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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

MARTINS, Hermínio. Experimentum humanum: civilização tecnológica e condição humana (Belo Horizonte: Fino Traço, 2012, 454 p.)



Micheline Batista, Artur Perrusi e Jonatas Ferreira

A Fino Traço, em 2012, preencheu uma lacuna editorial existente nas ciências sociais no Brasil, ao publicar essa coletânea de ensaios de Hermínio Martins dedicados à ciência e à tecnologia. Celebrado entre aqueles que se dedicam à sociologia e filosofia da tecnologia, Martins, Emeritus Fellow do St. Anthony College e pesquisador honorário do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, tem sua obra voltada à sociologia da técnica finalmente publicada deste lado do Atlântico. Formado na London School of Economics (LSE), ele foi professor nas universidades de Leeds, Essex, Oxford e professor visitante nas universidades de Harvard e Pensilvânia. Na LSE, foi aluno de Karl Popper e orientando de Ernest Gellner. O Experimetum Humanum traz ao leitor textos escritos e publicados em livros e revistas acadêmicas de Portugal e do Brasil e, em todos eles, a marca da enorme erudição de seu autor, seu trânsito fácil pela economia, sociologia, filosofia. Neste livro, Martins produz uma crítica cáustica ao otimismo tecnológico, essa espécie de reconfiguração da ideologia do progresso, inscrevendo-se numa tradição crítica na qual figurariam Herbert Marcuse, Ivan Illich, Jacques Ellul, Hans Jonas, entre outros. Sua erudição impressiona e amedronta quem pretenda resenhá-lo. Um dos méritos de sua exposição, todavia, é uma estratégia que, em muitos sentidos, lembra a modéstia de um pintor impressionista. A analogia aqui, se ela é pertinente, diz menos sobre a capacidade de produzir ensaios a partir de pinceladas ligeiras, o desejo de captar o instante, que de certa resistência em impor ao leitor um argumento rígido que o prive de suas próprias conclusões. Ao invés disso, solicita que sigamos sua erudição enciclopédica para, ao fim desse esforço, perceber a riqueza de conclusões que sugere sua argumentação. Neste sentido, esta resenha, ao reforçar algumas poucas linhas gerais de algo muito mais rico, presta desserviço à riqueza de sugestões às quais o leitor cuidadoso terá acesso.

I
Dividido em três partes, Experimentum Humanum expõe, na primeira delas (“Pensar a Técnica: Questões Preliminares”), a ideia de que os artefatos técnicos representam extensões do corpo humano. Porém, Martins não bate à porta de McLuhan para desenvolver sua reflexão, e sim à de Ernest Kapp, que, em 1877, teria sido o primeiro a apresentar essa perspectiva de forma sistemática, dando origem a uma teoria antropológica da tecnologia, cujo cerne é a ideia de “projeção orgânica” (Organprojektion). Para Kapp, as ferramentas primitivas devem ser vistas como projeções de partes do corpo humano, principalmente da mão (tigelas, ganchos, martelos), enquanto outras teriam sido criadas a partir das nossas estruturas internas, como as ferrovias (aparelho respiratório) e os cabos do telégrafo (sistema nervoso). Para um hegeliano de esquerda – daí o primeiro capítulo se intitular “Hegel, Texas: temas de filosofia e sociologia da técnica” –, refletir sobre esses artefatos constitui um caminho de autoconhecimento humano. Segundo Kapp, o avanço da tecnologia elevaria eventualmente o homem pré-tecnológico, radicalmente desprovido de autoconhecimento e de autoconsciência (homo absconditus) à condição de homo manifestus (a tecnologia como força exclusivamente desalienante). O “somatismo tecnológico” de Kapp, que aliás peca por seu antropocentrismo, acaba sendo sobrepujado por teorias que enfatizam um “gnosticismo tecnológico”, praticamente seu oposto, ou seja, por esse desejo milenar de conhecimento da essência das coisas e, ao mesmo tempo, por um desprezo do mundo material. O termo, cunhado por Victor Ferkiss, diz respeito a uma série de projetos tecnológicos que abrigam a pretensão gnóstica de transcendência da condição humana (sua finitude, contingência, mortalidade etc.), e não simplesmente melhorar e habilitar os seres humanos a superarem as forças naturais hostis – como se poderia depreender das especulações de Kapp. Aqui, encontraríamos a pretensão de legitimidade da tecnociência contemporânea. A intervenção direta em genomas substituiria, por exemplo, a lenta evolução biológica. No campo da inteligência artificial, considera-se a possibilidade de substituir, dentro dos próximos 40 anos, o cérebro humano (flashware) por software, isto é, o cogito por um computo (p. 19). Mas aqui não se trata meramente de uma análise do discurso científico, mas também a observação do papel fundamental que o gnosticismo teria desempenhado para o crescimento da ciência moderna, através da alquimia, da astrologia ou astrobiologia, do hermetismo e dos ensinamentos cabalísticos.
Neste contexto cultural amplo, Hermínio Martins atém-se a uma análise das tecnologias reprodutivas, da biotecnologia e do modelo computacional da mente, que são algumas das aplicações da tecnociência no mundo contemporâneo. O desenvolvimento das tecnologias reprodutivas, tão festejadas por feministas como Donna Haraway, tem suscitado uma “perplexidade moral” e originado “respostas políticas hesitantes” no Ocidente. O crescimento de um organismo num ambiente artificial externo ao corpo aponta para a possibilidade de criar réplicas do ser humano – cópias até melhores do que o original, ou mesmo cópias sem original, de que fala Baudrillard. O avanço das tecnologias reprodutivas, em especial a clonagem, desperta o temor do surgimento de um mercado para compra e venda de partes do corpo humano para transplantes. Com isso, suscita questões éticas, morais e mesmo legais, dentro de um contexto contemporâneo de privatização, atribuição de direitos de propriedade e apologia ao consumo. No caso das mães hospedeiras, que cedem seus úteros no formato “barriga de aluguel”, há uma situação de incerteza moral. Quem é a mãe da criança – quem encomendou, quem cedeu o óvulo ou quem gerou? Mas é no contexto de uma discussão sobre o estatuto da condição humana que essas questões devem ser colocadas – e o ponto de partida de Martins não nos deixa dúvida a esse respeito. A genética molecular, por exemplo, avançou nas últimas décadas associada à teoria da informação, à cibernética e à microeletrônica, levantando questões que demandam reflexão e, possivelmente, num futuro próximo, legislação. Os seres híbridos, como os ciborgues dos filmes de ficção científica, põem em evidência o que Martins chama de “projeto fáustico”, em que o ser humano brinca de deus. Se o corpo humano está obsoleto, essa obsolescência justificaria a hibridização do natural e do artificial, do humano e do não-humano.

No segundo capítulo, desta primeira parte, “Tecnologia, modernidade e política”, o autor debruça-se sobre duas das tradições sociológicas que se referem ao “domínio da natureza” pelo ser humano: a prometeica, acentuada após a Revolução Francesa, e a fáustica, influenciada pela Escola de Frankfurt e mais fortemente pela obra de Heidegger. Martins resume a tradição prometeica como aquela que une o domínio da natureza à emancipação do ser humano. Já a tradição fáustica pretenderia “desmascarar” os argumentos prometeicos, não enxergando objetivo na técnica além de sua própria expressão. Percebamos, nos dois casos, entretanto, que nos encontramos também no terreno de uma discussão sobre os mitos que organizam o pensamento moderno.

Forjada na primeira metade do século XIX, a visão prometeica, como esclarece Martins, nem sempre esteve comprometida com a ideia de um progresso material ilimitado. Evidentemente, a “infinitização” do prometeísmo é o que mais nos chama a atenção, seja no marxismo russo, com sua apoteose a um progresso técnico inevitável, seja em doutrinas como a da Tarefa Comum, de Fedorov, onde a ciência e a tecnologia significam a salvação da espécie e mesmo a ressurreição dos mortos. Uma inspiração para Mary Shelley e seu Frankenstein. Por outro lado, não foram poucas as versões “finitas” do projeto prometeico, como, por exemplo, em Comte, autor da fórmula “saber para prever, prever para poder”. Comte não acreditava em revoluções técnicas contínuas e enxergava um mundo pós-industrial “positivo”. O mais importante numa sociedade deste tipo seria o amor altruísta – por isso, argumenta Martins, Comte pode ser visto como o fundador do Positivismo anti-tecnocrático, por mais paradoxal isso possa parecer (p. 48). Outros pensadores prometeicos enalteciam valores semelhantes, como a justiça e a liberdade.

Movendo-se da tradição prometeica à fáustica, Martins aponta Spengler com sendo aquele que forneceu a primeira formulação geral de uma visão fáustica. Em A decadência do Ocidente o autor oferece um diagnóstico como um prognóstico para o mundo em crise (p. 49). O primeiro volume, de 1918, coincide com o colapso militar e industrial da Alemanha, de modo que a formulação de Spengler acabaria se tornando hegemônica nos tempos da República de Weimar e do Terceiro Reich. Assim como também foi significativa a receptividade a outros visionários, como Ernst Jünger, que postulava a guerra enquanto cumprimento da vocação técnica. Tanto Spengler quanto Jünger influenciam o pensamento de Heidegger, a quem se atribui uma imagem fáustica mais filosoficamente sofisticada da técnica. Heidegger concorda com Spengler na ideia de técnica como destino, ecos que podem ser encontrados também em Arendt, que advoga o papel decisivo da tecnologia nos conflitos armados do século XX.

Martins inicia o terceiro capítulo do livro, “O deus dos artefatos: o princípio de Vico e as tecnologias”, afirmando que a nossa fé na tecnologia moderna foi inspirada em promessas tal como preconizadas por Bacon e Descartes, muito mais do que pela observação de fatos empíricos. Mesmo o conceito de “sociedade científico-industrial”, enunciado em 1820 por Comte, era muito mais uma antecipação do que um retrato da época. E, assim, já nas primeiras décadas do século XIX falava-se na “conquista do espaço” e no “domínio (ou multiplicação) do tempo”. As máquinas a vapor, as ferrovias, o telégrafo elétrico, por exemplo, teriam viabilizado a conquista do espaço e do tempo, trazendo já para o fim do século XIX o sentido de simultaneidade global que a internet e a comunicação mediada por computador reiterariam e aprofundariam muitas décadas depois. Ao longo de todo esse tempo, não faltaram analogias entre as redes de comunicação e um “cérebro-mundo” (H. G. Wells), aproximando-se atualmente de um sensorium mundi cada vez mais conectado através de sensores eletrônicos ou microchips.

Martins crê na existência de algo de real e eficaz nessas utopias, seja no caso dos engenheiros saint-simonianos do século XIX, seja no partilhamento dos ideais do “Novo Comunalismo” californiano dos anos 1970, com seu repúdio às hierarquias e burocracias, exaltando o local e a criatividade individual. Esse movimento teria imprimido um sentido forte ao “pessoal” na expressão Personal Computer, não apenas por ser um artefato pequeno, de uso individual, mas principalmente por se configurar um instrumento para o empoderamento das pessoas. Reflexos neste sentido podemos observar ainda hoje no movimento pelo software livre ou através de redes como a Anonymous, de onde saiu o fundador do WikiLeaks, Julian Assange. O que essas utopias ajudam a criar é uma experiência de um sentimento de “sublime tecnológico”, misto de admiração e de temor diante da escala e potenciais destrutivos das grandes realizações técnicas. Em todo caso, parece que estamos inexoravelmente condenados ao progresso técnico – e a seus riscos e incertezas.

