quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A conversão à antropologia como condição de uma antropologia das conversões

"Infinity Mirroed Room - Love Forever". Instalação de Yayoi Kusama, 1994.

Por Diogo Correa* - Doutorando, Iesp-Uerj


21 de Agosto de 2013, culto de ação de graças na Igreja Assembleia de Deus.

Pastor Zé do Galão: “Vamos ouvir o nosso amado irmão? Amém? Vamos ouvi-lo em sua oportunidade”.

Sentado no banco mais próximo ao púlpito, eu olho para ele, surpreso. Embora fosse o culto de ação de graças que eu mesmo propusera e fizera em agradecimento ao apoio que me fora concedido ao longo da pesquisa, eu não esperava naquele momento falar; menos ainda ser chamado ao púlpito assim, de supetão. Sim, antes do culto, aquilo havia passado pela minha cabeça, é verdade. Mas, no momento em que fui chamado, o culto já estava praticamente em seu momento derradeiro. E ali, naquele exato momento, já não achava mais que seria chamado. Não mesmo. Ao ver que estava surpreso, o pastor Zezinho olhou novamente pra mim, e logo reafirmou de modo carinhoso o que dissera: “sim, é você mesmo! Vem, filhão!”

Nos quase dois anos de trabalho de campo, foi a primeira e única vez que eu iria ocupar aquele espaço. No curto caminho até o púlpito, tal como frequentemente ocorre nos momentos finais de um personagem, um filme veio-me à mente. Repentinamente, dei-me conta de aquele momento era o fim de um ciclo da tese, talvez o mais importante: era o fim do meu trabalho de campo. E agora? O que dizer? Simplesmente agradecer com um “muito obrigado”?

Enquanto pensava e caminhava na direção do púlpito, as pessoas, os fiéis que assistiam ao culto, gritavam, como de praxe: “Oh Glória! Meus Deus! Aleluia! Glória a Deus!”. E todas essas vozes mescladas ajudavam a (re)produzir uma atmosfera retrospectiva que me remetia imediatamente às minhas primeiras incursões no universo da Igreja. Com a pequena diferença, é claro, de que tudo aquilo, agora, já não me era mais completamente estranho. Daí porque surgiu-me naquele exato instante a simples e mesmo óbvia ideia: por que não tentar fazer um breve relato dessa história? A história de como, pouco a pouco, tornei-me parte daquele universo? Ou de como, progressivamente, aquele universo tornara-se parte de mim? Já no púlpito, dei um abraço no pastor, agradeci a oportunidade, e cheguei a brincar: “Pô, você podia ter me avisado, quem sabe eu até pregava?”. Risonho, ele apenas disse: “Amém, irmão? Pode falar com as suas palavras, agradecer”.

