segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sofrimento e Silêncio: uma discussão acerca da saúde mental na contemporaneidade a partir do avanço da Psicofarmacologia (versão preliminar) PARTE 1



Jonatas Ferreira

Gostaria de agradecer a Adrian Scribano, a Diego Benegas, ao Instituto Gino Germani e à Fundação Barceló pelo convite e oportunidade de estar nestas “Terceras Jornadas Internacionales de Emergência y Catástrofe: Cuerpos Expuestos”. É um prazer revisitar Buenos Aires e apresentar alguns resultados gerais de uma pesquisa que venho fazendo há quatro anos sobre o tema do sofrimento na contemporaneidade e sobre algumas estratégias técnicas para lidar com ele. É um privilégio discutir essas ideias em um ambiente acadêmico que respeito e pelo qual tenho apreço. Agradeço sempre ao CNPq pelo financiamento que tem dado a essa pesquisa.

No ensaio “Saúde: conceito vulgar e questão filosófica”, Georges Canguilhem propõe a seguinte definição: “A saúde é a vida no silêncio dos órgãos” (2005, p. 35). A frase, ele nos informa, é de um “célebre cirurgião” e professor da Faculdade de Medicina de Estrasburgo. Quem quer que esteja acometido por algum sintoma patológico - febre, dor de cabeça, apneia, taquicardia - entende e deseja esse silêncio, esse retorno a uma atitude natural com respeito ao funcionamento de nosso corpo, em outras palavras, anseia por esse esquecimento de si. O sofrimento, seja ele de ordem somática ou psicológica, grita-nos, solicita-nos, dirige nossa atenção para uma parte de nosso corpo, e tudo o que queremos nestes momentos de padecimento é esquecer essa voz inoportuna, é evitar esse campo gravitacional poderoso que drena nossa energia vital e atenção. Que a saúde possa ser pensada, pois, como "a vida no silêncio dos órgãos", a paz da não solicitação, parece bastante razoável. Eventualmente, e isso é de suma importância, esse silêncio e esquecimento de si são entendidos não apenas como sinais de saúde, mas como a saúde em si. Que um conjunto de sintomas possa ser tratado como doença ou que sua ausência seja concebido como saúde apresenta consequências que não devem ser negligenciadas.

Isso é especialmente verdadeiro no campo da saúde mental contemporânea. Existe hoje, nesse terreno, uma concepção do psiquismo e uma terapêutica a ela associada que partem precisamente desta redução, ou seja, da sanidade equiparada ao silêncio do corpo ou da mente e da administração de sintomas como fulcro da prática médica. Se, por exemplo, para a neurociência contemporânea, a “mente é o que o cérebro faz” (Rose, 2013, p. 3) e se processos mentais como o reconhecimento de si mesmo (a existência de um self, para usarmos um termo consagrado) nada mais é que uma estratégia que nosso cérebro constituiu ao longo de nossa evolução biológica, é natural supormos que focando na realidade biológica deste cérebro teríamos a possibilidade de tratar o sofrimento a partir de suas manifestações sintomatológicas. Por que haveríamos de nos determos e perder nosso precioso tempo em algo tão intangível como a significação que realizamos de nosso sofrimento num âmbito mais subjetivo?

De um modo geral, a medicina nunca pensou suficientemente a saúde, mas sim a doença, lembra-nos ainda Canguilhem. Como se sabe, essa constatação teve uma influência significativa na obra de Michel Foucault, em suas teses sobre a história da loucura, e em diversos autores que se beneficiaram dessa influência dupla. Vejamos, por exemplo, o que Nikolas Rose tem a nos dizer sobre a relação entre as ciências psicológicas e a criação de regimes do self no ocidente: “Colocar o problema dessa maneira é ressaltar a primazia do patológico em relação ao normal na genealogia da subjetivação – de maneira geral, nossos vocabulários e técnicas de pessoa não emergiram dentro do campo da reflexão sobre o indivíduo normal, mas, pelo contrário, a própria noção de normalidade emergiu a partir da preocupação com tipos de conduta, pensamento e expressão considerados problemáticos ou perigosos” (2011, p. 44). Tradicionalmente, a medicina parece caber sempre empenhar-se em garantir a permanência ou o retorno a esse estado de quietude, ou diminuir o nível ou danos provenientes da inquietude. Seu campo, portanto, seria propriamente o patológico.