Um dos princípios filosóficos que têm legitimado ou mesmo definido a aventura tecnológica nos tempos modernos é o princípio ou axioma de Vico, autor de Scienza Nuova (1725): verum ipsum factum, verum factum convertuntur. Só podemos compreender aquilo que fazemos ou realizamos. Dito de outra forma, não podemos compreender as coisas naturais – e, mais profundamente, é preciso produzir a natureza para compreendê-la. No entendimento de Vico, Deus, criador de todas as coisas, é o único ser capaz de conhecer a “totalidade infinita do mundo” – um ataque direto ao cartesianismo e sua pretensão de ser o único método válido de conhecimento, desprezando, por exemplo, a história e a filologia. Como uma espécie de “segundo deus”, o ser humano seria então, para Vico, o “Deus dos artefatos”, imagem que foi reforçada no Renascimento – Deus como “criador de criadores”, que eram os artesãos, artistas e engenheiros, capazes de criar com base em materiais já existentes. Martins vai buscar em Marx, herdeiro do idealismo alemão, uma aplicação do enunciado de Vico (p. 88). Marx acreditava na “gestão racional da sociedade tecnológica” e via a tecnologia humana como algo transparente e domesticável. No futuro, isto é, no comunismo pleno, pós-histórico, se consideramos as forças produtivas (melhor dizendo, o progresso tecnológico) como o motor da história, todo o pensamento seria de essência técnica.

Para Sorel, o conhecimento científico avança com a intervenção, manipulação e fabricação das coisas e, de certo modo, provém da natureza. Na mesma linha, Bachelard defendia que é a “natureza artificial”, criada em laboratório, que explica, enriquece e transforma a “natureza natural” imperfeita, incompleta e estagnada. Natureza artificial que acaba afetando a natureza natural planetária, como é o caso dos CFCs (clorofluorcarbonos), presentes em aerossóis, geladeiras e aparelhos de ar condicionado. Para Dewey, “a ciência e a indústria são duas faces da mesma moeda”. Entre o método da ciência e o método tecnológico não existiria, portanto, uma diferença de princípio lógico, mas tão somente diferenças práticas. Para este autor, os valores cognitivos são essencialmente manipuláveis e controláveis, ao contrário dos valores contemplativos, orientados pela atitude estética. Seja em Vico, Marx, Dewey ou Bachelard, o que se afirma é o valor epistêmico do conhecimento daquele que faz o artefato, indicando que o obreiro possui e domina a obra porque é o seu autor.

No entanto, os objetos técnicos muitas vezes apresentam funcionalidades e finalidades inesperadas. A “lei de mudança de uso”, formulada em 1880 por E. von Harting e discutida por Richard von Mises, explicava que instrumentos mecânicos são aplicados para fins não antecipados, levando à criação de novos tipos de instrumentos. Na perspectiva tecnocêntrica, admite-se a possibilidade de criarmos máquinas capazes de se equiparar ou mesmo superar a inteligência humana. O homo sapientissimun e os pós-humanos continuariam o projeto do homo sapiens de “compreender e dominar o universo”, como proposto por Irving John Good. Porém, se tal máquina for mesmo capaz de conduzir a evolução do conhecimento e do poder tecnológico sem o ser humano, cairá por terra o princípio de Vico. A obra não só compreenderia como ultrapassaria o autor.

O quarto capítulo, “Tecnociência e arte”, parte da expressão e do conceito “sociedade científico-industrial”, formulados na França entre 1815 e 1820. O autor explica que esses construtos-tipo se referiam a traços societais que iriam surgir muito mais tarde, relacionados ao estágio final do desenvolvimento das sociedades humanas. De acordo com o “princípio de plenitude tecnológica”, tudo o que puder ser feito será feito, mais cedo ou mais tarde. A biotecnologia genética, por exemplo, mostra que é possível mudar e reconfigurar a vida natural. Se “a era digital não pode ser negada ou detida”, como prega Nicholas Negroponte, resta-nos descobrir se essa inevitabilidade é um aviso, uma ameaça, súplica ou promessa, ou ainda uma mistura de todas essas coisas. Mais uma vez, a identificação dos elementos religiosos contidos no discurso tecnológico é uma parte importante na argumentação do Experimentum Humanum. Assim, por exemplo, o mundo da tecnociência aparece como destino inevitável. Neste ponto, Martins retorna a aspectos já abordados em capítulos anteriores, como o saint-simonismo e a crença na inovação técnica como motor do crescimento econômico por excelência. Os saint-simonianos, além de entender a ciência como um “modo de cognição”, argumentavam que os cientistas deveriam exercer o poder espiritual na civilização contemporânea. Era o progresso científico-tecnológico servindo a fins emancipatórios – a poesia das fábricas industriais, a exaltação da eletrificação rural etc., relegando a pretensão espiritual do saint-simonismo a segundo plano. Antes da Primeira Grande Guerra, os futuristas já celebravam o ruído urbano-industrial, a velocidade dos carros de corrida e dos aviões – “o sublime tecnológico”, misto de admiração e espanto. O principal valor estético não estava na natureza, nem na obra de arte, mas no futuro em si. Um futuro dominado pela “estética das máquinas”, isto é, pela “mecanização da existência”. Sirenes no lugar de sinos de igreja, brocas em vez de pianos, metralhadoras ao invés de violinos. A exaltação ao bélico, aliás, era uma constante entre os futuristas italianos.

O filósofo da tecnologia Serge Moscovici foi quem cunhou, na década de 1960, a expressão “estado cibernético da natureza”, sucessor do industrialismo clássico. Na época, Moscovici não fazia ideia da dimensão dos processos informacional, digital e computacional que hoje controlam todos os aparelhos técnicos, da micro à grande escala, fazendo da cibernética uma espécie de metatecnologia. Tudo vira informação, inclusive a natureza e a cultura – evidentemente, não sem a ajuda da ciência militar, seja na construção da bomba de hidrogênio, seja na criação da Internet (p. 144-145). A primeira tendência da ciber-arte seria, portanto, explorar as possibilidades estéticas dos computadores e de suas ligações com outras tecnologias de imagem e reprodução de imagem. A segunda tendência seria ir além do exploratório, concebendo a ciber-arte como uma nova forma de criar o mundo, em conjunto com as artes pré-cibernéticas ou mesmo superando-as. Esta nova estética maquínica seria capaz de mudar a vida humana e de nos conduzir para além dela, marcando nossa morte ontológica, talvez até física. Neste processo de “desencarnação” é que ocorreria a conversão do flashware em software de modo único e irreversível. As provocações da chamada arte pós-humana são inquietantes. Ao invés da redenção, a superação, o que nos leva de volta a Ferkiss. Diante de um cenário tão apocalíptico, perguntamos: qual será o lugar do ser humano quando tiver criado seres superiores, as “ciberinteligências”? Seremos uma espécie supérflua? Seremos exterminados pelas nossas criaturas?

II
A parte II do Experimentum Humanum proporciona uma discussão “Do trágico tecnológico”. Martins tem uma visão trágica da tecnologia? A resposta mais imediata seria positiva, afinal, o autor admite que o “trágico tecnológico” seja inescapável (p. 198). Mas essa resposta deve ser nuançada, a começar que uma visão trágica não significa uma posição tecnofóbica. O autor não defende, por exemplo, um “futuro primitivo”, longe disso. Não propõe uma distopia, muito pelo contrário. Para utilizar as noções do autor, Martins possui uma simpatia pela visão prometeica da tecnociência – uma concepção que recrie criticamente os vínculos entre a ciência e a tecnologia com a emancipação humana e o bem comum – embora sem ingenuidade. Talvez, Martins professe algo parecido a um realismo tecnológico com face humana, nutrido do princípio de prevenção.

O primeiro aporte ao “trágico tecnológico” é a discussão sobre o risco, tal como esta figura no capítulo V, “Risco, incerteza e escatologia”. Para Martins, o desenvolvimento tecnológico tem uma característica paradoxal: aumentar os perigos, mesmo as tecnologias pacíficas. Com essa inferência, ele desmonta as ilusões sobre a possibilidade de um mundo harmonizado por uma tecnologia desprovida de riscos. Existiria uma lógica imanente à tecnologia que a levaria à ampliação do risco, uma espécie de astúcia (demoníaca) da razão tecnológica? Ou tudo é uma questão de modelos tecnológicos tornados hegemônicos e que excluíram modelos alternativos? Ou a razão técnica precisa, necessariamente, de um regulador deontológico exterior ao mundo tecnológico?

De todo modo, os alertas em relação aos riscos tecnológicos são mitigados por vários autores, segundo Martins, principalmente os “tecnofílicos”. Usando a tecnofobia como álibi, tais autores lastimam a baixíssima compreensão sobre as pequenas probabilidades do risco. Desinformados, os defensores dessas visões exagerariam a avaliação do risco – gerando um novo tipo de falsa consciência que tornaria o risco uma hipérbole. Haveria, assim, uma contradição entre as avaliações condescendentes dos analistas do risco e as visões pessimistas das populações ocidentais. A ciência seria tecnófila e o senso comum, tecnofóbico. As massas deveriam acreditar, como muitos cientistas creem, no Teorema (ou Axioma) de Existência Panglossiano (TEP): "há sempre soluções tecnológicas dos problemas engendrados pelas tecnologias” (p. 161). Uma crença de que as soluções tecnológicas para problemas tecnológicos apareceriam sempre a tempo corresponderia à visão da maioria dos cientistas? Como corroboração a essa hipótese, Martins cita os cientistas nucleares que acreditam piamente na possibilidade de centrais nucleares ultrasseguras, até mesmo de forma absoluta. Embora a tecnofobia tenha algum conteúdo irracional, boa parte do medo repousa em efeitos reais: os efeitos mutagênicos, teratogênicos, patogênicos, carcinogênicos e tóxicos ou, ainda, os impactos humanos, somáticos ou genéticos, bióticos, biosféricos, atmosféricos, climáticos da tecnologia em geral. Igualmente, a tecnofobia seria função da “vastíssima proliferação e difusão do modo tecnológico de viver” (p. 160), atuando como uma espécie de colonização sistêmica e criando uma “monocultura tecnológica” ou, o que dá no mesmo, um “politeísmo das tecnologias”.

