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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Violência à escola e violência da escola: um olhar da imaginação sociológica[1]

                                                                                              Tâmara de Oliveira[2]

Introdução 

   
            Este texto tem como origem um convite do semanário aracajuano Cinform para que eu escrevesse sobre a violência escolar, devido a dois casos de agressão física a professores na grande Aracaju em meados de 2015 – o da diretora que foi esmurrada e perfurada com caneta por um aluno de 16 anos, quando este soube que seria expulso da escola; o da diretora que sofreu ameaças e teve seus cabelos puxados por uma mãe de aluna, porque a diretora impediu que a filha da agressora entrasse na escola sem farda. Esta introdução retoma e amplia o artigo publicado naquele jornal, enquanto o primeiro tópico apresentará os temas saídos do artigo que serão tratados e a abordagem retida. Quanto aos outros tópicos, será preciso esperar a publicação do livro da Renaesp do qual o texto integral será um dos capítulos.
            O convite do Cinform remeteu-me à distância que sempre existe entre percepção da violência (o que as pessoas pensam ser o grau de violência na sociedade) e realidade da violência (os índices reais de violência na sociedade, medidos estatisticamente). Tal distância pode ser verificada a respeito de quaisquer fenômenos sociais significativos, sobretudo quando se trata de assunto que provoca medo numa sociedade dada e que é muito explorado pelas mídias. Sabe-se, por exemplo, que nas sociedades europeias boa parte das populações teme o aumento da imigração, por considerar, erroneamente, que o desemprego e os baixos salários são causados pelos imigrantes. Pois bem: pesquisas em vários países detectam que as pessoas acreditam existir uma percentagem bem superior de imigrantes do que na verdade existe.
            Como vivemos num contexto societal de fluxo ininterrupto de informação, muitas vezes sem controle de sua veracidade, a distância entre o que as pessoas percebem e o que realmente acontece pode ser ainda mais importante. No caso da violência escolar na grande Aracaju, tenho a hipótese de que um caso de violência sobre um professor em 2014, por ter sido particularmente chocante, despertou o interesse das mídias para a violência escolar no estado, fazendo com que notícias sobre agressões a professores tenham se tornado regulares. Em tal situação, os sergipanos tendem a perceber que a violência escolar tem crescido assustadoramente, embora quase nunca tenham meios de verificar o grau real desse crescimento.
            Lembrar da distância entre percepção e realidade da violência não significa diminuir a gravidade do ato de agredir profissionais em seu local de trabalho. Especialmente quando se exerce contra professores que, na modernidade, seriam um dos principais agentes sociais de transmissão de valores, normas e competências cidadãs às novas gerações, tendo, idealmente, um papel de autoridade comparável àquele exercido por nossos pais. Valores, normas e competências cidadãs implicam na capacidade adquirida pelos alunos para a reflexão e o diálogo respeitoso diante de situações de conflitos entre interesses, necessidades, atos, desejos, crenças ou valores, ao invés de usarem qualquer meio de coerção física ou verbal contra qualquer um que contrarie um interesse, necessidade, ato, desejo, crença ou valor seus. Mas antes de se poder concluir apressadamente que a violência escolar cresce assustadoramente, seria importante acompanhar os índices reais dessa violência, para poder medir a distância entre o que as pessoas acreditam e o que de fato acontece, principalmente porque a violência escolar é temática comumente associada ao da violência juvenil.
            Ora, quando se fala em violência juvenil no Brasil, basta fazer um rápido levantamento de estatísticas relacionando jovens e homicídios para se saber quão discrepante é a distância entre as representações sociais (Moscovici, 2004) que a maior parte de nossa sociedade partilha sobre a violência juvenil e a realidade social dessa violência. Assim, enquanto se defende a redução da maioridade penal sob a justificativa do aumento da participação de jovens em crimes violentos, os números esclarecem que nossos jovens são muitíssimo mais suas vítimas do que seus algozes. É verdade que a autoria juvenil de homicídios tem crescido (embora sem haver números oficiais das instâncias governamentais sobre isso) e a respeitada UNICEF[3], fundamentando-se em relatórios governamentais sobre a violência e em estudos entre 2000 e 2012, estima que 2,8% dos assassinatos no Brasil teriam sido cometidos por jovens nesse período – sendo que 1% teriam sido cometidos por jovens entre 16/17 anos (alvo da redução da maioridade). Entretanto, os índices de jovens assassinados no Brasil, num só ano, tornam esses 2,8% ou 1% irrisórios: em 2013, o homicídio continua sendo a primeira causa externa de morte de jovens brasileiros, correspondendo à causa de quase metade dos óbitos de jovens entre 16/17 anos de idade (Waiselfisz, 2013).
            Além disso, comparações internacionais de dados entre 2010 e 2013 dão conta de que somos o 3º país, entre 85 pesquisados, na taxa de homicídios por 100.000 jovens de 15 a 19 anos (Waiselfisz, 2015). Para vislumbrar o grau epidêmico da violência fatal sofrida cotidianamente por nossos jovens, basta saber que a taxa de assassinados por 100.000 adolescentes é, no Brasil, 183 vezes maior do que a de países como o Egito, a Alemanha ou a Coreia, e, 275 vezes maior do que a de países como Áustria, Japão, Reino Unido ou Bélgica (Waiselfisz, 2015)! E nunca é demais lembrar que esse grau de violência contra os jovens brasileiros não é “democratizado”, posto que a maioria dos jovens assassinados seja pobre, negra e parda, exprimindo nossas profundas e complexas desigualdades.  
1.  Abordando a violência escolar sob modo qualitativo, articulado e propositivo
