quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O que é Epistemologia Feminista?


A epistemologia, pelo menos em uma de suas definções, pode ser caracterizada como um conjunto de reflexões acerca de nossas concepções de conhecimento, de sujeito cognoscente, assim como as diversas práticas de justificação dessas concepções. Assim, por exemplo, sob que bases um conhecimento considerado universal (aplicável a toda a humanidade, independentemente das diferenças entre os grupos) pode ser considerado superior a outras formas? Quem é o sujeito que conhece: apenas alguém capaz do uso de uma razão abstrata, universalizante? E que grupos de pessoas possuem tal capacidade? Quem decide as questões relevantes para serem tratadas pela ciência ou por outras formas de conhecimento? Quem decide onde está a “verdade”?

Desde os anos de 1970, a teoria feminista, influenciada pelo movimento feminista, tem alertado para os perigos da supergeneralização, sugerindo que os valores, as experiências, os objetivos e as interpretações dos grupos dominantes são apenas os valores, experiências, objetivos e interpretações desses grupos, não da humanidade como um todo. Foi a partir disso que surgiu uma área da epistemologia dedicada a compreender a forma como o gênero influencia aquelas concepções e práticas e como elas têm sistematicamente colocado em desvantagem as mulheres e outros grupos subordinados.

A epistemologia feminista tem três vertentes principais. A primeira delas é o feminismo empirista. Diferentemente do empirismo, concebido como a doutrina segundo a qual a experiência é a base mais sólida para a construção do conhecimento, o feminismo empirista é chamado assim porque parte do princípio de que o problema com as pesquisas tradicionais é que elas não percebiam as mulheres como um grupo distinto, com características particulares. As pesquisas sociológicas, por exemplo, não apenas não incluíam as mulheres em números significativos em suas amostras, mas não levavam em consideração que alguns problemas de pesquisa, relevantes para esse grupo, não eram sequer colocadas. Isso tornava as mulheres “invisíveis” e o grande esforço desta corrente epistemológica foi no sentido de dar visibilidade e elas.

Nenhuma crítica mais profunda foi efetuada em relação aos pressupostos de uma ciência que hoje se considera falocêntrica. A epistemologia (teoria do conhecimento) continuou, segundo as tradições hegemônicas, reduzida à metodologia (teoria do conhecimento científico) e o problema era somente o de colocar o instrumental teórico e metodológico desta ciência a serviço da visibilidade das mulheres. No entanto, alguns questionamentos se tornaram inevitáveis, gerando a necessidade de uma crítica mais profunda dos pressupostos adotados. Será que foi obra do mero acaso que o trabalho doméstico foi, durante muito tempo, não digno de investigação? Qual a base da distinção entre o trabalho produtivo e o trabalho não-produtivo colocado pela tradição marxista? Por que os conceitos sociológicos foram formulados da maneira como foram?

Questões como estas deram origem a uma segunda vertente da epistemologia feminista: a perspectiva feminista. Esta abordagem, grandemente influenciada pela teoria do conhecimento marxista (que não foi, no entanto, capaz de perceber o gênero como uma dimensão fundante do sujeito cognoscente), parte do princípio de que todo conhecimento é gerado a partir de uma perspectiva particular. Além disso, argumenta que alguns sujeitos ou grupos sociais estão em melhor posição para perceber determinados aspectos da realidade do que outros. Os grupos subordinados (como a classe operária, para Marx, e as mulheres para as feministas) teriam uma espécie de “vantagem epistemológica” em relação aos grupos dominantes na medida em que seus interesses são, de alguma forma, mais básicos ou universais do que os desses últimos, que são sempre guiados por seus interesses particulares.

Juntas, essas duas vertentes deram origem às controversas “questões de mulheres”. Não me perguntem o que elas são, pois só o que me vem à mente são questões do tipo “como fazer baliza sem bater no carro da frente”, “como escolher uma marca de absorvente das prateleiras dos supermercados diante da infinidade de marcas que insistem em se multiplicar a cada dia” e coisas que tais... Controvérsias à parte, o problema é que ambas as tradições consideravam as mulheres como um grupo homogêneo de pessoas, concebido a partir das perspectivas das teóricas feministas brancas, de classe média e que moravam nos países centrais. Em outros termos, reproduziam justamente o que criticavam ao argumentar que o sujeito Iluminista vestiu um par de calças ao ser concebido pelos homens que dominavam as ciências e a filosofia.

Das críticas a esta concepção homogênea das mulheres, surge uma terceira vertente, bastante heterogênea, cuja ênfase está na diferença: o feminismo pós-moderno. As mulheres são grupos heterogêneos, marcados por dimensões como classe social, raça, etnicidade, nacionalidade etc. São diferentes, o que significa afirmar que não existe um sujeito “mulher”. Em termos mais gerais, esta ênfase na diferença visa negar qualquer possibilidade de se transcender a localização particular do sujeito do conhecimento, especialmente por meio da negação de idéias como universalidade, necessidade, objetividade, subjetividade, unidade, verdade e mesmo realidade. Considerar a diferença significa focar a particularidade, a contingência, a instabilidade, a ambigüidade, em resumo, negar as idéias mais caras ao Iluminismo. Mas será que colocar todas essas idéias sob suspeita não significa o fim de ideais como a emancipação via conhecimento? Como sair dessa encruzilhada?


