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domingo, 9 de agosto de 2009

O que é a Tecnologia de Informação e Comunicação e por que precisamos apropriá-la? Heidegger e o computador



Jonatas Ferreira

(O texto abaixo corresponde à Introdução de um artigo mais amplo)

'O que importa não é o que escolhemos, mas “aquilo sobre cuja base escolhemos”'(DREYFUS citando Heiddegger, 1993, p. 296).


Introdução

Em março de 2009, o Comitê Gestor da Internet no Brasil publicou os primeiros resultados da Pesquisa sobre o Uso de Tecnologias de Informação e Comunicação no Brasil realizada no ano anterior, isto é, em 2008. Esses primeiros resultados indicam que continuamos avançando na difusão de tecnologias de informação e comunicação (TICs) , embora os problemas apresentados nas avaliações anuais anteriores ainda não tenham sido suficientemente equacionados. i. “O custo elevado continua a ser a principal barreira para a posse do computador e da conexão à Internet nos domicílios”; ii. “a falta de disponibilidade de Internet passa também a figurar como um dos principais desafios para a inclusão digital em todo o país”; iii. a “posse do computador nos domicílios cresceu mais rapidamente do que a posse da conexão à Internet. A diferença entre domicílios com computador e domicílios com conexão à Internet era de 4 p.p. em 2005 e passou para 8 p.p. Em 2008”; iv. o acesso à telefonia móvel apresenta uma penetração consideravelmente superior à da telefonia fixa em todo o país; v. a “falta de habilidade foi, mais uma vez, apontada como a principal barreira para o uso da Internet”; vi. lanhouses ainda são a única possibilidade de acesso para uma parte considerável da população (pobre) brasileira – o que significa: paga mais por acesso à Internet quem menos pode pagar2. Além de tudo isso, nossa conexão continua bastante lenta o que restringe fortemente o acesso a conteúdos que exijam uma largura de banda mais robusta.

Esse quadro nos ajuda sem dúvida a traçar em nosso país os contornos mais gerais daquilo que se convencionou chamar de exclusão digital e dos resultados das políticas de inclusão tentadas até o momento. Evidentemente, esse panorama requer uma análise bem mais ampla das políticas governamentais nesse campo, do modo como os estados da federação vem assumindo os compromissos da Federação no que diz respeito ao ingresso de largas parcelas da população na Sociedade da Informação, do modo como entidades da sociedade civil, organizações não-governamentais têm se dedicado a atenuar as desigualdades no acesso às TICs. No que pese a necessidade de analisar os obstáculos que se colocam à inclusão digital em nosso país, e em particular nas regiões e parcelas mais pobres da população, acredito que pensar a desigualdade a partir da perspectiva da inclusão/exclusão digital é insuficiente (cf WARSCHAUER, 2006). A desigualdade nesse, como em outros casos, não deve ser tratada apenas do ponto de vista da restrição ao acesso, mas da possibilidade de apropriação criativa que essas tecnologias demandam (MACIEL E ALBAGLI, 2007). Apropriação é uma chave importante para que possamos ter uma idéia mais aprofundada do que viria a ser inclusão digital, ou, mais propriamente, daquilo que precisamos identificar como questão política que diz respeito à democratização da tecnologia. Dessa perspectiva, o que exatamente garantiria a democratização das tecnologias de informação e comunicação em nossa sociedade? A resposta parece óbvia, mas não é.

