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sábado, 22 de novembro de 2014

Roy Bhaskar (15 de maio de 1944 - 19 de novembro de 2014)



Por William Outhwaite (Professor na Universidade de Newcastle, Reino Unido). Traduzido por Cynthia Hamlin.

Roy Bhaskar, que faleceu aos 70 anos de causas associadas à insuficiência cardíaca, foi um dos filósofos mais criativos e versáteis dos últimos quarenta anos. Nascido em 1944, filho de pai indiano e de mãe inglesa, cresceu em Londres e estudou Filosofia, Política e Economia em Oxford, onde ensinou no Pembroke College e iniciou uma tese de doutorado em economia do desenvolvimento. Esse projeto transformou-se em uma crítica das ciências sociais, orientado pelo filósofo e psicólogo social Rom Harré. Socialista ativo, como sua parceira Hilary Wainwright, Bhaskar participou dos movimentos de 1968, incluindo o dos Estudantes Revolucionários Socialistas de Oxford (Oxford Revolutionary Socialist Students- ORSS). Depois de trabalhar em Edimburgo e em Sussex, trabalhou sobretudo de forma independente, ainda que com ligações acadêmicas em Tromso, Orebro e Londres. Ele também devotou muitos esforços ao estabelecimento e manutenção de um grande número de organizações ligadas ao realismo crítico.

Em 1975 lançou seu programa realista com A Realist Theory of Science, seguido, quatro anos mais tarde, de The Possibility of Naturalism. Embora o realismo filosófico tenha uma história muito mais antiga, foi nos anos de 1970 que ele começou a ter um impacto significativo nas ciências sociais, seguindo outros movimentos anti-positivistas na filosofia da ciência. Um dos princípios centrais do empirismo lógico era o “princípio da verificação”, a ideia de que o significado de uma proposição empírica depende de como ele pode ser testado. Karl Popper (1934) demonstrou a impossibilidade da verificação conclusiva na ciência e virou a questão de cabeça para baixo, argumentando que a testabilidade era melhor entendida em termos de falsificação. A proposição de que todos os cisnes são brancos nunca pode ser conclusivamente verificada, ao passo que pode ser falseada por meio de uma única observação de um cisne negro. As teorias científicas são expostas a testes, como Einstein tinha feito ao efetuar uma predição acerca da posição de Mercúrio que se mostrou correta em 1910. Na análise de Popper, isso não comprovou a teoria, apenas tornou-a mais verossímel, dado que havia passado um teste crucial. Como um carro que foi aprovado em uma inspeção anual, ela poderia ser considerada condicionalmente confiável até o próximo teste.

Esta abordagem influente foi colocada em questão pelo historiador da ciência Thomas Kuhn, que mostrou em 1962 que, na maior parte do tempo, os cientistas trabalham no seio de quadros de referência não questionados, ou em paradigmas, trocando de um para outro apenas em períodos de revolução científica, num processo semelhante à conversão religiosa. Ao mesmo tempo, na filosofia da ciência, Mary Hesse enfatizava a importância dos modelos em uma abordagem realista que também chamava atenção para o mapeamento meramente parcial entre as teorias e a realidade. Rom Harré desenvolveu esse foco nos modelos em uma importante análise da causação, concebida em termos de estruturas subjacentes e mecanismos, e não da conjunção constante entre eventos. A força centrífuga da rotação terrestre é equilibrada por sua gravidade, com a consequência conveniente de que nós podemos andar confortavelmente sobre a terra, assim como pular no ar cerca de um metro, se quisermos.

Ao chamar sua versão dessas ideias de realismo transcendental, Bhaskar pretendia não apenas diferenciá-la do realismo empírico, mas também enfatizar que estava se baseando em um argumento transcendental acerca da existência da ciência. A ciência não requer apenas experiências (Hume) e categorias estruturantes (Kant), mas também depende de que o próprio mundo consista de estruturas e mecanismos independentes que os cientistas procuram, de forma aberta e falível, apreender em pensamento. Tanto Harré quanto Bhaskar foram substancialmente motivados pelo desejo de solapar teorias e abordagens positivistas nas ciências sociais. Entretanto, eles também estavam interessados em fornecer uma concepção mais adequada da ciência como um todo, em um mundo composto de mecanismos e estruturas relativamente duráveis. Alguns desses mecanismos podiam ser isolados na experimentação científica, mas sua operação é, na maioria dos casos, independente do fato acidental de que os seres humanos surgiram na terra e, eventualmente, passaram a fazer ciência.

Essa e outras características do realismo significaram que toda a questão do naturalismo, a ideia de que não há uma separação radical entre as ciências naturais e sociais, deveria ser repensada. Os seres humanos, como outras entidades, apresentam poderes causais e propriedades que podem ou não ser ativadas. O “modelo transformacional da atividade social” de Bhaskar é próximo à teoria da estruturação desenvolvida por Anthony Giddens mais ou menos à mesma época. Na versão de Bhaskar, ele levou a um modelo de crítica social segundo o qual a crítica de teorias inadequadas leva à crítica das condições sociais que as faz parecer plausíveis. O realismo encontrou um lar mais confortável na sociologia e nas relações internacionais do que na filosofia da ciência acadêmica, tornando-se uma vertente importante na teoria social contemporânea. Bhaskar e outros realistas paulatinamente voltaram sua atenção crítica do positivismo em direção ao pós-modernismo e à abordagem mais relativista do filósofo estadunidense Richard Rorty.