            Essa discrepância entre representação social e realidade social, acima analisada no que diz respeito às quantidades da violência juvenil, também se manifesta em explicações sobre as causas possíveis da violência – inclusive a escolar. É comum ouvir-se fórmulas explicando que “os jovens estão fora de controle” ou “os pais terceirizaram sua responsabilidade educacional”. Neste caso, aplicando-se a noção de imaginação sociológica (W. Mills, 2006), segundo a qual as ciências sociais são um conhecimento que articula problemas pessoais a estruturas sociais[4], pode-se facilmente invalidá-las, porque são explicações que isolam os atores sociais de suas condições sociais objetivas e simbólicas de vida, como se suas práticas e valores fossem definidos unicamente por eles mesmos. Ora, não há “jovens”, “pais” ou quaisquer outros tipos de indivíduos humanos cujas orientações de vida, de valores, de desejos e de comportamento possam ser entendidos sem consideração do quadro de possibilidades e limitações que o contexto socioeconômico, cultural e institucional onde eles vivem imprimem às suas práticas e representações (Moscovici, 2004). Melhor dizendo, em termos do construtivismo sociológico de P. Berger e Thomas Luckmann (1996), a subjetividade das pessoas não se constrói sem articulação com a realidade social objetiva que as cerca. Sendo assim, por que e como esperar que as novas gerações adquiram aqueles valores, normas e competências do ideal moderno de cidadania, ideal este potencialmente capaz de sublimar a agressividade[5], se elas são socializadas numa sociedade violenta?
            A continuidade deste texto sustentará o argumento de que tal esperança ilusória pode ser compreendida pela análise articulada de arranjos institucionais e simbólicos (para Mills, estruturas sociais) que, tornando-se predominantes a partir das transformações societais aceleradas desde os anos 1980, fragilizaram valores indissociáveis do ideal moderno de cidadania, como a de bens comuns e de cooperação redistributiva como meio de regulação social, em favor de valores como o da competição ilimitada, do sucesso como prova meritocrática e justificativa de segregação social, além do prazer sensorial consumista como horizonte de vida - valores estes que incidem no aumento de práticas, representações e interações sociais violentas[6]. Além disso, como tais arranjos institucionais e simbólicos mantêm afinidades eletivas (Weber, 2004) com os dois conteúdos ao mesmo tempo nucleares (Abric, 2001) e opositivos das representações modernas sobre a juventude, a percepção do aumento da violência escolar possibilita a vã esperança de que a repressão do suposto descontrole dos jovens e da suposta irresponsabilidade dos pais sejam meios eficientes para resolver  o problema.
            Para sustentar o argumento proposto, continuarei com uma rápida descrição da construção social da juventude pela modernidade, consolidando o misto de fascínio e medo com os quais se percebe cotidianamente os jovens, articulando esse processo ao da elevação da instituição escolar enquanto meio fundamental de controle da suposta natureza desviante da juventude, para sua integração “normal” à sociedade. Em seguida, será feita uma articulação entre a problemática convergência histórica da democratização de sistemas de ensino com aquelas transformações societais que, aceleradas a partir dos anos 1980, costumam ser discutidas pelos termos de globalização (referente às dimensões objetivas e institucionais dessas transformações) e de pós-modernidade (referente às suas dimensões subjetivas e simbólicas)[7]. A análise se concentrará sobre a impregnação de políticas públicas educacionais pela lógica competitiva cega, segregativa e perversamente meritocrática subjacente àquelas transformações, articulando-a ao crescimento de relações negativas de boa parte dos alunos à escola, entre as quais a relação violenta.
            Neste sentido, utililizarei a distinção entre três tipos de violência escolar colocada num pequeno texto de Bernard Charlot (2002): a violência à escola, referente a atos violentos tendo como objeto o estabelecimento ou seus atores, como professores, diretores, alunos, pessoal administrativo, etc.; a violência na escola, referente a práticas violentas que ocorrem na escola mas que não a têm, nem a seus atores, como objeto – como acertos de conta entre alunos ou grupos de alunos, etc.; e, violência da escola, referente a práticas, normas ou orientações institucionais que atingem os  alunos e provêm da própria escola ou de seus responsáveis. Defenderei a hipótese segundo a qual a coincidência problemática entre democratização dos sistemas de ensino e transformações societais que puseram em cheque compromissos sociais como o do Estado do bem-estar social ou o do desenvolvimentismo, provocou um aumento estrutural da violência da escola que, como um bumerangue, volta-se contra ela como relações negativas de parte de seus alunos ou familiares, entre as quais a de relação violenta à escola.
            Nas considerações finais serão colocados preliminarmente passos de uma caminho artesanal do ensino da sociologia no ensino médio, como potencial contribuição das ciências sociais no sentido de que as relações entre “estruturas sociais” e “problemas pessoais” na escola contemporânea não impliquem inevitavelmente na mera reprodução da lógica mercadológica e violenta onde parte dela e das subjetividades que a sustentam se encontram.
Referências
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ABRIC, J.-C. Pratiques sociales et représentations. Paris: PUF, 2001. 252 p.
BEAUD, S. 80% au bac…et après ? Les enfants de la démocratisation scolaire. Paris : La Découverte, 2002/2003. 338 p.
BERGER, P./LUCKMANN, T.  La construction sociale de la réalité. Paris : Masson/Armand Colin, 1996. 285 p.
BOUDON, R.  L’inégalité des chances. Paris : Hachette Littérature, 1984. 334 p.
BOURDIEU, P./PASSERON, J.-C. La reproduction : éléments pour une théorie du système d’enseignement. Paris : Les Editions de Minuit, 1970. 279 p.
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COSTA, J. Freire Perspectivas de juventude na sociedade de mercado. In : NOVAES, R./VANNUCHI, P. (orgs.). Juventude e Sociedade : Trabalho, Educação, Cultura e Participação. São Paulo/Porto alegre : Editora Fundação Perseu Abramo/Instituto da Cidadania, 2011. p. 75-88.
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MOSCOVICI, S. Representações sociais. Investigações em psicologia social. Petrópolis : Vozes, 2004. 404 p.
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WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 335 p.



