quarta-feira, 30 de maio de 2012

Alerta geral: o recrutamento de professores para o ensino básico de sociologia não pode ser confundido com videogame



Por Tâmara de Oliveira

Em janeiro último, foi aberto, pela Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão do governo de Sergipe, edital para realização de Concurso Público para provimento do cargo de professor de Educação Básica, com 47 vagas para licenciados em Ciências Sociais ou em Sociologia. Esse edital chegava em boa hora, pois aqui em Sergipe vivemos alguns anos convivendo com a resistência governamental à abertura de vagas para diplomados em ciências sociais ou sociologia – fato que agravava os numerosos pontos frágeis do retorno da sociologia ao ensino médio no país.

Estávamos então animados, sabendo da preparação para o concurso de numerosos de nossos egressos e aguardando o certame e seus resultados. O concurso foi realizado em 1º de abril, dia da mentira, pois é...Pelo menos entre os professores do DCS/UFS, ninguém tinha atinado para essa coincidência temporal, até começar a perguntar a um(a) e outro(a) egresso(a) como ele(a) tinha se saído. Fomos percebendo que gente demais saiu-se mal ou muito mal, inclusive alguns cuja reputação desde o primeiro ano de graduação até a seleção para o doutorado em sociologia, sempre foi a de excelentes estudantes. As palavras de uma candidata (doutoranda em sociologia) sintetiza o alarme: “acho que não passei, professor, foi uma prova tão confusa...” Logo depois, fomos consultados por outros candidatos – que abriam recursos contra os resultados da prova (dita objetiva).

Entretempo, outros acontecimentos nos faziam pensar: o Ministério Público estadual já tentara, sem sucesso, anular o concurso antes de sua realização e, posteriormente, recebendo uma comissão de concursados para denunciar irregularidades, continuava apurando os numerosos problemas da prova desse concurso, em várias áreas do conhecimento: química, física, geografia, biologia... Conversando com colegas de outros departamentos, soubemos que em história, também, concursados procuraram professores do departamento para auxiliá-los na análise e elaboração de recursos. Em reunião ordinária, o professor José Rodorval Ramalho trouxe o assunto à pauta e o Conselho Departamental de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe deliberou pela composição de uma comissão para analisar e elaborar parecer sobre a prova de sociologia, bem como sobre as justificativas do responsável por sua elaboração (Fundação Professor Carlos Augusto Bittencourt – FUNCAB) a respeito dos recursos impetrados por candidatos. Essa comissão foi composta por mim, Christine Jacquet e José Rodorval Ramalho.

Antes de qualquer coisa, decidimos que cada um faria a prova em casa. Teve sua graça. Descobrimos que nós, professores do único departamento de ciências sociais de Sergipe, estaríamos provavelmente entre os reprovados do concurso. Disse provavelmente, porque nem verificamos nossos resultados pelo gabarito da prova, tamanho foi o susto que cada um teve em sua casa, à medida da leitura das questões da prova de sociologia, dita objetiva, da FUNCAB. Nosso exercício lúdico de se testar numa prova para o ensino básico de sociologia sofreu um terrível choque de realidade: esse concurso público, ao invés de exprimir um avanço no retorno do ensino médio de sociologia, revela que o recrutamento de professores pelos governos estaduais (responsáveis pela maior parte do ensino básico no Brasil), pode até agravar os pontos frágeis desse retorno.

Já sabíamos que a Ação Pública com Medida Liminar ajuizada pelos promotores do MPE-SE em março de 2012, requerendo suspensão do concurso, fora justificada por ausência de licitação na escolha da FUNCAB como elaboradora das provas. Mas essa Ação foi recusada pela justiça, tendo em vista a diversidade interpretativa possível e juridicamente legítima que se dá ao conceito de inexigibilidade de processos licitatórios. O que pudemos perceber, analisando a prova de sociologia, é que o princípio legal que foi mais afrontado pela escolha sem licitação da FUNCAB foi o da eficiência do serviço contratado – inscrito no Art. 37 da Constituição Federal, ao lado dos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.