Primeiro, a questão da democracia não pode ser reduzida à questão da inclusão. Incluir significa tirar alguém de um lugar de falta e despossessão para outro de plenitude e cidadania. Em um ensaio dedicado a essa questão, tivemos a oportunidade de propor uma crítica ao conceito de inclusão digital a partir da constatação de seu débito para com as noções de justiça distributiva (que vem orientando o tratamento da questão da desigualdade no mundo moderno ao menos desde Adam Smith) e de informação (tal qual esse conceito é definido pela teoria da informação a partir da década de 1940). Naquele texto, afirmávamos:

A redução dos conceitos de informação e de comunicação a uma dimensão francamente performativa, tal como encontramos nas ciências da informação desde seus primórdios [...] apresenta uma considerável “afinidade eletiva” com a idéia de inclusão digital. Nos dois casos, trata-se de garantir o fluxo seguro e veloz de signos sem que as questões do sentido das mensagens, de sua apropriação, da orientação da arquitetura que permite este fluxo, constituam uma preocupação primeira – ou cuja resposta seja democraticamente produzida. A eficiência no transporte de informação é nos dois casos um princípio que se impõe às demais preocupações. Acreditamos que a idéia de inclusão digital não possibilita uma compreensão crítica desse movimento técnico e de seu sentido político (FERREIRA e ROCHA, 2009a).


Já ali falávamos da necessidade de apropriar as TICs como condição fundamental de sua democratização. Neste contexto, democratizar significa muito claramente propiciar as condições para que uma tecnologia aberta com respeito às suas finalidades – essa parece ser a marca das tecnologias digitais - possa levar a um exercício radical de reflexão acerca do mundo em que vivemos e do mundo que desejamos. Um limite importante da apropriação é se ela permite ou não essa reflexão. Por isso mesmo, uma questão inevitável para aqueles que se comprometem com tal projeto político há de ser: o que são a tecnologias de informação e comunicação contemporâneas para que desejemos democratizá-las, para que possamos pensar em sua apropriação como um postulado ético e político da contemporaneidade? Sem que uma resposta a essa questão seja pressuposta em nossos programas de democratização das TICs, como podemos verdadeiramente falar de apropriação? Se entendemos que a pergunta acima é fundamental, sua resposta não é de modo algum fácil. Tentar respondê-la implica que nosso compromisso com uma democracia radical demanda reflexão sobre nossos envolvimentos tecnológicos dificilmente compatível com a necessidade de respostas rápidas, com a busca de performance a todo custo, com a inovação como princípio. Em alguma medida, esboçamos uma resposta à questão da apropriação tecnológica quando nos debruçamos, no artigo mencionado acima, em analisar a transformação nas noções de informação e comunicação produzidas pela teoria da informação. O artigo que se segue dá continuidade àquele esforço procurando aprofundá-lo a partir do pensamento heideggeriano, particularmente, por intermédio de seus textos da década de 1960 acerca da linguagem cibernética e dos grandes perigos que ela representava.

Embora minha conclusão acerca das questões que Heidegger propõe seja bastante particular, acredito que a reflexão heideggeriana é ainda crucial. E isso por uma razão muito simples. É importante que nos perguntemos exatamente o quê desejamos democratizar e o quê implicaria essa democratização. A amplitude desse tipo de indagação propicia em geral um confronto com certos pressupostos culturais que são tomados como dados pelo paradigma da justiça distributiva. Para Martin Heidegger, o niilismo é o grande fantasma que ronda a civilização tecnológica; a aceleração tecnológica, a excitação constante, seriam ameaças que atuam de modo a nos ocultar o fato de que nada mais tem mesmo sentido ou merece existir. Ao nos equiparmos para ter tudo a nossa disposição, tudo perdemos. Assim, é preciso que nos dediquemos a pensar a ameaça da aceleração pela aceleração, da inovação que se justificaria pelo simples fato de inovar.

Segundo a perspectiva que tomo nesse ensaio, por outro lado, é na radicalização do processo de apropriação,na reflexão que ela implica, que encontraremos uma alternativa para a restrição de nossas possibilidades existenciais e políticas que o niilismo acarreta. Acredito que essa reflexão possa constituir um momento decisivo no contexto de um processo maior em que assumiríamos nosso destino de modo radicalmente democrático. Pois em qualquer âmbito no qual a democracia esteja realmente em questão, a possibilidade de que o mundo venha a ser radicalmente distinto daquele em que existimos também estará em jogo.