Cynthia Hamlin

12 comentários:

Anônimo disse...

Propagar a morte ontológica do sujeito e instaurar uma categoria política em seu lugar, que possa unificar uma mesma classe (ou um mesmo sexo) talvez seja uma boa saída.

Lucas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucas disse...

Que quer dizer "morte ontológica do sujeito"?

metodologia disse...

Prezado anônimo,

Tendo a concordar com a visão segundo a qual o sujeito deve ser situado a partir de diversas práticas sociais, lingüísticas, discursivas, enfim: políticas. Esta parece ser o que Seyla Benhabib chama de “tese fraca” da morte do sujeito. No entanto, concordar com esta tese não significa abandonar a necessidade do estabelecimento de uma noção de subjetividade. A crermos em proposições como a de Ernesto Laclau e Chantall Mouffe, por exemplo, se a política é a ontologia do social, creio que não há nenhuma contradição entre isto e uma ontologia do sujeito: apenas que esta ontologia não pode ser essencializada (aliás, parece-me que, de acordo com esta perspectiva, a unificação de uma classe ou de um “sexo” seria não apenas impossível, mas também indesejável do ponto de vista político).

Neste sentido, compartilho com Lucas a pergunta: o que é a morte ontológica do sujeito? De fato, não apenas Laclau e Mouffe, mas outros autores pós-estruturalistas, como é o caso de Judith Butler, têm um projeto de subjetividade. O que eu acho problemático em relação aos pós-estruturalistas, Butler em particular, é a dimensão material da realidade. Ao dissolver sexo em gênero, exclui-se uma dimensão importante da subjetividade e da identidade relativa ao corpo.

Por outro lado, se se considera o sujeito como uma mera “posição de linguagem” (a chamada “tese forte” da morte do sujeito), alguns conceitos como auto-reflexividade, intencionalidade e autonomia desaparecem. Este sujeito não pode mais criar uma distância necessária entre ele próprio e as cadeias de significado nas quais está imerso, o que significa dizer que não pode refletir sobre essas últimas e alterá-las.

Reconheço, no entanto, que estas são questões difíceis que não podem ser resolvidas aqui. Mas, para resumir meu ponto de vista, se a dimensão política das categorias (inclusive a de sujeito) deve ser levada em consideração, isso não apenas não resolve as aporias geradas pela tradição Iluminista, mas cria outras sobre as quais é necessário refletir.

Cynthia

Violeta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Violeta disse...

Interessante o artigo, a espistemologia feminista, por mais que ainda não seja o modelo ideal de abordagem das questões de gênero é um grande passo para avanços nesse âmbito. A representatividade de mulheres na área ciêntífica e na Academia é realmente inferior ao desejado, e não por incompetência feminina, mas por falta de acesso e mesmo pelo conciente coletivo feminino ocidental, que por todos os processos de socialização que sofremos nos levam a acreditar, mesmo que inconcientemente, que áreas como a política, física, quimica, matemática (e muitas outras) não são nossas.
Bom, só achei desnecessário o trecho "Juntas, essas duas vertentes deram origem às controversas “questões de mulheres”. Não me perguntem o que elas são, pois só o que me vem à mente são questões do tipo “como fazer baliza sem bater no carro da frente”, “como escolher uma marca de absorvente das prateleiras dos supermercados diante da infinidade de marcas que insistem em se multiplicar a cada dia” e coisas que tais... "
Existem N questões femininas que podem ser analizadas, esse tipo de exemplo, ou mesmo brincadeira, fere bastante a sua credibilidade.

Bom, é isso :)

Anônimo disse...

A perspectiva pós-moderna, pós feminista, pós-vagina é a mais interessante, uma vez que, faz o troca-troca genital(transgenitalização epistemológica, social, cultura e afins) entre os sujeitos (do conhecimento). Mulher de pênis e Homem de vagina. Não precisa matar, ontologicamente, ninguém. Afinal, o "existencialismo é um humanismo: a existência precede a essência". De mãos dada o casal francês Sartre e Beauvoir.

João Cândido Tessar

Jocsã Carlos disse...

Estive no Seminário de Sexualidade e Gênero da UFPE e tive um contato inicial com o tema. Contudo, as considerações feministas a respeito do conhecimento parecem-me questionáveis, principalmente no referente ao rigor metodológico, ou neutralidade axiológica.