O trabalho de Bhaskar continuou ao longo dos anos de 1990 com um livro importante sobre dialética e, neste século, com uma “virada espiritual” em direção a uma teoria mais especulativa da metarrealidade. Seus estudos mais recentes, desenvolvidos na posição de “World Scholar” do Instituto de Educação em Londres, focaram questões ecológicas e a crise climática global. Numa época em que boa parte da filosofia vem se tornando cada vez mais técnica e introvertida, Bhaskar destacou-se por sua curiosidade infindável e por sua abertura a novas ideias. Ele combinava seu brilhantismo com um espírito afetuoso e um grande senso de humor.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Positivismo, Positivismos: da tradição francesa ao positivismo instrumental (parte 2)

Paul Lazarsfeld

Por Tulio Velho Barreto (Pesquisador, Fundação Joaquim Nabuco). Artigo originalmente publicado em Estudos de Sociologia 4(2). Recife, Ed. Universitária, p 7-31, 1998. Cedido ao Cazzo pelo autor. 


Os "Positivismos" do Círculo de Viena, de Popper e de Lazarsfeld

Assim como Halfpenny aponta para uma série de significados que o termo "positivismo" foi adquirindo a partir de Comte, o que amplia a polêmica sobre o seu uso, Giddens (op. cit.:317-19) acentua que o uso indiscriminado do conceito fez com que ele passasse a ter, inclusive, uma conotação pejorativa. Daí, ressalta Giddens, a importância de estudá-lo a partir da filosofia para traçar sua influência sobre as ciências sociais.

Para ele, tal influência se deu (a) de forma restrita ou específica, relativamente àqueles que se consideram positivistas; neste caso, há duas fases de desenvolvimento do positivismo, que guardam semelhanças e diferenças entre si: uma no campo da teoria social (a filosofia positiva, de Comte); e outra, na epistemologia (o positivismo lógico do Círculo de Viena); (b) de forma mais geral, ampla e difusamente, para "os filósofos que adotaram a maioria de uma série, ou toda a série, de [certas] perspectivas interligadas", tais como: "o fenomenalismo [...]; a representação da filosofia como método de análise [...]; a dualidade do fato e valor [...]; e a noção de ‘unidade da Ciência’[...]" (op. cit.:317-18).

Mas, como afirma Giddens, a influência de Comte sobre pensadores deste século foi possibilitada por Durkheim e sua obra, apesar das críticas que este fazia àquele. A despeito disso, é inegável que "o legado de Comte paira sobretudo no esquema metodológico da Sociologia que Durkheim elaborou" (op. cit.:325). E apesar de não considerar a obra de Durkheim mera extensão dos trabalhos de Comte, ele entende que

“os escritos de Durkheim tiveram maior influência do que os de qualquer outro autor na ciência social acadêmica, para a difusão da ‘Sociologia Positivista’ [...]. Através deles, o ‘positivismo’ de Comte teve uma influência importante sobre o desenvolvimento mais generalizado dessa Sociologia Positivista. Essa é uma linha que leva de Comte ao pensamento do século XX. A outra é menos direta, ligando Comte ao positivismo lógico do Círculo de Viena”. (op. cit.:327)

A ligação "menos indireta" a que se refere Giddens é a mediação operada pelo físico e fisiologista Ernest Mach entre o pensamento de Comte e os membros do Círculo.

Então, os aspectos do pensamento Comteano presentes em Mach, que permitem tal passagem, são, ainda segundo Giddens, os seguintes:

“1. A reconstituição da história como a realização do espírito positivo [...]. A fase positiva do pensamento não é transitória. 2. A dissolução final da metafísica, intimamente ligada à idéia da supressão da própria Filosofia [...]. As questões postuladas pela Filosofia metafísica são destituídas de conteúdo. 3. A existência de um limite claro e definível entre o factual, ou o ‘observável’, e o imaginário, ou ‘fictício’. [...] Comte adota o ponto de vista do empiricismo [...]. 4. O ‘relativismo’ do conhecimento humano. [...] A ciência [...] não pretende essências ou causas finais. O conhecimento científico não é nunca ‘acabado’, mas constantemente aberto à modificação e melhoria. 5. O laço integral entre a ciência e o progresso moral e material da humanidade”. (op. cit.:328)

"A concepção científica do mundo: O Círculo de Viena"

O positivismo lógico ou empiricismo lógico do Círculo de Viena (Moritz Schlick, um de seus mentores, preferia a segunda denominação) sofreu também grande influência de Wittgenstein, amplamente citado pela literatura a respeito, mas também de Bertrand Russel, além de algumas idéias difundidas então por importante físicos, notadamente Albert Einstein (Hegenberg, 1976:1-20; Giddens, op. cit.: 332-44).

O Manifesto do Círculo de Viena, de 1929, subscrito por Hans Hahn, Otto Neurath e Rudolf Carnap (1882-1970), foi concebido no âmbito da Sociedade Ernest Mach e destinava-se a divulgar a nova "concepção científica do mundo", onde "a rigorosa eliminação da metafísica do domínio do pensamento racional e o estabelecimento da ciência unificada por meio da redução lógica da ciência aos termos da experiência imediata foram anunciados" (Sauer, 1996:799-803; cf. também Pasquinelli, 1983:9-22, para uma análise mais detalhada do "manifesto vienense").

Com base no empirismo clássico, que deu origem ao positivismo segundo a tradição francesa, exposta na seção anterior, os membros do Círculo de Viena admitiam que o conhecimento factual resulta da observação e não a priori. Entretanto, "julgavam insatisfatória a concepção da matemática e da lógica como sistemas de proposições muito gerais, estabelecidas indutivamente a partir de fatos empíricos particulares" (in Schlick-Carnap:1983:X, "Vida e obra"). Por isso era particularmente importante, para os membros do Círculo, a idéia de Wittgenstein de que

“toda proposição significativa fornece alguma informação acerca do estado atual do mundo, na medida em que afirme a ocorrência de certos fatos atômicos e exclua a ocorrência de outros. O valor de verdade de uma proposição deve, pois, poder ser determinado a partir do conhecimento da ocorrência, ou não-ocorrência, dos fatos atômicos envolvidos. Imaginando-se uma linguagem capaz de exprimir cada fato atômico, toda proposição significativa poderia ser reduzida a uma combinação de proposições atômicas mediante funções de verdade, de modo a ficar o valor de verdade da proposição complexa univocamente determinada pelos valores de verdade das proposições atômicas componentes” (idem ).

