segunda-feira, 25 de julho de 2011

Resistindo ao niilismo através das novas tecnologias: experiências de mídia livre





[O texto que se segue é a introdução de um ensaio que deverá compor uma coletânea sobre inclusão digital organizado por Marcos Lima. O livro deverá ser publicado este ano]

Jonatas Ferreira, Luiz Carlos Pinto e Maria Eduarda da Mota Rocha

Resumo

Há uma vasta literatura que produz uma crítica por atacado ao fenômeno tecnológico que constitui a quintessência das sociedades modernas. Citemos alguns nomes expressivos dessa tradição: Arendt e suas considerações acerca da redução da política ao labor; Marcuse e a idéia de unidimensionalidade da experiência humana nas sociedades de massa; Adorno e Horkheimer e sua crítica à razão instrumental e à indústria cultural; Heidegger e a leitura da tecnologia como disponibilização sem sentido do mundo, sua afirmação de que tecnologia e niilismo andam juntos; Virilio e suas ponderações sobre o caráter dromocrático, irrefletido de nossos envolvimentos com tecnologias de informação e comunicação. Há um enorme poder argumentativo nessas análises, mas elas pecam por constituir uma crítica por atacado, além de fornecer uma compreensão questionável do significado da tecnologia nas sociedades modernas. Claro, aqueles que vêem apenas oportunidades na sociedade de informação, como Pierre Lévy, incorrem em equívoco semelhante. A tecnologia não é unidimensional, nem mobilização sem sentido, tampouco nossa última esperança, mas um espaço ambíguo, e por isso político, no qual a diferença pode ser produzida. Através das experiências de mídia livre, verificaremos em que medida a resistência à instrumentalização da vida, à transformação da política em labor, tem sido produzida.

Introdução

É atribuída a Heidegger a afirmação que diz ser a tecnologia o destino da civilização ocidental. Mas o que é mesmo a técnica? O que é mesmo a tecnologia? Como, e por que, eventualmente, a tecnologia constituiria a trajetória obrigatória da cultura ocidental - dentro da qual, de um modo muito particular, sul-americanos, latinos, inscrevemo-nos? Para o filósofo alemão, a resposta a essas questões passa pela constatação de que a civilização ocidental produziu um determinado tipo de encontro entre o ser humano e o mundo que o circunda, encontro que se caracteriza pela mobilização e aceleração constantes. E se há um projeto mobilizador que caracteriza o ocidente e, particularmente, o ocidente moderno, este não se realizaria nas proporções em que ele hoje se realiza sem que a própria comunicação entre os seres humanos fosse reduzida a essa compulsão pela performance, pela extração de energia do vivo e da matéria inanimada (FERREIRA, 2010). As tecnologias da informação e da comunicação, para Heidegger, constituiriam a consumação da metafísica em sua incapacidade de pensar a humanidade do ser humano fora dos limites deste projeto de controle total dos seres.

E a mobilização constante dos entes, a dinâmica que exaure a energia de tudo, seria apenas uma maneira de falar que o labor1 se tornou a única forma de pensar a relação que os seres humanos entre si, e estes com o mundo, estabelecem na cultura ocidental. O próprio convívio humano, neste contexto, já não nos coloca algo além da exaustão pelo trabalho. Tal constatação permite-nos perceber dois fatos: a tecnologia é uma questão política da maior importância; nos limites de nossa cultura, esta só é concebível a partir de um olhar transcendente sobre o mundo, aquele olhar de que Hannah Arendt fala na Condição Humana, o olhar do cosmonauta que vê a terra, parte integrante das possibilidades de seu ser, de uma perspectiva distanciada. Apenas essa distância garante a instrumentalidade da razão, apenas ela nos sentencia o labor como quintessência do político. Recentemente, Stephen Hawkin propôs que teríamos de nos acostumar com a ideia de que a terra iria se tornar inabitável, um planeta exaurido, arruinado pelos nossos envolvimentos técnicos, que precisaríamos pensar em abandonar o planeta. Curiosa solução técnica para um problema técnico – e que afinal não resolve nada.