A tecnofilia e o TEP retroalimentam-se e se nutrem da crença na “circularidade do risco na tecnologia” (p. 162): os ricos causados pela tecnologia serão resolvidos pela tecnologia. É uma crença poderosa, fincada no imaginário ocidental. Seria uma crença mobilizadora que neutraliza, inclusive, a crítica aos impactos tecnológicos. Haveria uma racionalidade objetiva neste campo: a mesma lógica, perfazendo um círculo, criaria o problema e a solução. Assim, a solução tecnológica do problema tecnológico gera novos problemas tecnológicos, ad nauseam. Como não ficar preso nessa lógica e não pender para a tecnofilia? Pode-se até pensar numa tecnofilia fraca: não haveria solução tecnológica definitiva, mas sempre provisória – ad eternum.

Mas é possível aprender com os fracassos (p. 189). Ora, eles “ensinam”, por exemplo, as engenharias. Haveria, com tal aprendizado, a produção de inovações tecnológicas para, justamente, evitar fracassos. Novamente, estamos diante do TEP. Porém, como não se sabe o ponto no qual determinada tecnologia está perto do caos ou do fracasso, o conhecimento seria “posfactual” – aprender com catástrofe apenas ameniza o problema, pois não garante que aconteçam outros fracassos. Afora que o fracasso, muitas vezes, não é muito bem compreendido. A ciência do fracasso, afinal, não é exata, e sim permeada de incertezas. Enfim, estamos diante do velho tema do domínio absoluto da razão instrumental.

Aproveitando a discussão sobre a noção de risco, Martins faz uma crítica forte ao construtivismo, principalmente o mais radical – um tipo de sociologismo que defende a construção social da realidade e não a construção da realidade social. A vítima é a antropóloga Mary Douglas que, segundo o autor, torna o risco uma construção social total. Existiram apenas “culturas do risco”, nas quais o risco seria imanente à cultura em questão, inexistindo correspondência fática com o real. Martins nega uma superdeterminação social de todo tipo de conhecimento – leigo, científico e tecnológico. Para Douglas, segundo Martins, as avaliações de risco têm uma sobredeterminação cultural, a ponto de o risco, por ser uma construção social, não ter relação alguma com qualquer referente da realidade. Seria assim autorreferente. É o “relativismo do risco”.

Depois do dito acima, a Análise do Risco Tecnológico (ART) e a Análise Probabilística do Risco (APR) seriam ilusões cultuadas pelos especialistas e gestores do risco? A resposta é negativa, pois Martins recusa simetrizar o conhecimento dos peritos ao do senso comum, bem como colocar de forma a priori a superioridade da expertise em relação a todas as outras formas de percepção do risco (p. 165). De todo modo, relata que não há consenso entre os peritos, nem na metodologia, nem na interpretação dos resultados concretos – o que aumenta a insegurança e diminui a capacidade de previsão, fundamental na gestão dos riscos. Não se pode superestimar a capacidade de antecipação e de prevenção do conhecimento científico.

Na verdade, Martins critica a aplicabilidade da definição canônica de risco (p. 166) – a análise bayesiana não dá conta de situações hipercomplexas do risco tecnológico. Seria possível mensurar toda situação de risco? Caso não seja, como prevê-lo? O que está em jogo, aqui, é a crença na matematização total do risco. A gestão do risco revelaria um limite à mensuração do mundo. A situação de incerteza, essa impossibilidade de calcular todos os riscos, seria chamada por Martins de “problemas mais ou menos restritos ou irrestritos dos riscos tecnológicos” (p. 169) – nesse sentido, muitos dos riscos graves seriam irrestritos. Além do mais, com a velocidade gigantesca das inovações tecnológicas, como acompanhar e, principalmente, calcular e gerir seus possíveis riscos?

Diante das debilidades em calcular e gerir o risco, Martins prefere o conceito de incerteza. Ora, o risco, por ser uma probabilidade, já implica a incerteza – ou ainda: o acaso faz parte da necessidade, logo, é impossível o controle absoluto do real. A incerteza seria ontológica e não epistêmica. O desejo de controlar o risco é a vontade de eliminar a incerteza. Mas, como parece impossível evitar as consequências negativas da tecnologia, o risco transforma-se novamente em incerteza. Por tudo isso, não causa surpresa que Martins tenha simpatia pela tese da “incompreensibilidade radical dos sistemas tecnológicos” – diz que “é, pelo menos, plausível” (p. 191). Martins, nesse ponto, assinala que a tecnologia trouxe poder, mas que os efeitos antropogênicos no planeta ocasionaram uma perda geral de controle. Quanto mais poder antropogênico, menos controle.

Numa parte importante da discussão sobre o risco, Martins analisa outro Teorema (ou Axioma) de Existência Panglossiano, só que dessa vez relacionado ao mercado e comum a determinados economistas: os problemas gerados pelo mercado só serão resolvidos pelo... mercado. Outro princípio semelhante ao TEP seria o Princípio de Substitutabilidade Infinita (PSI): tudo pode ser substituído, principalmente os recursos naturais. A economia capitalista poderia, assim, tornar-se absolutamente artificial. Nesse momento, Martins empreende uma discussão importante, ao ressaltar a articulação umbilical entre a tecnologia, a ciência e o mercado ou, resumindo mais, a tecnociência e o mercado ou, ainda condensando tudo, o sistema tecno-científico-mercadológico.

A fusão com a tecnologia e, depois, com o mercado recolocou a discussão sobre os valores da ciência. A velha autonomia da ciência, tão reivindicada pelos cientistas, parece esmorecer, atualmente. O antigo CUDOS (valores do cientista e da ciência, segundo Merton: comunismo – partilha dos resultados –; universalismo; desinteresse; originalidade – contribuição a novos conhecimentos –; e ceticismo) vai se transmutando em PLACE (propriedade; localismo; interesse; compromissos; e expertise). É uma mudança deontológica e vocacional. O cientista torna-se um empreendedor e a ciência, uma engenharia.

Se a passagem do CUDOS ao PLACE, como sentido vocacional da tecnociência, não obstaculiza a produção científica, até mesmo a desenvolve, tal fato significaria que a ciência prescindiria, nas condições da investigação científica e da inovação tecnológica, de valores de base altruísta e vinculados ao bem comum. Caso essa hipótese esteja correta, podemos ir além e nos perguntar: a prática científica tem uma relação necessária com valores e práticas democráticas? Ou pode conviver com ambientes totalitários, principalmente as ciências duras, sem que sua produção e criatividade sejam afetadas de maneira significativa? A comprovação de tais inferências recolocaria, como absolutamente prioritárias, as discussões éticas no seio mesmo do habitus científico. Até então, a ciência prescindiu de discussões axiológicas, porque existe a crença de que há uma relação necessária entre a produção científica e a democracia. Porém, a liberdade do cientista corresponde à liberdade civil?

Depois de toda essa análise crítica, cabe a pergunta: como evitar as catástrofes? A resposta não é conclusiva. Além do mais, os estudos de custos e benefícios desconsideram, geralmente, as calamidades ou catástrofes que têm um risco baixo. Martins fala de “razoabilidade” (p. 186). Prega uma mudança política, cujo objetivo fosse uma relação mais estreita entre tecnociência e democracia – uma relação mais transparente, talvez colocando, de vez, a tecnociência no espaço público democrático. Martins abre outro caminho ao defender a utilização de critérios popperianos de falseabilidade para avaliação de tecnologias (p. 198). Seria um critério cognitivo e ético. Há uma defesa do falibilismo popperiano como uma ética para a tecnologia (p. 200). Seria apenas uma indicação? Na verdade, Martins considera absolutamente necessário o surgimento de uma ética, cuja função seria balizar o uso da tecnologia e direcionar as inovações tecnológicas. Como uma espécie de deontologia da tecnologia, Martins defende o Princípio Precaucionário de Precaução (PP), uma regulação normativa construída fora do espaço tecnocientífico, mas que pode regulá-lo por dentro. Com a normatização do PP no Estado de Direito, o ônus da prova fica com os produtores de tecnologia. Apesar disso, o PP não prescreve a sustentabilidade forte, e sim a fraca: “o capital natural pode ser destruído desde que sua perda possa ser compensada pelo aumento de capital artificial” (p. 202).

Aproveitando o ensejo ético (p. 206), Martins denuncia a acrasia (fraqueza da vontade). Seria um termo para entender uma situação bem típica: produzir uma ação, fazer uma coisa ou tomar uma decisão, mesmo sabendo que podem ser nocivas para nós todos. Com a acrasia, há uma dificuldade imensa em mobilizar práticas e argumentos contra determinadas ações que nos trarão prejuízos. Aos poucos, a fraqueza da vontade pode se transformar em falta de vontade, trazendo como consequência la belle indifférrence diante do mundo e suas tragédias.

Não causa surpresa que Martins termine a análise sobre o risco discutindo ética, pois o capítulo VI, trata justamente de um problema “demoníaco”: “Experimentos com humanos, guerra biológica e biomedicina”. É sobre o Mal, portanto, de que se trata – o Mal Tecnológico? E o começo do Mal é eugênico – justamente a eugenia negativa, quando se torna consenso a prevenção do desvio social, incluindo os psiquiátricos. É um mundo onde a biologia e a medicina começam a colonizar o campo axiológico e, aos poucos, as classificações sociais passam as ser norteadas pela trindade normal-anormal-patológico. Bem pior: é um mundo onde a biologia torna-se um dispositivo de guerra. Nesse capítulo, tomamos conhecimento da Guerra Biológica (GB) implantada e travada pelo Japão, antes e durante a Segunda Guerra. Os fatos são impressionantes e comparáveis aos feitos dos nazistas. Foram 13 anos de intensa GB. Segundo Martins, o Japão foi o primeiro país a levar a cabo uma biomedicina tanatocrática industrializada (p. 216). Todo o aparato biomédico japonês estava envolvido na GB. Houve um “utilitarismo” científico que facilitou ou teve uma afinidade eletiva com a experimentação humana. A guerra torna tal utilitarismo uma ideologia quase irresistível, que continua com alguma eficácia, mesmo em tempo de paz.

Deveriam os cientistas, por motivos éticos, descartar descobertas científicas que foram realizadas em condições abjetas, envolvendo seres humanos? Se, à primeira vista, a pergunta nos encaminha rapidamente a um retundo sim, as respostas dos cientistas tornam a discussão mais nuançada. Por exemplo, o bioeticista Arhtur Caplan tem a seguinte opinião sobre a experiência em que foi inoculada sífilis em prisioneiros negros, uma experimentação com seres humanos que durou quarenta anos e só acabou em 1972: “o que sabemos hoje dos efeitos devastadores da sífilis sobre o coração, o cérebro e as articulações é, em parte, baseado nesse estudo” (p. 221). Utilizar os resultados da pesquisa faz-nos cúmplices das experiências ou, ainda, aumentando o peso da pergunta, utilizar os resultados das experiências nazistas em humanos nos torna cúmplices do nazismo? Ou, como defendem alguns “praticantes da biomedicina” (p. 236), os dados devem ser utilizados pela ciência e, principalmente, pela medicina, para não serem desperdiçados? Podemos perguntar, nesse momento, quais são as pautas éticas que estão em jogo. Na defesa do aproveitamento, faz-se uma diferença utilitária entre a experiência (denunciada com vigor) e os resultados científicos (aproveitados, pois geram benefícios aos seres humanos). Se uma determinada experimentação com humanos, cujo protocolo de procedimentos parece mais com sevícias e torturas, resulta na descoberta da cura do câncer, devemos desperdiçar tal resultado por motivos éticos que não separam a experiência do resultado?

