Jonatas Ferreira e Breno Fontes
As sociedades contemporâneas parecem
radicalizar um sentimento coletivo e intenso de ansiedade, marca mais
que conhecida do processo de modernização. Essa ansiedade nos é
íntima, filhos que somos da aceleração tecnológica e da corrosão
permanente dos vínculos sociais associados à “destruição
criativa” (MARX, Berman,
Sennett, Virilio, por
exemplo). Porém, em nenhum outro contexto social o futuro da espécie
se apresenta a partir de perspectivas tão sombrias quanto aquele que
nos é mais diretamente familiar, basta que recordemos algumas
espadas que pairam sobre nossas cabeças: ameaça atômica,
aquecimento global, crise econômica mundial, terrorismo
internacional. Em nenhum outro contexto social, nossa capacidade
coletiva de nos anteciparmos, de nos prepararmos para o futuro
incerto parece ser questionada com tamanha intensidade. Diluição,
desorientação, desastre, catástrofe, risco, são palavras que têm
mobilizado a produção sociológica recente que nos reporta
invariavelmente a uma situação paradoxal. De fato, como propõe o
“catastrofismo ilustrado” de Jean-Pierre Dupuy, confrontamos
constantemente a perspectiva de materialização de uma realidade
impossível, inconcebível, mas que em uma análise ex-post
facto, mostra-se inevitável.
Pensemos nos exemplos clássicos: as duas guerras mundiais, ou o
extermínio de centenas de milhares de seres humanos que resultou na
explosão de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Tudo isso é
inimaginável para uma razão antecipadora e, no entanto,
concretizado o horror destes fatos, fatos que têm o poder de
cancelar toda experiência (BENJAMIN), eles surgem como consequência
lógica de uma configuração política, econômica e tecnológica.
A constatação deste paradoxo, deste
absurdo com o qual se depara a razão, não deve nos impor um
fatalismo trágico, a acedia de que fala Benjamin, mas o compromisso
de investigar o motivo pelo qual a razão científica responde tão
inadequadamente às demandas de um “tempo das catástrofes”, a
uma época dos grandes desastres. Dupuy alinha sua contribuição com
a autores como Weber, Ivan Illich, Hans Jonas, para quem a razão
técnica, hegemônica, vem desencadeando certo automatismo, “efeitos
não-pretendidos” da ação racional, que nos surgem como
“contraprodutividade” desta mesma razão. A lógica que preside a
ação racional, técnica, esclarece Illich, é marcada pelo desvio,
pela postergação de uma satisfação. O perigo de uma civilização
exacerbadamente técnica, como é o caso da nossa, é de nos
perdermos nos desvios da tecnicidade sem podermos mais nos perguntar
a que serve o mundo dos instrumentos. Weber já nos questionava
acerca das condições de exercício de nossa responsabilidade em uma
sociedade em que a racionalidade instrumental (em cujo contexto a
regra é seguida por ser aparentemente inevitável) se torna um
imperativo. As implicações daquilo que formula Dupuy a partir de
Ivan Illich talvez fiquem mais evidentes quando tomarmos os
resultados de um estudo comparativo elaborado pelos dois pensadores
acerca do uso de bicicletas e carros (DUPUY, 2011, p. 30). A
conclusão a que chegam, mais uma vez, nos conduz a uma espécie de
paradoxo. Se nossa intenção é poupar tempo, argumenta, devemos
optar pelo primeiro meio de transporte, mesmo quando consideramos
grandes distâncias. Contabilizados os custos do carro e
transformados esses valores em tempo de trabalho, a conclusão é que
o tempo que gastamos para manter tal meio de transporte os transforma
em algo mais lento que a bicicleta. No entanto, se isso é claro, por
que usamos carros e não bicicletas, já que estas últimas são
environment friendly
e mais saudáveis? Porque a velocidade do capitalismo, que seria em
princípio um meio técnico, converte-se em um fim: gastar,
dilapidar, esgotar recursos apresentam-se como ações inevitáveis,
necessárias à própria dinâmica do capitalismo. Não seria o caso
de questionarmos o sentido desta dinâmica?
