invocar a herança da escravidão e da colonização. Ela não se explica somente pelo passado ; ela tem uma atualidade política bem presente. Enquanto no ultra-Atlântico, é a extrema direita do Tea Party que se levanta contra o presidente, na França, esse populismo está no poder. É o presidente da República, seguido por seus ministros, quem institui uma identidade nacional racializada.  Não nos surpreendamos que o futebol seja hoje em dia o porta-voz disso. O que Mediapart nos revelou, é o que nós já sabíamos, sem querer reconhecê-lo completamente. Os dirigentes do futebol francês apenas declaram, no segredo de suas reuniões,  o que se escancara todos os dias, muito publicamente, no debate político nacional. (http://blogs.mediapart.fr/blog/eric-fassin. Consultado em 07 de maio de 2001)      

Recapitulemos : esporte, mídias, justiça, política, práticas e representações de identidade…O acontecimento indica realmente que a racialização da nação de que fala Fassin tem a força de revelação totalizante que animava Mauss ao elaborar o conceito de « fato social total », embora eu esteja tratando de um fenômeno que revela muito mais uma dinâmica de crise societal – para a qual « fato social total » não seria um conceito muito adequado. E é por isso que eu troquei « fato » por « acontecimento ».
Mas ainda tem uma dimensão da qual não falei e sobre a qual vou ainda me apoiar em Fassin para introduzir:
E também  não é por acaso que no amanhã de uma Copa do mundo sul-africana, da qual o sociólogo Stéphane Beaud mostrou tão bem, num livro recente, como o racismo de classe, ao qual adicionaremos que ele é inseparavelmente uma racialização das classes populares, pôde-se atribuir o fiasco a jovens estigmatizados como « traidores da nação » ; o futebol francês está mergulhado nas tormentas das políticas identitárias vindas de alto. Como se surpreender que ele confunda dessa forma referências nacionais e raciais, quando isso é o ordinário do discurso político sob Nicolas Sarkozy? Nem é tanto que a palavra racista tenha sido « liberada » ; é antes de tudo que alguns dirigentes esportivos, como os de outros meios, satisfazem-se em falar com as linguagens disponíveis no espaço público. (http://blogs.mediapart.fr/blog/eric-fassin. Consultado em 07 de maio de 2001)      