Com efeito, a FUNCAB elaborou mal a maioria das questões (com certos enunciados falsos, outros imprecisos, outros simplesmente confundindo comentadores indeterminados com os autores em questão; com certas questões possuindo mais de uma ou até todas as alternativas potencialmente válidas – a depender do ponto de vista que não foi explicitado –, outras com a alternativa oficialmente válida simplesmente incorreta, outras ainda deformando a argumentação dos próprios autores ou comentadores utilizados – devido à introdução de termos equivocados ou adjetivos excessivos).

O resultado não pode ser considerado como uma prova que testa conhecimentos específicos em sociologia, mas como um conjunto errático de questões e/ou alternativas oficialmente válidas que, majoritariamente, confudem os candidatos. Com efeito, dado o impressionante número de questões problemáticas, pode-se afirmar que a prova da FUNCAB tem mais afinidades com um videogame (onde cada etapa implica em armadilhas cada vez mais perigosas contra o jogador) do que com um teste de conhecimentos científicos de candidatos. Abaixo, reproduzo o parecer que elaboramos e que foi entregue ao promotor Luiz Fausto Valois, em audiência pública do MPE-Sergipe aos 09 de maio de 2012:

O edital n°01 de 27 de janeiro de 2012 referente ao concurso público n° 01/2012 para provimento do cargo de professor de Educação Básica do estado de Sergipe, como também a capa do caderno de questões entregue aos candidatos no dia da prova escrita explicitam que a primeira etapa do referido concurso é constituída por uma prova objetiva composta por questões de múltipla escolha, o candidato devendo "marcar, para cada questão, somente uma das opções de resposta. Será considerada errada e atribuída nota 0 (zero) à questão com mais de uma opção marcada, sem opção marcada, com emenda ou rasura" (artigo 9.10, p. 14 do edital).

Uma questão de prova é objetiva quando as opções corretas (ou incorretas) são independentes do candidato e do autor da pergunta, e portanto, irrefutavelmente exatas (ou erradas) em relação ao enunciado do problema. Deve, conseqüentemente, ter delimitação de conteúdo inequívoco.

Ora, o Departamento de Ciências Sociais (DCS) da Universidade Federal de Sergipe sustenta que determinados enunciados, tanto das questões como também das alternativas propostas, não são objetivos e propiciam várias possibilidades de resposta ou até nenhuma: o uso recorrente de termos dúbios (em geral, alguns estudiosos, os estudiosos contemporâneos da modernização, as teorias acerca da pós-modernidade, os escritores pós-modernos, os novos teóricos sociais, os funcionalistas em geral, etc.), como também de aspas para expressões que não se reportam a conceitos sociológicos, títulos de livros ou ainda citações explícitas (por exemplo nas questões 29-30-33-41-49-50), geram ambigüidades, criando problemas gravíssimos no entendimento. As ciências humanas e sociais são caracterizadas por uma diversidade interpretativa. Se a prova objetiva não explicita com clareza os pontos de vista aos quais as questões se referem, não distingue os comentadores utilizados dos autores em foco na prova, ou ainda, é errática na seleção dos comentadores utilizados (contruindo questões, por exemplo, que ora incluem ora excluem tal ou tal autor da tradição sociológica) e, excede em adjetivos ou termos estranhos à sociologia que deformam argumentos dos próprios comentadores utilizados, o resultado é a própria negação do princípio de uma prova objetiva. A prova desfavoreceu os candidatos que se prepararam para o concurso, pois os confundiu desde a imprecisão de certos enunciados até as alternativas apresentadas para responder aos mesmos.

A propósito, vale a pena indagar sobre a composição efetiva da equipe de elaboração das provas. Quais foram os sociólogos ou cientistas sociais participantes? Quais as modalidades concretas dessa participação – coordenação efetiva e regular ou mera consultoria pontual e apressada? Eis algumas questões fundamentais que nossa responsabildade profissional e cívica desenvolveu durante essa necessária avaliação da prova da FUNCAB/SEED.