Foi então, naquele exato momento, que tive “uma experiência” no sentido de John Dewey, e intui a conversão pela qual eu havia passado. Em meu silêncio momentâneo, imerso na pausa reflexiva que prenuncia a fala, cheguei a lembrar de um antigo email de Daniel Cefaï, em Outubro de 2011, quando eu acabara de voltar de Paris, após um tempo de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em que ele dizia: “você está muito teórico, para falar da conversão dos teus nativos, você precisará passar pela tua própria!” Não, não se tratava obviamente de “go native”, de virar evangélico e passar a falar nos mesmos termos que os dos meus pesquisados. Claro que não. O Daniel se referia, antes, à conversão a que todos aqueles que objetivam fazer um trabalho de campo, e mergulham em um verdadeiro engajamento etnográfico, precisam necessariamente passar. Sim, ali eu realizara que aquela experiência havia me transformado. Eu não era decerto mais a pessoa que, quase dois antes, pisara naquela favela e entrara naquela Igreja. E se o ambiente tornara-se outro é porque o meu corpo, o meu organismo também havia igualmente passado por uma transformação. Sim, como os meus nativos, eu também havia passado por uma conversão, mas uma conversão distinta daquela dos meus pesquisados, já que uma conversão à etnografia. E o encerramento do ciclo etnográfico era como uma espécie de carimbo, de licença, salvo-conduto, passaporte: eis que agora você está apto a ir para a próxima fase, a escrita da tese. A sensação era de que, naquele momento, eu finalmente me tornara alguma espécie de antropólogo ou sociólogo, sei lá. Simplesmente eu intuía que eu mesmo me tornara algo diferente do que eu era ou do que eu havia sido quando entrei no campo. Eu passara, naquele momento, pelo que Anselm Strauss define como um incidente crítico que nos faz perceber que não somos mais o mesmo de antes. Em suma, eu próprio passara, para citar William James, por “uma diferença que faz diferença”. E isso se dava ao modo de uma espécie de percepção sensível, intuição de que  algo irreversível havia ocorrido, de que eu mesmo fora acometido por uma espécie de turning point. Não havia mais volta. E, por isso, só agora eu podia, enfim, falar sobre esse algo do qual eu só tinha duas certezas: ele não se reduzia a uma psicologia introspectiva, nem a uma digressão teórica solipsista. Sentia-me agora, não, como Tim Ingold define a antropologia, preparado para fazer “filosofia com os outros dentro”, mas, de modo distinto, sentia-me capaz de fazer a “filosofia dos outros, só que comigo dentro”. Sim, era isso: o fim do campo era a passagem de um limiar do processo conversivo pelo qual eu havia passado, e continuaria passando ao longo da escrita da tese. De forma confusa, mesclada, ambígua, compactada, numa espécie de bloco íntegro (e múltiplo) de espaço(s)-tempo(s), tudo isso me veio à mente naquele momento. E era sobre isso, no final das contas e ainda que desengonçadamente, aquilo sobre o que eu queria (e deveria) falar. Em segundos, eu passei a ter algo a dizer; em milésimos, me senti ocupando o espaço deles, e com o corpo naquele lugar, um ponto de vista nunca antes tão próximo dos próprios nativos. O púlpito tornara-se agora meu espaço e um testemunho possível passara a me habitar. Tudo se passava como se eu mesmo tivesse enfim atravessado o outro lado do espelho: além do meu corpo estar ali, onde sempre habitara o corpo dos outros, eu tinha finalmente, como eles aliás sempre tiveram, um “testemunho” a dar, uma história de transformação a contar, enfim algo, na linguagem deles, a dizer. E do mesmo modo que Deus, em seu poder absoluto de agência, era, na cosmologia deles, quem os clamava e os conferia a força necessária para a conversão, eu me dei conta, de modo análogo, de que eles, os meus nativos, eram o que, ao longo do trabalho de campo, haviam me interpelado, me feito desejar e realizar o ato conversivo – sim, para a conversão etnográfica. Para fazer a “filosofia deles, comigo dentro” era preciso não aceitar o Deus deles, mas, de modo distinto, fazer da própria alteridade dos meus nativos o meu próprio Deus. Sim, os “outros” eram o meu Deus, e era a eles a quem eu devia fidelidade. E ser fiel, no caso, significava saber que aceitar a alteridade como Deus não é o mesmo que aceitar o Deus da alteridade. Por isso, é verdade que a minha conversão não era tanto aquilo que eles imaginavam, menos ainda esperavam. E nem eu. Mas o importante era que entre a minha conversão e a conversão deles havia uma similaridade formal ao preço de “dissonâncias” ou “equivocidades” concretas. E era, ao fim e ao cabo, a história dessa dissonância, dessa fricção de diferenças que eu queria contar. Eram, portanto, essas dissonâncias e os contrastes que emergiam da diferença entre as duas conversões que seriam, no final das contas, a minha própria tese. Mas além de contar a história dessas dissonâncias e equivocidades e suas decorrentes comparações, eu queria, enfim, tentar dar uma resposta a algo que eu tanto havia adiado, tergiversado, fugido ou simplesmente recusado a responder aos meus nativos, pois até então eu não podia ou não tinha algo a dizer. Entendi, naqueles poucos segundos, que eu poderia dar aos meus nativos a resposta para a pergunta que eles tanto me fizeram: “afinal, Diogo, quando você vai se converter?” Senti que era isso que eu precisava responder, “testemunhar”, pois eu passara, naquele exato momento, a ser habitado por uma resposta possível. Foi então que virei-me para as pessoas que ali estavam, peguei o microfone e me pus a falar:

Boa noite a todos. Quero agradecer a presença de cada um de vocês nesse culto de ação de graças. Um culto que, como a maior parte de vocês bem sabe, é em agradecimento ao apoio e à recepção que tive, aqui, para a realização da minha pesquisa. Uma pesquisa que se tornará a minha tese de doutorado. Eu sei que nem todos que estão aqui presentes estão a par disso e, por isso mesmo, talvez alguns estranhem a mensagem que darei no púlpito. Pois ocupo esse espaço privilegiado, hoje, não para falar, como de praxe, como pastor, evangelista, presbítero, diácono ou membro da Igreja, mas simplesmente como pesquisador.