Retenho desse trecho a dimensão econômica em sentido largo ou, da estratificação sócio-econômica em termos estritos. O futebol, enquanto carreira, é esporte de pobre há muito tempo. Ora, uma enorme parte dos pobres franceses tem ascendência nas ex-colônias (sobretudo africanas ou norte-africanas). Logo, são os « blacks » e os « beurs » que estarão em maioria nas filas de recrutamento dos polos de formação do futebol francês. A França vive um processo progressivo de segregação urbana, social e escolar de seus pobres, desde os anos 1980. Processo, aliás, global (o Brasil é só vanguarda histórica ou modelo). Neste sentido, concordo inteiramente com o sociólogo Robert Castel (2007), que diagnosticou um intercruzamento entre questão social (sócio-econômica) e questão racial (racialização dos conflitos)  como problema maior da sociedade francesa contemporânea.
E é esta duplicadade que pode dar luz inclusive a uma divergência entre sociólogos, Éric Fassin de uma lado, Gérard Noiriel e Stéphane Beaud do outro, sobre esse acontecimento infernal – divergência cuja novela está começando nessa segunda semana de escândalo. O primeiro, especialista em imigração e racismo e colaborador do Mediapart, insiste sobre a racialização da nação e não poupou tinta para analisar conteúdos de racismo ordinário nas falas da reunião. Os segundos, mais próximos da sociologia bourdieusiana, embora concordem que há racialização do vocabulário e discriminação dos filhos de imigrantes pela idéia juridicamente criminal de cotas, condenam o que chamam de abordagem midiática e acusatória que, identificando propósitos heterogêneos sob a mesma rubrica de « racismo », reforçaria a racialização das classes populares. Em suma, embora não citem Fassin, Noiriel e Beaud entendem que intelectuais críticos ligados ao que eles chamam de « causa negra », tem empreendido análises mais ideológicas do que sociológicas, posto que sem fundamento empírico consistente…Essa divergência acabou de tornar-se pública, assim como apareceu hoje a primeira entrevista de Zidane a esse respeito (serena mas indo na mesma direção da maioria dos colegas : condena o vocabulário da reunião, opõe-se radicalmente às cotas, mas sustenta e lamenta Blanc). Essas novas repercussões são importantes, todavia este texto tem que terminar !
Terminarei então declarando que a racialização dos conflitos sociais é potencialmente infernal. Como ela sempre envolve processos identitários e, ainda por cima, atravessados pela história da colonização e da escravidão, as paixões que suscita são dificilmente controláveis. E tenho pensado : se a racialização pode produzir institutionalizações progressistas, como o fim do apartheid na África do Sul ou ações afirmativas, ela também tem dado fontes de legitimação a racismos de todos os tipos. Ao mesmo tempo, tem dissimulado o fato de que os ricos andam cada vez mais absurdamente ricos e os pobres segregados e estigmatizados por critérios culturalistas ou racialistas. Afastados de tudo e todos que podem incomodá-los, imagino o quanto é confortável para os ricos de todas as cores que, num país como a França, ao invés de se discutir sobre o dinheiro público que foi versado ao capital financeiro que quase faliu o mundo e continua obrando para fali-lo, a sociedade e o Estado franceses mergulhem num pesadelo sobre a identidade nacional e as propriedades genéticas ou culturais das « raças », projetando sobre as categorias segregadas de sua população, em lógica mezzo-nacionalista/mezzo racialista, todos os males da sociedade francesa.
E eu que continuo sem crer, faço novamente aqui uma prece – por Lilian Thuram e Laurent Blanc (cuja esposa tem ascendência argelina, como Zidane fez questão de frisar em sua primeira entrevista). Por Thuram, porque recebe na pele e na alma a seguinte monstruosidade: a maioria da opinião e de seus colegas de 1998 consideram ilegítimo sua indignação contra expressões racistas (para ele, aliás, inconscientes) e propostas de discriminação negativa das minorias visíveis da sociedade francesa. Por Blanc porque, embora receba apoio majoritário, inclusive enquanto esposo e provavelmente pai de franceses vulneráveis às consequências sociais da racialização, precisaria fazer um trabalho de sócio-análise (no sentido bourdieusiano) sobre seus próprios habitus racializados e suas consequências, para o qual ele não parece estar preparado.
BIBLIOGRAFIA :      
CASTEL, R. La discrimination négative – citoyens ou indigènes. Paris : Seuil. 2007.
FASSIN, É. « Les mots dont souffre le football français . »  Le journal mediapart – blog de Eric Fassin, 08 mai 2011 [en ligne] . http://blogs.mediapart.fr/blog/eric-fassin
MARCEL, J.-C. « Bataille et Mauss : un dialogue de sourds ? », Revue du MAUSS permanente, 14 avril 2007 [en ligne]. http://www.journaldumauss.net/spip.php?article18
MAUSS, M. Essai sur le don : forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques. Paris, PUF, 1985.
NOIRIEL, G. / BEAUD, S. Race, classe, football : ne pas hurler avec la meute. Libération.fr, 08 mai 2011. (en ligne).

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Encontro Nacional sobre Ensino de Sociologia na Educação Básica


A Sociedade Brasileira de Sociologia e sua Comissão de Ensino convidam tod@s a enviar suas colaborações para o 2° Encontro Nacional sobre Ensino de Sociologia naEducação  Básica (ENESEB).

O Encontro será realizado na cidade de Curitiba, campus da Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR, no período de 23 a 26 de julho de 2011.

O prazo para inscrições de propostas de oficinas e painéis para apresentação  foi prorrogado para 10/05/2001.

Para mais informações, viste o site do evento.