Assim, segundo a análise realizada pela Comissão nomeada pelo DCS, quanto às questões da prova e, outrossim, quanto às justificativas sobre os recursos feitos por candidatos que se sentiram prejudicados, a FUNCAB/SEED incorreu em todas as falhas acima citadas. Desse modo, acatar tal prova como instrumento adequado para o recrutamento de professores do sistema público de ensino de Sergipe seria corroborar e reforçar seus graves problemas.
(Jacquet/ Oliveira/ Ramalho)

Nosso documento inclui ainda a análise de cada questão problemática, bem como das justificativas da FUNCAB para o deferimento ou indeferimento de recursos. Para ilustrar o tamanho do problema, solicitamos anulação de 18 das 24 questões da prova de sociologia. Uma delas já fora anulada pela própria FUNCAB, deferindo apenas um dos numerosos recursos dos candidatos. Os concursados prejudicados de química tiveram mais sorte do que os nossos, já que a FUNCAB deferiu recursos referentes a nove (9) das questões específicas em química...Em geral, segundo a imprensa local, o MPE declarou que o período dos recursos fechou-se com a anulação de 62 questões da prova e a alteração de mais 23 pela própria FUNCAB. Mas novas denúncias continuavam a chegar, como as de concursados em sociologia e a da comissão do DCS – que só foram entregues ao MPE durante a audiência do último dia 09 de maio. Francamente, quando a próprio elaborador da prova anula 60 questões e altera 23, durante o período de apreciação de recursos contra os resultados, podemos estar certos de que as denúncias não são mero efeito da judicialização das sociedades contemporâneas, desse fenômeno responsável pela proliferação de uma espécie nova, a dos candidatos a recursos, mas a indicação de que o próprio elaborador da prova está desorientado sobre o que elaborou.

Durante a audiência pública em 09 de maio, decidimos comparecer todos da comissão, acompanhados de nossa chefe departamental, profª Joelina Menezes – que compôs a mesa da audiência, a convite do promotor Valois.

Entendo que fizemos muito bem em comparecer institucionalmente. De fato, embora os problemas da elaboração das provas envolvam diversas áreas do conhecimento, fomos o único departamento universitário a se apresentar oficialmente como reclamante. Dois professores do departamento de física da UFS atestaram por escrito a legitimidade dos recursos dos concursados de física, mas seu departamento não se pronunciou oficialmente. E mais nada. A maioria dos candidatos sentindo-se prejudicados estavam naquela audiência por sua conta e risco, principalmente o de serem considerados candidatos sem preparo que, por razões oportunistas, estavam instrumentalizando a justiça para justificar sua reprovação – como podemos ler entre internautas que comentam as notícias sobre esse imbróglio.

Ora, enquanto órgão responsável pela formação universitária de licenciados, nosso departamento, como qualquer outro, conta com egressos aprovados e reprovados, logo, não é parte interessada na anulação oportunista do concurso. Nossa motivação vem da análise cuidadosa das questões da prova de sociologia, constatando que a mesma fere o princípio moderno de seleção, qual seja o da meritocracia que, embora atravessado de problemas (como dira um John Rawls), ainda é o meio mais legítimo para a distribuição de cargos em sociedades democráticas. Neste sentido, lembramos ainda que concursos públicos ou ferramentas de avaliação de desempenho referentes à educação formal no Brasil, têm sido recorrentemente contestados (como o ENEM, por exemplo). Mesmo relativizando essa recorrência pelo fato de que vivemos num contexto histórico-social de judicialização abusiva de situações de conflito ou desacordo, nossa avaliação técnica da prova da FUNCAB/SEED indica que estamos diante de um problema muito grave, já que esses concursos ou ferramentas de avaliação de desempenho referem-se à educação formal, ou seja, a um domínio societal ao mesmo tempo problemático e crucial para uma sociedade que pretende consolidar suas aquisições democráticas. Selecionar empresas para a elaboração de concursos (ou convidar legalmente, como foi o caso de Sergipe) a partir de uma lógica meramente econômico-burocrática pode revelar-se – como revela-se neste caso – trágico, no que diz às possibilidades de consolidação de nossas aquisições democráticas e, sobretudo, de enfrentamento das condições lamentáveis de nosso sistema de ensino básico.