Com vistas a alargar a compreensão das potencialidades das novas tecnologias, podemos partir da crítica à redução do trabalho ao labor. Como diz a Arendt, o trabalho e seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal. O labor, pelo contrário, não deixa frutos a não ser a própria continuidade da vida. O resultado de seu esforço é consumido quase tão depressa quanto seu dispêndio (ARENDT, 1997, p. 98). O desenvolvimento das forças produtivas poderia liberar um crescente contingente humano de uma parte desse esforço, redirecionando-o para a produção de artefatos que possam povoar a vida humana. Mas, segundo Arendt, não foi isso que aconteceu. As horas vagas do “animal laborans” não foram ocupadas com atividades do “homo faber”; pelo contrário, foram absorvidas pelas práticas de consumo, complementares ao labor. A autora assinala: “O perigo é que tal sociedade, deslumbrada ante a abundancia de sua crescente fertilidade e presa ao suave funcionamento de um processo interminável, já não seria capaz de reconhecer a sua própria futilidade – a futilidade de uma vida que ‘não se fixa nem se realiza em coisa alguma que seja permanente, que continue a existir após terminado o labor’ ” (ARENDT, 1997:148 - citando Smith, no final). Labor e consumo são dois estágios de um mesmo processo imposto ao homem pelas necessidades da vida. Não é através do consumo que as atividades humanas escaparão à exigência de assegurar as coisas necessárias à vida e de produzi-las em abundancia. O que quer que façamos, devemos faze-lo para “ganhar o próprio sustento”, eis o veredito da sociedade (1997: 139). Neste sentido, uma “sociedade de consumo”, para Arendt representa o perigo de que toda a produtividade humana seja sugada por um processo vital intensificado em um ciclo natural eternamente repetido.

Há, portanto, na civilização ocidental uma compulsão à repetição, um esquecimento trágico da possibilidade de pensar uma relação não instrumental com o mundo e com a vida. A tradução desse esquecimento seria a própria tecnologia, seu elemento matematizador, seu saber antecipador que, enquanto tal, é sempre capaz de enquadrar, arquivar os seres animados e inanimados em uma bocejo entediado: “É apenas mais do mesmo”. Na Dialética do Esclarecimento, mais exatamente no excurso que ali é feito à obra de Sade, Adorno e Horkheimer já falaram sobre isso, sobre a incapacidade de a cultura moderna estabelecer relações sociais em que alguma forma de pathos prevaleça e não a distância do cálculo (ADORNO E HORKHEIMER, 1985). Mais contemporaneamente, poderemos também dizer que a cultura do espetáculo, do consumo, da produção de celebridades efêmeras, das tragédias descartáveis, é necessariamente tecnológica precisamente no sentido já identificado por Heidegger, Arendt, Horkheimer, Adorno: apenas a mobilização distanciada dos entes é aqui a regra. É isso que permite que e demanda uma estética do horror nos seja apresentada em filmes, noticiários televisivos etc. De que outra forma, senão através do horror, do mórbido, das tragédias descartáveis, nossa atenção seria, mesmo que momentaneamente, capturada?

Mais radicalmente, ainda, poderíamos suspeitar de que sob o gesto de Prometeu, sob a perspectiva de afastar de nosso cotidiano a inexorabilidade de nossa mortalidade, através de instrumentos, de artefatos que nos abrigam, protegem, ampliam nossas faculdades, ou seja, sob a técnica, haja o perigo de que tudo se encontre esquecido precisamente quando alcança exposição total. Uma vez mais, o desespero cultural de Adorno e Horkheimer nos ocorre como ilustração de uma crítica absoluta à tecnologia. E sem chegar àquele extremo, àquele desespero, poderíamos também recordar o Heidegger de Cartas sobre o Humanismo que afirma ser a tecnologia algo que mostra, exibe, disseca, escondendo.