Para sermos capazes de fazer tal dissociação, Heidegger mantém, devemos repensar a história do ser no Ocidente. Então veremos que embora um entendimento tecnológico do ser seja nosso destino [destiny], não é nossa sina [fate]. Isto é, embora nosso entendimento das coisas e de nós mesmos como recursos a serem ordenados, melhorados, e usados eficientemente venha sendo construído desde Platão, nós não estamos presos a esse entendimento (DREYFUS, 1993, p. 307).

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Deixe sua mensagem após o sinal": telefonia celular e novas formas de sociabilidade (final)



Jonatas Ferreira e Marcia Longhi

Se, como vimos, a telefonia móvel invade e confunde espaços de intimidade, além de fazer penetrar o mais privado no espaço público, por outro lado, o celular é também um instrumento que suscita a idéia de individualização, de personalização. Cada usuário desse tipo de serviço possui o seu aparelho, com um número exclusivo, que não precisa compartilhar com familiares, colegas de trabalho ou amigos. Com a telefonia fixa, com o rádio, telégrafo, sinal de fumaça e mesmo o PC não é necessariamente assim. Se um dos segredos da comunicação digital foi o processo de criptografia que permitiu que uma mensagem trafegasse em alta velocidade e fosse aberta apenas por seu destinatário, é possível dizer que essa comunicação de um(a) para um(a) se realiza plenamente com a telefonia móvel – mais radicalmente que o PC. O uso doméstico dos PCs é em geral familiar.

Muitos usuários desse tipo de serviço têm mais de um aparelho, podendo selecionar as chamadas por categoria – família, namorada, amigos, trabalho etc. Além disso, opções como toque personalizado, capinhas com desenhos etc., reforçam a tendência à 'customização' de produtos e serviços que impulsiona o consumo nas sociedades contemporâneas. A sociedade de consumo nos esquarteja, pulveriza, decompõe, sempre acenando com a idéia de que sejamos únicos, especiais, clientes selecionados, um time muito seleto, peças raras.

Assim, salvo engano, cada um sabe quando o “seu” celular toca. Claro que quem está por perto também sabe e, através desse toque, sabe algo mais a respeito de seu proprietário: gosto musical, time de futebol pelo qual torce, música favorita. Isso me remete a uma cena que presenciei há algum tempo atrás. Estava em uma palestra, na universidade, proferida por uma professora de grande renome. A palestrante era uma senhora, em torno dos sessenta anos, muito elegante em sua forma de se expressar e de se vestir. Inesperadamente, uma música bastante popular começa a tocar criando um certo constrangimento: a música em questão era um hit de Adilson Ramos. Constrangimento – mas por quê?! Eu gosto - que se transformou em gargalhada quando a palestrante abre precipitadamente a bolsa e desliga o próprio celular. Não se trata de iniciar aqui uma discussão de gosto, claro, mas de perceber as duas tendências mencionadas neste texto em claro conflito aqui: a customização de uma ferramenta universal como parte de uma tendência da sociedade de consumo e a exposição daquilo que seria em princípio íntimo num espaço privado.

A esse respeito, mencionaria o Twiter como última forma de uso dos celulares. Trata-se, como sabemos, de “uma rede social e servidor para microblogging que permite aos usuários que enviem e leiam atualizações pessoais de outros contatos (em textos de até 140 caracteres, conhecidos como "tweets"), através da própria Web ou por SMS”, segundo a definição da Wikipédia. Esse uso permite acompanhar, mais ou menos em tempo real, o que está acontecendo na vida de pessoas, personalidades, que você eventualmente acompanhe. É possível dizer que a “espetacularização da vida íntima” é uma tendência tecnológica e cultural da contemporaneidade, com seus reality shows, blogs, fotologs etc. É possível pensar aqui na efetivação de um tipo de controle social em que não somos reprimido(a)s, constrangido(a)s a fazer algo que fere nosso desejo, mas que o controle se instala como desejo. Essas máquinas nos desejam, para fazer uma paráfrase do texto deleuzeano.

