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sábado, 13 de outubro de 2007

A Aplicação do Método Hipotético-Dedutivo de Karl Popper às Ciências Sociais


Karl Popper, em 1939, aos 37 anos.

Embora a maioria dos estudantes de ciências sociais tenda a concordar que uma base metodológica sólida pode ajudar na compreensão de uma série de elementos relacionados à sua área, especialmente no que diz respeito à teoria social, grande parte acha a metodologia excessivamente abstrata e se pergunta como ela pode ser aplicada. A fim de ilustrar esta questão, apresentarei aqui algumas das principais idéias de Karl Popper, mostrando como sua concepção de conhecimento científico gera uma noção específica de sociedade (uma ontologia social), assim como da forma considerada adequada para explicá-la. Isto é um exercício interessante, especialmente porque Popper é um daqueles autores, a que me referi num post anterior, que acredita que as questões ontológicas são muito abstratas e não levam a lugar algum.

Do ponto de vista das ciências sociais, Popper defende uma perspectiva que se conhece como individualismo metodológico, isto é, que o método mais adequado para se explicar os fenômenos sociais é por meio das ações dos indivíduos que compõem um determinado sistema social. Embora ele (assim como outros individualistas metodológicos) insista que isto seja uma posição estritamente metodológica, e não ontológica, não é difícil perceber que este não é o caso. De fato, Popper tenta diferenciar seu individualismo metodológico de atomismo (ou a visão segundo a qual o mundo deve ser explicado a partir de seus elementos mais básicos, singulares) ao propor que os indivíduos (átomos da análise social, na linguagem de Weber), devem ser considerados a partir de sua inserção em seu ambiente social. Em outros termos, seu individualismo metodológico dá origem a um tipo específico de explicação, a “análise situacional”, segundo a qual os indivíduos não são átomos isolados, mas fazem parte de um contexto que deve ser considerado, caso se pretenda entender o que se passa em suas mentes e porque eles agem de uma forma e não de outra.

A análise situacional defendida por Popper deriva diretamente de sua tese da unidade do método científico, isto é, da visão de que o método hipotético-dedutivo é o único método adequado para se construir teorias científicas. Como o meu objetivo aqui não é o de descrever detalhadamente a filosofia da ciência de Popper, mas apenas estabelecer as bases de sua análise situacional, limitar-me-ei à introdução de alguns temas relativos ao método hipotético-dedutivo que permitam compreender a relação entre sua metodologia e o desenvolvimento de um modelo de explicação para as ciências sociais.

Grosso modo, o método defendido por Popper estabelece que as teorias científicas não são verdades comprovadas e definitivas, mas explicações tentativas (hipotéticas ou conjecturais) que podem ser consideradas mais ou menos plausíveis. Ao contrário do que afirmavam os empiristas lógicos do Círculo de Viena, as hipóteses e teorias científicas não poderiam ser verificadas porque, para Popper, não é possível um conhecimento por indução a partir da repetição de observações singulares. (A verificação pressupõe a observação de casos singulares e a indução desses casos singulares para casos mais gerais, como as leis). Ao contrário do argumento indutivo defendido pelos empiristas, Popper alinha-se com os racionalistas ao afirmar que a mente humana tem disposições inatas que são modificadas ao longo do tempo – e aquelas disposições para o conhecimento que não são inatas ou modificações posteriores daquelas que o são, derivam de um conhecimento objetivo, baseado na racionalidade, e não em experiências “impressas” na mente enquanto tais. Para Popper, as experiências são sempre, em alguma medida, selecionadas, interpretadas e modificadas (cf. Popper, Karl (1994). Knowledge and the Body/Mind Problem: In Defence of Interaction. Londres e Nova York: Routledge).

A distinção popperiana entre dedutivismo e indutivismo coincide em grande medida com a distinção clássica entre racionalismo e empirismo: enquanto o empirismo baseia-se na idéia de que a ciência procede por meio da coleção de observações singulares que são depois indutivamente generalizadas, o racionalismo apóia-se na noção de que existem alguns princípios auto-evidentes, baseados na razão, de acordo com os quais é possível deduzir certas proposições acerca do mundo. Mas o racionalismo de Popper assume um sabor bastante específico. Por um lado, deve ser distinguido da idéia de Kant de que esses princípios auto-evidentes são sintéticos e a priori: eles são, ao contrário, conjecturas ou hipóteses. Por outro lado, essas conjecturas ou hipóteses não são meros instrumentos ou definições que não podem ser submetidas a teste empírico. Nas palavras do próprio Popper, “elas são, portanto, sintéticas (e não analíticas); empíricas (e não a priori); informativas (e não puramente instrumentais)” (Popper, Karl (1960). The Poverty of Historicism. Londres: Routledge, p. 132).