Eventualmente, há aspectos na contribuição heideggeriana que precisam ser desenvolvidos. Por não empreender esse esforço, as análises de Arendt, Horkheimer, Adorno, debitárias daquela outra, erram por apresentar uma percepção unidimensional, catastrófica da técnica e da tecnologia. Acreditamos, por outro lado, perceber uma ambigüidade fundamental no âmbito da própria técnica - uma aporia que deve ser compreendida como uma dimensão fundamental da própria finitude humana, e não como traço de uma ou outra cultura específica. Com Derrida e Stiegler, podemos afirmar que a técnica é aquilo que, constituindo nosso horizonte, afasta de nosso cotidiano a nossa mortalidade, mas, por outro lado, destina-nos irremediavelmente a nunca esquecer dessa mortalidade. A técnica, e a tecnologia, são portanto ambíguas, abrem-se em aporias que são a força mesmo de sua dinâmica, são, em suma, humanas. E essa é sua força política, aquilo que põem em suspensão, mas não elimina, a possibilidade de que não estejamos fadados ao niilismo cultural, ao labor sem sentido.

O espaço político que Arendt percebe como eixo da cultura ocidental, e mais radicalmente de nossa condição moderna, o automatismo de não ver outra perspectiva existencial, cultural que não a mobilização perpétua dos seres, sua exaustão, é de fato uma constatação tão importante quanto apavorante. Mas há ali um político que já não pode ser política, uma dimensão do político que aborta sempre a possibilidade do conflito, do dissenso. Acreditamos, por outro lado, que, como coisa humana e fundamentalmente aporética, a tecnologia e a técnica, abrem novamente a questão da produção da diferença, a outra possibilidade. E isso não como utopia que não nos diz organicamente respeito, mas como possibilidade não garantida nas tragédias daquilo que há. Derrida, Stiegler nos chamam atenção para nossa condição de seres protéticos, seres para quem o mundo é sempre o mundo da mediação tecnológica. Tecnologia é o rastro daquilo que perdura, da tradição, se quiserem um jargão mais próximo das ciências sociais, mas o que perdura não pode ser entendido sem um conflito intestino, sem as violências que configuram o horizonte das coisas possíveis. Se a tecnologia é o destino das sociedades ocidentais, é preciso manter em aberta a perspectiva de que o mundo técnico não seja unidimensional (FERREIRA, 2010).

Existe uma farta literatura que discorre sobre as novas tecnologias como algo que produz seres híbridos - em especial, aquelas que se desenvolvem sob a influência da cibernética, o que não deixa muita coisa de fora. Ciborgues, falava-se na década de 1990 (HARAWAY, 1991; BELL e KENNEDY, 2000; GRAY, FIGUEROA-SARRIERA, MENTOR, 1995). Havia ali um Futurismo requentado, uma esperança irônica de libertação pela técnica, no que pese um diagnóstico interessante acerca de estruturas tradicionais de poder. “Feministas ciborgues devem argumentar que ‘nós’ não queremos mais a unidade da matriz natural e que não há construção que seja uma totalidade. Inocência, e a insistência que culmina com a vitimização enquanto fundamento para insight, tem feito muito dano” (HARAWAY, 1991, 157). E: “Culturas high-tech desafiam esses dualismos de maneiras intrigantes. Não fica claro quem produz e que é produzido na relação entre o humano e a máquina” (Ibid., p. 177). Esse mesmo Futurismo é, por vezes, tomado como perspectiva distópica; a tecnologia contemporânea esmaga a subjetividade, desorienta, cria apenas simulação sem realidade. Citaríamos aqui, sobretudo, Baudrillard e Virilio. “A inteligência dromocrática não se exerce contra um adversário militar mais ou menos determinado; ela se exerce como um assalto permanente ao mundo e através dele, como um assalto à natureza do homem. O desaparecimento da fauna e da flora, a anulação das economias naturais, são apenas a lenta preparação de destruições mais brutais” (VIRILIO, 1997, p. 69). Mas, já afirmamos acima, nossa condição é protética em um sentido completamente diferente do que aquele primeiro conjunto de referências propunha – e, assim, também não pode aceitar candidamente o tom catastrófico que este segundo conjunto de referências alardeia. Pois, na medida em que o espaço técnico é um espaço de “indecibilidade” e ao mesmo tempo de decisões precárias, de esquecimento, de “hypomnésis” e ao mesmo tempo de rememoração, ele é um espaço político em que uma alternativa à reificação, instrumentalização, ao empobrecimento existencial pode ser pensada (DERRIDA, 2001).

