Jonatas Ferreira
A hierarquia entre as artes
Por email, Artur reclamou de os meus quitutes no Cazzo estarem pouco substanciosos. Disse que come tudo distraidamente, que sente falta de algo realmente nutritivo. Lembrou-me de uns versos de Ascenso Ferreira, que não transcreverei aqui por falta de espaço e por timidez. Sugeriu-me um passeio gastronômico pelo Mercado de São José, o que fiz com gosto e alguma cautela. Voltei de lá com esse prato típico que agora apresento – e lembrando de Rabelais... Noves fora, neste post, ilustro o argumento esboçado no post anterior a partir do estudo de Hegel sobre a poesia.
Creio que a primeira coisa que salta aos olhos na leitura deste livro é a existência de uma hierarquia entre as artes, hierarquia que subjaz à própria concepção de história de Hegel. Há culturas que realizam mais plenamente o espírito e outras que se encontram ainda na infância da História, assim como, há artes mais espirituais e artes menos espirituais. Pois, se por um lado, a razão na história só se realiza e desenvolve de modo concreto, na realidade de uma cultura que é sempre temporal e espacialmente delimitada, existem formas concretas de expressão onde o Espírito Absoluto se realizou mais plenamente. Deste modo, é possível também dizer que os materiais de que se servem as artes plásticas limitam sua capacidade de imprimir o espiritual nas formas sensíveis quando a comparamos a outras formas artísticas. É possível dizer que encontramos no espaço que compõe a expressão artísitica gradações entre uma menor e uma maior idealidade, uma ordem que iria da arquitetura, à escultura, à pintura. Por esse motivo, infere Hegel, é que os templos gregos precisavam ser adornados com estátuas que magnificassem seu conteúdo espiritual – e os deuses eram humanizados, pois no ser humano o Espírito se realiza mais plenamente que em qualquer outro ente natural. A estátua grega, por seu turno, é dotada de um sentido de interioridade que uma coluna, uma edificação, mesmo que religiosa, não pode ter. Mas, no que diz respeito às esculturas da antiguidade clássica, o mármore ou o bronze são também limites para essa síntese que se opera entre espírito e matéria.
Por sobre esse limite, um desenvolvimento se opera. Há outros tipos de manifestação artísitica em que a idealização pode ser realizar de forma ainda mais pleno. Tomemos a música como exemplo.
“Como dissemos, é a música que ultrapassa a fronteira do visível, ao exprimir a interioridade como tal e os sentimentos subjectivos, não já com o auxílio de figuras plásticas, mas por meio de vibrações sonoras. Ao proceder assim, ela transporta-nos ao outro extremo: ao da inexplícita concentração subjectiva, em qeu o conteúdo só encontra nos sons uma expressão simbólica” (Hegel, s/d, p. 10).
A associação entre música e interioridade precisa ser entendida. Claro, o sonoro é, como explica Hegel, invisível e, enquanto tal, dá-nos a impressão de uma presença que não é propriamente material, de uma sensibilidade ao invisível. Haveria algo mais que sonoro, mais que sensível na música, ele explica: o canto de uma ave, um sabiá, por exemplo, perde todo o seu encanto se descobrimos que é produzido por um apito. Na música há um elemento de interioridade que nos fala mais plenamente da idealidade do espírito humano do que a escultura, portanto. Ora, dizer que a música é mais subjetiva, pois é isso que está sendo proposto, faz todo o sentido se tivermos em mente que o Romantismo alemão acreditava ser a música a arte mais essencial que existiria. Uma linguagem supostamente da pura emoção, ou seja, que se dirige diretamente ao sensível no humano, ao seu sentido de unidade com o mundo, que o torna pleno por alguns momentos. Ocorre-me aquela famosa reflexão de Horkheimer e Adorno sobre Ulisses e o canto das sereias. Onde a música se instala, uma postura de objetividade, distanciamento e precaução se tornaria difícil de ser sustentada. O cauteloso Ulisses ouvia música com uma convicção romântica e uma atitude técnica, iluminista em relação ao lugar da arte no progresso da civilização.