Por outro lado, aquém e além das querelas éticas, o mercado abre a possibilidade de aproveitar os resultados científicos de experiências inumanas. Por que não, principalmente no âmbito de uma medicina ultraprivatizada, logo, inserida nas lógicas econômicas do mercado capitalista? Numa nota de rodapé, Martins alerta sobre tal possibilidade e, weberianamente, pergunta-se sobre a pertinência de se pensar a “situação clínica” ou a “situação biomédica” como “situações de classe” – tais situações não implicam “oportunidades de mercado” e acessos a bens no mercado? E vai ainda mais longe no alcance de sua análise: o mercado capitalista da saúde, além de sobredeterminar a inovação tecnológica (vide a indústria farmacêutica), pode fazer o mesmo em relação à estratificação social. A produção biológica de seres pós-humanos (a “ciborgueficação” do humano, por exemplo) traria uma reconfiguração na hierarquia social, agora comandada por uma biologização da estratificação social – a desigualdade, antes social, seria enfim absolutamente naturalizada, ou melhor, seria artificialmente naturalizada.

Martins, nesse momento, aproxima-se da noção de vida nua de Agamben. Nesse mundo de horrores tecnocientíficos, a vulnerabilidade social ficaria passível de experimentação biomédica. Em nome da “experimentabilidade” (p. 222), os excluídos seriam sacrificáveis em prol da ciência e, claro, do bem-estar dos pós-humanos. Martins tenta mostrar que, entre a “tanatocracia” e a “biocracia”, as passagens são múltiplas e cotidianas. Há uma fabricação de microdistopias já no cotidiano da tecnociência biomédica – afinal, existem agora microeugenias de mercado (p. 286). Tais passagens indicam um sentido vocacional entre os tecnocientistas? Martins apenas insinua, mas alerta, por igual, que a dignidade é forte e volátil, ao mesmo tempo, no sistema ultra-abstrato e virtual do capitalismo contemporâneo. Radicalizando essa posição, pode-se indagar se o cientificismo torna rarefeita a dignidade ou se o cientificismo facilita a passagem, nas palavras de Martins, do “fanatismo da pesquisa” ao “fanatismo da transgressão”. Nesse sentido, não haveria limite ético ou mesmo humano, dada a sua infinita potência, à tecnociência.

Seria palpável a concatenação lógica da discussão de Martins. Da análise do risco, ele passa à experimentação em humanos e, como possível desdobramento geral, desemboca justamente no capítulo VII, “Para uma sociologia das calamidades” (p. 255). Não se negue a lógica desse caminho, pois a calamidade está presente na potência mesma da tecnociência – os impactos tecnológicos, no nosso mundo, rodopiam o pião da dialética entre o céu e o inferno. E, como tais calamidades não são “naturais” e sim “antropogênicas”, são assim, para utilizar uma linguagem construtivista, “construções sociais”, logo, faz-se presente a necessidade de uma abordagem sociológica. Nesse momento, voltamos ao debate sobre a visão fáustica da tecnologia. Seriam tecnologias puras, sofisticadas e belas, “não subordinadas a baixas finalidades utilitárias do bem-estar banal das grandes massas, mas a grandes missões coletivas” (p. 259). Seria a visão nazista, pois a tecnologia como vontade de poder, sem fins humanitários. Fausto, no caso, seria o Prometeu Transgressor (o tecnocientista defensor do “fanatismo da transgressão”) e não o Prometeu benfeitor da humanidade.

Faz parte da tradição alemã (Spengler, Jünger e Heidegger) o medo do Fausto, talvez porque só exista, na verdade, um Prometeu, justamente o Transgressor. Seria o domínio tecnológico da Natureza, prescindindo de qualquer fundamentação ética – a tecnologia, na sua potência, seria um movimento infinito. A subordinação da tecnologia ao bem comum e à emancipação da espécie (visão do Prometeu Benfeitor) seria atrelá-la à finitude humana – daí a necessidade da visão fáustica de ultrapassar o demasiado humano. Martins não é alemão, mas também tem medo de Fausto. Como já vimos, relaciona o complexo tecnocientífico aos ditames do mercado capitalista. Está embutida, nessa relação, a afinidade eletiva entre a visão fáustica e a acumulação ampliada do capital. Afinal, os dois mecanismos têm como mira o infinito, isto é, a abstração ou “neutralização” (p. 274) de qualquer limite humano. A experimentação transmutou-se em empreendimento, cuja conotação tecnocientífica ou mercantil misturam-se, a ponto de serem indiscerníveis. A biotecnologia torna-se, assim, a engenharia biológica dos seres humanos – a natureza humana torna-se, enfim, completamente artificial.

A visão fáustica impõe um ritmo normativo impossível. A ética não consegue se antecipar ou regular a tecnologia (p. 260); na verdade, a ética está sempre correndo atrás, adaptando-se às novas conjunturas tecnológicas. A ética de Fausto é a adaptação ou, num sentido mais prosaico, posterior à catástrofe. Como afirma Martins: “se prosseguirmos na trajetória atual e o pior acontecer (e nunca termos a certeza ou uma alta probabilidade confiável de que não vai acontecer) será demasiado tarde” (p. 261). Seria o “dilema do zero e do infinito” – não seria arriscado dizer que não há resolução ética a esse dilema, exceto a sua superação. Por isso, a tecnociência fáustica, ao colocar a ética ao seu reboque, pode também impor “neutralizações”, “adiaforizações” (ou mesmo, no sentido agambeniano, “profanizações”) a tudo que era ou é sagrado e intocável – assiste-se a tal fenômeno na bioética, sempre a reboque das biotecnologias reprodutivas, por exemplo.

Como evitar essas novas calamidades e, ao mesmo tempo, combater a tecnociência fáustica? Martins discute a relação entre o “dever fazer” e o “poder fazer”. Critica o dever de se fazer tudo que seja tecnologicamente possível (p. 270). É o Princípio de Plenitude Tecnológica (PTT): tudo que é tecnologicamente possível será um dia realizado – não se deve combater a inovação tecnológica; não se deve lutar contra o progresso. Insinua uma ética do “não fazer” de Hans Jonas ou da “vontade” de Renouvier (p. 272). Mas, aparentemente, tais éticas não o satisfazem – afinal, provavelmente o problema não se esgote na ética.

Seria nesse instante que talvez percebamos o momento de desespero (logo, num sentido trágico, de esperança) de Martins. Inicialmente, é propedêutico: “o Prometeanismo iluminista precisa ser corrigido e reformado porque se confunde cada vez mais, na prática, paradoxalmente, com o faustianismo anti-iluminista” (p. 296). Depois, vai muito além das fronteiras desse mundo, ao defender uma nova Era Axial (período histórico no qual surgiram as grandes religiões). Ora, Martins faz uma relação entre as inovações tecnológicas (a agricultura, por exemplo) e a Era Axial. Há, aqui, a sugestão de que inovações tecnológicas de longo alcance colocam ou reconfiguram profundamente os valores de toda uma época. Como estamos no meio de incríveis transformações tecnológicas, cujo foco, inclusive, é a própria natureza humana, talvez ocorra (ou exista a possibilidade de) uma Nova Era Axial que consiga uma rearticulação ética global, reconfigurando “prometeicamente” as relações entre o humano e a tecnologia. É preciso interpretar essa esperança como uma aposta. É um desafio de grande alcance – não devemos negar sua sedução como utopia. Talvez, por isso, Martins quase peça a Deus pela resolução do Grande Impasse da Tecnologia (GIT): “Oxalá, os tempos sejam propícios a uma cristalização ética e axiológica comparável à da Época Axial, em que certamente a ética, a estética e a filosofia ambientais, a sensibilidade ambientalista, como a reconsideração urgente e fundamental da antropologia filosófica e da zoologia filosófica dos limites do humanum e das nossas relações com os (outros) animais terão um papel importante na clarificação da ordo amoris” (p. 291).

III
Sob o título “Passagem para o Pós-Humano”, a terceira parte do Experimentum Humanum abriga um conjunto de ensaios dedicados a pensar alguns temas-chave das transformações que a ciência e a tecnologia vêm impondo à humanidade – até o ponto de que alguns teóricos venham a pensar acerca de uma superação técnica do humanismo. Um dos temas que compõem as reflexões sobre a eventualidade de nosso presente pós-humano é certamente o da aceleração. A esse respeito, há muito o que aprender com Martins. Procedendo a uma importante genealogia daquilo que Paul Virilio chamaria de dromocracia, três “variedades de aceleracionismo” são identificados entre os teóricos que já se dedicaram a este tema. A primeira delas diz respeito à identificação que existe entre as novas tecnologias de informação e comunicação e a aceleração. E aqui não se está falando apenas de Paul Virilio, do “tom apocalíptico” que ele impõe mediante diagnósticos de crise da subjetividade, impossibilidade de reflexão na “dromoscopia”. O economista sueco Staffan B. Linder, ao teorizar sobre a “fome do tempo”, já a partir da década, via na preferência por produtos descartáveis um aspecto importante do aceleracionismo. Nas “três últimas décadas”, considera Martins, “vivemos numa economia-mundo de maximização de fluxos – energéticos, informacionais, materiais, virtuais, financeiros […] e, conversamente, de minimização dos stocks” (p. 307).

Em oposição à aceleração da vida, do consumo, das “guerras do tempo”, de que fala Jeremy Rifkin, Martins considera também o surgimento de movimentos de resistência, tais como o “slow food movement”, ou o “slow cities”. A “aceleração da aceleração”, ou seja as transformações sociais e culturais que sobrevêm à “mudança técnica”, tal como propõe o sociólogo Hornell Hart, ou a ideia de “ortogênese tecnológica”, “como um momento dos processos de aceleração cósmicos e biológicos”, de que nos fala o filósofo François Meyer, constituem, entre outros, momentos importantes desse primeiro tipo de percepção da aceleração. Um segundo modo de perceber essas transformações é dado por aqueles que defendem que “o crescimento exponencial do conhecimento tecno-científico e do progresso tecno-econômico é indispensável para suportar as dificuldades que decorrem da crise ambiental generalizada e das alterações climáticas sem paralelo nos últimos 10.000-12.000 anos” (p. 310). A tese aqui é claramente acelerar a aceleração para solucionar os problemas acarretados pela aceleração tecnológica – Martins, recorrendo a uma metáfora já usada ao longo de seu livro, qualifica esse tipo de postulação de “panglossianismo dinâmico”, o que nos parece justo. A terceira variedade do aceleracionismo corresponde à percepção de que os avanços nas tecnologias da computação, na robótica, na nanotecnologia, abrem a possibilidade de um futuro pós-humano, um futuro em que as limitações de nossa condição biológica seriam superadas. Variação do panglossianismo dinâmico, posto que a aceleração tecnológica parece não nos dar alternativa que não seja reconhecer e aprofundar nosso destino ciborgue, os transhumanistas parecem não estar muito distantes de uma antiga tradição do pensamento ocidental, e de seu sentido religioso, para quem, afinal, nossos limites biológicos sempre foram um entrave para a realização plena do espírito.