O ensaio que propomos, todavia, não tem um cunho apenas teórico. Partindo das constatações críticas que formulamos acima, de fato, só poderíamos nos orientar através da investigação concreta dos horizontes políticos abertos na sociedade de informação. E é nesse sentido mesmo que pretendemos analisar em que medida as experiências de mídia livre constituem um espaço tenso em que uma perspectiva não niilista, instrumental, possa ser forjada de dentro do, em oposição ao, capitalismo contemporâneo. Em geral, todavia, as políticas de inclusão digital limitam-se a promover o acesso a equipamentos de informática, reeditando a organização de lugares econômicos (a classe) e simbólicos - organização na qual cabe ao sujeito que não detém os meios de produção ser mero usuário ou peça do sistema produtivo, e não exercer um papel criativo, perturbador em relação a este. O que se apresenta aí como perspectiva política é a reprodução de uma relação de tutela de tais “usuários” com respeito aos objetos técnicos usados para a produção de valor. Os interesses sistêmicos de reprodução do capital atuam de uma forma muito concreta: restringindo a possibilidade de atuação dos indivíduos, que passam a lidar com caixas-pretas, pacotes tecnológicos fechados, cuja lógica de funcionamento interno, cujos princípios de estruturação políticos não parecem constituir questões relevantes. O corolário desse tipo de truísmo, sob o qual se escondem o peso de hegemonias políticas, históricas, é a restrição de apropriação criativa sobre as ferramentas de produção de valor – apropriação que possa mesmo pôr em questão os princípios amplos sobre os quais o que chamamos de fenômeno tecnológico é produzido.

As ações coletivas com tecnologias livres, por outro lado, parecem indicar uma perspectiva oposta a esta - uma perspectiva na qual são produzidas condições para uma apropriação crítica das tecnologias de informação e comunicação. Os princípios que informam essa apropriação devem tornar possível a produção de valor com base na improvisação contínua, na comunicação, nas subjetividades culturalmente construídas, nas relações afetivas, no cotidiano sensitivo das comunidades envolvidas. O trabalho imaterial que se desprende dessas potencialidades está afinado com aquilo que Gorz pontuou como sendo o “trabalho da produção de si”. Nesse sentido, o caminho traçado pelas ações coletivas com tecnologias livres é tal que permite contribuir para a construção de espaços lógicos, físicos, afetivos e normativos que permitam a expansão das potências criativas, a quebra da previsibilidade e a superação da relação industrial entre projeto e produto. Aliás, neste sentido, o resultado das ações coletivas com tecnologias livres se aproxima de seu próprio percurso, de sua relação processual com os sujeitos que tomam parte, sendo composto de encontros, celebrações, performances, compartilhamentos de saberes, intenções. A pergunta que propomos como guia do presente ensaio é identificar em que medida essas iniciativas podem ser percebidas como fraturas no discurso hegemônico acerca das tecnologias de informação e comunicação – fraturas onde o político poderia se reinstalar.


1 O labor é a atividade que corresponde aos processos de reprodução biológica do ser humano; o trabalho diz respeito à produção de artefatos que constituem um mundo diferente do ambiente natural; a ação é a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação de coisas ou da matéria, é a condição de toda vida política (ARENDT, 1997: 15).

10 comentários:

Tâmara disse...