[1]              Este texto é parte de um capítulo de livro no prelo, organizado pela RENAESP/UFS (Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública/Universidade Federal de Sergipe)
[2]              Professora associada da Universidade Federal de Sergipe e coordenadora do Pibid/UFS-Ciências Sociais.
[4]              Charles Wright Mills utilizava o conceito de estrutura social num sentido fraco, ou seja, ele não se inseria exatamente em teorias sociológicas ditas estruturalistas ou sistêmicas, para as quais a subjetividade nada mais seria do que a interiorização das normas, valores e instituições sociais pelos indivíduos, mas também não se inseria em teorias sociológicas individualistas nem francamente interacionistas. Desenvolvendo um modelo teórico-metodológico singular mas afinado com uma tradição de sociologia crítica, podemos dizer que Mills concebia a relação indivíduo/sociedade sob um modo de interdependência em aberto, onde estruturas não se concebiam fora da dinâmica entre subjetividades e objetividade do social. Neste sentido, uso seu binômio estruturas sociais/problemas pessoais por entendê-lo epistemologicamente compatível o binômio conceitual realidade social objetiva e realidade social subjetiva de Berger e Luckmann (1996).  
[5]              Consideramos a sublimação da agressividade, segundo a argumentação de Bernard Charlot (2002), assim desenvolvida: “A agressividade é uma disposição biopsíquica reacional: a frustração (inevitável quando não podemos viver sob o princípio único do prazer) leva à angústia e à agressividade. A agressão é um ato que implica uma brutalidade física ou verbal(...). A violência remete a uma característica desse ato, enfatiza o uso da força, do poder, da dominação.(...)É uma ilusão crer  que se possa fazer desaparecer a agressividade e, como consequência, a agressão e o conflito. Aliás, isso seria desejável levando-se em conta que a agressividade sublimada é a fonte de condutas socialmente valorizadas (no esporte, na arte, nas diversas formas da concorrência) e se o conflito é também um motor da História, como pensava Hegel? A questão é saber quais são as formas de expressão legítimas ou aceitáveis da agressividade e do conflito. É a violência enquanto vontade de destruir, de aviltar, de atormentar que causa problema – e que causa mais problema ainda em uma instituição que, como a escola, inscreve-se na ordem da linguagem e da troca simbólica e não da força física. Concretamente, isso significa que o problema não é fazer desaparecer da escola a agressividade e o conflito, mas regulá-los pela palavra e não pela violência – ficando bem entendido que a violência será bem mais provável, na medida em que a palavra se tornar impossível” Pp.435/436.
[6]              A argumentação sobre o Brasil e a França não significa que eles sejam os únicos países afetados pelos processos aqui anunciados, mas que são os países sobre os quais a autora tem dados e reflexões acumulados. Por outro lado, comparações internacionais demonstram que outros países têm conseguido conviver com as transformações da chamada globalização sem mergulharem tão dramaticamente nos paradoxos do laço liberdade-competitividade enquanto princípio educacional. Como a Finlândia, por exemplo que, talvez por causa disso, embora continue considerada um dos líderes mundiais de competência acadêmica, caiu para a 12ª posição mundial no PISA de 2012. Ora, o PISA é um exame vinculado à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – o que já indica que sua lógica é impregnada por razões econômicas mais do que político-sociais.
[7]              Não será analisada aqui a diversidade, a complexidade e a polêmica em torno dos termos de globalização e pós-modernidade. Isso levaria a caminhos de discussão epistemológica e metodológica que desviaria o texto de seu assunto principal, qual seja o da articulação entre jovens e violência escolar. Manterei o termo transformações societais aceleradas, considerando que, referindo-se a processos de mudanças sociais perceptíveis, não levaria este texto a uma polêmica fora de seus propósitos e de seus temas.   