A FUNCAB (também representada na audiência pública) comprometeu-se em avaliar as novas irregularidades encaminhadas ao MPE. Todavia, a fala do representante da Procuradoria Geral do Estado apresentou uma consideração que nos deixa inquietos sobre o desenrolar do processo. Com efeito, declarando que o mais importante é que nossas crianças e adolescentes não permaneçam sem professores em sala de aula, parece-nos deixar indicado que a orientação do governo estadual é a de solucionar rápida e “jeitosamente” os problemas levantados, economizando o tempo necessário para a organização e realização de outro concurso.

Cá pra nós, se a prioridade é colocar professores nas salas de aula o mais rápido possível, independentemente da qualidade do processo seletivo, reclassificando candidatos a partir de uma quantidade cada vez menor de questões válidas, por que não contratar professores pela mera análise de cartas de motivação dos candidatos? Em termos não irônicos: como sustentar a validade de um concurso em que a própria empresa que elaborou as provas já anulou ou alterou mais de oitenta (80) questões e ainda pode anular dezenas de outras?

No que diz respeito à prova de sociologia, não sabemos que “jeito” poderia ser dado, considerando-se que a maioria das questões são problemáticas. Digamos que a FUNCAB defira apenas metade de nossos recursos: isso significaria a anulação de 8 questões, ou seja, um terço da prova de conhecimentos específicos. Qual a validade de uma reclassificação dos candidatos, nessas condições? É o que já se pergunta sobre a prova de química, posto que a FUNCAB, analisando recursos que lhes chegaram às mãos a partir da própria comissão local de organização do concurso (segundo um de seus membros presentes à audiência), já anulou 9 das questões.

É por isso que estamos tentando tornar o mais público possível a situação que vivemos com esse processo mais do que sintomático de recrutamento de professores do ensino básico em Sergipe. Precisamos enfrentar a tentação governamental de considerar a economia de tempo e dinheiro como o princípio fundamental da solução das necessidades e problemas educacionais. De fato, a autonomia quase totalitária da lógica do capitalismo financeirizado, bem como as consequências socioantropológicas do imperativo da aceleração da experiência social do tempo (tão adequada ao funcionamento desse capitalismo financeirizado e enlouquecido), mantêm-se impregnando as orientações das políticas públicas dessas nossas sociedades globalizadas e cada vez mais desiguais e injustas.

Finalmente, estou falando sobre um concurso ocorrido no estado de Sergipe, mas tratando de um grave problema de recrutamento de professores do ensino básico que pode acontecer em outros estados brasileiros. Considerando que o retorno do ensino médio da sociologia apresenta fragilidades que interessam diretamente aos profissionais e entidades das ciências sociais do país, espero que nosso caso seja objeto de reflexão e ação mais amplas. Além disso, como o processo do MPE junto à justiça continua em andamento, sendo que o julgamento de seu mérito pode ser beneficiado com o acúmulo de análises das provas, como a que fizemos, entendo que ainda é tempo de reagir.



13 comentários:

José Aderivaldo Aderivaldo disse...