O texto de vocês faz bem o que tem que fazer. Ja' estou doida para ler o livro de Marcos. Na verdade, creio que as ações coletivas ja' são expressão de que o poli'tico esta' sempre reinstalando-de na tecnologia. O problema é que tanto o poli'tico quanto a poli'tica do labor estão la', como possibilidade/concreticidade da relação à técnica. Talvez seja o pro'prio poder sem qualquer compromisso da reprodução do capital, contemporaneamente, o que decide das tensões entre poli'tico e poli'tica do labor/consumo em nossa relação à tecnologia. Penso agora nos a'rabes de sua pro'pria primavera: não tenho du'vida de que se trata também de uso poli'tico das tecnologias de comunicação, mas o redesenho da poli'tica naqueles pai'ses continua nas mãos de quem ja' tinha outras formas de organização poli'tica.
Em suma, valeu pelo texto. Abraço

Le Cazzo disse...

Oi, Tämara.

Pensamos como você. Não estamos fadados ao niilismo, ou à subordinação e as tics não são, nem o imperativo do labor, da performance como valor de civilização único, nem a perspectiva inevitável de libertação. Se a tecnologia sempre reinstala o político é por sua capacidade de produzir algum nível de abertura no real - ou de torná-la evidente. Em que medida essa abertura pode confrontar o que está posto com reivindicação de fechamento é que é para nós a questão sociológica. Obrigado pelo comentário. Abraço, Jonatas

Alyson Freire disse...

Olá, prof. Jonatas

Muito legal o texto, gostei da presença - e da desenvoltura - dos diferentes níveis de análise – filosóficos, sociológicos e políticos – com os quais você desenvolve e aborda o problema da tecnologia.

Como o professor bem destacou a tecnologia - e suas possibilidades - é um espaço político, tenso, aberto, incerto. Perspectivas fatalistas e triunfalistas embotam a compreensão sobre o fenômeno, embora as últimas, a meu ver, gozem de maior mérito por conta de sua maior força normativa, prudência, ou, ainda que implicitamente, por sugerir algum espaço último de resistência, conformista, é verdade, contra à instrumentalização.

Pois bem, como a tecnologia não pensa e nem projeta fins, e concebendo-a como “espaço de indecibilidade”, fica aberta também a pergunta sobre o lugar dos seus limites normativos. A partir de que, num mundo no qual as possibilidades técnicas cada vez se projetam mais, impulsionadas ao mesmo tempo pela vontade de saber da Ciência e pelo imperativo da acumulação do capital, os limites da tecnologia podem ser colocados? Deixaríamos ao sabor da contingência da política? Procuraríamos uma ética fundamentada no valor e nos limites da finitude e da existência humana, na linha do Hans Jonas? Ou permitiríamos que a técnica seja o limite da própria técnica, e assim, buscar realizar até a última de suas possibilidades?

Penso que essa dimensão ética é também um importante ponto, e que aquelas perspectivas dicotômicas, para o bem ou para mal, facilitam sua resposta, ou que não quer dizer que seja a melhor resposta, ao passo que, talvez, a perspectiva que acentua o caráter ambiguo e aporética da técnica torne resposta mais complicada. Até mais, abraços.

Le Cazzo disse...

Oi, Alyson.

Obrigado pelos comentários e questões. Não sei como Maria Eduarda e Luiz Carlos se posicionariam em relação a essas últimas, às suas questões. O iluminista em mim acredita que a pesquisa científica não deve ter limite, mas que a técnica e a inovação que dela se originam devem ser socialmente controladas. Isso, no entanto, não chega a ser uma resposta. Ora, a pesquisa científica é hoje tão intimamente relacionada à técnica que fica difícil pensá-la pura, sem tradução e pressupostos técnicos. Para pesquisar antimatéria, na Europa, foi construído um laboratório gigantesco, sobre cujo funcionamento havia inquietações consideráveis no que diz respeito à segurança; não há como fazer pesquisas com recombinação de DNA sem riscos ambientais, maiores ou menores etc. etc.

É óbvio que não devemos acreditar que haja uma vontade de saber que se alimenta por si na contemporaneidade. Toda ciência tem controle social: afinal algumas pesquisas são financiadas e outras não; alguns projetos têm estímulo da comunidade científica, outros não; são considerados socialmente relevantes e outros não. Quem faz tecnociência sabe muito bem disso e é aqui que percebemos uma dimensão política clara em nossos envolvimentos com a tecnologia e com a ciência. Que compromissos sociais são esses? A quem beneficia a ciência que se produz?