Por outro lado, não devemos esquecer que nenhuma tecnologia determina o mundo; artefatos humanos, os instrumentos compartilham nossas ambigüidades mais profundas. Por isso mesmo, é possível sempre reconfigurar-lhes o uso. Seria importante estudar os diversos tipos de redes sociais que se configuram através do twiter. Esse, no entanto, é um esforço maior do que seria adequado a um texto como esse.

sábado, 1 de agosto de 2009

"Deixe sua mensagem após o sinal": telefonia celular e novas formas de sociabilidade (parte 2)




Jonatas Ferreira e Marcia Longhi

Essa 'acessibilidade total' impõe criarmos regras de etiqueta que nos permitam administrar de forma minimamente competente o esborramento das fronteiras entre vida pública e vida privada que tal acessibilidade passa a acarretar. Saber o que é íntimo, pessoal, subjetivo, e o que é público e objetivo fez parte da boa educação para a modernidade – educação afetiva, profissional, existencial. Homens e mulheres modernos foram educados para não ter grandes dúvidas no que diz respeito ao que seria conveniente em um e outro espaços. Porém, as tecnologias de informação e comunicação como um todo, e a telefonia celular, de modo particular, têm nos confrontado com situações que nos fazem refletir sobre a fragilidade desta delimitação. Inúmeros exemplos poderiam ser dados e certamente alguns deles lhe pareceriam familiar. Para citar um, conto o que presenciei há alguns dias: assistia pela televisão um programa de entrevistas pouco convencional. De repente, ouve-se o som de um celular, o apresentador prontamente atende e vai logo dizendo “oi amor...estou no ar...daqui a pouco eu ligo para você...”.

Algumas destas regras já fazem parte de manuais ‘de disciplinamento de atividades coletivas’: o aluno que vai fazer uma prova deve deixar seu celular desligado, ou no modo silencioso; no cinema, antes que o filme inicie, somos lembrados – muitas vezes de forma original - a desligar nosso aparelho celular (claro que sempre há os ‘transgressores’ e no meio do filme, vira e mexe, ouvimos um sussurro “estou no cinema...” - mas as transgressões também fazem parte da efetivação da regra, como nos lembram Schmitt, Benjamin e tantos outros); uma lei foi criada para coibir o uso do celular enquanto dirigimos – mas, se você conseguir manter as duas mãos no volante, ainda pode, pela nossa legislação, mandar mensagens de texto através dele (não o faça!). Enfim, trata-se de situações que há vinte anos atrás não eram nem imaginadas e nem presentes em determinações legais.

A telefonia móvel também significou a possibilidade de um maior controle da vida dos indivíduos. Um profissional pode ser localizado a qualquer hora de seu dia e em qualquer local – caso desligue seu telefone por alguma conveniência, ouvirá posteriormente alguma questão acerca do motivo pelo qual esteve incomunicável ou terá de responder a chamadas não atendidas. E algo semelhante pode ser dito acerca das relações familiares. É inegável que o celular dá uma certa sensação de controle aos pais e mães de filhos adolescentes, pois possibilita que eles sejam localizados rapidamente, estejam onde estiverem. Ao menos, isso é o que muitos de nós imaginamos. Esse suposto controle não quer dizer maior tranqüilidade, uma vez que a possibilidade de seu exercício traz sempre consigo novas e maiores ansiedades acerca de sua eficácia. Em todo caso, diante da violência urbana atual, esta possibilidade representa algo que em geral consideramos desejável. E é claro que transformar o telefone celular em mecanismo de GPS (global positioning System) pode ser associado ao desejo de cuidar.