Daí resultou o "princípio da verificabilidade", isto é, o significado de uma proposição está relacionado diretamente aos dados empíricos que resultam de sua observação e que, uma vez existentes, dão veracidade à proposição. Caso contrário, mostram que ela é falsa. Assim, toda proposição, que, a princípio, pode ser transformada em "enunciados protocolares", só tem significado se for verificada empiricamente. Da mesma forma, os membros do Círculo de Viena foram levados a defender a idéia de que é possível submeter as proposições matemáticas e lógicas ao "princípio empiricista". Entretanto, só a verificação empírica de tais proposições definirá se elas são providas de significado ou não, se são de fato proposições ou pseudoproposições. Isto é, são apenas proposições formais, desprovidas de significado e vazias de conteúdo, o que faria delas mais propriamente uma linguagem do que proposições acerca da realidade. Finalmente, eles estenderam à filosofia a crítica então formulada à metafísica, pois só teria valor científico o que pudesse ser verificado empiricamente (cf. Sauer, op. cit.; Hegenberg, op. cit.; in Schlick-Carnap, op. cit.). Vê-se logo a importância que a lingüística teve para os empiricistas lógicos na formulação de suas concepções acerca do método científico.

Os princípios acima correspondem à fase mais "radical" do Círculo de Viena, posteriormente abrandada, isto é, tomando uma feição mais liberal, em especial com Carnap. Ocorre que tais princípios levaram a um impasse com relação, por exemplo, às leis naturais que não podem ser plena e definitivamente verificadas. Para resolvê-lo, Schlick propôs que as leis naturais fossem tomadas não como proposições mas como regras das quais pudessem ser deduzidas proposições, ficando assim, portanto, passíveis de verificação. Contudo, essa formulação sofreu resistência de Carnap, que argumentava que, mesmo tais proposições, não poderiam ser submetidos ao "princípio de verificação". Como conseqüência, Carnap deu nova forma ao princípio concebendo as idéias ou noções de "confirmabilidade" e "testabilidade" a fim de concluir se uma proposição teria significado ou não. Assim, em vez de verificar se determinada proposição tinha comprovação empírica ou não, Carnap passou a defender a verificação de certo grau de confirmabilidade daquela segundo dados empiricamente observados. Quanto à testabilidade, Carnap estava preocupado em saber em que grau uma proposição poderia ser submetida à confirmação ou não. Em síntese, de seu modelo apreende-se que uma proposição pode ser testável completamente, testável apenas parcialmente, confirmada parcialmente ou confirmada por completo, que corresponderia à verificabilidade da proposição (Carnap, 1983:171-219; cf. também Sauer, op. cit.; Hegenberg, op. cit.; "Vida e obra" in Schlick e Carnap, op. cit).

O "positivismo" de Karl Popper

Apesar de não fazer parte do Círculo de Viena, Karl Popper (1902-1994) tinha relação muito próxima com os seus membros, sendo, inclusive, alguns de seus trabalhos discutidos ali. Contudo, isso não o impediu de expressar suas críticas ao positivismo lógico. Giddens (op. cit.:344-49), mas não só ele, identifica diferenças e semelhanças entres eles:

“[A filosofia de Popper] derivava dos esforços que ele fazia para distinguir a pseudociência  o marxismo [daí sua crítica ao materialismo histórico ou historicismo de Marx], a astrologia ou a psicologia freudiana  da ciência verdadeira, como a teoria da relatividade de Einstein. A última, decidiu Popper, era testável; fazia previsões sobre o mundo que podiam ser empiricamente checadas. Era o que os positivistas tinham afirmado. Mas Popper negava a afirmação positivista de que os cientistas podem provar uma teoria por indução [como queria, por exemplo, Carnap com sua lógica indutiva] ou por testes empíricos ou observações sucessivas. Nunca se sabe se as observações foram suficientes; a observação seguinte pode contradizer tudo o que a precedeu. As observações nunca são capazes de provar uma teoria; só podem provar a sua inverdade ou refutá-la. Popper costumava se vangloriar de ter ‘matado’ o positivismo lógico com essa argumentação” (Horgan, 1998:50).

Para Giddens, as diferenças entre o "positivismo" de Popper e o positivismo lógico, no caso de Popper, o termo é usado entre aspas porque, dentre outras razões, Popper não se considerava positivista, e seu "princípio da refutação", como veremos mais adiante, é prova empírica não da verificação da hipótese, ao estilo dos empiricistas lógicos, mas de sua aceitação, ainda que parcial ou momentânea, até que novos testes sejam operados  as diferenças, repito, podem ser resumidas da seguinte maneira:

“[1] sua rejeição total da indução e sua rejeição concomitante da certeza ‘sensória’, [...] manifesta como fenomenalismo ou fisicalismo; [2] sua substituição da verificação pela refutação, com a correspondente ênfase na ousadia e engenhosidade na formulação de hipóteses científicas; [3] sua defesa da tradição que, em conjunto com a operação do espírito crítico, é fundamental para a ciência; e [5] sua substituição da ambição da lógica positivista de colocar um fim na metafísica, revelando-a como um absurdo, com o objetivo de assegurar critérios de demarcação entre ciência e pseudociência”. (op. cit:345)

Da mesma forma, Baudouin (1992:30-1) aponta que, além de contestar o "indutivismo", Popper insurgiu-se contra "a eliminação da metafísica do processo de conhecimento, reafirmando o papel que esta pode desempenhar na formulação das conjecturas ou na construção das teorias". Assim, para Baudouin, a Lógica da Descoberta Científica nada mais foi do que uma réplica às teses centrais dos positivistas lógicos de Viena.