Aqui no Estado da Paraíba o Concurso, realizado em 2008, ainda hoje repercute no poder judiciário tendo em vista o número de ações. Ocorreu que o edital, mal formulado, era bastante enfático que somente os Licenciados em Sociologia ou em Ciências Sociais com diplomas até 1998 poderiam lecionar. Absurdo! Nós somos formados pela UFCG como Licienciados em Ciências Sociais. Os aprovados no concurso não puderam assumir a função de professor. Ainda hoje sou professor da Rede Estadual por força de Liminar cujo mérito ainda não foi julgado e, da mesma forma que eu, muitos outros colegas aprovados (80) estão em situação similar. Há dois anos o Ministério Público chamou as partes para assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta para solucionar o problema o que não aconteceu ainda. O judiciário deu ganho de causa a maioria dos professores que entraram com processo, mas ainda aguardamos os trâmites burocráticos. Não obstante tudo isso uma segunda ordem de problemas é enfrentada pelos que conseguiram assumir: as condições de trabalho.

Temos uma aula em cada série do ensino médio. As direções escolares, desconhecendo a importância da Sociologia, acabam colocando os piores horários para as aulas, não temos livros didáticos para os alunos, faltam equipamentos para trabalhar materiais alternativos. Acrescente-se a isso o fato de que a escola não formou, no ensino fundamental e nem forma no médio, o aluno como sujeito do processo de modo que ele rejeita qualquer proposta em que ele tenha que interagir, debater, mostrar sua produção escrita... Em resumo, estamos também enfrentando dificuldades no processo de ensino da Sociologia o que nos tem feito refletir bastante sobre a nossa prática docente no ensino básico. Na Paraíba formamos uma associação que tem discutido alternativas a essa problemática.

Tâmara disse...

Gostaria de fazer algumas atualizações necessárias sobre o concurso em questão, pois que cheguei agorinha do Ministério Público Estadual com novas informações:
- outros departamentos da UFS e uma Universidade privada também entraram com reclamação sobre as provas - em várias áreas do conhecimento;
o MPE-Se manterá a ação solicitando anulação do concurso, pondo em questão o argumento da inexigibilidade de licitação do governo estadual, juntando as numerosas reclamações sobre as provas ao processo;
- a FUNCAB não anulou nenhuma questão colocada como problemática pelo DCS-UFS.
Continuaremos então resistindo.

Tâmara disse...

Oi, Aderivaldo,
Temos algo em comum: graduei-me em Campina (à época, ainda na UFPB). Fui um elemento da "Esquina do Grude" (já ouviu falar?) E tenho um ex-aluno aqui de Sergipe que também passou nesse concurso da Paraíba e até hoje está na luta.
Apesar de todas as dificuldades, as iniciativas para fazer da volta da sociologia e da filosofia no ensino médio algo importante, estão crescendo. Parabéns pela associação(aqui ela é incipiente, mas vejo recem-formados interessando-se - e, o mal nem sempre é completamente mal, os problemas com esse concurso tem sido um catalizador de energias).
Vocês já conhecem o PIBID de Campina? Acho que seria bom criar laços orgâncios com ele. Não tenho certeza absoluta, mas creio que o coordenador do PIBID aí chama-se Ivan (outro ex-aluno da UFS).
Sabemos que a Justiça é lenta,mas não pretendemos cruzar os braços.
E obrigada pelo comentário.

Tiago Cesar disse...

Embora tenha sido considerado classificado e aprovado em todas as etapas do concurso referido, reconheço que passei em um concurso de Sociologia mais em função das questões sobre pedagogia e psicologia, do que por causa de meus conhecimentos sociológicos. A prova realmente não reconheceu com objetividade nossos conhecimentos das ciências sociais.

Se o concurso em questão não for anulado, e chegar, por isso, a ser convocado e assumir o cargo, darei o meu melhor para minimizar os efeitos desta seleção conturbada e injusta, no exercício de meu magistério. Mas defendo solidariamente a anulação do concurso e uma concorrência justa num próximo, que ponha em cheque nossos conhecimentos básicos de Sociologia e faça valer nosso investimento intelectual que à duras penas e suor temos nos esforçado para desenvolver e aprimorar.