Tomemos uma outra perspectiva. Os que
pensam uma sociologia do desastre, fazem-no a partir da constatação
de que a ocorrências de catástrofes naturais sobre sociedades já
não devem ser pensadas exclusivamente como fenômeno natural. Ora,
em seu livro Hominescências,
Michel Serres já alertava para o fato de a vida civilizada, o
consumo de energia nas grandes cidades, por exemplo, ter se
convertido em um fenômeno natural, dada a escala desse consumo, o
impacto que apresenta sobre o planeta. E neste caso não basta
afirmar que esses acontecimentos se transformam em desastres “quando
o seu potencial de dano atua sobre uma comunidade humana vulnerável”
(KROLL-SMITH apud FONTES:2008:118), ou seja, quando as comunidades
humanas de alguma forma se desestruturam. Evidentemente, o desastre
ambiental ocorrido no Golfo do México apresenta um impacto direto
nas populações humanas do sudeste americano. Porém, a ideia de
vulnerabilidade deve ser estendida à fauna e à flora afetadas por
aquele desastre.
Uma coisa, porém, é perceber que as
consequências de um que o desastre, de uma catástrofe se estendem
para além da esfera da cultura, ou seja, para além das populações
humanas. Outra coisa completamente distinta é perceber a importância
do desastre, da catástrofe, humanamente produzidos, como fenômeno
radicalmente moderno que deve ser compreendido dentro de um contexto
tecnológico, politico, econômico e cultural específico. Admitindo
os elementos de sociabilidade como variáveis centrais para a
explicação da produção deste tipo de fenômeno, assumem
importância fundamental os conceitos de risco, vulnerabilidade e
manejo, que instrumentalizam empiricamente o fenômeno. Ocorrência
que, como afirmamos, têm origem nos aspectos organizativos da
estrutura social. Ora, mesmo entendendo que eles não são
suficientes para pensarmos desastres como os que ocorreram em
Teresópolis em 2011, ou aqueles que arrasaram parte da zona da mata
sul de Pernambuco em 2010, não podemos deixar de nos colocar esse
tipo de questão, de caráter racional e instrumental. A pergunta é:
até que ponto esse tipo de reflexão pode identificar
suficientemente o problema que tem diante de si? Porém, sigamos.
Risco e vulnerabilidade são expressões
que se referem a uma mesma ordem de fenômenos: a possibilidade de
ocorrência de desastres. Risco refere-se à probabilidade de que a
uma população (pessoas, estruturas físicas, sistemas produtivos,
etc.), ou segmentos da mesma, aconteça algo nocivo ou daninho
(FONTES, 2008 p. 121). Vulnerabilidade refere-se a uma outra face do
mesmo problema. Ela nos remete aos elementos já presentes na
estrutura social que resultam em uma maior possibilidade de
ocorrência de desastre – às formas pelas quais as populações
enfrentam as situações de risco e os efeitos decorrentes desse
estado de organização social. A noção de vulnerabilidade remete
desta forma, à ideia de sustentabilidade ambiental. Práticas
sociais são sustentáveis se garantem sua reprodutibilidade para as
gerações seguintes. E esta garantia só é possível quando se
considera o fato de que o uso de recursos naturais e o modelo
civilizatório subjacente se façam a partir da consideração de que
parte importante das riquezas não é renovável; ou, dito de outro
modo, que a natureza tem um tempo que às vezes pode não coincidir
com o da cultura.
Talvez um bom exemplo para refletir sobre o
assunto seja o olhar sobre o cotidiano das cidades. Hoje a vida
urbana é uma realidade que está presente na vida cotidiana da
maioria das pessoas. Os que vivem em grandes cidades compartilham um
ambiente onde a mão humana está presente mais que em qualquer outro
lugar. O espaço urbano, marcadamente produto da intervenção humana
sobre o ambiente natural, é marca característica da
modernidade. Apesar de as cidades existirem há muito tempo, a
modernidade e o espaço metropolitano, anônimo, confundem-se. E ser urbano
significa pertencer a uma civilização que, embora produzindo
riquezas, e oferecendo a possibilidade do consumo a um número
crescente de pessoas, o faz de forma destrutiva, pondo em risco a
própria existência humana. O cotidiano das grandes cidades é bem
ilustrativo a respeito: deparamo-nos diariamente com os problemas de
gigantescos engarrafamentos, de níveis preocupantes de qualidade do
ar, enchentes, poluição sonora, paisagens degradadas, pessoas
vivendo em ambientes insalubres ou inadequados (palafitas, encostas
de morro). A pergunta que podemos fazer nesse ponto é: como, do
ponto de vista da manutenção da estrutura de consumo capitalista
contemporânea, poderíamos evitar a “contraprodutividade” que se
materializa no desastre? Mais especificamente: tendo em vista a
realidade de um capitalismo predador, como poderemos questionar e
agir de modo propositivo contra desastres ambientais como os que
estão associados à destruição de áreas enormes da floresta
amazônica para o cultivo de pasto? Como, diante das pressões pelo
desenvolvimento capitalista no Brasil, podemos conceber uma ação
política eficaz que aceite os custos financeiros e sociais de uma
ocupação ordenada e ambientalmente sustentável que possa fazer
face a “sinistros anunciados” como o de Teresópolis?