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Mercado do Crack e seus paradoxos (ou a desumanização a varejo) (Parte I)

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José Luiz Ratton

Professor e Pesquisador do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco

O crack é uma forma fumável da cocaína que produz efeitos intensos, curtos e quase instantâneos em quem o utiliza e que possui elevadíssima natureza aditiva. Sua venda é realizada em quantidades bastante fracionadas e possibilita lucros relativamente altos para os diferentes tipos de “traficantes”, o que funciona estruturalmente como um estímulo para o que pode ser chamado de “empreendedorismo” neste mercado. Em outras palavras, as condições logísticas para o comércio varejista desta substância não são difíceis, aumentando potencialmente a chance de mais indivíduos participarem do mercado de crack como vendedores ilegais.

A literatura internacional indica e as evidências empíricas da pesquisa brasileira sobre o tema confirmam que o crack é uma inovação tecnológica no mercado de cocaína que produziu diferentes impactos: expandiu-se, atingindo um amplo público consumidor nos estratos sociais mais baixos e interiorizou-se, tornando-se uma droga ilícita largamente comercializada não apenas nos grandes centros urbanos, mas também nas pequenas e médias cidades.

O grande número de indivíduos envolvidos na venda de crack e os elevados níveis de endividamento observados neste mercado – tanto entre usuários e traficantes, quanto entre pequenos e médios traficantes - são elementos explicativos fundamentais para a compreensão dos altos patamares de conflitualidade presentes no mercado do crack. Alguns pesquisadores que investigam o tema no país sugerem a existência de associação entre a expansão do mercado desta droga e o aumento dos crimes contra a vida, o que ainda está por ser demonstrado. Não está claro se a elevação das taxas de homicídio em vários estados brasileiros (no Sul, no Centro-Oeste, no Nordeste e no Norte) nos últimos anos, está relacionada de alguma forma com a introdução e a expansão do crack nestes estados. Na mesma linha, outra pergunta importante e que ainda não tem resposta conclusiva é se a permanência e a resiliência de altos patamares de violência nos mesmos territórios dentro de várias das grandes cidades brasileiras - inclusive naquelas que observaram redução das mortes violentas nas últimas décadas – pode ser explicada parcialmente pelas dinâmicas conflitivas do mercado do crack, que intensificaram e consolidaram processos sociais violentos ali instalados previamente.

Parece razoável afirmar que, a despeito dos exageros retóricos de parte dos meios de comunicação, o Brasil vive, desde o final da década de 1990 (em São Paulo um pouco antes) uma expansão epidêmica do crack. O aumento expressivo do número de apreensões desta droga pelas polícias brasileiras e o aumento do número de internações relacionadas ao consumo abusivo da substância são indicadores de que estamos (ou estávamos) diante de um processo epidêmico. Um aspecto importante presente em quaisquer das “epidemias de drogas”, inclusive a do crack, é que elas apresentam dinâmicas evolutivas, etapas e ciclos – que obviamente têm condicionantes políticos, econômicos, culturais e psicológicos – que devem ser compreendidos na sua singularidade, se quisermos produzir algum tipo de efeito adequado sobre elas, no plano das políticas públicas. O reconhecimento de que diferentes mercados de drogas passam por processos de desenvolvimento que envolvem a expansão aguda, estabilização e declínio pode nos ajudar a entender de forma pragmática o que de melhor pode ser feito em cada um destes estágios. Neste sentido, a literatura sobre o tema nos Estados Unidos indica que a estabilização e decadência do mercado do crack naquele país deveu-se mais a mecanismos internos de controle do próprio mercado do que a ruidosas e ineficientes políticas de guerra às drogas.