O que ocorreu desrespeita não só os concorrentes, mas também nossos docentes e formação acadêmica, e até mesmo a própria sociedade, cujos filhos estudarão sob a orientação dos profissionais aprovados.

Tâmara disse...

Tiago,
Quando leio palavras como as suas, minha humanidade cresce.
Esse concurso foi de fato escandaloso demais - e em várias áreas do conhecimento. O respeito precisa ser resgatado; e isso, tanto para quem foi reprovado como para quem foi aprovado. Um grande abraço.

Tâmara disse...

Tiago,
Respondi ontem ao seu comentário, mas acho que houve algum problema com o blogger.
Tento novamente porque sua posição é extremamente importante (para mim, pessoalmente, ler palavras como as suas aumenta minha humanidade).
De fato, os absurdos desse concurso prejudicam não só quem foi reprovado como quem foi aprovado. Restaurar a seriedade de processos seletivos é o único motivo que nos tem movido. E fico animada por outros departamentos estarem começando a fazer o mesmo. Obrigada.

J. Sandes disse...

Gostaria de externar minha satisfação ao ler esse artigo, não simplismente por representar o sentimento de todos que se sentiram prejudicados no concurso, mas principalmente pela pessoa que escreveu. Obrigado, Pr. Tâmara (e todos dos demais Mestres)que não se calaram diante dessa palhaçada, em que todos os palhaços...quer dizer, cientistas sociais foram esculachados!!!

Alyson Freire disse...

Lamentável a situação do concurso de Sergipe.

Aqui, no RN, a prova do concurso em Sociologia, realizada no final do ano passado me surpreendeu positivamente. Apesar de algumas questões ambíguas e, até, questionáveis quanto a definição de alguns conceitos, ela foi no geral bem elaborada. Na verdade, na época, quando folhei outras provas para ter uma ideia, esperava algo pouco objetivo e claro. No entanto, a cesgranrio conseguiu de fato construir uma prova razoável aos candidatos não só pelo grau de objetividade das questões mas pela seleção e organização delas em relação à tradição e teoria sociológica.

Ouvi reclamações de outras áreas. Mas em Sociologia a maior parte dos colegas que, também, fizeram concordaram com a qualidade da prova.

Porém, nem tudo são flores. O problema aqui tem sido a convocação. No pólo no qual passei (Natal I), das 23 vagas ofertadas no edital, somente convocaram duas pessoas. O mesmo acontece em outras áreas e pólos, em algumas sequer convocaram alguém. As escolas estaduais potiguares estão repletas de temporários e/ou profissionais de outras áreas lecionando disciplinas estranhas a sua formação. Também aqui, estamos lutando. Os classificados e suplentes/aprovados de todas as áreas formaram uma comissão para tentar agilizar a convocação.

Gostaria de parabenizar Tâmara pelo texto e o DCS-UFSE. Ações e intervenções como a que vocês empreenderam são fundamentais para reverter o quadro no qual se inscreve, em alguma medida, toda essa situação do concurso de Sociologia de SE: a falta de reconhecimento dos cientistas sociais e da sociologia. Parabéns, e todo apoio a luta de vocês! Abraços,

Tiago Cesar disse...

Estimada Tâmara,

Eu é que agradeço pela atenção que vocês, nossos professores, têm dedicado à questão, tanto nas palavras, quanto nas atitudes. Saiba que tal exemplo já repercutiu positivamente para muitos de meus amigos, porque a despeito das injustiças, ao menos se sentiram amparados pelo apoio importantíssimo que receberam dos docentes do DCS/UFS.

Com a força e persistência de todos, acredito que a situação será resolvida e o respeito aos sociólogos e à sociedade prevalecerá. Que venha um concurso sério e os aprovados possam dizer sem dor na consciência um PASSEI bem grande, podendo os reprovados aceitarem a justa derrota como um estímulo para se prepararem melhor às outras oportunidades!

Tâmara disse...

