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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Emoção e sociabilidade em rede: uma pequena introdução sobre a sedução dos sentimentos no Facebook (trabalho em progresso)



Jonatas Ferreira[1]
Cristina Petersen Cypriano[2]
            
A capacidade de mobilização e de articulação social e política das redes de sociabilidade baseadas na Internet - tais como aquelas abrigadas pelo Facebook ou Twitter - tem despertado o interesse de diversos atores, analistas e cientistas sociais. Um exemplo disto é a atenção que este tipo de media vem despertando entre os políticos profissionais. Em 16 de outubro de 2013, o ex-presidente Lula conclamava os seus seguidores no Facebook a atuar neste novo espaço técnico da seguinte forma: “Vamos utilizar essa ferramenta fantástica que é a internet para falar do nosso projeto, mostrar o que já fizemos e, claro, ouvir críticas, sugestões e questionamentos”[3]. Comentando o livro de Manuel Castells Redes de Indignação e Esperança, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso analisava a importância da tecnologia na viabilização de protestos na Islândia, Espanha e Egito: “Por trás desses protestos está o cidadão comum informado e conectado pelas redes sociais e por toda sorte de modernas tecnologias de informação”.[4] Dada a relevância evidente deste meio sociotécnico, não admira que políticos profissionais passem a buscar o apoio de especialistas em comunicação e em redes sociais para compreender e intervir nesse novo espaço de sociabilidade. Recentemente, por exemplo, Dilma Rousseff convidou ao Palácio do Planalto Jeferson Monteiro, o criador da personagem paródica Dilma Bolada, de enorme popularidade nas redes sociais baseadas na Internet. Com 1,4 milhão de seguidores no Facebook e 26 mil no Twitter, a personagem de Monteiro pode se dar ao luxo de obter espaço na agenda da Presidente da República, precisamente no momento em que seu autor havia decidido descontinuar as postagens envolvendo sua criação.
O forte prestígio da personagem Dilma Bolada não pode, entretanto, ser avaliado apenas segundo os critérios da elevada audiência que ela obteve. Em um contexto, como é o das redes sociais on-line, onde todos os integrantes administram suas próprias páginas – pessoais ou institucionais – e se colocam como produtores de conteúdos, tanto quanto como consumidores e divulgadores, “o valor é cada vez mais calculado através da abrangência atingida por replicações, replies, menções, comentários, curtições e compartilhamentos de conteúdos”. Diferentemente do poder que se manifesta pela somatória dos seguidores, a “abrangência traduz o valor como a potência que consegue alcançar e o quanto pode mobilizar uma comunicação no interior das timelines” (Malini & Antoun, 2013, p.216). Nas comunicações em rede, os formadores de opinião se distinguem não pela contabilidade do número total de receptores, mas sim pelo cultivo da participação ativa daqueles que recebem os conteúdos postados. Sob vários aspectos, esse potencial dialógico é entendido como parte constitutiva da própria dinâmica estabelecida neste tipo de rede social. Recentemente, a propósito, os administradores do Facebook decidiram tomar medidas contra o que identificam como chamadas fraudulentas, posts de aparência sedutora, iscas (clickbaits), que, uma vez abertos, mostram conteúdo sem qualquer relação com as promessas iniciais: [5] sob uma chamada em que figura o vídeo de um terno animal de estimação, por exemplo, encontrar-se-ia uma propaganda qualquer. A identificação da fraude é possível - e este é o ponto - pela contabilização do tempo médio gasto por internauta ao abrir a chamada e pela proporção do número de comentários e compartilhamentos que esses ensejam, dada a quantidade total de acesso. A participação é sempre a atitude esperada.
Retomemos o ponto com o qual abrimos este texto. Dada sua incontestável força política e social, as mobilizações em rede também vêm ganhando uma atenção especial de um segmento das ciências sociais (ver, por exemplo, Lecomte, 2013; Dobwor, 2013; Singer, 2013). No que pese a importância desses estudos, em geral, eles compartilham de uma visão distanciada destes fenômenos, quer este afastamento seja garantido por alguma perspectiva econômica, na qual o político, o social e o cultural sempre parecem se subsumir, ou numa análise técnica que invariavelmente toma a rede como um fato dado e mesmo comparável a outros tipos de redes, como aquelas que podem ser percebidas entre insetos (a esse respeito, ver Ferreira e Fontes, 2014). Neste texto, por outro lado, procuramos recuperar um pouco dos conteúdos emocionais que forjam os “laços” e os “nós” dessas redes sociais e técnicas. Parece evidente que, a esse respeito, devemos partir de uma constatação bastante difundida entre os estudiosos da tecnologia: os engajamentos pelos quais se encadeiam as ações nas redes sociais on-line são tecidos pela interface entre seres humanos e máquinas. Os “pontos” que compõem a intrigante topologia reticular dos movimentos coletivos via Internet “são conectadas não por laços sociais per se, mas sim por vínculos sócio-técnicos. Elas são unidas por conexões tão técnicas quanto sociais” (Lash, 2001, p. 112). Daí decorre a desconcertante impressão de que “já não se sabe ao certo se existem relações específicas o bastante para serem chamadas de ‘sociais’”, ao mesmo tempo em que “o social parece diluído por toda parte e por nenhuma em particular”, como observa Latour (2012, p.19). Isso que parece um truísmo, infelizmente, não se traduz em análises que deem conta dos dois polos que compõem o fenômeno em questão.