Mas, há semelhanças. Por exemplo, Popper tem a mesma posição dos positivistas lógicos quanto ao fato de o conhecimento científico ser "o mais seguro e fidedigno" que podemos pretender. Da mesma forma, Popper procurou incessantemente demarcar de maneira clara os limites entre a ciência e a pseudociência e, ao formular o "princípio da refutação", era cioso de que as teorias e constatações científicas podiam ser submetidas à prova empírica, condição necessária para serem refutadas ou não. (ibidem) Aqui, para efeito dos objetivos estabelecidos, cabe destacar o seu "princípio da refutação". É o que passo a fazer.

Em Lógica das Ciências Sociais, após apresentar cinco teses, e antes de continuar enumerando-as até a vigésima sétima, Popper, na de número seis, sua "principal tese", afirma o seguinte:

“a) O método das ciências sociais, como aquele das ciências naturais, consiste em experimentar possíveis soluções para certos problemas; os problemas com os quais iniciam-se nossas investigações e aqueles que surgem durante a investigação. As soluções são propostas e criticadas. Se uma solução proposta não está aberta a uma crítica pertinente, então é excluída como não científica, embora, talvez, apenas temporariamente.
b) Se a solução tentada está aberta a críticas pertinentes, então tentamos refutá-la; pois toda crítica consiste em tentativas de refutação.
c) Se uma solução tentada é refutada, através do nosso criticismo, fazemos outra tentativa.
d) Se ela resiste à crítica, aceitamo-la temporariamente; e a aceitamos, acima de tudo, como digna de ser discutida e criticada mais além.
e) Portanto, o método da ciência consiste em tentativas experimentais para resolver nossos problemas por conjecturas que são controladas por severas críticas. É um desenvolvimento crítico consistente do método de ‘ensaio e erro’.
f) A assim chamada objetividade da ciência repousa na objetividade do método crítico. Isto significa, acima de tudo, que nenhuma teoria está isenta do ataque da crítica; e mais ainda, que o instrumento principal da crítica lógica, a contradição lógica, é objetivo. (1978:15-6)

Das demais teses, que, como um todo, correspondem ao que o próprio denominava de "racionalismo crítico", apreende-se, dentre outras coisas, o critério para definir que o caráter científico de uma teoria está na possibilidade de validá-la, refutá-la e testá-la. Mas, também está presente, como já ressaltei, a rejeição ao dogmatismo, o marxismo, a psicanálise etc., e ao indutivismo.

Enfim, volto ao fato, já mencionado, de que Popper declara não ser positivista. Para ele, ser chamado de positivista "é um equívoco antigo, criado e perpetuado por aqueles que conhecem a minha obra somente de segunda mão [...]". Tal "equívoco" foi criado, segundo Popper, pela tolerância de alguns membros do Círculo de Viena que chegaram a publicar suas críticas ao positivismo lógico. Como ele mesmo afirma,

"uma última palavra a propósito do termo ‘positivismo’.Eu não nego, decerto, a possibilidade de estender o termo ‘positivista’ até que ele abranja todos os que tenham algum interesse pelas ciências naturais, de forma que venha a ser aplicado até aos adversários do positivismo, como eu próprio. Sustento apenas que tal procedimento não é nem honesto nem apto a esclarecer o assunto. [...] Eu sempre lutei contra a estreiteza das teorias ‘cientificistas’ do conhecimento e, especialmente, contra todas as formas de empirismo sensualista. Eu lutei contra a imitação das ciências naturais pelas ciências sociais e pelo ponto de vista de que a epistemologia positivista é inadequada até mesmo em sua analise das ciências naturais as quais, de fato, não são ‘generalizações cuidadosas da observação’, como se crê usualmente, mas são essencialmente especulativas e ousadas [...]. (op. cit.:47 e 48)

O "positivismo instrumental" de Paul Lazarsfeld

Mills (1982:30-1) chama a atenção para o fato de que, desde o início deste século, a despeito da forte influência de Comte e Spencer sobre a sociologia norte-americana, os estudos empíricos tornaram-se centrais naquele país, em parte, desconfia ele, por causa da tradição acadêmica da Economia e da Ciência Política, ali estabelecidas já há algum tempo. Aliado a isso, Mills considera que "os sociólogos têm a tendência de se tornarem especialistas na técnica de pesquisa de quase tudo: entre eles, os métodos se transformaram na Metodologia". E, continua Mills, "grande parte do trabalho - e dos ethos nele existente - [...] de Paul Lazarsfeld [dentre outros] são exemplos atuais. Essas tendências  de dispersar a atenção e cultivar o método pelo método - são dignas companheiras, embora não ocorram necessariamente juntas". Paul Lazarsfeld (1901-1976) faria parte, portanto, de uma escola que Mills denomina de "empirismo abstrato".

Bryant prefere usar o termo "positivismo instrumental" para designar esse mesmo tipo de pesquisa social empírica, bastante difundida nos Estados Unidos, que ele chega a considerar, até mesmo, a pesquisa social norte-americana característica. Ela seria instrumental na medida em que limita aquele tipo de investigação às perguntas que os instrumentos de pesquisa permitem; e seria positivista posto que esse constrangimento auto-imposto é indicativo de uma determinação por parte dos sociólogos, de se submeterem aos mesmos rigores que eles vêem nas ciências naturais (op. cit.:133). Mills, por sua vez, caracteriza assim o tipo de pesquisa entabulada pelos "empiristas abstratos":

“Os estudos reputados nesse estilo tendem hoje a se enquadrar, regularmente, numa configuração mais ou menos padronizada. Na prática a nova escola habitualmente toma como fonte básica de suas 'informações' a entrevista, mais ou menos formal, com séries de pessoas escolhidas por processo de amostragem. Suas respostas são classificadas e, por motivo de conveniência, transferidas para cartões Hollerith, em seguida usados para levantamentos estatísticos por meio dos quais se buscam relações. Sem dúvida, esse fato, e a conseqüente facilidade com que o processo é apreendido por qualquer pessoa medianamente inteligente, explica grande parte de sua atração”. (op. cit.:59)