Desconsiderando por um momento a dificuldade de definir o que seja saúde mental, e tendo a Psicologia de base cognitivista e comportamental e a Psiquiatria de orientação biológica em consideração, seria possível ainda perguntar: onde os sintomas cessam – ansiedade, tristeza mórbida, lutos persistentes – a sanidade estaria reestabelecida? De acordo com ambas as orientações, a superação desses sintomas estaria associada a uma mudança de padrões sinápticos cristalizados e responsáveis pela sensação mal-estar, de sofrimento. Sendo esses padrões biologicamente estabelecidos, porém plásticos, é possível pensar que um investimento na reconfiguração química dos indivíduos seja possível sem que investimentos psicológicos tradicionais, que focam a realidade histórica e cultural do indivíduo, entrem propriamente em questão. Muitos de nós, todavia, hesitaria em estabelecer uma relação tão direta entre configuração químico- neurológica e sofrimento, entre sintomas e patologia, ou entre ausência desses e o gozo de saúde. Talvez estejamos arraigados excessivamente à ilusão da existência de consciências subjetivas e da necessidade de processos de significação cultural mais amplos para aceitar a revisão não apenas epistemológica que parece advir das neurociências, mas os silêncios que decorrem de tal revisão.

Qualquer que sejam nossas suspeitas acerca de uma prática médica que se atém à administração de sintomas, o avanço da base científica que a torna possível tem constituído a resposta a que um número cada vez maior de pessoas tem chegado. A medicalização do sofrimento, a administração de seus sintomas, a reconfiguração de comportamentos tidos como desviantes ou que impliquem em sofrimento, constituem um fenômeno biopolítico, biossocial de importância central num contexto de aceleração da vida e das tecnologias. Neste cenário, silenciar sintomas desagradáveis é muitas vezes condição para que “funcionemos” adequadamente, quer como consumidores vorazes de objetos perecíveis, quer como produtores descartáveis desses mesmos objetos. As estatísticas de agravamento daquilo que são consideradas doenças mentais, de qualquer modo, são expressivas e determinam um fenômeno global. E isso pode tanto indicar a voracidade com a qual a indústria da saúde tem avançado sobre os ruídos produzidos pela dinâmica de reprodução do capital na contemporaneidade, tornando patológicas e medicalizáveis reações ao próprio “empobrecimento da experiência” (categoria que Kehl, 2010 toma emprestado de Benjamin) ao qual essa dinâmica está associada, como um sinal de que esses ruídos significam de fato o adoecimento de parcelas significativas da população. Vejamos, como ilustração, estatísticas estadunidenses neste campo:
“em 1955, havia 355.000 pessoas em hospitais com um diagnóstico psiquiátrico nos Estados Unidos; em 1987, 1,25 milhão de pessoas no país recebia aposentadoria por invalidez por causa de alguma doença mental; em 2007, eram 4 milhões”[1].

O que quer que ela signifique, a saúde seria proposta como verdade do corpo desde o final do século XVIII. Adoecer significaria sair deste campo de verdade. E isso tem implicações diretas para pensar a saúde mental, como os leitores de Michel Foucault bem o sabem. A ideia de um corpo são, de acordo com Canguilhem (2005), guardaria em si as duas acepções que a etimologia da palavra latina sanus parece indicar, ou seja, “intacto ou bem preservado” e “infalível e seguro”. Contraditoriamente, sob as condições e exigências dromológicas do capitalismo contemporâneo, podemos perceber-nos atletas do dia-a-dia, isto é, bem preservados, sem estarmos tranquilos, “seguros”, com respeito à nossa saúde. Há aqui evidências de uma mudança na epistemologia médica para qual Canguilhem não pôde estar atento. Em seu livro Drugs for Life, Joseph Dumit nos lembra que, integrada à dinâmica da indústria farmacêutica, a medicina contemporânea já não pretende ter uma ação episódica de recondução do doente à saúde, mas de tratar como doentes potenciais quem quer que tenha alguma predisposição biológica ao adoecimento, o que significa 100% dos seres vivos. À indústria farmacêutica não interessa curar, mas tratar indefinidamente doenças reais ou virtuais. Propensões ao desenvolvimento de diabetes ou doenças coronarianas são um filão comercial na medida em que doentes potenciais ou efetivos possam ser tratados cronicamente com Insulina ou Estatinas. Isso também vale, evidentemente, para pacientes psiquiátricos (neuróticos ou psicóticos) e sua demanda crônica por medicamentos como Clonazepam, Fluoxetina, hipnóticos e antidepressivos em geral. A verdade do corpo aqui é a doença; e a saúde, apenas um ideal normativo.

Ademais, é necessário perguntar: tendo em vista não apenas os interesses da indústria da saúde, mas a própria tendência à intensificação, aceleração e extenuação da vida sob o regime biopolítico em que vivemos, o que significaria “uma posse máxima de meios físicos” (Canguilhem) em um ambiente onde o máximo já não é suficiente? Diríamos que esse processo implica inevitavelmente na penetração de aparatos biotécnicos – como os psicofármacos de última geração – ­na administração da vida biológica. O fim último desta intermediação técnica é exercer um controle dos ruídos existenciais, reflexivos que impliquem num retardo qualquer com respeito à intensificação dos ritmos de reprodução do capital. Na sociedade da tagarelice informacional, existe a necessidade desse silenciamento.