A delimitação entre o cuidado e o controle, todavia, mostra-se difícil de ser realizada. Os jovens nem sempre querem ser localizados e isto não é, a priori, negativo. Em nossa sociedade, autonomia e independência são comportamentos estimulados e indicativos de amadurecimento. E onde existe dispositivos de poder, forjam-se inevitavelmente mecanismos de contra-poder. Alguns exemplos. Manter o celular desligado, e depois dizer que estava descarregado; dizer que esqueceu o telefone no modo silencioso; deixar o celular com o amigo, que ficou na escola assistindo a aula a que você deveria assistir, para evitar o monitoramento - de celulares que dispõem de mecanismo de localização.

Muitas estratégias são criadas para burlar a possibilidade de controle e sair, livremente, para pequenas ou grandes transgressões, mas quem, hoje, pode deixar de incluir o celular quando o tema é conflito de gerações? Se falamos do controle coercivo por parte da sociedade e moral, nas questões disciplinadoras, não podemos, na contemporaneidade, deixar de fora o controle tecnológico, entre eles o aparelho celular. O curioso é que quando se fala hoje de disciplina, controle, mobilizando quase sempre Foucault, Deleuze e alguns teóricos da Escola de Frankfurt, nunca se dá devida atenção a esse primo pobre das tecnologias de informação e comunicação – sempre estamos mais dispostos a falar de câmaras de vigilância, satélites e mesmo a Internet. Em todo caso, chamar a telefonia móvel de primo pobre das TICs é só força de expressão diante da tendência à convergência tecnológica que hoje percebemos com muita clareza. O celular já não é apenas um telefone, mas um espaço onde podemos jogar, uma máquina fotográfica, uma agenda, um notebook etc.

(Continua)

terça-feira, 28 de julho de 2009

“Deixe sua mensagem após o sinal”: telefonia celular e novos modos de sociabilidade (parte 1)



Jonatas Ferreira e Marcia Longhi

Se alguém resolve refletir acerca do modo como as tecnologias de comunicação e informação estão mudando as nossas vidas, é bem provável que esta pessoa não decida falar de telefonia celular. Há novidades bem mais glamourosas por explorar: uso de internet de alta velocidade no campo da saúde, regulamentação da Internet, e-governo, e-comércio, novas formas de ativismo no ciberespaço etc. Ninguém dá grande importância ao bom e velho telefone celular – velho, sim, o avô dos nossos modelos estilosos tem mais de 20 anos – que deixou mesmo de ser novidade. Segundo os últimos dados publicados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 76% da população brasileira dispõe desse ícone, já tem idade para tal, da sociedade de informação. Tornou-se tão presente que a gente deixou de os ver – como tudo na vida, como nos ensina a fenomenologia, o mais presente se ausenta. Quer dizer, salvo quando aquele amigo exibido aparece com um novíssimo modelo, capaz de proezas técnicas inimagináveis há alguns anos.

O telefone celular, no entanto, vem mudando nossa vida de uma forma categórica. Quem imaginaria a gama de novas situações sociais que esse pequeno aparelho propicia. Lembro que há três anos, entrando num conhecido restaurante da cidade do Recife, necessitei ir à casa de banhos. Enquanto lavava às mãos escutei com assombro uma voz rouquenha, espremidinha que vinha de um dos três cubículos dedicados a necessidades mais urgentes que às minhas. E a vozinha dizia algo como: “...mas meu bem, você não sabe que eu amo você”. Pausa dramática, algum tipo de esforço audível e: “... amo sim, você não percebe como minha voz está embargada de emoção?” O causo de fato aconteceu e o prosaico, por vezes, ensina. É difícil imaginar há vinte anos uma negociação amorosa tão escatológica, um sentimento expresso de forma tão corporal como aquele. A pessoa saiu de sua cabine, sem me perceber, lavou as mãos como se nada tivesse ocorrido e seguiu em direção a uma mesa onde a aguardavam alguns colegas engravatados.