Ainda que eu visitasse a favela desde 2002, não tinha nenhuma familiaridade com o mundo evangélico. A própria favela ainda era-me um lugar distante. Pouco a pouco, no entanto, isso mudou. E hoje, quando venho aqui, quando entro nessa Igreja, sinto-me em um mundo não apenas compreensível, mas que, em alguma medida, me compreende. E isso só foi possível em razão da ajuda e do apoio de algumas pessoas que hoje preciso agradecer em particular. Em primeiro lugar, ela não teria sido possível sem o Beija-flor, meu amigo e irmão, a quem talvez até fosse justo atribuir uma co-autoria ao que de bom haverá na tese. Foram madrugadas e dias não apenas aqui, mas também em conversas ao telefone sobre as experiências que vivenciamos ao longo desse tempo. Quero agradecer também ao Pastor Zé pelos longos diálogos e pela disponibilidade sempre incrível em ajudar. Agradeço ao evangelista Neto, por sempre contribuir para o trabalho. Ao Pastor Reinaldo pela autorização e pela total liberdade dada à pesquisa. Ao Charles, pela paciência e perseverança nos quase sessenta encontros gravados que fizemos juntos. Ao João, ao Moisés, ao Linha e a todos os outros que estiveram comigo nessa jornada. Peço desculpas aos tantos outros que não mencionarei, pois se assim o fizesse acabaria o tempo de que disponho pra falar!

Além desse agradecimento, queria falar sobre uma outra questão. Já que me foi conferido o privilégio de falar aqui, no púlpito, queria dar um “testemunho” que espero que sirva de resposta a uma pergunta com a qual tantas vezes vocês me interpelaram. Pois só agora dou-me conta de que fiz, sim, uma pesquisa, mas não uma pesquisa acadêmica em sentido restrito e abstrato. Não fiz um acúmulo de abstrações e de ideias, não coletei apenas relatos e entrevistas. Aqui conheci pessoas concretas e reais, compartilhei de seu cotidiano, fui afetado por seus sentimentos e sofrimentos, tornei-me partícipe direto de seu ambiente e tornei-me sensível às agências, seres e entidades que lhe são parte integrante. Enfim, posso dizer que compartilhei um mundo com e o mundo de vocês. E que todo esse processo foi certamente um aprendizado que livro nenhum, por mais interessante e brilhante que fosse, poderia me dar. Nenhum mesmo.

Mas, para ir direto ao ponto, agora vou tentar responder à pergunta que vários de vocês me fizeram ao longo do trabalho de campo – inclusive hoje. Em vários momentos da pesquisa, vocês me perguntaram: “E aí, Diogo, quando você vai se converter?” Ou então: “Diogo, quando você vai aceitar Jesus e congregar conosco, em nossa Igreja?” Bom, pra adiantar, eu queria dizer que sim, eu me converti. E que foram vocês que fizeram com que eu me convertesse. Mas, não sei dizer bem ao certo se felizmente ou infelizmente, essa conversão não se deu no sentido que vocês, em geral, atribuem a essa palavra. E sei que essa diferença não é certamente desprovida de ambiguidades e uma certa desconfiança por parte de alguns de vocês, de alguns membros, como certos amigos que fiz aqui me relataram. Eu sei que já fui chamado de “jornalista da Rede Globo” e até de “Satanista”. Bom, como sempre disse, sou apenas um sociólogo ou antropólogo – ou, melhor dizendo, talvez tenha verdadeiramente me tornado no convívio reiterado com vocês, além do aprendizado e das transformações que pude passar graças a vocês. Em todo caso, talvez vocês não tenham percebido, e talvez eu mesmo só me dê efetivamente conta disso agora, mas esses quase dois anos foram para mim uma conversão. O trabalho de campo, esse método de pesquisa que se ensina na antropologia que a boa forma de produção de saber e de conhecimento só pode ser extraída por lenta e reiterada coexistência, por compartilhamento de afetos, sentimentos, percepções e sensações certamente me transformou. Mas, como disse acima, a conversão do antropólogo ou do sociólogo não é a mesma que a do crente. E, paradoxalmente ou não, a condição do meu trabalho depende disso, pois é justamente nessa diferença ou dissonância entre a conversão que o trabalho de campo produziu em mim, enquanto pesquisador, e a conversão que Deus produziu em vocês, como fiéis e crentes, que tornará a minha tese possível. Será essa diferença entre as nossas conversões que me permitirá escrevê-la. É disso que se trata.