Parte I
É sempre reconfortante ter um trabalho da gente reconhecido – trabalho que está longe de acabar, pelo andar da carruagem. Agradeço em nome da comissão e de todo o DCS. Vou tentar responder a todos ao mesmo tempo (talvez em duas partes, por falta de espaço), porque há duas coisas interdependentes e importantes no que vocês (somando Aderivaldo) colocam: a) a necessidade de reconhecimento das ciências sociais e da sociologia; b) qualidade dos concursos para magistério em estados diferentes. Quando Alyson afirma que foi surpreendido positivamente pela prova elaborada pela Cesgranrio no RN (comparando-a a outras provas folheadas), acredito que está tocando numa espécie de experiência/representação consolidada: os concursos públicos para magistério são demasiadamente problemáticos – a ponto da prova do RN surpreender positivamente, apesar de algumas questões ambíguas e conceitos questionáveis e, das reclamações em outras áreas.
Quando analisávamos a prova, um de nós conversou com o chefe de outro departamento (de uma área há muito consolidada em concursos públicos) e ele disse: “esses concursos são todos muito problemáticos, mesmo”. Neste sentido, penso que nossa condição relativa de debutantes no ensino básico foi crucial: ainda não naturalizamos esses problemas e, em nós, eles articulam-se inevitavelmente à necessidade de consolidação legítima de nossa área de conhecimento; sendo assim, nosso estranhamento diante de uma prova que fere justamente sua designação oficial – uma prova objetiva cuja maioria das questões parecia exigir que os candidatos entrassem em contato psicografado com o elaborador para saberem de que ponto de vista ele estava interrogando –, tem operado como catalisador de ações contestatárias que estavam bloqueadas pela naturalização desses problemas. Em suma, como se afirma nas orientações curriculares nacionais da reforma que reintroduziu o ensino básico da sociologia, nossa área de conhecimento justifica-se centralmente pela potencialidade de estranhamento e desnaturalização da construção social da realidade. Francamente, fico orgulhosa ao saber que, depois que nós decidimos assumir uma posição pública de reclamante do concurso, outros departamentos têm seguido nossos passos. Torço para que possamos somar esforços. Concluo na Parte II.

Tâmara disse...

Parte II
O concurso de Sergipe já se transformou em imbróglio jurídico, sabemos que temos uma longa e difícil estrada a percorrer. Mas o fato de encará-la institucionalmente, acho, traz um salto nas possibilidades de interferência sobre os modos naturalizados de seleção de empresas e elaboração de provas de concursos públicos para o magistério. Refletindo sobre algumas informações a respeito do modo como em Sergipe o concurso foi realizado, acredito que há um péssimo princípio sobre o qual ele assentou-se: o da chamada “economia do conhecimento” que, embora se manifeste das mais variadas formas nesse mundo globalizado de meus deuses, submete as finalidades da educação à criação e acumulação de valor – no sentido capitalista e “financeirizado” do termo. Sendo assim, reduzir custos (tempo incluído) e aumentar a produtividade são os cânones das decisões públicas quanto ao recrutamento de professores. Não estamos brigando contra um acidente de percurso, mas contra a orientação dominante das políticas públicas contemporâneas mundo afora. Que deuses e demônios nos protejam! Obrigada pelos comentários.

Anônimo disse...

Boa tarde a todos,

A Funcab nem direcionou a resposta do não aos candidatos de Ciências Sociais, diante do recebimento de um relatório de um Departamento de Universidade.
Depois disso ainda há alguma solicitação correndo no MPE. Há algum prazo para resposta?

Tâmara disse...

A FUNCAB enviou sua resposta a quem de direito - o MPE, a quem o DCS encaminhou o relatório. A FUNCAB indeferiu todos os pedidos de anulação do DCS. O MPE instituiu uma ação cautelar e pede anulação do concurso por ausência de licitação. Prazos para a solução do problema, não temos. O caso está rolando na justiça, e, possivelmente, processos diferentes e instâncias diferentes serão acionados.