Neste ponto, talvez devêssemos repetir a indagação que o psicanalista de orientação existencialista Pierre Fédida nos propõe há algum tempo: diante de condições desumanas de existência, da necessidade de responder imediata e satisfatoriamente, em tempo real, às demandas de um capitalismo que opera a partir da lógica 24/7 (Crary, 2014), ou seja, sem repouso, o deprimido mostra em sua desaceleração, em seu questionamento radical do sentido das coisas, um sinal de saúde ou um sintoma patológico (2002, 2003)? Da perspectiva mais ampla da sociologia, talvez devêssemos enfatizar a pertinência dessa forma de questionar nossos envolvimentos sociotécnicos que encontramos nos textos de Fédida. Para ele, o deprimido, em seu minimalismo existencial, opõe-se à aceleração da vida e ao empobrecimento da experiência que daí decorre. Porém o indivíduo, evidentemente, sofre para além da racionalização sociológica, ou psicanalítica, e reivindica alívios imediatos. O que quer que pensemos sobre soluções ou paliativos farmoquímicos, a confluência de sentidos entre saúde e segurança, saúde e infalibilidade, saúde e poder, coloca-nos desafios tremendos num contexto de envolvimentos tecno-sociais cada dia mais intensos. Diante desse cenário, parece não espantar que em pesquisa realizada com profissionais da saúde mental nas cidades de Lisboa, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, entre os anos de 2014 e 2015, ao perguntarmos sobre um critério para aferir a saúde mental dos indivíduos, alguns desses profissionais teriam respondido categoricamente: “se esses indivíduos funcionam, estão saudáveis”. A psicologia de Fedida parece, em oposição a essa tese de orientação evolucionista, por outro lado, identificar em certos comportamentos disfuncionais um sinal profundo de saúde que não deve ser negligenciado.

Funcionar, neste sentido, deve ser entendido como mais uma dimensão daquele silenciamento ao qual a sanidade parece de há muito associada, ou seja, a uma dimensão social desta aparente harmonização e deste esquecimento. Uma ilustração de uma prática da saúde mental baseada no sintoma e no acesso direto à base neuroquímica do sofrimento é oferecido por profissionais da saúde mental que tratam a angústia e a tensão gerados por problemas sociais, econômicos, como objeto de intervenção psicofarmacológica[2]. Esse é o caso que nos apresenta Isabela Cribari, no documentário De profundis (2014), acerca de como problemas sociais e econômicos negligenciados no processo de transposição da pequena cidade de Itacuruba das margens do rio São Francisco implicaram no adoecimento de uma população. Essa intervenção pública gerou uma população de deprimidos e consumidores de psicofármacos. A distância que se existe entre a “velha” e a “nova” Itacuburuba, segundo os depoimentos de seus cidadãos e cidadãs, é a que se coloca entre o território e o abismo, entre a vida significativa e o seguir vivendo. A vida social reduzida à nudez biológica, parar usarmos a expressão de Giorgio Agamben, necessita ser constantemente medicalizada. Não admira o alto índice de uso de medicamentos psicofarmacológicos e de tentativas de suicídios naquela cidade.

O profissional que atua no campo da saúde mental – seja ele um psiquiatra ou um clínico geral – é muitas vezes confrontado com a demanda para aliviar quadros de sofrimento resultantes de problemas não necessariamente, ou em primeira instância, psicológicos. Um paciente que requer de seu médico hipnóticos para poder dormir, diante da impossibilidade de fazê-lo por conta de vizinhos barulhentos e antissociais, ruídos resultantes do tráfego urbano, ou algo desta natureza, pode valer-se de uma solução química para conviver melhor com seu problema, mas este não é necessariamente um problema médico nem é de se esperar que ele seja resolvido por esse meio. Funcionar, neste sentido, e a partir da racionalização que aqui se impõe, significaria tratar sintomas diante da impotência de lidar politicamente com problemas econômicos e culturais mais amplos. O fármaco, neste caso, constitui uma tecnologia de esquecimento de si, de silenciamento e de esperança de adequação, de funcionamento.




[2] “In America, medication is becoming almost as much a staple of childhood as Disney and McDonald’s. Kids pack their pills for school or college along with their lunch money. Some are taking drugs for depression and anxiety, others for attention deficit hyperactivity disorder (ADHD). The right drugs at the right time can save young people from profound distress and enable them to concentrate in class. But some adolescents, critics say, are given medication to mask the ordinary emotional turmoil of growing up; there is a risk that they will never learn to live without it”. Fonte: http://www.theguardian.com/society/2015/nov/21/children-who-grow-up-on-prescription-drugs-us. Acessado em 27/04/2016.

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