As considerações acima não devem conduzir ao imobilismo político. O que se quer ressaltar é que a compreensão das complexidades do mercado do crack é condição necessária para a construção de políticas mais efetivas neste campo. Assim, tanto estratégias coercitivas, centradas no aumento dos custos da distribuição, como preventivas, dirigidas para a minimização dos danos sociais e para a construção de mecanismos específicos e focalizados de assistência e proteção para usuários e dependentes mais vulneráveis, no plano do consumo, devem levar em consideração os diferentes estágios de estruturação do mercado do crack.


Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal Estado de São Paulo no dia 27 de janeiro de 2013. Agora, gentilmente cedido ao Cazzo pelo autor.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um dia de banca


Por Artur Perrusi

Farei um dropes -- nada de jujuba ou de chiclete. Um drops sobre banca de doutorado, para ser mais específico. Tive a ideia, agorinha, de partilhar minhas experiências de bancas de dissertação e de tese. Por que não?! Pensei. As bancas, em certa medida, geram discussões bem interessantes. Muitas são divertidas, algumas até trágicas. É um ritual de passagem bastante curioso, uma liturgia que, para os mais pessimistas, é uma “violência simbólica”. De todo modo, pode ser uma situação tensa e cheia de expectativas. Como sou psiquiatra, logo, um vampiro do sofrimento alheio, as bancas proporcionam bons momentos de ansiedade e angústia. Dá barato, podem ter certeza. Mas, como disse acima, meus comentários focalizarão apenas o lado cognitivo das bancas, inclusive para evitar constrangimentos.

(não falarei, por exemplo, daquela banca em que o orientando cortou os pulsos na frente de todo mundo e tentou morder o orientador – não, não falarei disso. Jonatas, uma vez... bem... er... deixa pra lá.)

Pessoalmente, gosto das bancas de outras áreas que não a sociologia. Aprendo bastante e escuto atentamente a discussão. Nas bancas de sociologia, é raro me surpreender, já que os participantes têm o mesmo defeito: são todos da mesma área. Já noutras bancas, a surpresa rola e o aprendizado aparece na forma da perplexidade – pois é, defendo que a perplexidade é uma postura cognitiva superior

(Inicialmente, pensei que a faculdade de ficar perplexo era um sinal de envelhecimento, afinal, os jovens não se espantam; mas, depois, descobri que poderia ser, embora não descarte problemas degenerativos cerebrais, um sinal de sabedoria).

Na semana passada, participei de uma banca de doutorado na área de filosofia. Foi uma banca composta por seis membros, contando com o orientador – bem numerosa, portanto. Durou um bocado, mais de quatro horas. Nela, estava cercado de filósofos, olhando-me de forma curiosa e atentos à minha arguição.

_São simpáticos, os filósofos! Pensei. Vixe, como seus olhos são grandes. E as orelhas... E os dentes... nossa, como são grandes seus dentes!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Notas sobre "futebol e violência" -- IV



Ufa! Cheguei ao fim, juro, juro...

Ainda mais, espírito de porco persecutório, gordinho esdrúxulo, gatinho histriônico, bem... er... entendi o recado.

Do futebol (terceiro clichê)...

Talvez, de todos os clichês, o agora analisado seja o mais preconceituoso em relação ao futebol -- atualmente é aquele que está se tornando o mais popular, provavelmente por causa do recrudescimento da violência nos estádios. É um clichê que tem suas raízes na psicologia social do século XIX, sendo uma espécie de atualização do famoso estudo de Gustave Le Bon: "A psicologia das multidões" (ver Gustave Le Bon, "Psychologie des foules", Paris, Retz, 1975). Seria a "demonização" da multidão, entendida como uma horda anárquica e desorganizada, movida basicamente por instintos, personificando, como tal, a morte dos laços sociais. Seria como se, a partir da multidão, a interação social deixasse de existir. E, uma vez que os instintos, nessa psicologia racionalista, são vistos de uma forma "negativa", significando mais uma perversão da razão do que outra coisa, a violência tornar-se-ia, como instinto típico, o leitmotiv da multidão.

E como ficaria o indivíduo na horda?