 Entendendo as redes sociais baseadas na Internet como fenômeno socio-técnico, nossa abordagem não está à procura de pontos de origem em algum dos componentes da interface homem-máquina. Considera, antes, que trata-se de uma especial forma de relação que atualmente muitos de nós estabelecemos com as tecnologias de informação e comunicação, uma relação na qual somos autorizados e autorizamos, somos habilitados e habilitamos, somos capacitados e capacitamos a agir de forma imprevista (Latour, 2012). A partir dessa perspectiva, nossa intenção neste pequeno texto é perceber como a emoção é um componente fundamental das próprias dinâmicas sócio-técnicas – e, ao mesmo tempo, que a emoção encontra na interface entre humanos e dispositivos os ingredientes fundamentais que possibilitam e estimulam sua expressão. Tomaremos aqui o caso do Facebook como objeto de nossa análise e argumentaremos que a emoção é ali uma pressuposição do próprio dispositivo oferecido e, acreditamos, um dos motivos de seu enorme sucesso, de seu incontestável apelo. Lançado em 2004, por Mark Zuckerberg, o Facebook conta hoje com mais de 1 bilhão de usuários ativos – que utilizam a rede social ao menos uma vez ao mês –, dos quais mais de 60 milhões estão no Brasil.[6]
No que diz respeito à mediação tecnológica do Facebook, é notável o fomento à composição de coletivos de sociabilidade, considerando que esta é uma forma específica de relação social que pode ser definida, com Simmel (1983), pela mutualidade no cultivo do laço social per se, pela troca de conteúdos de cunho pessoal, pelo aspecto lúdico das interações, pelo prazer recíproco da sociação - embora finalidades instrumentais possam interferir neste processo, elas não são condições de partida para os usuários do Facebook. Assim, o site oferece um serviço que investe na sociabilidade entre seus frequentadores, na medida em que incentiva algum tipo de reciprocidade na disponibilização de conteúdos provenientes de suas vidas pessoais e promove interações em torno desses conteúdos. O fato de a emoção ser um ingrediente e uma moeda de troca importante em redes sociais como o Facebook – que nos faz pensar em uma espécie de economia da dádiva em que laços são reforçados entre aqueles capazes de mostrar uma sensibilidade afim - talvez possa ser apreciado em primeiro lugar pelo fato de os laços que a compõem serem caracterizados como laços de “amizade”. Ainda assim, não é incomum que essa reciprocidade seja rompida unilateralmente de forma a preservar de alguma forma o laço. Isso ocorre, por exemplo, quando deixamos de seguir um determinado amigo, ou deixamos de ser seguidos por ele, por atitudes julgadas inconvenientes: postar exageradamente, por vezes sobre um único assunto, mostrar opiniões ou valores considerados inadequados, etc. À importância da continuidade deste “laço fraco”, o Facebook está atento: é possível poupar um “amigo” ou “amiga” da triste verdade de que ele ou ela se tornou um chato.
Para alguns, aquilo que no Facebook “nós designamos convencionalmente pelo nome de ‘amizade’ é um tipo de ligação inteiramente específica dos ambientes sociais da Web” (Casilli, 2010: 270). Isso significaria aceitar que, embora possua a mesma nomeclatura de um vínculo social off-line, trata-se de um tipo de laço que não existe senão nas dinâmicas típicas do mundo on-line. Ao tratar de fenômenos técnicos desta natureza, todavia, é sempre importante analisar a ambiguidade dos meios que estes dão lugar, o processo de contaminação mútua que existe por exemplo entre dinâmicas off e on-line. Por isso mesmo, é importante analisar o que comumente entendemos por amizade e ver como esse valor é negociado nas redes sociais. Na língua inglesa “essa amizade assistida por computador toma o nome de friending. O neologismo designa o ato de ‘amigar’ ou de ‘tornar-se amigo de’ alguém” (Casilli, 2010: 271). Não é de se admirar que essa forma de ligação assuma o estatuto de uma ação, uma vez que abarca o movimento voluntário e persistente de tecer e manter laços on-line, sejam quais forem as motivações dos indivíduos. O convite explícito para celebrar um laço de amizade no mundo virtual – que só tem paralelo no universo infantil – dá bem uma ideia de quão significativa é a ideia de ação neste âmbito. Esse exercício de tornar-se amigo, invariavelmente, está condicionado às possibilidades e às restrições dos sistemas informáticos.