A luta contra o caos, muitas vezes
iminente, deve ocorrer considerando-se o fato de que, embora muitas
vezes em conflito, as pessoas compartilham o mesmo espaço e os
efeitos destrutivos da ação incontrolada sobre o meio ambiente se
voltam contra todos. O que parece óbvio, entretanto, não é
compreendido como tal por um motivo simples: no curto prazo, as
consequências de práticas predatórias não são, em inúmeros
casos, distribuídas igualmente entre todos. Temos, é certo, o fato
de que por vezes os efeitos deste modelo civilizatório selvagem são
compartilhados: a poluição, o stress provocado por longos
engarrafamentos. Mas há incontestavelmente o fato de que esta
repartição das economias de aglomeração também se distribuem
assimetricamente, alguns arcando com parte importante do ônus desta
curiosa civilização onde o viver coletivo é solenemente
desprezado, dando lugar ao exclusivo interesse privado, à ação
egoística da busca de vantagens. O paradoxo de uma civilização
onde são produzidos custos que devem compartilhados, mas que todos
lutam pela maximização de seus interesses individuais resulta na
reprodução da desigualdade, na distribuição assimétrica dos
efeitos de um modelo predatório de civilização. A ocupação de
áreas de risco, por exemplo, deve ser entendida a partir dessa
constatação. A urbanização
descontrolada, ditada pela busca do lucro imobiliário e pela
necessidade imediata daqueles que não podem ter acesso a tal
mercado, não pode produzir uma lógica coletiva de proteção de
encostas e de mananciais. Os desastres, e por vezes catástrofes,
fazem-se sentir a cada período de chuva mais intenso, com inundações
e deslizamentos de encostas, com efeitos perversos sobre populações
economicamente mais fragilizadas.
Tomado com frequência nas ciências
sociais como o sociólogo do risco, Ulrich Beck talvez devesse ser
mais adequadamente entendido como um crítico contundente desta ideia
que recorrentemente mobilizamos como forma de enfrentar a perspectiva
de desastre e catástrofes que sempre rondam nosso envolvimento
profundamente tecnológico com o mundo que nos cerca (FERREIRA, 2010). Se tomarmos
suas considerações sobre risco, tal como expostas na Sociedade
de Risco, por exemplo, de fato
não teríamos uma formulação daquela que já encontramos em Dupuy
acerca deste mesmo tema. O cálculo de risco pressupõe sempre a
possibilidade de analisar da perspectiva do custo e benefício nossa
ação sobre o meio ambiente, sem levar em contata, por exemplo, que
pequenos custos em princípio negligenciáveis podem se somar e
formar um pesadelo ambiental. A noção de risco parece partir do
pressuposto de que uma solução técnica pode sempre ser encontrada
para um problema tecnicamente gerado. Na realidade acreditamos que
uma discussão política mais profunda acerca das origens culturais
da constituição de “um tempo de catástrofes” deve ser
procurada. E esse deve ser um ponto de partida de qualquer projeto de
desenvolvimento que se pretenda sustentável.
REFERÊNCIAS
BECK, Ulrich. 2010.
Sociedade de Risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo, Editora
34.
DUPUY, Jean-Pierre.
2011. O Tempo das Catástrofes: quando o impossível é uma certeza.
São Paulo, Editora Realizações.
BERMAN, Marshall.
2007. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. São Paulo, Cia de Bolso.
FERREIRA, Jonatas.
2009. Nanobiotecnologia no Brasil: algumas reflexões acerca da vida
vista sob a ótica do infinitamente pequeno. In: MARTINS, Paulo
Henrique e MEDEIROS, Rogério de Souza. América Latina e Brasil em
Perspectiva. Recife, Editora Universitária da UFPE.
FONTES, Breno Augusto
Souto Maior. 2008. “Democracia, comunidade e território”. In:
MARTINS, Paulo Henrique; FONTES, Breno; MATOS, Aécio. Limites da
Democracia. Recife, Editora da UFPE.
FONTES, Breno Augusto
Souto Maior. 1998. Assentamentos Populares e Meio Ambiente. Dados.
Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, vol. 41, n.01,
pp.115-146.
SENNETT, Richard.
2004. A corrosão do Caráter. Rio de Janeiro, Editora Record.
SERRES, Michel. 2003.
Hominescências: o começo de uma outra humanidade. São Paulo,
Bertrand-Brasil
VIRILIO, Paul. 1996.
A arte do Motor. São Paulo, Espaço Liberdade.