Nada bem. Ele sofreria um processo de regressão cognitiva, com a conseqüente perda do seu controle volitivo, sendo comandado pelo caos impessoal da multidão. O indivíduo perderia sua individualidade e sua identidade, pois seria vítima de uma fusão entre sua personalidade e a massa. O resultado de todo esse processo é aterrador: perdendo sua individualidade, o indivíduo perde sua razão, afasta-se da "civilização" e se inunda de "instintos básicos", principalmente os mais pavorosos, a começar pela violência. Sim, ele se torna muito violento...

Tal visão seria um clichê de matiz conservador, atestando um conhecido medo de base: o medo das massas, tão característico do século XIX e de várias "elites" de nossa época. Seria a defesa desesperada da integridade do indivíduo diante do poder de fusão da multidão. Pode-se até conceber uma situação em que ocorra tal fusão; pode-se até pensar em alguns exemplos concretos de fusão, principalmente nos casos cujo "tema", que move e interpela a turba, seja "negativo" e de fácil assimilação emocional; contudo, tais situações são bem específicas e não podem funcionar como paradigma para outras situações que envolvam "multidões".

Sociologicamente, "a multidão como horda ensandecida" seria uma interpretação de tipo irracional da ação coletiva. Ainda que se possa conceber determinadas ações coletivas irracionais, geralmente a ação coletiva, mesmo quando ocorrem explosões de violência, é inteligível e a violência motivada, sendo dificilmente assimilada a explosões irracionais.

O clichê pode ser conservador, mas não é monopólio de intelectuais assumidamente conservadores. Pode-se encontrar a utilização do clichê, até mesmo com mais virulência, entre intelectuais de esquerda, principalmente na análise do fenômeno do hooliganismo (Ver Jean-Marie Brohm, "Une violence cannibale", Manière de voir -- Le monde Diplomatique --, n°39, maio-junho 1998. O título do artigo, sem dúvida, é extremamente sugestivo; já o título de um livro do autor, praticamente diz tudo: Les meutes sportives. Critique de la domination. Lembrar que "meutes" em francês significa uma tropa de cachorros treinados para a caça...). E, de fato, as torcidas organizadas são vistas, não apenas no meio acadêmico, mas também no "senso comum", como hordas babando sangue (e, muitas vezes, a violência das torcidas a isso se assemelha). O clichê emigrou de uma avaliação geral de toda multidão e de toda ação coletiva, para uma consideração específica de um fenômeno social particular: as torcidas organizadas.

Contudo, seria difícil considerar a torcida organizada como uma horda anárquica e desorganizada; ao contrário, ela parece ser "ultraorganizada" -- vide o exemplo de hooligans alemães utilizando meios sofisticados de comunicação e de organização durante a copa do mundo na França. A torcida organizada não é uma "horda", embora seja violenta -- ao menos, os rituais que "guiam" as condutas dos indivíduos na torcida organizada parecem estimular as relações de agressividade e, consequentemente, a transformação desta em violência.

Tal violência seria irracional? Acredito que não. Boa parte da violência das "organizadas" é nitidamente premeditada, motivada e dirigida contra seu pior inimigo: uma outra organizada. E, na maioria das vezes, a violência das organizadas nunca se concretiza, realizando-se num complexo aparato de mise-en-scène, no qual o teatro e a simulação de violência -- a "exibição" da torcida -- parecem ser mais importantes do que propriamente o confronto físico entre as torcidas.

Pode-se fazer a hipótese de que a "ultra-organização" das organizadas surja justamente a partir de um meio "anômico", isto é, de um meio social onde as normas e as regras perderam boa parte de sua legitimidade e de sua eficácia; onde as pessoas não sabem mais quais são os direitos e os deveres de um convívio social contratual e institucional; onde não sabem mais a quem recorrer porque a legitimidade de toda sanção foi por água abaixo. As organizadas se nutrem então da anomia? Talvez. Da insegurança social generalizada? Pode ser. No entanto, mesmo que tais hipóteses sejam falsas, acredito que as "organizadas" são, de fato, organizadas e que sua violência, quando acontece, não é "instintiva" ou "irracional", e sim desejada e, muitas vezes, premeditada.

Inconclusões

Depois de todo esse périplo, confesso que termino a viagem um tanto insatisfeito. Na verdade, meu desagrado recai justamente na divisão básica do artigo: a violência do e a violência no futebol. Inicialmente, pensei que tinha sido um bom insight e, de fato, tal divisão ajudou-me a perceber algumas questões; mas com o transcorrer da análise fui enredando-me em algumas dificuldades teóricas. O que quero dizer é o seguinte: várias teorias examinadas no artigo analisam a violência como sendo no futebol e, também, do futebol. E, provavelmente, a realidade da violência está no e vem do futebol; afinal de contas, ela pode perpassar toda e qualquer instituição social. No fundo, enredei-me nas aporias do dualismo entre o externo e o interno, entre o "dentro" e o "fora", entre o no e o do...