A importância do uso do termo amizade para o sucesso do Facebook está associado, de maneira intuitiva, à ideia de que se trata de um ambiente onde se fica à vontade na medida em que seus frequentadores são convidados a se assegurar da qualidade dos laços que são ali formados. A sugestão é a de que estão todos entre amigos, senão, entre amigos de amigos[7]. A escolha do nome amizade - em torno do qual parecem se constituir as dinâmicas desta rede social - é sintomática da possibilidade que certos laços sociais têm de ser mais fortes que outros.[8] Quando indagado sobre as vantagens de fazer parte desta rede, não é incomum escutar de seus usuários que a possibilidade de manter contato com pessoas distantes espacialmente ou com amigos antigos dos quais se perdeu o contato estaria entre as mais atraentes. Assim, recursos disponíveis nesta plataforma, tais como “cutucar” parecem reforçar a pretensão de intimidade e emotividade sobre os quais os laços seriam fortalecidos. Entretanto, além da postagem de conteúdos, acreditamos que as ações de “curtir”, ou seja, de manifestar apreço, admiração, ou identidade com respeito a um conteúdo, e de compartilhar esses mesmos conteúdos estejam entre as ações que mais fortalecem os laços dentro da rede.[9]
É necessário aqui afirmar que o processo de reconhecimento e obtenção de prestígio na rede são fundamentais para que as próprias redes aumentem o número de seus nós. O Facebook estimula essa atitude propondo recorrentemente novas amizades, indicando amigos de amigos que talvez o internauta gostasse de incorporar à sua rede de contatos, ou melhor, de amigos. O motivo aqui é simples: a frequência das visitas, a intensidade das interações e seu alcance são os ingredientes a partir dos quais o Facebook obtém retorno financeiro e se dispõe a manter sua plataforma gratuita. Não é segredo que, nesse site, as ligações entre os usuários são os valiosos produtos da sociabilidade. O que o indivíduo curte e compartilha serve de base para que os algoritmos que orientam o Facebook possam oferecer produtos, serviços, sob a forma de propaganda[10]. O que você gosta, aquilo com o que você se identifica, que gostaria de compartilhar, são bases mediante as quais os anunciantes do Facebook podem propor negócios, serviços. Ademais, uma base de dados com informações tão valiosas acerca de gostos, preferências, susceptibilidades afetivas, convicções políticas e morais tem valor financeiro incalculável.
Não é de admirar que um tom afetivo, por vezes mesmo acalorado, circule e se propague, em certas ocasiões de modo furioso, nesta rede social. As opiniões, certezas associadas a esses afetos passam a ser um elemento fundamental na consolidação de laços ou em seu rompimento. Opiniões políticas intoleráveis podem ser objetos de avisos do tipo: “lamento informar, mas todas as pessoas que comungam com o valor x, a opinião y, que considero absurdas, serão excluídas, bloqueadas de minhas redes de contatos”. Esse tipo de anúncio, algo impessoal, reestabelece a diferença básica que existe entre amigo e contato. Além do ato de curtir ou compartilhar, as mensagens que são trocadas quando alguém se sente particularmente tocado por um conteúdo também são importantes no estabelecimento desta dinâmica. Os selfies, ou fotos de situações da vida cotidiana, postados recebem mensagens de incentivo ou expressão de afeto que variam de uma sonora risada em internetês (“hahahaha!” ou “kakakakaka|, carinhas sorridentes ou que distribuem beijos ou piscadelas, coraçõezinhos rubros) são um recurso bastante difundido, mas também comentários como “Linda!!!”, “Own!!”, “Adorei!”, “Que gato!” etc. etc. A própria plataforma oferece um recurso inestimável na manifestação de afetos: o lembrete do dia do aniversário de pessoas de sua rede de contatos, amigos. Há sempre ocasião para mensagens inspiradas, poéticas e respostas comovidas.