Como o texto de Mills é de 1959, parte dos procedimentos indicados não são mais usados, pois o avanço no processamento de dados foi formidável - basta que se lembre aqui o surgimento de microcomputadores e os "pacotes estatísticos" do tipo SPSS. Entretanto, o que é relevante notar é que basta observar sua descrição, acima, para perceber que o livro de Mills é uma crítica contundente desse tipo de pesquisa social. Na verdade, A Imaginação Sociológica é uma obra, como ele mesmo explicita, em defesa das grandes formulações teóricas nas ciências sociais, obnubiladas pelas "pesquisas de grupos de técnicos". Assim, para ele, "o empirismo abstrato não é caracterizado por qualquer proposição ou teoria substantiva. Não se baseia em qualquer concepção nova da natureza da sociedade ou do homem, ou quaisquer fatos particulares com eles relacionados”. (op. cit.:64)

A despeito da posição de Mills, Bryant relaciona as cinco características que considera como principais do positivismo instrumental. São elas: "1. A preocupação com o refinamento das técnicas estatísticas e instrumentalização da pesquisa [...]. 2. O endosso do nominalismo ou concepção individualista da sociedade. [...] 3. A afinidade com a indução, verificacionismo e incrementalismo. [...] 4. A conexão de uma (falsa) dicotomia de fatos e valores com um falso juízo de value-freedom [isto é, neutralidade em relação a valores]. [...] 5. A proeminência de equipes de pesquisa e a multiplicação de centros ou instituições de pesquisas sociais aplicadas" (op. cit.:139-45).

Para Mills, por outro lado, "as características intelectuais do empirismo abstrato mais importante são a filosofia da ciência adotada [...], a forma pela qual a adotam, e como dela se utilizam". Isto é, eles parecem mais preocupados com a "filosofia da ciência", embora Lazarsfeld rejeitasse este termo, e com o método que empregam do que mesmo com os próprios estudos sociais que realizam. Finalmente, gostaria de explicitar algumas referência que Mills faz a Lazarsfeld e sua concepção da sociologia, e a defesa da adoção do empiricismo abstrato ou positivismo instrumental (ou simplesmente de sua concepção de filosofia da ciência). É Mills quem transcreve e crítica Lazarsfeld:

"A transição (das ‘filosofias sociais’ e ‘observador individual’ para a ‘ciência empírica plenamente organizada’) é habitualmente caracterizada por quatro fases no trabalho dos que se ocupam do assunto: 1. Há, primeiro, a transferência da ênfase, que passa da história das instituições e idéias para o comportamento concreto do povo. [...] 2. Há, em segundo lugar, uma tendência não para estudar um setor apenas das questões humanas, mas para relacioná-los com outros setores. [...] 3. Há uma terceira preferência pelo estudo de situações sociais e problemas que se repetem, e não dos problemas que ocorrem apenas uma vez. [...] E, finalmente, há uma ênfase maior sobre os acontecimentos contemporâneos do que sobre os acontecimentos sociais históricos. (op. cit.:71-2)

É evidente que Mills contesta algumas das afirmativas de Lazarsfeld, aliás, diria, de forma acertada. Com relação ao primeiro ponto, ele lembra que "comportamento concreto do povo não é unidade de análise", e há o risco de se cair no "psicologismo"; com relação ao segundo, ele lembra que "relacionar", para os empiricistas abstratos significa "limitar-se ao estatístico"; com relação ao terceiro, o significado que tais "repetições" possuem é, por exemplo, o simples fato de muitos votarem etc.; e, finalmente, com relação à última, o que se dá é uma ênfase não-histórica e não-comparativa, que apenas resulta de (questionável) opção epistemológica. (ibidem)

Daí decorrem dois problemas graves relacionados com a forma de Lazarsfeld operar dois conceitos caros à sociologia, isto é, "teoria" e "dados empíricos". Assim, teoria passa a significar "variáveis úteis na interpretação das verificações estatísticas"; e "dados empíricos" "limitam-se aos fatos e relações estatisticamente determinados que são numerosos, repetíveis e mensuráveis" (op.cit.:76).

Considerações Finais

Neste artigo, minha primeira preocupação foi a de traçar, ainda que brevemente, um panorama geral do positivismo, em especial, a partir de quatro correntes ou escolas, ou alguns dos autores a elas vinculados ou relacionados, identificadas como positivistas. Com isso, foi possível organizar e, por assim dizer, consolidar material de leitura e estudos acerca do tema e possibilitar ao leitor fazer uma ponte com as obras manuseadas. Por outro lado, desejo oferecer uma idéia de conjunto sobre um aspecto da filosofia da ciência que é muito criticado. Aliás, da mesma forma como alguns dos comentadores do positivismo, aqui referenciados, ressaltaram, desde meu curso de graduação em ciências sociais sempre ouvi falar do positivismo de forma pejorativa e, já na pós-graduação, observando o exame de algumas teses, às vezes, quando se exigiam procedimentos metodológicos mais rigorosos de estudantes, ouvi, em defesa desses, até mesmo de alguns orientadores, que tal exigência é "positivista". De fato, era como se estivessem exigindo a adoção de um procedimento ultrapassado ou algo similar.

Contudo, se se pode criticar ou apontar as falhas e lacunas, em especial, creio, do positivismo de tradição francesa, de Comte e Durkheim, há de se reconhecer a importância dos dois no sentido não de criar neologismos, que passaram a denominar um novo ramo do conhecimento humano e conceitos, mas, sobretudo, no de procurar torná-lo realmente uma ciência, no sentido mais exato da palavra, isto é, com objeto próprio e métodos rigorosos, científicos, enfim, que permitam a investigação sobre o social. Sim, digo métodos, e não método. Pois, parece-me, não há um método apenas. Nem sei se tais métodos devem ser modelos virtuais dos métodos, ou método, empregados nas ciências naturais. Ademais, essa é uma discussão que permeia a filosofia da ciência e, ainda que muito parcialmente, este trabalho. Por outro lado, como nos lembra Merton (1992), é preferível que as ciências sociais tenham vários métodos, que disputem entre si e que façam com que elas estejam em aparente "crise crônica", do que apenas um, que se imponha autoritariamente sobre os pesquisadores e as investigações científicas na área social, em outras palavras, obnubilando "a imaginação sociológica", como tanto receava ou "denunciava" Mills. É claro que isso não implica a feitura de pesquisa social de qualidade duvidosa. Isso ocorre independentemente do método, da metodologia utilizada ou, ainda, da teoria em que a pesquisa se apoia, o que realmente conta é a qualidade de quem a realiza.