Um dos méritos do oitavo capítulo do Experimentum Humanum, “Aceleração, progresso e Experimentum Humanum”, é propor a questão populacional, tal como ela surge sobretudo a partir de Malthus, ou seja, no século XVIII, como âmbito crucial das discussões sobre aceleração. Martins não faz muito estardalhaço acerca de seu gesto teórico, mas o que temos aqui, como a própria estruturação do capítulo ajuda o leitor a depreender é uma confluência entre considerações sobre aceleração e 'biopolítica' (o autor não usa o jargão foucaultiano). E isso é em si teoricamente auspicioso. Que os elementos teológicos, em cujo bojo surgem essas discussões, sejam também apresentados, é um bônus considerável. “Em uma primeira fase, esta problemática foi tratada por teólogos cristãos nos séculos XVII e XVIII, tanto luteranos alemães como anglicanos, e a demografia surgia como uma demoteologia em que o papel da Providência como deus arithmeticus, que dispõe, na frase bíblica, de “peso, número e medida” […] foi crucial” (p. 315). Se é possível dizer que as postulações malthusianas sobre uma contradição entre a tendência de crescimento geométrico das populações humanas e o crescimento aritmético dos recursos necessários à sua subsistência como problema central, em torno do qual serão formulados os ideais de progresso e perfectibilidade iluministas, não há também como negligenciar o quanto elas foram importantes para que Wallace e Darwin chegassem, por vias separadas, à ideia de uma concorrência geral entre os seres vivos (p. 316). Economia, biologia e teologia, portanto, amalgamam-se em uma mesma discussão. Em 1864, destes elementos, Wallace concluía que a extinção de raças humanas “inferiores” seria algo desejável – tese aceita em termos gerais por Darwin, como o demonstra sua correspondência com Wallace (p. 317). Esse conjunto de ideias, por seu turno, a defesa da “sobrevivência dos mais aptos”, tem uma influência decisiva no utilitarismo de Herbert Spencer, formulação que vem, por seu turno, reforçar o darwinismo, ao conferir-lhe um sentido ético, e transcendente. Assim é que, para o utilitarista William Paley: “a maximização da soma algébrica de prazeres e dores no mundo vital tornava patente a arte sábia do legislador divino” (p. 319).
A argumentação deste capítulo é concluída com uma reflexão acerca da singularidade humana diante da aceleração tecnológica, reflexão que passa em revista especulações transhumanistas, acerca de uma transformação ontológica radical da condição humana; ou a expansão tecnológica em nível molecular – e a constituição desse terreno novo de investigação que Drexler chamou de nanotecnologia e que resulta da confluência entre a genética, a física, as ciências da informação e as neurociências – e a disseminação dos inúmeros fantasmas ali albergados, que vão da nanopoluição à destruição da vida na Terra; ou ainda os discursos acerca da nossa nova condição ciborgue. Martins retoma, assim, argumentos já expostos em outros momentos de sua coletânea de ensaios. O interessante é perceber que, ao longo de todo o texto, em seu diagnóstico das novas tecnologias e da aceleração, Hermínio Martins sublinha constantemente a importância da análise de elementos econômicos, científicos, ou mesmo dos que provêm da ficção científica, mas também de influências culturais escatológicas, ou seja, a presença de um discurso religioso conferindo um sentido particular a todas essas especulações sobre o inevitável de nosso destino pós-humano. Assim: o que fazer da perspectiva de uma “segunda antropogênese”, da constituição deste “Novo Adão”? “Poderá deixar de ser um mero homo faber […] e tornar-se finalmente o faber homininis, […], e não por qualquer processo de desenvolvimento espiritual, embora um Homem de certo modo tacitamente autodeífico” (p. 344).

No capítulo XIX, sob o título “Biologia e política: eugenismos de ontem e de hoje”, Martins se debruça sobre a condição humana convertida em um problema técnico e científico, mas sobretudo político. De certo modo, o que assusta o leitor não é a existência de um discurso historicamente datado sobre os cuidados positivos ou negativos a serem tomados pelo Estado para corrigir o que seria uma tendência biológica dos menos inteligentes serem mais férteis que os mais inteligentes, aqui considerados como geneticamente superiores, mas a permanência desse discurso entre cientistas na contemporaneidade. Assim, em 1996, Richard Lynn argumenta que a “deterioração genética” nos países industrializados é algo bem real, que é apenas contrabalançado no curto prazo por fatores ambientais (como uma melhor alimentação das raças ditas “inferiores” – p. 259-260). Para Martins, a manipulação genética surge para alguns cientistas como possibilidade de um “novo eugenismo” em que os “mais inteligentes” poderiam ser clonados em massa, e um melhoramento da espécie humana passaria a ser possível. “O eugenismo sempre partilhou alguma coisa da dicotomia fundamental do apocalipticismo religioso, ou das ideologias seculares catastrofistas: ou o abismo, ou a ascensão, tertium non datur” (p. 366).

Largamente concebido como uma prerrogativa do Estado, o eugenismo clássico é hoje superado por algumas tecnologias reprodutivas que colocam nas mãos dos cidadãos a possibilidade de decidir, mediante genetic screening, ou diagnóstico genético pré-implantação, entre muitas outras tecnologias, acerca de que tipos de fetos são desejados, e quais deveriam ser descartados. “As tecnologias em questão também tornam possível o feticídio em massa de fetos do sexo feminino” (p. 367) em países como a Índia e China. E, neste caso, estamos falando de biotecnologias simples e baratas, o ultrassom e a amniocentese.

O décimo capítulo, que conclui o Experimentum Humanum, intitulado “Verdade, Realismo e Virtude”, discorre sobre o estatuto das ciências modernas diante do ceticismo que, antes de ser uma falha em sua trajetória, parece estar intimamente relacionado às suas trajetórias. Neste contexto, todo ceticismo epistemológico, na medida em que reduz o problema da verdade a uma adequação entre intelecto e coisa, ou entre sujeito e objeto, traz sempre à tona a questão da finitude e impotência humana diante de um mundo que já encontramos constituído. E se o movimento da ciência moderna é em grande medida de superação ou suspensão dessa dificuldade epistemológica, a própria ideia de um conhecimento infinitamente aperfeiçoável dá uma noção do quão pessimista é a consciência científica acerca da perspectiva de uma superação definitiva do ceticismo. A “novidade epistêmica do mundo moderno, as ciências matemático experimentais” (p. 408), não são páreo para esse elemento mais fundamental da própria cultura ocidental, posto que, mesmo que cheguemos a postulados matematicamente universais e seguros, a dificuldade é sempre, como diria Kant recorrentemente em suas três Críticas, como aplicar a lei geral ao caso particular, ao objeto que temos diante de nós. Assim, “Para Popper, nenhum enunciado pode ser 'justificado' e a verdade, compreendida no sentido da Teoria da Verdade como Correspondência, numa versão semântica, supostamente tarskiana, da vetusta tese da verdade como adequatio rei et intellectus, neste falibilismo, como um ideal regulativo imprescindível para a ciência, e todo conhecimento objetivo, e nunca como um fato consumado” (p. 409).

Assim, o “relativismo adverbial” de Nelson Goodman, sua crença no caráter irredutivelmente plural das visões de mundo que compõem o que chamamos de realidade, e aqui também nos recordaríamos de Weber, é um elemento estruturante da própria dinâmica científica. Martins acredita, na verdade, que o relativismo epistemológico não é apenas um traço da ciência moderna, mas também de sua ética e estética. Em todos esses âmbitos, o ceticismo é condição de surgimento de uma sociedade de indivíduos, acrescentaríamos. E se ele também foi entendido como companheiro inevitável de soluções autoritárias de poder, pois que, neste caso, verdade e poder parecem se referenciar mutuamente, parece não haver dúvida de que o “relativismo ético”, por exemplo, pode ser postulado, na obra de Hans Kelsen, por exemplo, como um convite à democracia.

É como reflexão que solicita constantemente uma politização, ou seja, que pode ser facilmente convertida numa discussão sobre poder que as ciências modernas, no âmbito de seu ceticismo estrutural, apelam à técnica. Num certo sentido, o que temos aqui é uma rearrumação de um postulado da filosofia medieval segundo o qual conhecer, ter acesso à verdade das coisas, é poder produzi-las - postulado reelaborado por Vico, no século XVII. Deus, como artífice do universo, tudo conhece. Para a tecnociência, assim, conhecer o real está diretamente associado à capacidade de criar realidade. Evidentemente, essa resposta traz em seu bojo questões éticas dificilmente contornáveis quando nos apercebemos do ceticismo também neste âmbito.

Vivemos numa época em que a questão da autonomia da ciência não se coloca já no plano da sua relação com o poder político, com as ideologias oficiais, como na ideocracia soviética, ou com os grandes sistemas de crenças tradicionais, pelo menos no Ocidente. Na conjuntura atual, os processos potencialmente subversivos da autodeterminação ou auto-regulação científica, que no passado pelo menos eram da primeira importância para os cientistas, decorrem, em primeira instância, da desdiferenciação e interpenetração da ciência e da tecnologia, da tecnociência e da economia, da “capitalização do conhecimento”, do novo modo de produção do conhecimento científico, coletivizado, finalizado, industrializado e comercializado do princípio ao fim (p.429).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Fraude científica como corrosão do caráter : um olhar sociológico sobre a cultura do “novo capitalismo”



Tâmara de Oliveira (DCS/UFS)
 
Caros amigos, em minha passagem diária obrigatória pelo Le Monde, aos 10.12.2012, deparei-me com o seguinte título do blog de jornalismo científico editado por Pierre Barthélémy : “O escândalo Stapel, ou como um só homem enganou o sistema científico”. Evidentemente, como aqui no Cazzo andamos discutindo a validade do conhecimento científico nas ciências sociais, cliquei pra ver o que era – antes mesmo de consultar meu horóscopo! Olhando a foto do elemento, gargalhei: com essa cara e sorriso de líder de equipe de produção flexível e a curto prazo, só mesmo esse tal de sistema científico (que imaginei como um vetusto senhor honesto e positivista, formado na era do Estado do Bem-Estar Social) para não sacar com quem estava lidando... 

Mas será mesmo que não se sabia com quem se estava lidando, ou o infeliz Diederik Stapel (professor holandês ora afastado da Universidade de Tilburgo, fundador do TIBER – Tilburg Institute for Behavioral Economics Research – e laureado com o prêmio, ora cancelado, de Trajetória Acadêmica pela Society of Experimental Social Psychology em 2009), é justamente um idealtipo (SCHNAPPER, 1999) de profissional da cultura do novo capitalismo, com boa verificação empírica também entre cientistas – universitários ou não (SENNET, 2006) ? No mesmo blog, li sobre outro escândalo, eclodido, como o primeiro, em 2011 – este protagonizado por uma química de um laboratório de Boston ligado à policia científica de Massachusetts, chamada Annie Dookhan, cujo trabalho era o de identificar drogas e pesquisar traços nas peças de convicção fornecidas por investigadores policiais.