A intensidade dos afetos em rede é demonstrada sobretudo por ocasião da morte de celebridades, o que sempre envolve demonstrações emocionadas de admiradores, gente que se mostra “arrasada” diante do que consideram uma perda irreparável. “Choro desde ontem pela morte desse gênio que foi Rob Williams”, “tanta gente ruim continua vivo, por que Ariano Suassuna tinha de morrer?” A compartilha desses sentimentos é algo fundamental à manutenção, intensificação, estreitamento dos laços da rede. E, evidentemente, são passíveis de se tornar uma peça de negociação política e social. A prematura morte de Eduardo Campos constituiu-se em evento de delicada negociação de afetos no Facebook. Laços reforçaram-se, romperam-se ou se esgarçaram a partir da sensibilidade demonstrada por cada um em relação ao trágico evento: aqueles que se mostraram insensíveis à morte do candidato à presidência da República suscitaram a revolta daqueles para quem a oposição política não deveria ir tão longe. Estes, por seu turno, foram acusados pelos primeiros de postura política inconsistente, quando era o caso de serem seus adversários políticos, ou de acomodação. Rupturas de laços ocorreram, independente de afinidades políticas recentes, com base em uma impossibilidade de compartilha de um mesmo pathos.
Esse tipo de comoção que se encadeia como um rastilho pelas redes sociais do Facebook traz para o site importantes subsídios para conhecer seus usuários e a maneira como eles se ligam uns aos outros através das trocas emotivas. O contágio de emoções entre os usuários do serviço foi o tema de uma polêmica pesquisa recentemente publicada. A polêmica se deu a partir da falta de esclarecimento aos participantes da pesquisa quanto à participação deles no experimento, que consistiu basicamente na manipulação, durante uma semana, dos algorítimos que definem os conteúdos que aparecem no “feed” de notícias de cada um dos 700 mil usuários que integraram a pesquisa sem, no entanto, terem sido comunicados de que participariam. A manipulação do algoritmo se deu com base no teor positivo ou negativo das emoções associadas aos conteúdos publicados nos “feeds”, de modo que, durante a semana do experimento, metade deles recebeu apenas publicações que envolvem emoções “negativas” e a outra metade teve acesso exclusivamente ao que aparece vinculado a emoções “positivas”. Ao fim do experimento, constatou-se, entre os usuários pesquisados uma tendência à publicação e ao compartilhamento de conteúdos que vinculam emoções condizentes com aquelas às quais eles tiveram acesso. Segundo os autores, os resultados do experimento demonstram que “as emoções expressas pelos outros no Facebook influenciam nossas próprias emoções”. Eles consideram ter encontrado evidências de que essas influências emocionais processam por “contágio em larga escala via redes sociais." (Kramer et alii, 2014, p. 8789).
Considerando o forte potencial de mobilização social que se dá através dos contágios emocionais nessas redes sócio-técnicas, esperamos que esse texto se mostre contagiante e seja amplamente comentado, compartilhado e curtido. J

Nota: Todas as citações de frases encontradas nos sites de redes sociais não são literais, mas sim aproximações do que tem sido publicado nesses sites.

Referências bibliográficas
CASILLI, Antonio A. Les liasons numériques: vers une nouvelle sociabilité? Paris: Éditions Du Seuil, 2010.
CASTELLS, Manuel. Redes de Indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
DOBWOR, Monika; José SZWAKO.“Respeitável público... Performance e organização dos movimentos antes dos protestos de 2013”. Novos Cadernos CEBRAP, 2013 no. 97, novembro: 43-55.
FERREIRA, Jonatas e Breno FONTES. ­“Ágora Eletrônica: algumas reflexões teórico-metodológicas”. Estudos de Sociologia, Vol. 14, no. 2. 2014. No prelo.
GRANOVETTER, Mark S. “The strengh of weak ties”. American Journal of Sociology, 78 (6), 1973, pp. 1360-1380.
KRAMER, Adam T. I., GILLORY, Jamie E., HANCOCK, Jeffrey T. “Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks”. PNAS, Vol. 111 (29), 2014, pp. 8788-8790.
LASH, Scott. “Technological forms of life”. Theory, Culture and Society. Vol. 18 (1), 2001.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA, Bauru: EDUSC, 2012.
LECOMTE, Romain. 2013. “Expression politique et activisme en ligne en contexte autoritaire”. Réseaux, 5, no. 181: 51-86.
MALINI, Fábio & ANTOUN, Henrique. A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Porto Alegre: Sulina, 2013.
SIMMEL, Georg. “Sociabilidade, um exemplo de sociologia pura ou formal”, in: MORAES FILHO, Evaristo. (Org.). Georg Simmel: sociologia. São Paulo, Ed. Ática, 1983.
SINGER, André. 2013. “Brasil, junho de 2013. Classes e ideologias cruzadas”. Novos Estudos CEBRAP, novembro: 23-40.




[1] Professor associado da UFPE.
[2] Doutora em Sociologia pela UFMG, professora do IEC-Puc Minas.
[6] Estas informnações estão disponíveis em http://tecnologia.uol.com.br/noticias/afp/2014/02/03/facebook-em-numeros.htm. Acesso em 27/08/2014.
[7] Sugestão falaciosa, como o podem comprovar alguns escândalos de proporções nacionais e que teriam como base conteúdos destinados a amigos da rede, ou seja, o caráter público da rede é algo que é cotidianamente negligenciado.