Quando falamos da relação do Romantismo alemão com a música devemos, além disso, mencionar a forma surpreendente que esta alcançou na obra de compositores como Beethoven, Mendelssohn, Schubert etc. Porém, exatamente porque a música é entendida como expressão radical de interioridade, de subjetividade e emoção, para Hegel ela não poderia ocupar o lugar mais destacado na hierarquia entre as artes.
“Com efeito, considerado em si mesmo, o som é desprovido de qualquer conceito e assenta em relações numéricas; deste modo o lado qualitativo do conteúdo espeirtual corresponde às relações quantitativas e às diferenças de tempo, contrastes e mediações que elas comportam, mas somente de uma maneira geral; a precisaão qualitativa como tal não pod ser totalmente expressa pelo som”. (Hegel, s/d, p. 10)
Fácil de perceber, na citação acima, o lugar destacado que a palavra ocupa como meio privilegiado mediante o qual o conceito a razão, o espírito se apresenta diante de nós, possibilitando o seu reconhecimento. Derrida talvez dissesse a esse respeito que logocentrismo é precisamente isto: o privilégio da palavra como índice da presença do espírito, da fantasia de um ser que estaria pleno em si próprio. É na poesia, portanto, que a arte encontra sua forma mais elaborada de idealização. É ela que em princípio pode constituir uma síntese entre a interioridade da música e a exterioridade das artes plásticas; é ela que pode espiritualizar plenamente o mundo externo e, ao mesmo tempo realizar a interioridade como algo que, em sua exterioridade, pode ser compartilhado. E aqui podemos perceber o modo como Hegel opera a ideia de síntese como superação de uma contradição, como sua resolução num plano mais elevado. De modo semelhante à música, na poesia realiza-se a “percepção imediatada alma por si mesma e em si mesma, princípio de que carecem a arquitetura, a escultura e a pintura” (Ibid. p. 10-11) - estas se realizam como objetos exteriores à consciência. Por outro lado, a poesia recupera da pintura e escultura, por exemplo, uma capacidade de representar, que a música perde, dada a interioridade sob a qual ela é produzida e experienciada. Essa capacidade de representar é ainda dinâmica, capaz de captar o movimento das coisas externas, como a escultura, a arquitetura e a pintura não podem, além de ser capaz de representar também a interioridade. (Fico sempre me perguntando o que Hegel acharia do cinema, caso o tivesse conhecido.) Assim, a poesia
“amplifica-se até formar com as representações, as intuições e os sentimentos interiores, um mundo objectivo, que mantém quase toda a precisão da escultura e da pintura, e é, além disso, capaz de representar de forma mais completa que qualquer outra arte a totalidade de um acontecimento, o desenvolvimento da alma, de paixões, de representações ou a evolução das fases de uma ação” (Ibid).
Para Hegel, o paradigma do simbolismo é a arquitetura, assim como a escultura se realiza mais plenamente no classicismo e a pintura e a música no romantismo. Uma hierarquia entre os estilos, portanto, é também uma hierarquia entre as artes. Quanto mais próxima do logos, mais humana, mais espiritual é a arte, e portanto mais desenvolvida. Para ele, todavia, o “grau de perfeição de uma arte” depende de sua capacidade de se elevar acima das particularidades de “tal ou qual forma especial”. “Pela sua essência, é a poesia a arte que melhor do que qualquer outra, apresenta maiores possibilidades de um tal desenvolvimento libertador. Ela assim se conduz na criação artística, quer dotando de uma existência real cada forma particular, quer libertando-se da dependência em relação a um determinado tipo de concepção e de conteúdo, seja simbólico, clássico ou romântico” (Ibid. p. 21). Mas, se a poesia só pode realizar seu potencial na história, é fundamental que percebamos ali mesmo seu “desenvolvimento libertador”, que pecebamos o seu destino nas contradições que ela supera, sabendo de antemão aquilo que a destingue do prosaico, do mundo rotineiro de todos os dias: “O objecto verdadeiro da poesia é o reino infinito do espírito” (Ibid., p. 30). Assim, ela é a busca “compreender uma multiplicidade de circunstâncias”, “mas deve apresentar este vasto conjunto de particularidades como estando subordinado a um só princípio” (Ibid., p. 33). A realização mais fundamental da poesia, portanto, está de algum modo atrelada a um monoteísmo capaz de pensar a diversidade, a um pensar a essência do mundo que não pode ser confundido com a “consciência vulgar”, prosaica do mundo, que aceita os fatos particulares na insignificância de sua “acidentalidade” (Ibid., p. 35). Porém, a consciência poética nada é sem esses acidentes. E aqui voltamos à influência herderiana, sobre a qual já falamos.