Narremos os “causos”, antes de tentarmos colocar um molhino sociológico nesta receita. Stapel, 46 anos, ascendeu meteoricamente ao status de pequena vedete em sua área de pesquisas e, embora dois professores já tivessem manifestado supresa com seus resultados, ninguém os levou em consideração, até que três jovens pesquisadores ousaram apontar irregularidades à Universidade de Tilburg. Uma enquete foi iniciada (incluindo duas outras universidades onde ele lecionara anteriormente) e seus resultados, publicados em 28 de novembro de 2012, são exemplares: quase metade de seus artigos contêm dados inventados ou traficados (55/137), há ainda suspeitas graves sobre 10 outros, 31 de seus trabalhos já são objeto de retratação nas revistas onde foram publicados e descobriu-se que o ex-laureado universitário forneceu dados falsos a inúmeros de seus orientandos.
 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Contribuições da epistemologia feminista para uma crítica da ciência moderna

Modelo anatômico de mulher grávida, em madeira e marfim, para fins de ensino. Stephan Zick, 1639-1715

Por Clarissa Galvão - Doutoranda em Sociologia, PPGS/UFPE

O objetivo desse breve artigo é analisar as críticas aos processos de produção do conhecimento científico realizadas no âmbito da epistemologia feminista. A discussão baseia-se, principalmente, nos argumentos levantados e debatidos por Anderson (2011), Benhabib (1995) e Flax (1991). O fio-condutor da minha reflexão será tecido em torno das críticas que as diferentes correntes da epistemologia feminista dirigem à Ciência Moderna e à razão instrumental. Nesse bojo, destacam-se questões como a possibilidade de um conhecimento universal, a verdade, a objetividade e as características do sujeito cognoscente.

Das epistemologias feministas

As reflexões da epistemologia feminista (conceito não-unívoco, que abarca diversas vertentes) surgem no bojo do movimento feminista, como desdobramentos da problematização sobre universais e supergeneralizações. De modo simplificado, tal problematização objetiva chamar atenção para o fato de que o conhecimento, os valores, as experiências etc. de um grupo hegemônico resumem-se a isso, ou seja, não são universais, tampouco possuem base alguma que legitime essa pretensão (Hamlin, 2007; Anderson, 2011).

Segundo Anderson (2011), a despeito das divergências entre as correntes que compõem o que se convencionou chamar de epistemologia feminista, é possível definir o seu objetivo principal de modo consensual, qual seja: analisar a influência do gênero nas concepções de conhecimento, em seus modos de produção e justificação, bem como na concepção de sujeito cognoscente.

A partir da análise das questões acima elencadas, seria possível identificar as formas por meio das quais as mulheres, e outros grupos marginalizados, são postos recorrentemente em desvantagem no processo de produção do conhecimento, para então construir caminhos de reforma das referidas concepções e de suas práticas.

No que tange à identificação dos modos pelos quais as desvantagens operam praticamente, a fortuna crítica da epistemologia feminista já avançou bastante. De maneira esquemática, e geral, é possível elencar algumas respostas diferentes e complementares à pergunta “como as mulheres são colocadas sistematicamente em desvantagem, em se tratando da produção do conhecimento científico?”.

A primeira desvantagem seria a exclusão das mulheres da ou a redução de sua participação na atividade de pesquisa. Tal ação tem sido justificada pela desvalorização de um estilo cognitivo feminino[1] e de sua forma de conhecer, o que acarreta uma negação de autoridade epistêmica às mulheres.

Em conseqüência disso, são elaboradas teorias sobre as mulheres que reforçam a sua condição como o Outro do homem (Beauvoir, 1970) e as tornam, e a seus interesses, problemas e produção, invisíveis. Obviamente, esse tipo de ciência e de tecnologia não é útil para as mulheres, tampouco para os demais grupos em situação de desvantagem (Anderson, 2011).

Ante o exposto, é possível apontar e discutir as concepções centrais à epistemologia feminista, em sua crítica a esse modelo de ciência excludente, a saber: os conceitos de conhecedor e conhecimento situados.

Afirmar que todo conhecedor, e consequentemente o conhecimento, é situado significa ir de encontro a determinada noção de objetividade, em cujo bojo está: a dicotomia sujeito-objeto; a ausência de perspectiva, que advoga a possibilidade de um ponto de Arquimedes (uma visão de lugar nenhum); o desinteresse ou a distância emocional com relação àquilo que será conhecido; a neutralidade axiológica; a idéia de controle, através de experimentos e manipulações, do que vai ser conhecido; e de orientação externa, ou seja, as representações refletem aquilo que as coisas realmente são (Anderson, 2011, s/p).

De início, é preciso esclarecer que na afirmação de que todo conhecedor, e logo o conhecimento por este produzido, é situado, não há necessariamente um abandono da noção de objetividade. É possível que uma postura como esta seja tomada, mas tal radicalização, por assim dizer, convive com proposições que visam discutir e redefinir a objetividade e o papel da ciência.

Chamar atenção para o conhecimento situado significa apenas destacar que quando alguém se debruça sobre algo, com o objetivo de conhecê-lo, não há a possibilidade de despir-se de seus backgrounds, visões de mundo, emoções, interesses, valores etc.

Nesse sentido, a epistemologia feminista defende que todo conhecimento é parcial, produzido a partir de um contexto e representa uma determinada perspectiva. E, em se tratando do conhecimento produzido pela ciência moderna iluminista e pós-iluminista, este é considerado androcêntrico[2] e, portanto, suas pretensões universalizantes são vistas como opressoras e excludentes dos Outros do sujeito cognoscente da razão instrumental.

O debate sobre como o gênero situa os sujeitos cognoscentes, dentro da epistemologia feminista, ocorre entre três principais correntes: o empirismo feminista; a teoria da perspectiva feminista (standpoint) e o pós-modernismo feminista (Harding, 1986 apud Anderson, 2011, s/p).

Desde já, importa denotar que essas abordagens possuem pontos de contato e inter-relações e que não foram superadas, no sentido de que poderiam estar, atualmente, apenas na história do pensamento. Ao contrário, são atuais, passaram/passam por diversas reformulações e revisões desde o momento em que surgiram até a época contemporânea (Anderson, 2011). Abordaremos aqui apenas os seus contornos gerais e características principais.

O Empirismo Feminista

O empirismo feminista concentrou seus esforços na tentativa de tornar as mulheres um grupo visível para as lentes das pesquisas científicas tradicionais. Sendo assim, as empiristas feministas propõem-se a pensar em como os valores feministas podem orientar a investigação empírica e contribuir para a melhoria da metodologia em geral.

Não havia, pelo menos quando de seu surgimento[3], uma noção de conhecimento situado nessa abordagem. Essa ausência acarretou uma limitação de sua crítica aos pressupostos do conhecimento científico. O movimento foi o de tornar a mulher visível, com o intuito de entrar no cânone, sem reconhecer que os fundamentos daquele implicavam desvantagens que iam muito além da invisibilidade, como já discutimos. Afora isso, é possível questionar em que medida uma maior participação de mulheres, feministas ou não, nesse modelo de ciência tradicional, seria capaz, por si só, de superar a sua situação de desvantagem.

A Perspectiva Feminista

A teoria da perspectiva feminista, que possui forte influência do marxismo, propôs a noção de conhecedor situado e foi além, combinando-a à idéia de vantagem epistêmica. Os grupos subordinados, que nesse caso particular são as mulheres, teriam uma vantagem epistêmica sobre os dominantes para falar a respeito de determinadas questões sociais, incluindo a situação de desvantagem que lhes é imposta.
Uma teoria completa desse ponto de vista deve especificar (i) a localização social da perspectiva privilegiada, (ii) o escopo de seu privilégio: para que perguntas ou temas podem reivindicar um privilégio a mais, (iii) o aspecto da localização social que gera conhecimento superior: por exemplo, o papel social, ou a identidade subjetiva, (iv) o fundamento de seu privilégio: o que é sobre esse aspecto que justifica a pretensão de privilégio; (v) o tipo de superioridade epistêmica que reinvindica: por exemplo, maior precisão, ou maior capacidade de representar verdades fundamentais, (vi) outras perspectivas em relação às quais afirma a superioridade epistêmica e (vii) os modos de acesso a essa perspectiva: está ocupando a posição social necessária ou suficiente para conseguir o acesso à perspectiva? (Anderson, 2011, s/p).
A idéia de privilégio epistêmico tem sido fonte de polêmicas e controvérsias. As teóricas da perspectiva feminista afirmam que o conceito de vantagem epistêmica é aplicado em outras áreas sem grande alarde, nas quais a expertise em determinado assunto confere autoridade a certas pessoas.

Anderson (2011) utiliza o exemplo dos mecânicos de automóveis para ilustrar essa questão. A opinião dos mecânicos, devido a sua experiência prática com carros, estaria melhor posicionada, em se tratando de avaliar problemas em um automóvel, do que a de alguém que seja apenas um usuário/proprietário de um carro. Segundo as defensoras da perspectiva feminista, portanto, a idéia de privilégio epistêmico só gerou polêmica quando tratou de temas em disputa entre grupos sociais.

Uma das principais críticas feitas à concepção de vantagem epistêmica refere-se a sua circularidade. Pois, se a vantagem é fruto de uma situação de desigualdade, esta precisaria manter-se para o que o mencionado privilégio continuasse a existir. Além desse, haveria outro problema relevante que fundamenta a idéia de vantagem epistêmica: a generalização da desigualdade, como se todas as mulheres vivenciassem-na da mesma forma.

A despeito dessas e de outras críticas, há quem defenda que do ponto de vista prático, e não do epistemológico (no sentido de acesso privilegiado à realidade), as representações produzidas na chave teórica da perspectiva feminista podem ser mais úteis para as mulheres do que outras (Anderson, 2011, s/p).

O Feminismo Pós-Moderno

De acordo com Flax (1991), o Ocidente passou por um período de mudanças, incertezas e ambivalências. A seu ver entre as teorias mais relevantes para a compreensão desse momento estão o pós-modernismo e feminismo. Ambas constituídas por uma tensão entre aceitação e rejeição de determinados pressupostos iluministas.
Cada um desses modos de pensar toma como objeto de investigação pelo menos uma faceta do que tem se tornado mais problemático em nosso estado de transição: como entender e (re) constituir o eu, gênero, conhecimento, relações sociais e cultura sem recorrer a modos de pensar e de ser lineares, teleológicos, hierárquicos, holísticos e binários (Flax, 1991, p. 218.)
Esses pontos em comum teriam possibilitado uma aliança entre as teóricas feministas e discursos pós-modernistas, especialmente a partir do momento em que as primeiras começaram a desconstruir noções como razão e conhecimento e a desvelar as conseqüências dos arranjos de gênero ocultadas por concepções pretensamente neutras e universalizantes.