[8] Sobre as noções de força e de fraqueza dos laços em redes socias, ver o já clássico texto de Granovetter (1973).
[9] Aqui é necessário que se diga que não pretendemos reduzir a dinâmica social no âmbito do Facebook ao que a sua arquitetura estimula – não se trata de um argumento behaviorista. Trata-se de entender quais são os pressupostos técnicos dessa arquitetura, considerando que algo como um “comportamento” neste espaço não nos interessa pelo simples motivo que não podemos abstrair as qualidades reflexivas, humanas que, evidentemente, impedem que “estimulo” corresponda a “comportamento”. Por isso mesmo, o que aqui está envolvido são ações de reconhecimento do outro e de si mesmo naquilo que é expresso ao outro, ações de atribuição e de busca de prestígio pelo que se julga serem boas ideias, emoções virtuosas. Este mútuo reconhecimento, fundado na emoção, como tivemos oportunidade de propor acima, pode ser entendido como uma moeda de troca.
[10] http://youpix.virgula.uol.com.br/redes-sociais-2/nao-curtir-coisas-facebook-pode-ser-melhor-coisa-que-voce-vai-fazer-na-vida/

domingo, 7 de julho de 2013

Ágora Eletrônica e Renovação Política (1.0)



 Jonatas Ferreira e Breno Fontes

No dia 20 de junho, estávamos lá, no centro do Rio de Janeiro, Esplanada dos Ministérios, na Conde da Boa Vista, Avenida Paulista, e num grande número de artérias vitais dos grandes centros urbanos do Brasil, confrontando o que surgia nas ruas com o que noticiavam as grandes emissoras de TV. Para quem não estava de alguma forma conectado ou conectada às mídias sociais que povoam a Internet, as manifestações pareceram como um raio em céu azul. Em alguma medida, todos compartilhamos certa perplexidade, todavia. Os governos federal, estadual e municipal, 60% dos domicílios que não têm acesso à Internet, ou os 45% dos indivíduos que nunca acessaram a Internet em suas vidas (ver http://www.cetic.br/usuarios/tic/2012/), e mesmo aqueles que foram às ruas, sensíveis portanto a esse tipo de mídia, não tinham uma ideia muito exata do impacto que a mobilização até então predominantemente virtual poderia ter na vida social e política dessas grandes cidades e do país. Atônitos também estavam e estão as grandes emissoras de TV brasileiras: um famoso âncora de telejornalismo chegou a condenar o que se convencionou chamar de 'vandalismo', mais especificamente, a depredação e queima de um carro da TV Record: era preciso que os manifestantes soubessem que as emissoras de TV têm um papel fundamental na divulgação desses protestos. É verdade. De um modo bastante contundente, era isso mesmo que estava em questão, ou seja, uma forma alternativa de encontrar informação, de tornar visíveis pautas políticas, de mobilizar. Nesse contexto, o que se convencionou chamar 'vandalismo', por mais que o temamos, ainda merece uma explicação. O que significa? Como se tornou possível?
Na Conde da Boa Vista, por outro lado, o ambiente era de uma alegria cívica e tranquilidade comoventes. Os cartazes produzidos pelos manifestantes, em sua pluralidade, no seu caráter francamente artesanal, deram o tom desse clima que um militante carrancudo avaliou alguns dias depois como sendo carnavalesco – muito embora tenhamos que concluir que, força libidinal, energia de vida que busca confrontar formas sociais caducas, o depoimento coletivo que vimos deve ser relacionado intimamente a esse tipo de alegria. Nosso amigo, Alex de Jesus, que também estava na manifestação ocorrida no Recife, cede-nos um vídeo que fez. Registrou a própria participação na passeata, como vimos muita gente fazer – gente que quer se escutada e vista e que parece ter encontrado uma forma de conseguir as duas coisas. No vídeo, podemos ler alguns desses cartazes que transcrevemos: “Verás que um filho teu não foge à luta”, “Desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil!”, “Foda-se a Copa!”, “Saúde, Educação e Respeito”, “Winter is coming”, “Japão, trocamos nossa seleção por sua educação”, “Amor não tem cura”, “Não à PEC-37”, “Saúde padrão FIFA”, “Vem, vamos embora que esperar não é saber”, “E hoje mainha me bota pra dormir de couro quente”, “Dilma, me chama de copa e investe em mim”, “Tem tanta coisa errada no Brasil, que não cabe em um cartaz”, “Armaria! PEC 37, nann”, “Impunidade? Diga não”, “Dez centavos não compra nem um “Dudu””, “Ei, Dudu, pega os dez centavos e enfia lá no SUS”, “#vemprarua”, “São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade”, “Um passo à frente e você já não está no mesmo lugar”, “A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar”, “Governador, quer ser presidente? Cuida primeiro da gente”, “Quantas escolas cabem em um estádio?”, “De burro, eu só tenho a chibata”, “Abaixo o ato médico”, “Brasil, 500 anos de desigualdade!”, “Homofobia tem cura”, “O gigante acordou”, “Renan Calheiros, não esquecemos de você”.