De um ponto de vista mais filosófico, poderíamos ainda pensar nos pressupostos ontológicos a partir dos quais a tecnociência opera. Você está correto. Creio que isso nos traz a oportunidade de pensar acerca de uma possibilidade histórica do ser humano e de inquirir: em que medida essa possibilidade, a instrumentalização etc., nos interessa particularmente? em que medida ela pode ser evitada? E em que medida essas possibilidades nos afetam enquanto seres humanos - e não enquanto proletários, brasileiros, latinos, homens etc. O curioso nas críticas de Heidegger, Arendt, das quais partimos no texto acima, é que embora formulando perguntas com implicações eventualmente essencializadoras (o ser humano enquanto tal), elas visam a "contingência" do ser. E aqui há um espaço para reflexão (política e ética) muito grande.

Bem o comentário sobre o comentário está meio desorganizado, mas vai assim mesmo. Abraços.

Alyson Freire disse...

Olá novamente, prof. Jonatas

Sua resposta/questionamento sobre a necessidade de discutir em que as possibilidades técnicas nos afetam enquanto seres humanos, fez-me lembrar de um debate recente ocorrido na Flip deste ano, entre Miguel Nicolelis - famoso neurocientista - e Luiz Felipe Pondé - filósofo. A questão era mais ou menos essa, pelo menos era para onde o Pondé tentou conduzir o debate.

Nicolelis, entre outras coisas, defendeu que o termo "milagre" deveria fazer parte do vocabulário da Ciência, e não da religião. Falou de seu projeto de que na abertura da copa do mundo uma criança tetraplegica caminhe até o centro do campo e deu o ponta pé inicial com a ajuda de um exoesquesleto biônico que decodificaria os comandos motores do cerebro.

Enfim, chamava atenção em seu discurso a pretensão - típica do humanismo iluminista - de libertar o homem, erradicar o sofrimento humano via a manipulação da natureza, nesse caso, a natureza interna do ser humano. Mais ainda: vibrava no ar uma relação encantada e quase mística com a ciência e a técnica, que em momento algum perguntava-se sobre as implicações sociais e morais, ou sobre as questões que você colocou, mas tão somente pelas possibilidades técnicas e clínicas.

Esse tipo discurso desprovido de mediação ética, meio místico e salvacionista, me parece um tanto quanto assustador, dado seu potencial de reificação e seu poder de encantamento e deslumbramento que acabam por blindar na esfera pública o debate com respeito as implicações de tais pretensões e possibilidades.

Caso interesse, parte do debate está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=JBnQWmb2bdA

Abraços,

Le Cazzo disse...

Obrigado pela sugestão, Alyson. Abraço, Jonatas

Tâmara disse...

Jonatas e Alyson,

A conversa entre vocês dois contagiou-me, deu vontade de voltar a participar. Parto das considerações de Jonatas, que traduzo em meus termos como mezzo iluminstas/mezzo lefforteanas (segundo o que Luciano Oliveira tem nos ensinado aqui no Cazzo): necessidade universalisa'vel de controle social das tecnologias e poli'tico como contingência do ser. E agora chego às preocupações de Alyson (que são nossas também): não tem sai'da, diante do assustador, encantador e poderoso discurso do neurocientista, a u'nica solução é mergulharmos no poli'tico. Como têm feito "les indignés" do mundo inteiro e, acho, como estamos fazendo agora nesse cantinho do cazzo. E que deuses nos ajudem, porque os demônios estão virados no cabrunco! Abraço.

Le Cazzo disse...

Obrigado pela sequência do comentário, Tâmara.

Bem, tão logo o nosso ensaio saia na tal coletânea (o que esperamos ocorra ainda esse ano), publicá-lo-emos na integra aqui no Cazzo. Alguns dos pontos que você e Alyson levantam são de algum modo discutidos na versão completa. (e isso não é apenas propaganda descarada).

Jonatas

Raíza disse...
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