Para Anderson (2011, s/p), diferente das outras correntes, o feminismo pós-moderno tem atuado de forma mais intensa na crítica interna das teorias feministas. As feministas pós-modernas acusam muitas teorias feministas de estarem reproduzindo, em seus arcabouços teóricos, as práticas científicas que criticam, como, por exemplo, a universalização de situações particulares.

As teóricas do pós-modernismo feminista radicalizam a crítica à ciência moderna, por meio de uma ênfase na diferença, na ambivalência e contingência. Acreditam que a busca por causas universais, necessárias e trans-históricas que expliquem a formação da identidade de gênero ou do patriarcado geram teorias com ranço essencialista, pois transformam fatos discursivamente construídos em normas.
Em termos mais gerais, esta ênfase na diferença visa negar qualquer possibilidade de se transcender a localização particular do sujeito do conhecimento, especialmente por meio da negação de idéias como universalidade, necessidade, objetividade, subjetividade, unidade, verdade e mesmo realidade. Considerar a diferença significa focar a particularidade, a contingência, a instabilidade, a ambigüidade, em resumo, negar as idéias mais caras ao Iluminismo (Hamlin, 2007, s/p).
 Nesse escopo, falar sobre a categoria mulher torna-se extremamente problemático. Foram as reflexões das teóricas filiadas a esta corrente, provocadas pela primeira vez pelos movimentos feministas negro e lesbiano, que chamaram atenção para as vozes que são silenciadas nesse conceito.

Ao privilegiar a diferença, é possível perceber e destacar o elemento opressor existente na categoria mulher. A desigualdade de gênero não é vivenciada da mesma maneira por todas as mulheres, possui matizes relacionados à cor, etnia, classe, orientação sexual, nacionalidade etc. Sendo assim, a fala de intelectuais, brancas, heterossexuais e de classe média, além de não representar a todas as mulheres nos mais variados contextos de desigualdade, contém um ranço opressor e excludente.

“Esta crítica da "mulher" como um objeto unificado de teorização implica que "mulher" também não pode constituir um sujeito unificado de saber (Lugones & Spelman 1983). As teorias da identidade de gênero universal sob ataque são aquelas em que as autoras, todas mulheres heterossexuais, de classe média, branca, podiam ver-se. Os críticos afirmam que as autoras falham ao não conseguirem reconhecer a sua própria condição como situada e, portanto, os caminhos em que estão implicadas ao reproduzir as relações de poder, neste caso, a autoridade presunçosa de mulheres brancas, heterossexuais, de classe média para definir "o ponto de vista das mulheres", para falar por todas as outras mulheres e definir quem elas são” (Anderson, 2011, s/p).

Ante o exposto, fica claro que dentro desta abordagem a idéia de privilégio epistêmico não se sustenta. Para além disso, no pós-modernismo feminista a situação epistêmica contemporânea caracteriza-se por uma pluralidade discursiva e, portanto, pela parcialidade[4]. Aqui, diferentemente das outras abordagens, há um abandono da idéia de objetividade e mesmo de verdade: não é possível ao sujeito cognoscente transcender a sua situação, tampouco arvorar para si uma visão de “lugar nenhum”.
É no nível metateórico que as filosofias pós-modernas do conhecimento podem contribuir para um auto-entendimento mais preciso da natureza de nossa teorização. Não podemos simultaneamente afirmar (1) que a mente, o eu e o conhecimento são socialmente constituídos e o que podemos saber depende de nossos contextos e práticas sociais e (2) que a teoria feminista pode revelar a Verdade do todo de uma vez por todas. Tal verdade absoluta (por exemplo, a explicação de todos os arranjos de gênero em todos os tempos é x...) requereria a existência de um “ponto de Arquimedes” fora da totalidade e além de nossa inserção nela, a partir da qual poderíamos ver (e representar essa totalidade). O objeto visto (totalidade social ou arranjo de gênero) teria de ser apreendido por uma mente vazia (a-histórica) e perfeitamente transcrita por/em uma linguagem transparente (Flax, 1991, p.235).
No bojo do feminismo pós-moderno, portanto, a tarefa principal das teóricas feministas é pensar sobre como pensamos, ou não pensamos, a respeito do gênero. E essa tarefa deve ser feita de modo que articule as perspectivas dos mundos sociais a que pertencem os sujeitos cognoscentes, fazendo-os pensar sobre: a repercussão desse pertencimento em sua produção, as relações de poder que podem estar subjacentes às suas interpretações destes mundos e em como é possível transformar essas realidades (Flax, 1991, p.246).

Contudo, os benefícios e/ou a necessidade dessa aliança entre as teorias feminista e pós-modernista não são ponto pacífico dentro da epistemologia feminista. Muitas são as críticas feitas a esse casamento e às reflexões epistemológicas que dele derivaram.

Para Benhabib (1995), uma das principais críticas dessa aliança teórica, se se considerar algumas das principais características dos pós-modernismos, seria o caso de nos perguntamos: feminismo ou pós-modernismo?

Segundo a autora, a proclamação das mortes do sujeito, da História[5] e da Metafísica[6] é o movimento que permite a articulação do pós-modernismo com feminismo, e, ao mesmo tempo, acarreta fortes obstáculos para que tal aliança seja bem-sucedida. Pois, alguns dos pressupostos subjacentes a esses funerais seriam incompatíveis com determinados pilares centrais à epistemologia e à teoria feminista, como a sua dimensão crítica e emancipatória.

Discorreremos com mais vagar sobre a morte do sujeito, que, segundo nossa leitura de Benhabib, é o elemento de intersecção entre os funerais e traz as conseqüências mais impactantes para uma possível articulação entre feminismo e pós-modernismo.

Ao afirmar que o sujeito está morto, deseja-se pôr fim ao essencialismo presente em algumas concepções de ser humano. Para os pós-modernistas, de modo geral, interessa destacar que este sujeito é uma construção histórica, social e lingüística. “O homem está sempre atrelado a redes de significados fictícios, a cadeias de significação, nas quais o sujeito é meramente outra posição na linguagem” (Flax apud Benhabib, 1995, p. 18).

No âmbito do pensamento feminista, essa tese reverberou em uma busca por desmistificar o sujeito masculino da razão. Isto implicou, em suma, apontar que o sujeito cognoscente é situado por vários elementos, entre eles o gênero. A razão ocidental arvora para si o posto de discurso de um sujeito universal, encobrindo a existência daqueles que não se encaixam em suas categorias (Benhabib, 1995, p. 19).

Vejamos os problemas que podem surgir de interpretações mais radicais, que Benhabib chama de fortes, dessas afirmações. Ao considerar o sujeito como posição na linguagem, o pós-modernismo dissolveria o agente numa cadeia de significados, retirando-lhe a reflexividade, a intencionalidade, em suma, a autonomia.
O sujeito, que não é senão outra posição na linguagem, não pode mais dominar e criar essa distância entre si mesmo e a cadeia de significações, em que está imerso, para que possa refletir sobre ela e criativamente alterá-las. Portanto, a tese forte da morte do sujeito não é compatível com os objetivos do feminismo” (Benhabib, 1995, p.20).
Nesse sentido, a questão central na crítica à aliança do feminismo com o pós-modernismo diz respeito à impossibilidade de conciliar ideais emancipatórios com uma concepção de sujeito que é incapaz de se distanciar e refletir criticamente sobre seu contexto com o intuito de modificá-lo.

Afora isso, o enfoque na fragmentação e na diferença em sua crítica à categoria mulher, quando radicalizado, inviabiliza tanto uma análise acurada das relações de gênero (é impossível manter todos os eixos de diferença em foco de uma só vez), quanto a construção de uma coalizão politicamente eficaz entre mulheres com diferentes identidades. “Que as mulheres em diferentes posições sociais podem experimentar o sexismo de maneira diferente, não implica que elas não tenham nada em comum, elas ainda sofrem com o sexismo” (MacKinnon, 2000 apud Anderson, 2011, s/p).

Conclusão

De um modo geral, a principal crítica dirigida às correntes da epistemologia feminista é a de que aquelas corrompem a busca pela verdade, pois misturam fatos e valores. Isso, para os seus críticos, poderia acarretar restrições políticas às conclusões de suas pesquisas.

Além disso, alguns críticos acusam as epistemólogas feministas de cinismo a respeito da ciência, como se suas críticas ao modo como a ciência tem sido pensada e produzida deslegitimasse sua fala nesse campo. Ou pior, como se, com suas críticas, as feministas apenas quisessem entrar no campo científico e impor suas crenças, mas não modificar as regras e paradigmas até então hegemônicos nesta seara.

As epistemólogas feministas refutam tais críticas, afirmando que a sua autoridade cognitiva repousa sobre bases democráticas e igualitárias e, portanto, sobre uma atitude aberta à crítica que é incompatível com esse tipo de manipulação dos resultados. Some-se a isso, o fato de que os debates feitos por suas diversas vertentes lançam questionamentos ao modelo tradicional de ciência, que deixam claro o quão inadequada é uma leitura cínica de tais afirmações.

Por fim, o conceito de conhecimento situado desacredita a possibilidade de uma separação total entre fato e valor em qualquer tipo de pesquisa científica. E, portanto, a mesma acusação feita às pesquisadoras mulheres, pode ser feita aos pesquisadores homens (falando apenas do gênero como um dos inúmeros elementos que situam a produção do conhecimento).

Notas

[1] Alguns teóricos defendem a existência de estilos cognitivos diferentes para sexos e gêneros diferentes (Belenky et al 1986; Gilligan, 1982 apud Anderson, 2011). Independente de concordarmos ou não com isso, sabemos que estilos cognitivos, frequentemente, são simbolizados por meio de metáforas e associações com o gênero. Os elementos dedutivos, analíticos, atomísticos, acontextuais e quantitativos são rotulados como "masculinos", enquanto os elementos intuitivos, sintéticos, holísticos, contextuais e qualitativos são rotulados como "femininos" (Anderson, 2011, s/p).

[2] A teoria feminista define uma representação como androcêntrica quando esta descreve o mundo de acordo com os interesses, valores, emoções do gênero masculino apenas (Anderson, 2011, s/p).

[3] Anderson (2011, s/p) afirma, ao discutir as críticas sofridas pelo empirismo feminista, que o debate sobre conhecedor situado já foi incorporado a esta tradição.

[4] “Eu acredito, pelo contrário, que não há força ou realidade “fora” de nossas relações sociais e atividades (por ex. história, razão, ciência, alguma essência transcendental) que nos livrará da parcialidade e diferenças. (...) as teorias feministas, como outras formas de pós-modernismo, deviam nos estimular a tolerar e interpretar a ambivalência, a ambigüidade e a multiplicidade, bem como a expor a origens de nossas necessidades de impor ordem e estrutura, não importa quão arbitrária e opressivas essas necessidades possam ser” (Flax, 1991, p.250).