“Como a poesia tem por objetcto, não as generalidades da abstracção científica, mas todas as ideisas da razão individual, encontra a sua principal determinação no caráter nacional de que é uma emanação e cujo conteúdo e modo de concepção se tornam o seu conteúdo e o seu modo de expressão próprios, o que a conduz a um grande número de formas particulares. Com efeito, as poesias oriental, italiana, espanhola, inglesa, romana, grega e alemã diferem umas das outras pelo seu espírito, sentimentos, maneira de conceber o universo, expressão etc.” (Ibid., p. 37 e 38)
A poesia, lugar onde o geral e o particular se encontram de modo orgânico, vivo, varia no tempo e no espaço e essa variação está diretamente ligada à realização do espírito no mundo, o que vale dizer que encontraremos também nessa variação a estruturação de uma ordem e uma hierarquia. Mas a forma de subordinação que a suposição de um princípio estruturador do mundo implica é curioso, pois ele difere, por exemplo, do pensar técnico, no qual a particularidade é apenas um meio para atingir um fim. Na poesia, cada particularidade conta com sua própria dignidade, “cada parte, cada momento são interessantes em si, porque dotados de vida” (Ibid., p.44). E sobre isso já falamos em um post anterior: a arte não deve ser concebida como meio para a obtenção de nada; ela é essencial e, como tal, possui uma dignidade incompatível com a instrumentalização (Ibid. p. 57 e 58). (Vai entender Dostoievski, que escreveu obras-primas com o propósito de pagar suas dívidas!). A poesia nos retira da “prosa da vida”, ou seja, de nossos engajamentos cotidianos em que o mundo se torna irrefletido e, portanto, fundamentalmente instrumentalizável. Que a poesia, a arte, possam ser pensadas como uma esfera privilegiada nesse exercício de combate à alienação, parece-me uma herança clara do Romantismo de Jena, no que pese Hegel não postular, como aqueles, que a arte ocuparia o papel mais elevado na realização plena do ser humano.
Na medida em que é um exercício de estranhamento com relação ao mundo dado, à prosa da vida, a poesia é um ato crítico. “Ao tratar o elemento sensível com esta atenção, […] acrescenta-se à seriedade do conteúdo qualquer coisa que o torna mais distante, menos familiar e transporta tanto o poeta como o auditor a uma esfera de serena beleza” (Ibid., p. 89). Acerca do tratamento poético da vida quotidiana, poderia ser dito aquilo que Hegel diz acerca de certos constrangimentos que o poeta tem para se expressar, como, por exemplo, o uso da rima. Esse obstáculo não constitui um limite à expressão poética, mas um elemento que o “eleva e ajuda” (p. 88). A poesia, portanto, está ligada à organicidade entre vida e espírito que nos permite retomar algo já dito nessa série de posts: para Hegel, a história, seu desdobramento em contingências, está inextricavelmente relacionada à realização da razão no mundo. É a partir da contradição, da contingência, da particularidade que o espírito se desenvolve nesta direção. Constatar isso, é um passo para apreciar a necessidade de se pensar a própria história da poesia como exercício através do qual se perceberá a direção ruma à qual esse desenvolvimento se produz. Isso me levaria agora a discorrer sobre poesia épica, sobre a poesia lírica e sua síntese na poesia dramática. Mas a preguiça é maior do que o progresso de meu espírito. Digo apenas que são páginas memoráveis.
[e mais uma vez não vou reler o que escrevi e identificar erros. Almas boas, espíritos de luz, gente da terra do frevo, do semba, da catira, do bumba e do fandango, ajudem.]