Por isso, retorno à pergunta: “Diogo, você se converteu?” Sim, certamente que sim. Cheguei aqui no dia 21 de Novembro de 2011 e hoje, no dia 21 de Agosto de 2013, estou certo de que não sou mais o mesmo. Como vocês, sinto uma descontinuidade real entre o que eu era e o que eu sou agora. Tornei-me, em alguma medida, “um novo homem” – e posso dizer, ao menos no que concerne a minha tese, que praticamente “tudo se fez novo”. Mas enfatizo novamente que a descontinuidade que experimento é qualitativamente diferente da de vocês.

Peço que me perdoem por isso, por essa diferença, e pela minha teimosia em não apenas mantê-la como em exaltá-la aqui nesse púlpito. Afirmo, contudo e talvez paradoxalmente, que é ela, essa dissonância ou contraste entre as nossas conversões que me permitirá não reduzi-los ou deformá-los através dos conceitos sociologia ou da antropologia, mas, quem sabe, conseguir mudar, reformar ou mesmo deformar um pouquinho que seja a antropologia e sociologia através de vocês. E assim, por um lado, ajudar a evitar diversos preconceitos transfigurados em conceitos que não apenas sociólogos e antropólogos, mas muitas outras pessoas nos outros espaços da cidade, compartilham sobre os crentes, atribuindo-lhes características de forma apressada e desconectada do mundo de suas formas de vida... Aliás, esse será o modo que eu encontro, a partir de agora, de retribuir tudo o que me foi dado: um trabalho sério, que leve vocês a sério, sem reduzi-los as coisas que por vezes vocês são comumente o são. E inspiro-me em vocês para isso, já que pretendo levar vocês a sério tanto quanto vocês o fazem com Deus ou Jesus.

Mas é também preciso que vocês saibam que, assim como a fidelidade à Deus nunca é dada, mas diariamente conquistada e reafirmada– o que implica na existência recorrente de falhas e pequenas infidelidades –, o mesmo posso dizer com relação a pesquisa e a vocês. Eu provavelmente incorrerei em erros e muito possivelmente não poderei lhes ser integralmente “fiel”. Em todo caso, assim como a conversão pra vocês é um longo e árduo processo que exige dedicação, seriedade, esforço e práticas contínuas como orar, jejuar, ler a palavra, etc, para que a “ligação” e a “intimidade” com espírito de Deus não sejam perdidas, assim também terá de ser, a partir de agora, a minha própria “conversão”. Também precisarei me dedicar com afinco a certas práticas que me permitirão “ficar ligado” e “em sintonia” com vocês: a leitura das notas de campo, a (re)escuta das entrevistas, dos vídeos e o retorno aos outros materiais que pude acumular ao longo de nossa extensa convivência. Esse será o material que, no final das contas, me ajudará a não deixar, digamos, a tese e o “vínculo” com vocês “esfriar”. Peço de antemão perdão pelas possíveis “recaídas” que terei no processo de escrita; comprometo-me, ainda assim, a me “vigiar” continuamente para que, na tese, eu não me “desvie” do caminho de vocês. Talvez assim eu consiga realizar a tese que eu desejo, isto é, uma tese cujo objetivo não é outro senão descrevê-los na complexidade que pude apreender e perceber no processo de convivência reiterado. Só assim, quem sabe, eu mesmo seja capaz de fazer uma antropologia com vocês dentro ou, o que talvez seja melhor, a filosofia (ou mesmo a teologia) de vocês, só que comigo dentro. E tudo isso em respeito e em conformidade com o primeiro mandamento da boa etnografia: tentar fazer com que o estudo sobre o outro seja capaz de dizer mais sobre o outro enquanto outro, e menos sobre nós mesmos, pobres e sempre falíveis antropólogos e sociólogos que somos.

É isso, meus caros. Já me estendi demais. Termino a minha fala então com um “muito obrigado” que expressa a gratidão infinita que sinto pela conversão que vocês me levaram a desejar e a realizar. Assim como, sem a força de Deus, a conversão e a transformação de vocês não teria sido jamais possível, posso dizer igualmente que, sem vocês, a minha tese não poderia assumir a existência que ela assumirá a partir de agora. Finalizo então dizendo que eu reconheço que não teria forças para escrever a tese sem essa vigor maior que pude extrair de vocês e que, a partir de agora, carregarei comigo pelos próximos anos. Não mesmo. Muito obrigado por tudo.

 [Abraço do pastor Zezinho]


*Agradeço Bruno Reinhardt pela leitura e pelas sugestões feitas ao texto.

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