Como superar tais aporias?

Sinceramente, não sei bem... Talvez uma das formas seja reavaliar o papel do futebol na sociologia e na antropologia. O futebol sempre aparece explicado por outras realidades, como a religião e a política. Sua verdade está sempre deslocada de si mesmo, em outro lugar que não o do futebol. O ponto de referência para compreendê-lo sempre está fora de si mesmo, como se, somente através da política ou religião, por exemplo, o futebol pudesse realmente ser entendido. Como tal, não seria inteligível; como derivação de outra instância, enfim seria compreendido.

Talvez devêssemos compreender o fut como um fato social total; isto é, como um "campo" ou uma "instituição" relativamente autônoma. Mais: não só autônoma, mas que também condensasse várias outras determinações sociais. O futebol também serviria como ponto de referência para se entender outros fenômenos sociais como a religião, a política e, no caso do tema desse artigo, a violência. Ao invés de explicarmos o fut pela violência, faríamos a viagem inversa: explicaríamos várias facetas gerais da violência via o futebol. Imaginem explicar detalhes da missa do padre Marcelo via o espetáculo futebolístico? Em suma, a sociologia do esporte deveria reivindicar, por exemplo, um status epistemológico semelhante ao adquirido pela sociologia ou pela antropologia da religião (para uma defesa admirável dessa tese, ver Alain Ehrenberg, "Le culte de La performance", Paris, Calmann-Lévy, 1991).

Não acho que esteja exagerando. O futebol tem uma importância fundamental para o brasileiro; entender nossos valores e nossos processos de identificação passa necessariamente pelo futebol. Parodiando o antigo técnico irlandês do Liverpool, Bill Shankly: o futebol, para o brasileiro, não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante do que isso. Como desprezar esse ponto de referência básico para compreendermos a nós mesmos?

Aproveitando meu entusiasmo, diria que o futebol é uma das instâncias sociais brasileiras que encarna o que tem de mais “moderno” no povo brasileiro. O fut é competição, epopéia individual, ascenso e descenso, mobilidade social, mérito, fim dos status de nascença, de etnia, social e de renda, afirmação de soberania nacional -- o fut é a encarnação do desejo igualitário do povo brasileiro. O fut é trabalho em equipe, divisão de tarefas, planificação de todos, projeto em comum, união de cores e de sentido, organizador de corações e mentes, êxito coletivo -- o fut é a encarnação do desejo de solidariedade do povo brasileiro. O fut é contingência, destino incerto, o imponderável, estando entre o certo e o errado (bola na mão ou mão na bola? Foi falta ou não?), o justo e o injusto (mereceu a vitória?), o legítimo e o ilegítimo (o juiz roubou?) -- o fut é a encarnação do desejo de justiça e liberdade do povo brasileiro.

Ufa!, fim do ufanismo (fiz isso para impressionar Cynthia)... mas vocês não acham que a fenomenologia do drible do jogador brasileiro diz tanto de nosso "caráter" quanto o candomblé e o carnaval?

Enfim, o futebol encarna e produz valores caros às sociedades democráticas... para o bem ou para o mal. Pois a epopéia futebolística também nos avisa que, na modernidade, onde tem vencedor, tem perdedor; onde tem mérito, tem "jeitinho"; onde tem altruísmo, tem egoísmo; onde tem um, tem outro. O fut nos avisa que, no nosso mundo, entre o êxito e o fracasso, há uma incerteza fundamental -- assim, ele nos consola, pois, numa sociedade onde a exigência do sucesso é absoluta e o fracasso significa depressão, pelo menos ficamos sabendo que o acaso, de vez em quando, abre uma ferida no Destino. O fut encarna, definitivamente, uma das leis cotidianas da nossa modernidade: "a interdependência complexa dos destinos na busca da felicidade" (Christian Bromberger, "Le révelateur de toutes les passions", Manière de voir -- Le monde Diplomatique --, n°39, maio-junho 1998, página 35).

Que assim seja!

Notas sobre "futebol e violência" -- III
Notas sobre "futebol e violência" -- II
Notas sobre "futebol e violência" -- I

Artur Perrusi

Referências Bibliográficas

- ACTES de la recherche en sciences sociales. (1994). Actes de la recherche en sciences sociales - Les enjeux du football(103).
- BROHM, Jean-Marie. (1983). Les meutes sportives: critique de la domination. Paris: L'Harmattan.
- COSTA, Jurandir Freire. (1984). Violência e psicanálise. Rio de Janeiro: Graal.
- EHRENBERG, Alain. (1991). Le culte de la performance. Paris: Calmann-Lévy.
- ELIAS, Nobert & DUNNING, Eric. (1986). Sport et civilisation. Paris: Fayard.
- LE BON, Gustave. (1975). Psychologie des foules. Paris: Retz.
- LE MONDE Diplomatique. (1998). Le Monde Diplomatique - Manière de Voir - Football et passions politiques (39).
- PERELMAN, Marc. (1998). Le stade barbare, la fureur du spectacle sportif. Paris: Éditions Mille et Une Nuits.
- SEBRELI, Juan José. (1998). La era del fútbol. Buenos Aires: Sudamericana.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Notas sobre "futebol e violência" -- II



Do futebol (primeiro clichê)...