É a possibilidade de se testar essas hipóteses que garante a possibilidade de se afirmar a realidade dos objetos da ciência. Em outros termos, quando as hipóteses não são falsificadas, elas provavelmente não podem ser reduzidas a meros instrumentos ou definições, mas dizem algo a respeito do mundo (seu caráter informativo). Esta é uma das diferenças fundamentais em relação a Thomas Kuhn, para quem as teorias e as hipóteses científicas seriam “instrumentos úteis”. Mas Popper não é um realista ingênuo, que acredita em uma correspondência direta entre conceito e realidade (ou entre teoria e realidade). De fato, ele combina seu realismo (científico) com a tese nominalista segundo a qual as hipóteses não descrevem a essência das coisas. Hipóteses ou teorias são modelos que podem ser falsificados, não podendo ser confundidas com objetos concretos. Isto gera a visão segundo a qual as teorias científicas podem ser verdadeiras ou falsas (ou, pelo menos, almejar à verdade), mas os termos teóricos que elas pressupõem não se referem a qualquer coisa realmente existente. Isto porque “mesmo proposições singulares são sempre interpretações dos ‘fatos’ à luz das teorias” (Popper, Karl (1968) The Logic of Scientific Discovery. Londres: Hutchinson, p 493; ênfases do autor). Isto é outra forma de dizer que todo termo teórico, todo “fato” (supostamente singular) descrito pela ciência contém universais. Esses universais são termos disposicionais, isto é, termos ou palavras que caracterizam o comportamento nórmico (em forma de leis) de determinadas coisas.

Neste sentido, para Popper, tanto as proposições universais (as leis científicas) quanto as proposições singulares (observações de fatos particulares) transcendem a experiência – o que desqualifica o empirismo e a indução como formas seguras de conhecimento. Por outro lado, Popper defende a idéia de que quanto mais abstrato o termo disposicional envolvido em um conceito teórico, mais ele transcende a experiência. A experiência não é algo que Popper deseje abandonar de todo, daí a regra nominalista de se reduzir termos abstratos a termos mais concretos. Para ele, quanto menos abstrato o conceito, menor o grau de universalidade de suas disposições (Ibid: 425). Quanto menos universal, mais informativo e, portanto, mais “próximo” da realidade. É esta combinação particular de realismo e nominalismo que tornará possível estabelecer as condições do conhecimento objetivo, por um lado, e o desenvolvimento de seu modelo de explicação com base no individualismo metodológico, por outro.

(continua)

Cynthia Hamlin

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O que é Metodologia (III)

A metodologia não se interessa apenas pelas concepções de realidade social (a ontologia social), mas também pela forma como esta realidade é conceituada (em parte, o papel da teoria) e como pode ser conhecida (papel da epistemologia). Como nem sempre os cientistas sociais têm uma ontologia explícita ou mesmo num nível consciente, reflexões teóricas e epistemológicas podem ajudar a esclarecer pressupostos ontológicos. Na verdade, é muito freqüente a negação de uma dimensão ontológica por parte de alguns autores. Muitos chegam a afirmar que as questões ontológicas são muito “abstratas” e não levam a lugar algum: é como se os que se preocupassem com isso estivessem no meio de uma luta quixotesca contra quimeras. Em casos como este, a ontologia deve ser inferida, em grande medida, de posições teóricas e epistemológicas.


Se a ontologia tem como questão principal “o que é isso?”, a epistemologia procura responder a pergunta “como posso conhecer isso?”. O problema é que para responder a segunda pergunta, o pesquisador deve ter alguma concepção, por minimalista que seja, do que é a realidade que busca conhecer. Assim, por ex., uma epistemologia empiricista radical, que defende que a verdade só pode ser alcançada por meio da observação empírica, tende a pressupor que a realidade consiste apenas de objetos observáveis, todo o resto sendo “apenas nomes”. Dado que tudo o que é observável são objetos singulares, atômicos, surge aí uma afinidade com uma ontologia nominalista nas ciências sociais. No outro lado do espectro (e existem muitas posições intermediárias), os racionalistas, ao defenderem que a razão é um caminho seguro para a construção do conhecimento, podem atribuir um status de realidade a coisas não observáveis, como essências (númenos) por trás de aparências (fenômenos), embora os autores difiram acerca da possibilidade de se conhecer essências – o que significa que uma ontologia semelhante pode vir acompanhada posições epistemológicas distintas. Neste sentido ainda que não exista uma relação mecânica e direta entre posições ontológicas e epistemológicas, algumas posições se excluem mutuamente, e qualquer autor que faça uso de proposições conflitantes mostrará essas contradições em sua teoria.
Cynthia Hamlin