E essa é uma primeira lição. Nenhuma tecnologia contribuiu tanto para realizar o sonho (ou pesadelo) de uma acessibilidade absoluta quanto o telefone celular. Desconsiderando a convergência que há hoje entre computadores e telefones celular (uma novidade recente sobre a qual falarei), é possível dizer: não foi o PC, ou a Internet, que realizaram, do ponto de vista da acessibilidade, a fantasia da biblioteca de Babel de que fala Borges - metáfora exaustivamente mobilizada para descrever a World Wide Web. Salvo alguns problemas técnicos, ou a decisão heróica de não ter esse tipo de facilidade, estamos acessíveis o tempo todo, em todo lugar – menos Maria Eduarda. Nos estádios de futebol, nos cinemas, nas salas de aula, nas reuniões de trabalho, nas maternidades, funerais, casamentos, casas de banho!, estamos sempre a uma tecla do resto do mundo. E isso, por si só, envolve a negociação de uma etiqueta tensa entre um mundo virtual e enlouquecedor na proliferação de suas demandas e os compromissos presenciais que nos lançam em outra direção. Quem pode reivindicar atenção presencial, por séria que seja a a necessidade de tal demanda, quando o resto do mundo teima em impor emergências amorosas, profissionais, domésticas?

Porque estamos acessíveis o tempo todo e em todo lugar somos mobilizáveis sempre e em qualquer lugar pelas engrenagens produtivas - e também pelos laços afetivos, pela urgência de compromissos de diversas ordens. Para alguns, há aqui o que comemorar. Para uma enorme camada da população brasileira sem conexões produtivas com a sociedade de informação, a posse de um telefone móvel significou a inclusão em fluxos de trabalho, por exemplo. Serralheiros, encanadores, eletricistas, esteticistas, vendedoras, jardineiras, podem agora ser facilmente conectados – o que certamente dinamiza a atividade produtiva não formal da economia. Tristemente, é precisamente para essa parcela da população que o serviço de telefonia móvel é mais caro no Brasil – ora, além de vir substituindo a telefonia fixa, nunca democratizada em nosso país, e realizar alguns tipos de comunicação que a maioria de nós prefere realizar pela Internet, o celular se impõe como para essa população sempre a partir de planos mais dispendiosos - como os pré-pagos, por exemplo.

Em 2005 o telefone fixo estava presente em 54% da população residente na área urbana, passou em 2006 para 50%, depois para 45% e em 2008 registrou 40%. O oposto ocorre com a telefonia celular. Tínhamos 61% da população com acesso ao telefone celular em 2005 e hoje esse percentual é de 76%. Esse declínio da telefonia fixa mostra que há muito tempo essa área deixou de se reinventar e que está condenando uma parte do Brasil ao abismo, na medida em que as concessionárias de telefonia não têm interesse em levar a banda larga ao interior do país (Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação no Brasil 2008;CGI.BR, 2009).

(Continua)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Psiquiatria, Sujeito e Comunicação


"O que eu sempre precisei, acima de tudo, para a minha própria cura e restabelecimento, foi a convicção de não estar sozinho, de não me ver tão sozinho ― uma suspeita encantadora de algum companheirismo e semelhança de olhar e desejo, um momento de relaxamento na certeza da amizade..." Nietzsche
A liberdade de um sujeito é a sua capacidade de adquirir autonomia na criação e apropriação de objetos socializados (Costa, 1984). A sociabilidade humana é fundamental para pensarmos na existência de sujeitos autônomos e livres. O grau de autonomia, por sua vez, está relacionado à capacidade do sujeito humano de se apropriar das quatros dimensões da realidade: a linguagem, a natureza exterior, a natureza interior e o mundo social (Habermas, 1989).

