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quarta-feira, 24 de março de 2010

O Romantismo e as Ciências Sociais 4


Caspar David Friedrich; On a Sailing Ship (ca. 1819)

Jonatas Ferreira

Desde O Conceito de Crítica no Romantismo Alemão, publicado por Walter Benjamin em 1920, a filosofia fichteana tem sido considerada um caminho inevitável entre Kant e os primeiros românticos na Alemanha. Johann Gottlieb Fichte é o filho ilegítimo da filosofia crítica - nas páginas introdutórias de Ciência do Conhecimento somos informados que o próprio Kant rejeitava essa influência e parentesco. Poucos, todavia, negariam que Fichte tanha trabalhado, não importa quão subversivamente, sobre uma arquitetura que era kantiana. Recorro nos próximos dois parágrafos a um pequeno texto que já havia publicado no Cazzo sobre o assunto – já ali eu falava de minha má-vontade em resumir o argumento de Ciência do Conhecimento. Modificarei aquele texto apenas cosmeticamente.


domingo, 21 de março de 2010

O Romantismo e as Ciências Sociais 3


Caspar David Friedrich; Die Winterreise (ca. 1827)

Jonatas Ferreira
“...Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido”.
(Rilke, Elegias de Duíno
“Primeira elegia; tradução: Dora Ferreira da Silva)

“Como é diferente se abandonamos a possibilidade de explicar a natureza e tomamos essa impossibilidade de compreeneder como um princípio de julgamento”.
(Schiller, On the Sublime)

Sempre gostei muitíssimo das Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke, sobretudo a Primeira Elegia, de onde tomei emprestada uma das epígrafes ao presente texto. “Todo anjo é terrível” é um aparente paradoxo e, ao mesmo tempo, algo maravilhosamente dramático de ser dito. Para quem anjos são terríveis senão para aquele que constata seu desamparo diante de um mundo excessivamente definido, uma realidade excessivamente racionalizada? Para ele, ou para ela, também o belo é agora terrível, pois desconfia que este seja um sentimento de certo modo impossível – como os anjos de Rilke que trafegam entre nós sem distinguir muito bem entre vivos e mortos, o belo já não nos é plenamente visível. Na obra kantiana, na Crítica do Julgamento, mais precisamente, uma constatação muito próxima àquela que nos oferece Rilke é apresentada na passagem da Analítica do Belo para a Analítica do Sublime. Falemos um pouco sobre essa obra e permitam-me um pequeno e, espero, útil excurso em minha exposição.


sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O Proto-romantismo e a Hermenêutica (parte 1)


"Porta do Inverno", de Caspar David Friedrich.


Essa estória de estabelecer a relação entre o Romantismo e uma tradição das ciências sociais voltada sobretudo para a interpretação fez-me lembrar dos idos anos de meu doutorado. Fiz uma tese teórica em que explorava várias idéias de subjetividade no discurso moderno. Pois então: acho que não há uma idéia de subjetividade na modernidade, mas várias, e o trabalho que propus queria de algum modo mapear algumas delas no contexto do kantismo alemão, algo que, grosso modo, iria de Fichte a Carl Schmitt.

Na tese não trato exatamente do Romantismo, mas daquilo que chamo de Proto-romantismo, algo que reuniria nomes como Fichte, Schiller, Novalis, Friedrich Schlegel e Schleiermacher. A estória toda tem interesse por se tratar de uma linha de romantização do pensamento alemão que passa ao largo de Rousseau, e do Sturm und Drang, e bebe diretamente em Kant. Ora, no post anterior havíamos falado que o Romantismo tinha sido, ao menos nominalmente, anti-iluminista... O que fazem estes românticos de primeira geração escutando muito atentamente as loas do filósofo de Könisberg? Acho curioso também que nosso causo termine exatamente em Schleiermacher, pai da hermenêutica científica.

O ponto inicial do trajeto, então, é Fichte, o filho bastardo do kantismo. Fichte reconhecia e divulgava a influência de Kant no seu pensamento; o velho filósofo, por seu lado, dizia que era celibatário e que se alguma vez fecundara inadvertidamente alguém, com certeza não reconhecia no outro sua linhagem crítica. A questão central do dramalhão mexicano ('quem é o verdadeiro pai de Olavo?') é que para Kant a idéia de subjetividade deveria permanecer para sempre testemunho de uma aporia, de uma tensão entre o sujeito pensante e o sujeito pensado. Sempre que procuro transformar a mim próprio em objeto de minha reflexão percebo algo como uma esquizofrenia insuperável: o eu que pensa jamais pode ser totalmente objetificado. Somos seres finitos, não podemos nos conhecer de modo absoluto. Kant é o pai do liberalismo moral; para ele não haveria como conciliar politicamente pretensões de conhecimento absoluto às tarefas intermináveis de uma ética finita (e liberal). De um certo modo, podemos dizer que se um indivíduo se conhecesse absolutamente ele não seria livre. Ou seja, o liberalismo kantiano não poderia operar, por exemplo, com algo como a realização do espírito absoluto na terra. Gosto de pensar que Kant foi o primeiro filósofo a intuir que a tarefa de humanização é necessariamente aberta e inesgotável

Ora, é desse ponto específico que Fichte pretende dar sua contribuição. Há uma literatura vasta a respeito das reflexões epistemológicas que marcam sua obra. Mencionamos, por exemplo, no post anterior um texto muito bom de Gerd Bornheim publicado no livro O Romantismo, organizado por J. Guinsburg. Não recapitularei o argumento, pois é muito enfadonho – no entanto, quem quiser entender a genealogia da idéia de dialética em Hegel terá de passar pela Ciência do Conhecimento, de Johan G. Fichte. Interessa apenas que ele tenha pretendido fechar os hiatos que Kant deixara propositalmente abertos entre um sujeito que cogita e sua subjetividade cogitada. Propõe, assim, um fundamento absoluto para a subjetividade. Contra a idéia de que a consciência não pode se apresentar plenamente a si própria, ele argumenta ser a consciência um ato. O fundamento da subjetividade é algo prático, ativo, e não algo passivo. A essência da subjetividade, para usarmos um jargão kantiano, subvertendo-o, é algo da ordem da razão (prático, produtivo, ativo) e não algo que possa ser apreendido pelo entendimento (se este for concebido como uma forma passiva de receber o mundo). A subjetividade é compreensível como uma ação: a própria busca de si, neste sentido, é o fundamento metafísico de toda subjetividade.

Complicadinho não é? Leiam Bornheim. Disto tudo, porém, quero apenas preservar essa idéia que vai ser tão importante no proto-romantismo que é o fato de a subjetividade ser uma produção, um deslocamento, e não algo estático e disponível, como um objeto a ser consumido. Não é fortuito, portanto, que Novalis, alguns anos depois venha a afirmar: “O ato de transcender a si próprio é o mais elevado em todos os aspectos – o ponto de origem – a gênese da vida”. (Novalis, Philosophical Writings, 1997, p. 64)

E agora eu vou cuidar de outra coisa. Na próxima semana falarei de Schiller, Novalis, Friedrich Schlegel e Schleiermacher, ou seja, a constituição de um projeto poético-filosófico que irá desembocar na hermenêutica moderna. Bom final de seman, ao eventual leitor ou leitora.

Ainda por editar.
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Jonatas Ferreira