Então, como dizia, se cabem tais ressalvas em relação a Comte e Durkheim, assim como o reconhecimento necessário, apontado, quanto ao "positivismo instrumental" ou "empiricismo abstrato" de Lazarsfeld, diria que, apesar das observações e considerações de Boudon (1993), tendo a concordar com as críticas de Mills, formuladas ainda em 1959, o que poderia fazer com que elas tivessem sido superadas pelos avanços alcançados nas pesquisas sociais aplicadas, em especial nos próprios Estados Unidos. Na verdade, embora sua elaboração, particularmente a reflexão que se faz do positivismo instrumental, se insira no campo da filosofia da ciência, parece-me que se trata mais de discutir sobre instrumentos e práticas operacionais de pesquisa do que acerca de um método científico, mais quanto ao modo de operacionalizar conceitos e testar hipóteses, enfim, do que sobre epistemologia das ciências sociais. Lembro, por exemplo, que Bryant (op. cit.:141) já chamou a atenção para o fato de que Popper procurava convencer alguns pesquisadores de que adotassem "seu" modelo "hipotético-dedutivo", pois considerava-o compatível com o "incrementalismo", com o qual o positivismo instrumental teria afinidades. Se assim fosse, possivelmente poderíamos, ainda mais, caracterizar o positivismo instrumental como um meio, quantitativo e/ou estatístico, para se realizar pesquisa social científica.

Quanto ao Círculo de Viena e a Popper, entretanto, assim acredito, a questão está realmente no âmbito da filosofia da ciência. Como procurei mostrar, há, dentre outras, uma diferença entre eles, pois enquanto os positivistas lógicos defendiam a utilização do método indutivo, Popper considerava a necessidade de se usar o hipotético-dedutivo. Da mesma forma, posso ainda apontar outra distinção, que provoca uma discussão relevante para a filosofia das ciências, qual seja: enquanto os primeiros defendiam o "princípio da verificabilidade" - para atestar se uma proposição tinha ou não significado, isto é, se era ou não científica, observando se os dados empíricos corroboravam a sua ocorrência - ou mesmo em sua formulação mais branda dos graus de confiabilidade e testabilidade, de Carnap, Popper partia de premissa, perece-me, inversa, mas que, no entanto, tinha o mesmo objetivo, com seu "princípio da refutabilidade" de hipóteses.

Uma última consideração: refiro-me ao "abuso" que explicitava Popper, por ser chamado de positivista por Habermas e outros, procede se, para ele e para os que assim o estigmatizavam, ser positivista significava a adoção da filosofia positivista de Comte ou do modelo "unicausal" de Durkheim, associado ao modelo filosófico Comteano. Mas, parece-me que, se positivista significa a adoção de procedimentos científicos rigorosos com os quais se buscam evidências através do levantamento e da observação de dados empíricos, para testar hipóteses, quer através do método indutivo quer por meio de método hipotético, ele não deixa de sê-lo. O certo é que tanto Popper quanto os positivistas lógicos, antes de mais nada, estavam preocupados em demarcar claramente o caráter científico das ciências sociais, e diferentemente de Comte e Durkheim, por motivos que devem parecer evidentes, sem partir de especulações, tais como o modelo dos três estágios de Comte ou a homogeidade social que resultava na solidariedade mecânica de Durkheim.

Bibliografia Citada

Aron, R. (1982). As Etapas do Pensamento Sociológico. São Paulo: Martins Fontes/Brasília: Editora da Universidade de Brasília.
Baudouin, J. (1992). Karl Popper. Lisboa: Edições 70.
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sábado, 20 de outubro de 2007

A Aplicação do Método Hipotético-Dedutivo de Karl Popper às Ciências Sociais (Parte II)


Popper, nos anos 1990


Como eu sugeri no post anterior, a necessidade de reduzir termos abstratos a termos mais concretos (que podem ser empiricamente observados) fornece a base do individualismo metodológico de Popper. Mas isso só se sustenta porque ele parece presumir que os indivíduos são, em algum sentido não especificado, mais concretos, ou menos abstratos, do que as coletividades sociais. De acordo com ele, as coletividades sociais não são entidades naturais concretas, mas modelos abstratos construídos pelo pesquisador a fim de que se possa interpretar certas relações abstratas entre os indivíduos. Segundo esta visão, a sociedade não é nada além de um agregado de indivíduos e o que poderíamos chamar do “ambiente social” dos indivíduos constitui-se apenas de relações interpessoais (nada como estruturas macro-sociais, por exemplo). É isto que Popper quer dizer quando afirma que

a maioria dos objetos da ciência social, senão todos eles, são objetos abstratos; eles são construções teóricas. (Mesmo ‘a guerra’, ou ‘o exército’ são conceitos abstratos, não importa o quão estranho isto possa soar para alguns. O que é concreto são os muitos que são mortos; ou os homens e mulheres de uniforme etc). Esses objetos, essas construções teóricas utilizadas para interpretar nossa experiência, são o resultado da construção de certos modelos (especialmente de instituições), de forma a explicar certas experiências (....). [Por esta razão], a tarefa da teoria social é construir e analisar nossos modelos sociológicos cuidadosamente em termos descritivos ou nominalistas, isto é, em termos dos indivíduos, de suas atitudes, expectativas etc – um postulado que pode ser chamado de individualismo metodológico. (Popper, Karl (1960). The Poverty of Historicism. Londres: Routledge, p. 135-6).