Se todo conhecimento é conhecimento de sujeitos particulares, como não dizer que a teoria feminista é invenção de mulheres? Ou seja: se uma feminista diz que a desigualdade de gênero existe e um machista diz que não, como dizer que alguém está certo? Se tudo depende da subjetividade, e/ou do reconhecimento do sujeito, não havendo critério exterior ao mesmo, critério de objetividade (se preferirem), como comprovar que algo realmente existe?

Afirmar que determinados indivíduos, por suas características, têm melhor oportunidades de conhecer determinado objeto, implica na limitação, ou no fim, da ideia de replicação. Se o indivíduo "A" faz uma pesquisa e os resultados da pesquisa não podem ser replicados pelo indivíduo "B", "A" pode dizer que isso é devido a "B" não fazer parte do grupo do qual "A" faz parte. Ou seja: as mulheres são as mais aptas a estudar as questões de mulheres, os negros são os mais aptos a estudar o racismo, etc. Parece-me que isso se baseia na ideia de que para conhecer determinado fenômeno devemos fazer parte dele, o que vai contra (se eu estiver certo) o positivismo e vai a favor de uma noção interpretativa do fenômeno social.

Porém, essa ideia não é universalmente válida. Acredito (e acho que não apenas eu) que não é necessário estar dentro de um ciclone para conhecer como ele se forma, ou vivenciar uma avalanche para saber como ela ocorre. Mas podem dizer que esses são fenômenos naturais e que a questão de gênero é uma questão social. Se assim for, teremos que ser estuprados para conhecer o estupro, ou assassinados para conhecer o assassinato. Não sei se epistemologicamente isso é um problema, mas determinados fenômenos não serão estudados...

Minha preocupação fundamental é com o rigor metodológico do conhecimento produzido. A ciência, e a seriedade do cientista, podem ser medidos pelo rigor do seu método. Parece-me que as feministas (e digo isso com base não apenas nesse post) fazem da emancipação seu cavalo de batalha e isso é um problema. A pesquisa pode ser contaminada pela ideologia do pesquisador. Ao negar o rigor metodológico, a replicabilidade dos resultados, a objetividade e a refutabilidade, as feministas (e não só elas) colocam-se próximas do debate ideológico, o qual pode ser muitas coisas, mas não é científico.

Se existe desigualdade de gênero, e acredito que ele existe, pode ser identificado objetivamente. É o que eu penso, por enquanto.

Cynthia disse...

Caro José (?) Carlos,

Parece que você levanta muitas questões em seu comentário e vou limitar-me a uma delas:

A ideia de objetividade não depende da subjetividade do pesquisador, assim como não depende da replicabilidade.

O que a epistemologia feminista questiona é a própria noção de objetividade da ciência Ocidental e em que medida se pode falar em objetividade quando se baseia em um sujeito supostamente universal que, de universal, não tem nada. Veja, a esse respeito, a noção de objetividade forte desenvolvida por Donna Haraway ou por Sandra Harding (essa, em uma entrevista traduzida aqui no Cazzo).

Alguns dos outros problemas que você coloca foram desenvolvidos no texto de Clarissa Galvão
(http://quecazzo.blogspot.com.br/2012/04/contribuicoes-da-epistemologia.htm). Dê uma olhada lá: pode ser que ajude esclarecer algumas de suas questões.

Abç

Anônimo disse...

Oi Cynthia,

Parabéns pelo texto.
Você me indica referências que abordem o assunto?

Obrigado!
Paulo

Cynthia disse...

Olá, Paulo,

Tente começar por isso aqui (por algum motivo, o site esta mostrando as capas erradas, mas o texto me parece correto):

http://www.libgen.info/view.php?id=685595

http://www.libgen.info/view.php?id=671701

Para textos em português, a REF e a Pagu tem algumas coisas sobre o tema. Recomendo especialmente a primeira.

Abç

Anderson Elias disse...

Me interesso pelo assunto e compactuo com os receios do Jocsã Carlos. Até onde conheço sobre, acho as propostas de uma epistemologia feminista muito falaciosas e, por vezes, perigosamente levianas.
Para quem tem um interesse sincero acerca do assunto compartilho abaixo bibliografia (em português) que aponta algumas inconsistências tanto dessas (supostas) irreverentes propostas epistemológicas quanto de alguns de seus principais alicerces (relativismo e construtivismo).

HAACK, Susan. Manifesto de uma moderada apaixonada: ensaios contra a moda irracionalista. (ver, principalmente, ensaio 7)

CUPANI, Alberto. É possível uma ciência feminista?

BOGHSSIAN, Paul. Medo do conhecimento: contra o relativismo e o estruturalismo

NAGEL, Thomas. A última palavra.

SOKAL, Alan. Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos.

CUPANI, Alberto. A hermenêutica ante o positivismo.

BUNGE, Mário. Pseudociências.

Alguns textos do Desidério Murcho no blog "Crítica na rede" também valem a leitura.

Bons estudos a nós!