O que aconteceu, bem sabemos, é um fenômeno relativamente novo, inédito no Brasil. Novo, primeiro, com respeito à sua forma de mobilização: o ativismo das ruas sendo convocado pelas mídias sociais (Facebook, Twitter, entre outras). Esse tipo de evento político, todavia, e os fatos que dele decorrem, vêm se repetindo no mundo - a exemplo das manifestações da primavera árabe, nos países do Noroeste da África; dos protestos em Portugal (“movimento geração à rasca”); na Espanha (“indignados”); nos Estados Unidos (“ocupe a Wall Street”). Em todos esses contextos é possível perceber a perplexidade dos analistas. A dita sociedade da informação estaria produzindo um tipo novo de ativismo, buscando estabelecer uma relação politicamente virtuosa entre virtual e atual? O que esperar dessas grandes mobilizações populares? É possível que este fenômeno se transforme em uma agenda política que possamos traduzir em categorias a partir das quais tradicionamente pensamos o político? Pensar em uma ágora eletrônica implica em ressignificar o conteúdo das nossas instituições, em especial aquelas que operam o modelo de democracia reperesentativa? Como transformar a articulação de demandas tão plurais em uma agenda política também articulada e factivel?
De fato, as novas tecnologias de informação e comunicação constituem-se tecnicamente a partir de uma potência de horizontalidade na interação entre os indivíduos até então desconhecida. A Internet está para as organizações sociais em rede, assim como a televisão e o rádio corresponderam tecnicamente ao modelo político do fordismo, no qual predominava recepção em massa e emissão centralizada. Se, no contexto das novas tecnologias de informação e comunicação, afirmamos que a relação entre emissão e recepção é bem mais simétrica do que o foram as mídias típicas do fordismo, de modo algum afirmamos que essa simetria seja perfeita, e que portanto a topografia que caracteriza o ciberespaço seja pefeitamente plana. A arquitetura da rede, contrariamente ao que inicialmente se pensava, não se estrutura a partir da possibilidade de acesso aleatório aos nós. Todos não são iguais, o ditado “os ricos ficam sempre mais ricos” reflete o fato de que, neste labirinto de conexões, é possível encontrar Hubs, atores centrais, que controlam e organizam o fluxo de informações. Não de uma forma tão centralizada quanto as antigas mídias, mas de forma alguma reproduzindo a utopia de perfeita simetria ou horizontalidade entre os participantes. Fato também que merece destaque é o fenômeno da exclusão digital – ou do autoritarismo digital, como preferem Ferreira, Pinto e Motta (ver, por exemplo, “Resistindo ao Niilismo pelas Novas Tecnologias: experiências de mídias livres”. In Marcos Costa Lima; Thales Novaes de Andrade. (Org.) Desafios da Inclusão Digital: teoria, educação e políticas públicas. São Paulo: Hucitec Editora, 2012). A internet também não espalha seus benefícios entre todos. Idade, classe social, gênero, etnia, divisões importantes nas sociedades contemporâneas, reproduzem-se no mundo virtual. Isso significa que também temos que ser cautelosos em relação à potência reformadora de uma ágora virtual: democracia não é uma mera conquista técnica, mas um chamado político.
Porém, o mais importante neste labirinto virtual são os que chamamos de mídias sociais, espaços cibernéticos onde é possível a interação social direta. Nos diversos fóruns onde a interação é praticada (Facebook, Twitter, blogs, entre outros) são reproduzidos igualmente laços, fortes e fracos, permitindo, com uma potência nunca vista, espelhar, mas também por em xeque, as sociabilidades cotidianas. Esta capacidade de a rede ampliar processos comunicativos implica consequências até hoje não totalmente compreendidas. Como sempre, qualquer tipo de inovação técnica e politica, sejamos claros, não ocorre num vazio político e a síntese que podemos obter entre forças de conservação e forças de transformação é sempre imprevisível.