O que parece estar implícito nesta regra metodológica é a idéia segundo a qual os termos disposicionais envolvidos no conceito de indivíduo apresentam um menor grau de generalidade e abstração do que aqueles envolvidos no conceito de sociedade. Parte do problema é que é difícil concordar com a idéia de que termos como “crenças”, “racionalidade”, “intenções” etc (todos ligados à noção de indivíduo) apresentam um menor grau de abstração do que, por exemplo, o conceito de instituição social. Apesar disso, Popper aponta para uma diferença importante entre as ciências naturais e as sociais que, de fato, justifica a incorporação das disposições individuais em nossos modelos explicativos: o fato de que, nas ciências sociais, nós já temos algum conhecimento intuitivo acerca da realidade social que pode ser utilizado para formularmos hipóteses acerca do comportamento das pessoas nas interações sociais. Essas disposições, para Popper, apresentam um elemento de racionalidade que permite a construção de modelos explicativos relativamente simples. O modelo que ele tem em mente quando escreve sobre as ciências sociais é a sua análise situacional.

O elemento central da análise situacional é aquilo que Popper chama de “princípio da racionalidade” ou “método da construção lógica ou racional” ou, ainda, “método zero”. Esses três termos distintos referem-se a um princípio lógico ou a priori que não pode ser empiricamente falsificado e afirma que os agentes sociais sempre agem de forma adequada ou apropriada em relação a uma situação dada. Embora o princípio, ele mesmo, não possa ser testado, já que se baseia no paradigma evolucionário de Popper, a análise situacional estabelecida a partir deste princípio pode (é, em outros termos, falsificável). Uma teoria da ação humana, como toda teoria científica, deve ser construída por meio de conjecturas e refutações e a importância do princípio de racionalidade para as teorias da ação é que ele aparece como uma tentativa de se resolver um problema. A análise situacional é, portanto, um tipo de explicação conjectural ou tentativa de alguma ação humana, a qual faz referência à situação na qual o agente se encontra. A ação é explicada por meio de uma reconstrução idealizada da situação problema na qual o agente se encontra e para cuja solução a ação desempenhada é considerada adequada, ou racional, dada a situação do agente.

Independentemente dos problemas relativos aos modelos da ação racional (em que medida ele permite uma descrição realista das ações humanas?), pode-se perceber que a análise situacional que deriva do individualismo metodológico, longe de ser apenas um modelo explicativo da realidade social é também, e principalmente, uma ontologia que nega a realidade de fenômenos coletivos como algo sui generis. E já que o critério para esta redução seria o caráter supostamente mais concreto dos indivíduos em relação às coletividades, isto sugere que Popper atribui uma importância muito maior à observação empírica do que pode parecer a princípio.
Cynthia Hamlin

sábado, 13 de outubro de 2007

A Aplicação do Método Hipotético-Dedutivo de Karl Popper às Ciências Sociais


Karl Popper, em 1939, aos 37 anos.

Embora a maioria dos estudantes de ciências sociais tenda a concordar que uma base metodológica sólida pode ajudar na compreensão de uma série de elementos relacionados à sua área, especialmente no que diz respeito à teoria social, grande parte acha a metodologia excessivamente abstrata e se pergunta como ela pode ser aplicada. A fim de ilustrar esta questão, apresentarei aqui algumas das principais idéias de Karl Popper, mostrando como sua concepção de conhecimento científico gera uma noção específica de sociedade (uma ontologia social), assim como da forma considerada adequada para explicá-la. Isto é um exercício interessante, especialmente porque Popper é um daqueles autores, a que me referi num post anterior, que acredita que as questões ontológicas são muito abstratas e não levam a lugar algum.

Do ponto de vista das ciências sociais, Popper defende uma perspectiva que se conhece como individualismo metodológico, isto é, que o método mais adequado para se explicar os fenômenos sociais é por meio das ações dos indivíduos que compõem um determinado sistema social. Embora ele (assim como outros individualistas metodológicos) insista que isto seja uma posição estritamente metodológica, e não ontológica, não é difícil perceber que este não é o caso. De fato, Popper tenta diferenciar seu individualismo metodológico de atomismo (ou a visão segundo a qual o mundo deve ser explicado a partir de seus elementos mais básicos, singulares) ao propor que os indivíduos (átomos da análise social, na linguagem de Weber), devem ser considerados a partir de sua inserção em seu ambiente social. Em outros termos, seu individualismo metodológico dá origem a um tipo específico de explicação, a “análise situacional”, segundo a qual os indivíduos não são átomos isolados, mas fazem parte de um contexto que deve ser considerado, caso se pretenda entender o que se passa em suas mentes e porque eles agem de uma forma e não de outra.

A análise situacional defendida por Popper deriva diretamente de sua tese da unidade do método científico, isto é, da visão de que o método hipotético-dedutivo é o único método adequado para se construir teorias científicas. Como o meu objetivo aqui não é o de descrever detalhadamente a filosofia da ciência de Popper, mas apenas estabelecer as bases de sua análise situacional, limitar-me-ei à introdução de alguns temas relativos ao método hipotético-dedutivo que permitam compreender a relação entre sua metodologia e o desenvolvimento de um modelo de explicação para as ciências sociais.

Grosso modo, o método defendido por Popper estabelece que as teorias científicas não são verdades comprovadas e definitivas, mas explicações tentativas (hipotéticas ou conjecturais) que podem ser consideradas mais ou menos plausíveis. Ao contrário do que afirmavam os empiristas lógicos do Círculo de Viena, as hipóteses e teorias científicas não poderiam ser verificadas porque, para Popper, não é possível um conhecimento por indução a partir da repetição de observações singulares. (A verificação pressupõe a observação de casos singulares e a indução desses casos singulares para casos mais gerais, como as leis). Ao contrário do argumento indutivo defendido pelos empiristas, Popper alinha-se com os racionalistas ao afirmar que a mente humana tem disposições inatas que são modificadas ao longo do tempo – e aquelas disposições para o conhecimento que não são inatas ou modificações posteriores daquelas que o são, derivam de um conhecimento objetivo, baseado na racionalidade, e não em experiências “impressas” na mente enquanto tais. Para Popper, as experiências são sempre, em alguma medida, selecionadas, interpretadas e modificadas (cf. Popper, Karl (1994). Knowledge and the Body/Mind Problem: In Defence of Interaction. Londres e Nova York: Routledge).