(ahá, olha aí Habermas! Mesmo assim, minha concepção de sujeito era dada e não resultado de algum processo de subjetivação. Na época, utilizava o aporte habermasiano para criticar três "antipsiquiatras": David Cooper, Laing e Szasz)

A autonomia do sujeito humano, por outro lado, está relacionada com o seu processo de emancipação, e esta, por sua vez, depende do desenvolvimento de sua capacidade de linguagem, de cognição e de interação (Noam Chomsky, 1980). Neste sentido, o desenvolvimento da singularidade individual acontece através da linguagem, que é a mediação universal necessária à cognição e à ação humana, e, em particular, à linguagem comunicativa (Habermas, 1989), voltada ao entendimento. Assim, podemos supor que o desenvolvimento da subjetividade pode ser considerado como imanente à linguagem e à atividade comunicativa.

Portanto, é fácil deduzir que a formação da personalidade do sujeito humano é complexa e, até certo ponto, frágil ― nem sempre coroada de êxito; os fracassos acontecem freqüentemente e, entre várias causas, podemos citar a doença mental. No processo de constituição da personalidade individual é necessária, de um lado, a manutenção de uma identidade do eu singular, de outro, a identidade da intersubjetividade. Desse processo interdependente forma-se o sujeito socializado, com capacidade de aprendizagem e de comunicação. Podemos concluir, então, que as estruturas simbólicas da vida intersubjetiva são reproduzidas pela ação comunicativa (1989) ― forma de interação coordenada pela linguagem.

(estou com fortes dores de cabeça, tentando descobrir o que significa "a identidade da intersubjetividade". Como esse blog é direcionado à graduação, peço aos pequerruchos que utilizem minha confusão mental como uma forma pedagógica de evitar o erro)

A doença mental é um entidade mórbida que interrompe em algum ponto esse processo formador da identidade e da personalidade. Se antes era possível uma comunicação coordenada pela linguagem, voltada para o entendimento, com a doença mental, porém, ocorre uma comunicação distorcida patologicamente. O doente não consegue fazer-se compreender pelo outro; ele se isola e seus laços de sociabilidade são fragmentados, ocorrendo um processo de deterioração na sua identidade, tanto em relação a si mesmo como em relação à sua vida intersubjetiva. As grandes psicoses, desse modo, seriam doenças da comunicação patologicamente afetadas.

(embora interessante, minha concepção de psicose é reducionista, isto é, reduzo tudo à comunicação. De todo modo, um antipsiquiatra perguntaria: a distorção da comunicação é produto de uma patologia ou de um tipo de vida social?)

Acreditamos, assim, que a ação comunicativa é incompatível com o asilo. A forma de organização do asilo seria um sistema anti-comunicativo por excelência. Ao invés de tentar restaurar a competência comunicativa de sujeitos que a perderam, o asilo produz o efeito contrário de diminuir ao máximo a ação comunicativa entre os pacientes. Do ponto de vista político, o asilo nega todos os três direitos fundamentais do internado:

a) o direito à palavra pessoal, em que o internado tem de ser ouvido, porque ele só pode ter condições de sair da internação retomando a sua subjetividade;

b) o direito à diferença, ou seja, o direito de manter dentro da instituição a sua identidade, que lhe é roubada nos mínimos detalhes;

c) o direito à cidadania: o protesto do internado contra a instituição tem que ser escutado.

(em suma, ao contrário da antipsiquiatria, não nego a "doença mental" como tal, mas aceito sua crítica ao asilo. Mas substitui-lo por qual instituição? A resposta está no post seguinte, que é uma crítica à antipsiquiatria -- aliás, nele, faço uma crítica sectária a Foucault)

Referências:

CHOMSKY, Noam -- Reflexões sobre a linguagem -- São Paulo: Cultrix, 1980.
COSTA, Jurandir Freire -- Violência e Psicanálise -- Rio de Janeiro: Graal, 1984
HABERMAS, Jurgen -- Consciência moral e agir comunicativo -- Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989

Artur Perrusi