Do ponto de vista ainda técnico, parece-nos equivocado pensar as dinâmicas sociais associadas às novas tecnologias de informação e comunicação como ocorrendo de forma completamente desterritorializadas – Nicholas Negroponte ajudou a disseminar este mito em seu hoje quase esquecido Being Digital. As mídias sociais ancoradas na Internet, embora apresentem também elementos desterritorializadores, alimentam-se de redes territorializadas. Isso significa que atender ou propor uma convocação é algo que ocorre normalmente em grupos que se apoiam em comunicações face a face. A teoria das redes aqui nos auxilia a entender que a mobilização das manifestações que começaram em junho de 2013 não ocorrem num vazio territorial, nem ocorrem a partir da articulação de indivíduos atomizados e conectados em igualdade política pela rede. Sem por em questão a especificidade dos eventos nos quais estamos envolvidos, este é um fato relativamente conhecido, registrado em outras ocasiões pelos teóricos das redes. A march of Dimes, uma grande mobilização popular que aconteceu nos Estados Unidos na década de 1950, é um exemplo conveniente. O objetivo era arrecadar dinheiro para financiar a pesquisa de uma vacina contra a poliomielite. E o momento de ápice aconteceu quando uma multidão de pessoas, vindas de todas as partes da América do Norte, se reuniu em Washington. Parte importante da campanha foi veiculada por rádio, respeitável veículo na época. Mas as pessoas se organizavam a partir de suas redes ancoradas territorialmente: amigos do bairro, membros de congregação religiosa, entre outros ingredientes de sua trama reticular. Era, então, possível, vislumbrar naquela multidão de pessoas, pequenos aglomerados de conhecidos, compartilhando aquele momento de suas biografias. Da mesma forma, os que foram à Avenida Paulista, Avenida Getúlio Vargas ou Avenida Conde da Boa Vista, em sua maior parte, não estavam sozinhos, mas sim em grupos, que fazem parte da trama reticular cotidiana.
Mesmo para quem participou de mobilizações como as “Diretas Já”, “Fora Collor”, entre tantas outras, impressiona a esmagadora maioria de pessoas com menos de 20 anos de idade que tem levado adiante essas marchas de agenda tão ampla. É de se supor que essa maioria seja também preponderante nas mídias sociais com base na Internet a partir das quais foram articuladas essa infinidade de manifestações enfeixadas nos espaços metropolitanos de todo o país. Nas ruas impressiona, portanto, a pluralidade de bandeiras que se articulavam num sentimento amplo de insatisfação. Basta que nos déssemos ao trabalho de arrolar, numa pesquisa mais exaustiva, as bandeiras levantadas nas ruas nos últimos trinta dias. Falou-se muito acerca de uma forma descentrada de agir politicamente. E as perguntas a que essa constatação deram ensejo não tardaram: como responder a essas inquietações, supondo que haja vontade ou competência institucional estabelecida para fazê-lo? A quem responder? Com quem negociar e exatamente o quê? Por mais que se negue esse fato, aprendemos a pensar política ainda a partir de um modelo em que a questão da soberania é central. “Soberano é aquele que decide entre quem é amigo e quem é inimigo”, ou seja, aquele, ou aquela instituição, ou conjunto de interesses, capaz ou capazes de estabelecer um espaço de pertencimento, de identidade, e contrapô-lo aos interesses daqueles que são considerados outros. Ora, esse tipo de pensar político é fundamentalmente conservador, todos sabemos. Parece inevitável traçar entre esse tipo de formulação política e a estruturação de agendas prioritárias no âmbito dos partidos políticos, ou seja, no contexto em que se decide entre questões ditas fundamentais e questões ditas secundárias, um elo claro. Em sua versão mais crua, cínica, esse tipo de compreensão converte-se facilmente em uma pragmática de como se manter no poder. E esse 'pragmatismo' se torna um elemento político ainda mais preocupante quando constatamos o afastamento hitórico de nossas instituições politicas do cidadão comum. Sintomático desse afastamento talvez seja o tom desesperado mediante o qual um Senador da República, Cristovam Buarque, cuja seriedade não temos razão para contestar, defendeu a dissolução dos partidos políticos e da convocação de uma Assembleia Constituinte para decidir que tipo de modelo político substituiria o tipo de representação que temos diante de nós. A perplexidade não pode ir muito mais longe. Mas devemos lembrar, com preocupação e a propósito, o fato de a hostilização aos partidos ter encontrado espaço nas ruas.
Se é possível entender que a forma como as instituições políticas tem se organizado guarda uma íntima relação com as questões relativas à identidade, ao estabelecimento de agendas prioritárias, de táticas e estratégias que levariam à sua efetivação, e os partidos políticos como materialização disso tudo, o que as ruas trouxeram não pode trazer outra sensação senão o estupor. Como agendas tão distintas podem se tornar objeto de negociação política? Ora, essa pluralidade sempre foi imaginada como fragmentação, como impotência política estimulada por aqueles que desejam governar - e aí vale o clássico ditado latino, divide et impera. No entanto, é inegável que a articulação de uma agenda tão diversa  configurou um acontecimento político de vulto e com algumas vitórias expressivas: a PEC 37, afinal, foi engavetada; o deputado João Campos, a pedido de seu partido, retirou o projeto que autorizava tratamentos psicológicos da homossexualidade – que tornou tristemente célebre o pastor e deputado Marcos Feliciano; fala-se na divisão dos royalties do petróleo entre as áreas de educação e saúde; fala-se, por vezes com incorrigível oportunismo, acerca do que todos sabiam há muito, a necessidade de reforma no modelo político.