A distinção popperiana entre dedutivismo e indutivismo coincide em grande medida com a distinção clássica entre racionalismo e empirismo: enquanto o empirismo baseia-se na idéia de que a ciência procede por meio da coleção de observações singulares que são depois indutivamente generalizadas, o racionalismo apóia-se na noção de que existem alguns princípios auto-evidentes, baseados na razão, de acordo com os quais é possível deduzir certas proposições acerca do mundo. Mas o racionalismo de Popper assume um sabor bastante específico. Por um lado, deve ser distinguido da idéia de Kant de que esses princípios auto-evidentes são sintéticos e a priori: eles são, ao contrário, conjecturas ou hipóteses. Por outro lado, essas conjecturas ou hipóteses não são meros instrumentos ou definições que não podem ser submetidas a teste empírico. Nas palavras do próprio Popper, “elas são, portanto, sintéticas (e não analíticas); empíricas (e não a priori); informativas (e não puramente instrumentais)” (Popper, Karl (1960). The Poverty of Historicism. Londres: Routledge, p. 132).

É a possibilidade de se testar essas hipóteses que garante a possibilidade de se afirmar a realidade dos objetos da ciência. Em outros termos, quando as hipóteses não são falsificadas, elas provavelmente não podem ser reduzidas a meros instrumentos ou definições, mas dizem algo a respeito do mundo (seu caráter informativo). Esta é uma das diferenças fundamentais em relação a Thomas Kuhn, para quem as teorias e as hipóteses científicas seriam “instrumentos úteis”. Mas Popper não é um realista ingênuo, que acredita em uma correspondência direta entre conceito e realidade (ou entre teoria e realidade). De fato, ele combina seu realismo (científico) com a tese nominalista segundo a qual as hipóteses não descrevem a essência das coisas. Hipóteses ou teorias são modelos que podem ser falsificados, não podendo ser confundidas com objetos concretos. Isto gera a visão segundo a qual as teorias científicas podem ser verdadeiras ou falsas (ou, pelo menos, almejar à verdade), mas os termos teóricos que elas pressupõem não se referem a qualquer coisa realmente existente. Isto porque “mesmo proposições singulares são sempre interpretações dos ‘fatos’ à luz das teorias” (Popper, Karl (1968) The Logic of Scientific Discovery. Londres: Hutchinson, p 493; ênfases do autor). Isto é outra forma de dizer que todo termo teórico, todo “fato” (supostamente singular) descrito pela ciência contém universais. Esses universais são termos disposicionais, isto é, termos ou palavras que caracterizam o comportamento nórmico (em forma de leis) de determinadas coisas.

Neste sentido, para Popper, tanto as proposições universais (as leis científicas) quanto as proposições singulares (observações de fatos particulares) transcendem a experiência – o que desqualifica o empirismo e a indução como formas seguras de conhecimento. Por outro lado, Popper defende a idéia de que quanto mais abstrato o termo disposicional envolvido em um conceito teórico, mais ele transcende a experiência. A experiência não é algo que Popper deseje abandonar de todo, daí a regra nominalista de se reduzir termos abstratos a termos mais concretos. Para ele, quanto menos abstrato o conceito, menor o grau de universalidade de suas disposições (Ibid: 425). Quanto menos universal, mais informativo e, portanto, mais “próximo” da realidade. É esta combinação particular de realismo e nominalismo que tornará possível estabelecer as condições do conhecimento objetivo, por um lado, e o desenvolvimento de seu modelo de explicação com base no individualismo metodológico, por outro.

(continua)

Cynthia Hamlin

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O que é Metodologia II

Como a metodologia se relaciona com a ontologia? De um ponto de vista mais estritamente filosófico, a ontologia é a parte da filosofia que se dedica ao estudo sistemático do Ser ou da existência. Para os nossos modestos propósitos, uma ontologia diz respeito ao conjunto de objetos que se considera reais. Uma ontologia social refere-se, portanto, àquilo que pode ser considerado real no domínio social: as coletividades, como as famílias, o estado-nação, as sociedades globais existem realmente, ou são simples conceitos criados com o intuito de falar de forma resumida sobre coleções de indivíduos?

As diversas tradições teóricas das ciências sociais fornecem respostas diferentes a essa pergunta. Para alguns (chamados "realistas sociais"), como Marx e Durkheim, por ex., as coletividades realmente existem e devem ser percebidas como algo distinto dos indivíduos que as compõem. Para outros (os "nominalistas sociais"), caso de Weber e de Popper, coletividades são meros agregados de indivíduos, e falar sobre a família, o exército ou o Estado são formas simplificadas de se referir aos homens e mulheres que os compõem. Outros autores consideram que apenas os pequenos grupos, como a família e pequenas organizações sociais têm uma existência real e não meramente nominal (são apenas “nomes”).

Por que isso interessa à metodologia? Ora, dependendo do que seja considerado real minha explicação recai sobre um ou outro elemento. Para nos atermos a dois casos paradigmáticos, Durkheim e Weber, um fenômeno social será explicado a partir de outro fenômeno social (coletivo ou holismo metodológico) ou a partir das motivações, razões e objetivos dos indivíduos que lhe deram origem (individualismo metodológico). Como nem sempre a ontologia social adotada é colocada de maneira explícita (ou pode ser para alguns objetos, mas não para todos), a metodologia tem aí uma tarefa importante.


Cynthia Hamlin