[5] A História, tal como pensada até então, é vista como precondição para e justificação da visão do sujeito cognoscente universal. Ainda mais, quando atrelada ao conceito de progresso. Essa concepção de História estaria fundada em idéias como unidade, homogeneidade, totalidade e fechamento. Essa crítica no âmbito do pensamento feminista foi incorporada de forma a destacar que o sujeito da História é o homem, branco, chefe de família, proprietário e cristão. Portanto, a História como narrada até o presente resumir-se-ia à sua estória, excluindo a todos os seus Outros (Benhabib, 1995).

[6] Funda-se na crítica a uma metafísica da presença. Os pós-modernistas afirmam que a busca por conhecer o real e o verdadeiro, na verdade, esconde o desejo dos filósofos ocidentais de dominar e controlar o mundo, encerrando-o em um sistema total. A versão feminista desta crítica é conhecida como o ceticismo feminista com relação às reivindicações da razão transcendental. Ou seja, se o sujeito da razão não é um ser supra-histórico, sua produção teórica, suas práticas e etc. estão imbuídas de interesses e marcadas, por assim dizer, pelas relações de gênero (Benhabib, 1995).

Referências Bibliográficas

Anderson, Elizabeth. Feminist Epistemology and Philosophy of Science. In The Stanford Encyclopedia of Philosophy. 2011. Disponível em: http://plato.stanford.edu/entries/feminism-epistemology/
Beauvoir, Simone. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. Vol. I. São Paulo: Difusão Européia do livro, 1970.
Benhabib, Seyla. Feminism and Postmodernism: an uneasy alliance. In Feminist Contentions: a philosophical exchange. Nova York e Londres: Routledge, 1995.
Code, Lorraine. Feminist Interpretations of Hans-Georg Gadamer. Pennsylvania: The Pennsylvania State Press, 2003.  
Flax, Jane. Pós-Modernismo e Relações de Gênero na Teoria Feminista. In Pós-Modernismo e Política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
Hamlin, Cynthia Lins. Ontologia e Gênero: Realismo e o método das explicações contrastivas. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol.23, Nº 67, 2008, pp. 71-81.
__________________. Realismo, Feminismo e a Negatividade da experiência Hermenêutica. 2009. Disponível em: http://www.quecazzo.blogspot.com/2009/06/realismo-feminismo-e-negatividade-na_30.html
___________________. O que é Epistemologia Feminista?. 2007. Disponível em: http://www.quecazzo.blogspot.com/2007/09/o-que-epistemologia-feminista.html
Harding, Sandra. Gender and Science: two problematic concepts. The Science Question in Feminism. Ithaca e Londres: Cornell University Press, 1986.

sábado, 22 de outubro de 2011

O Manifesto Slow Science


Somos cientistas. Não blogamos nem tuitamos. Não temos pressa.

Sem mal entendidos. Somos a favor da ciência acelerada do início do século XXI. Somos a favor do fluxo interminável de revistas com pareceristas anônimos e seu fator de impacto; gostamos de blogs de ciência e mídia, e entendemos as necessidades que relações públicas impõem. Somos a favor da crescente especialização e diversificação em todas as disciplinas. Queremos pesquisas que tragam saúde e prosperidade no futuro. Estamos todos neste barco juntos.

Acreditamos, entretanto, que isto não basta. A ciência precisa de tempo para pensar. A ciência precisa de tempo para ler, e tempo para fracassar. A ciência nem sempre sabe onde ela se encontra neste exato momento. A ciência desenvolve-se de forma instável, através de movimentos bruscos e saltos imprevisíveis à frente.  Ao mesmo tempo, contudo, ela muitas vezes emerge lentamente, e para isso é preciso que haja estímulo e reconhecimento.

Durante séculos, slow science foi praticamente a única ciência concebível; para nós, ela merece ser recuperada e protegida. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo de que eles necessitam, e os cientistas precisam ter calma.

Sim, nós precisamos de tempo para pensar. Sim, nós precisamos de tempo para digerir. Sim, nós precisamos de tempo para nos desentender, sobretudo quando fomentamos o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Não, nem sempre conseguimos explicar a vocês o que é a nossa ciência, para o que ela servirá, simplesmente porque nós não sabemos ainda. A ciência precisa de tempo.

– Tenham paciência conosco, enquanto pensamos.

(tradução de José Eisenberg; revisão Antonio Engelke)

[original: http://slow-science.org - (c) The Slow Science Academy, 2010]
[cópia: http://revistapittacos.org/- Revista Pittacos: Revista de Cultura e Humanidades]

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mulheres, negros e outros monstros: um ensaio sobre corpos não-civilizados


Trailer do filme A Vênus Negra, de Abdellatif Kechiche

Por Jonatas Ferreira e Cynthia Hamlin
Publicado em Rev. Estud. Fem. vol.18 no.3 Florianópolis set./dez. 2010


RESUMO

A dinâmica ocidental de civilização implica uma relação tensa entre corpo e mente, cultura e natureza, civilização e barbarismo. No ensaio que se segue, exploramos a construção deste último dualismo ao investigarmos os espaços nos quais certos corpos são definidos como monstruosos. Em particular, estamos interessados na constituição de uma visão científica de diferenças raciais, sua especificidade em relação à percepção medieval do lugar da alteridade, seu papel em legitimar a circulação de corpos 'monstruosos' como mercadorias e sua reivindicação de desvendar uma hierarquia objetiva de raças e gênero. De Lavater a Curvier, a classificação das espécies oferece um modelo hierárquico que será apropriado pelos discursos de raça e gênero na biologia. Nesse contexto, um caso pode ser considerado paradigmático: a 'Vênus Hotentote'. Argumentamos que a negociação política do status ontológico de Sara Baartman, durante os séculos XIX e XX, representa precisamente tal esforço para estabelecer as fronteiras de civilidade mediante a circulação e a exclusão de corpos incivilizados.

Palavras-Chave: mulheres; corpos negros; teratologia; ciência.
"O basilisco [monstro em forma de serpente] é capaz de fulminar o homem pelo olhar porque, ao vê-lo [...] põe em movimento pelo corpo um terrível veneno que, lançado pelos olhos, impregna a atmosfera com sua substância mortífera [...] Mas quando é o homem que vai ao encontro da fera guarnecido de espelhos [...] o resultado é diverso: o monstro, vendo-se refletido nos espelhos, lança seu veneno contra o seu próprio reflexo: o veneno é repelido, retorna sobre ele e o mata."
(Malleus Maleficarum: o martelo das feiticeiras - Heinrich KRAMER e James SPRENGER, 1991, p. 73)

Introdução

Na história do pensamento ocidental, mulheres, negros e monstros têm algo em comum: uma suposta proximidade com a natureza que configura a essência liminar de sua humanidade. Segundo tal forma de pensar, um espaço de civilização que se contraponha a essa proximidade deve ser forjado - um espaço em que, da segurança do mundo da cultura, seja possível objetivar e controlar esses seres fronteiriços. De fato, a constituição de um discurso civilizador abre-se em oposições fundamentadas na identificação de um hiato entre natureza e cultura: corpo versus mente, prazer versus razão, forma versus essência, matéria versus ideia etc. Assim, é comum que o discurso civilizador constitua as seguintes alternativas polares: a natureza alimenta, nutre e constitui nosso lugar dentro da existência; ao mesmo tempo, corrompe essa existência, sepulta-a, impõe-se ao homem civilizado como poder incontrolável, caótico, apavorante. A natureza é simultaneamente fecundidade e luto.

É importante considerar que o discurso civilizador não se estrutura exclusivamente em um dos polos dessa oposição, mas na arquitetura que coloca tais alternativas como algo inquestionável. Na prática, porém, tal discurso precisa excluir incluindo e incluir o outro sob o estigma da exclusão. É, portanto, da própria ambiguidade que deriva sua força, embora, paradoxalmente, seja tanto mais forte quanto menos ambíguo se mostre. É a constituição desses lugares que será investigado aqui. Em linhas gerais, nosso propósito é demonstrar como a ambiguidade diante da alteridade foi objeto de negociações distintas ao longo da história do Ocidente. Em particular, interessa-nos o modo como a constituição da sociedade moderna e de um discurso científico resultou em imagens monstruosas de alteridade, na produção discursiva de corpos considerados exóticos e, no limite, abjetos.

Inicialmente, consideraremos os elementos ambíguos que marcaram as representações culturais da mulher e do negro e que possibilitam sua caracterização como um/a Outro/ a monstruoso/a. Argumentaremos que o monstruoso aparece como o lugar da alteridade por excelência, um lugar que marca a fronteira entre criação e corrupção, ordem e caos, civilização e barbárie. Na sociedade medieval, em que a circulação dos corpos era restrita pela sua própria lógica econômica (o mercado tinha uma importância restrita, local),o monstruoso sempre esteve associado à ideia de circulação imprópria. Numa sociedade que se moderniza, a partir do comércio, da circulação de corpos e mercadorias, uma outra lógica civilizadora teve que ser concebida. Nesse sentido, argumentamos que o surgimento de um sistema de classificação taxonômico representou um primeiro passo legitimador do aumento da circulação de corpos e objetos transformados em mercadoria com o processo de expansão capitalista. Esse sistema de classificação, que constitui a baseda ciência moderna, representa uma ruptura. Para usarmos uma distinção semelhante àquela que Michel Foucault faz com respeito à loucura, diríamos que o monstruoso deixa de ser concebido, primordialmente, como objeto de julgamento moral e passa a ser explicado pela biologia. Distintamente do argumento foucaultiano, acreditamos que o elemento moralizante continuou claramente vivo, subjacente à explicação científica. Essa nova concepção do monstruoso, na exata medida em que se pretende científica, busca ocultar sua matriz valorativa, concebendo esses seres como espécimes naturais. A suposta isenção daquilo que se considera 'natural' é o ponto a partir do qual se essencializa uma explicação histórica e política. Tal naturalização é o equivalente moderno do ritual de exorcismo descrito no Martelo das feiticeiras: ao promover hierarquias raciais e de gênero e localizar o/a Outro/a do civilizado na base dessas hierarquias, a reflexão científica busca, ao mesmo tempo, neutralizar seus poderes, funcionando como o espelho que reflete a mirada do monstro sobre si mesmo. É justamente quando se percebe que esse olhar não é axiologicamente neutro que esse/a Outro/a monstruoso/a surge como um problema real cuja emergência e efeitos precisam ser explicados.

A fim de ilustrar nossos argumentos, efetuaremos um estudo de caso referente a Sara Baartman, mais conhecida como Vênus Hotentote. Baartman nos interessa porque representa uma convergência importante entre os principais pontos levantados aqui. Em primeiro lugar, além de mulher, é negra. Em segundo lugar, representa um caso extremo de constituição de identidade a partir do olhar do outro. Privada de sua própria voz e da perspectiva cultural de seu povo, sua identidade pessoal foi inteiramente subsumida à sua identidade social, fazendo dela uma espécie de significante vazio que reflete os valores dos grupos que a constituem como um tipo específico de sujeito. Por fim, ao ser submetida a três tipos de olhares distintos - a selvagem perigosa e amoral; o negro como raça biologicamente distinta e a heroína dos modernos movimentos sociais - a circulação de seu corpo, desde o século XIX, tem garantido a manutenção da lógica civilizatória europeia.

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