Se a articulação de agendas tão distintas, quanto aquelas que se enfeixaram nas manifestações a que assistimos, podem se converter num evento político de consequências imediatas tão evidentes, é necessário que compreendamos um pouco da lógica das redes sociais, e sua dinâmica comunicativa potencializada pelas mídias veiculadas na internet. É necessário que compreendamos outras experiência semelhantes de mobilização política e do que podemos aprender com elas – com sua dinâmica que combina elementos desterritorializadores e territorializadores, uma forma nova de articular laços fracos e fortes etc. Há algum tempo, Ernesto Laclau e Chantal Mouffe vêm insistindo no que chamam de “democracia radical”, ou seja, a compreensão do conflito como elemento fundamental nos processos democráticos, o entendimento de que o exercício da política pressupõe sempre encarar a questão da hegemonia, de como ela é obtida e como pode ser questionada. Reapropriação da teoria da soberania tal qual ela aparece na obra de Gramsci, esse último pressuposto significa que grupos de interesses diversos podem se reunir em torno de agendas que os beneficiem e representem na busca por influência e pressão política em áreas específicas. De acordo com tal reflexão, há, na luta por hegemonia, um grande espaço para táticas mais contingentes. Trata-se de uma concepção não essencialista do político em que a práxis concebida neste nível desempenha um papel fundamental. É possível, segundo pensamos, tirar aqui algumas lições que lacem alguma luz sobre o que ocorre hoje no Brasil, exemplo de articulação de interesses políticos tão diversos quantos oposição ao ato médico, condenação da homofobia, defesa da probidade na administração pública, melhoria da mobilidade urbana etc. O que impressiona exatamente tem sido o fato de as mídias sociais terem conseguido promover uma articulação de agendas que só podem estar num mesmo campo de luta se tivermos em mente ideias suficientemente amplas para expressar a insatisfação diante de algo que chamaríamos de arrogância e de viés autoritário que ainda definem o exercício da política em nosso país. Em que medida essas agendas continuarão a se articular no médio e longo prazos no contexto de uma luta contra-hegemônica é algo que não podemos avaliar ainda. Mas chama a atenção o fato de vários segmentos da população brasileira terem encontrado um espaço para exercer seu descontentamento, para condenar a distância histórica que separa a política profissional no Brasil de um sentido público, para questionar a dificuldade que os governantes tem tido em dar respostas ao clamor por uma vida mais justa. Essa dificuldade é técnica, política, cívica e moral.
Talvez não seja demais ilustrar com um exemplo o que afirmamos. Ora, diante de todo o clamor que se produziu nas ruas em defesa da probidade administrativa, o que dizer da insensibilidade do presidente da Câmara e do Senado nacionais de, em meio às mobilizações de junho, utilizarem aviões da FAB para atender a seus interesses particulares? O mea culpa do primeiro, Henrique Eduardo Alves, é risível. Retorna aos cofres públicos menos de R$ 10 mil dos R$ 150 mil que teria de pagar, caso fretasse um avião comercial para passar um final de semana com sua família no Rio de Janeiro e assistir ao final da Copa das Confederações. Quanto ao Presidente do Senado, responde-nos que não há ilegalidade no seu ato e que, por isso, nada restituiria. Pode até não ser ilegal, não conhecemos as tecnicalidades jurídicas envolvidas aqui, mas cassar parlamentar depois do AI-5 também não o era. Ambos os atos, porém, são rigorosamente ilegítimos e a sem-cerimônia com a qual Renan Calheiros lança mão do dinheiro do povo brasileiro é uma bofetada nos milhões que saíram às ruas por uma vida mais digna, por um tratamento mais respeitoso por parte daqueles que, hoje, ainda, decidem os destinos do país.

Em tempo: Renan Calheiros, segundo as últimas informações, voltou atrás em sua decisão. Vai pagar R$ 32 mil à Viúva. Caso vocês não saibam de quem se trata, Renan Calheiros é aquele que propôs tornar corrupção crime hediondo.

Em tempo dois: e tem também o Garibaldi Alves, rapaz...


[Nosso muito obrigado a Alex de Jesus, pela gentileza de nos conceder acesso ao registro que fez das manifestações; a Estefânia Gomes, Antônio Neto e a Artur Perrusi, amigos queridos, pelos comentários e por nos incentivarem a postar o texto - que consideramos apenas um esboço para discussão mais ampla].