O que significa dizer que a violência vem do futebol? Bem, seguindo o raciocínio do artigo anterior, seria alegar que a violência é intrínseca ao futebol, ou seja, que não é externa ao mundo futebolístico, e sim, e até mesmo, constituinte do conteúdo esportivo do futebol.

Tal alegação, no entanto, não é tão evidente assim, pois as diversas posições que se nutrem dessa inferência são nuançadas, e a noção de violência é, geralmente, introduzida de forma indireta e latente. Seria raro encontrar uma posição colocando, de forma explícita, que o futebol é explicado pelo conceito de violência; na verdade, a violência é vista muitas vezes como uma conseqüência inevitável do futebol.

De todo modo, para fins de exposição, analisarei algumas posições teóricas - comumente encontradas no meio acadêmico - que, direta ou indiretamente, consideram a violência como intrínseca ao futebol. Por exemplo: teorias que analisam o fut como "pão e circo" ou "ópio do povo", geralmente colocado como fazendo parte do aparato de "dominação de classe"; teorias que definem o fut como uma instituição que sublima a violência, através da própria violência simbólica desse esporte, afirmando o futebol como uma "guerra feita por outros meios"; ou ainda teorias que continuam a tradição teórica da psicologia social de criminólogos e psiquiatras do final do século XIX, julgando o fut como uma degradação do tecido social, cuja massa de torcedores é vista como uma horda primitiva, anárquica e caótica, em que toda violência é possível e temida.

Analisarei especialmente essas três posições, até porque são as mais conhecidas, já fazendo parte, digamos assim, do patrimônio cognitivo do senso comum; em suma, podem ser consideradas como clichês. Aliás, nada contra os clichês, aviso logo, pois podem servir como inspiração a um argumento ou mesmo como fonte de esclarecimento e conhecimento -- o futebol, por exemplo, é um mar de clichês e, convenhamos, sem eles, o que seria de nós, opinantes do fut?

Contudo, o clichê geralmente é redutor, talvez porque precise pagar o preço da simplicidade; afinal, é uma fórmula que precisa ser simples para ser repisada e popularizada. O perigo é que o clichê parece ser uma meia-verdade, isto é, não seria uma mera mentira, na qual a verdade apenas está sendo negada e, portanto, continua embutida na negação; não, a meia-verdade está aquém da veracidade e além da mentira, sendo um labirinto onde se procura a verdade, mas não se sabe se a busca é vã ou realmente sem propósito.

"Futebol é pão e circo" seria um exemplo perfeito de clichê, a começar pela sua longevidade: panem et circenses eram responsabilidades do imperador romano (na verdade, de toda a nobreza romana), mas o pão e o circo foram, na época, além de uma tentativa de apaziguamento do furor plebeu (principalmente na decadência do império romano), também um dom à coletividade, um mecenato à cidade. Visitando cidades antigas gregas e romanas, percebe-se que vários prédios públicos foram doações de "notáveis", perfazendo um costume provavelmente relacionado a uma moral de "classe" -- tal fato acontece e aconteceu na dita modernidade; no Brasil, por exemplo, vêem-se várias doações do tipo, principalmente vindas da liberalidade do nosso capitalismo emergente.

Com o surgimento da democracia e do Estado de Direito, a "doação" tornou-se "intolerável", saturando-se de desconfiança cívica, e o "dom" virou sinônimo de troca de favores - no sentido antigo, seria "pão e circo" a troca de favores que acontece no dia-a-dia entre os usuários e a polícia rodoviária. Evidentemente, as "doações" continuam, embora na surdina, principalmente em países onde o Estado de Direito é apenas de direito e não de fato; mas, com as devidas exceções, tais "doações" são vistas com maus olhos.

Mudando historicamente as conotações públicas e privadas do termo "doação", a acepção da expressão "pão e circo" passou a significar quase exclusivamente "apaziguamento das massas". Se subentende-se o que significa "apaziguamento", deve-se concluir que as "massas", por um motivo ou por outro, geralmente estão "coléricas" com alguma coisa -- como toda "elite" tem um tropismo pela paranóia, deve-se entender que a "fúria" popular invariavelmente vai de encontro ao status quo da sociedade.

Aparentemente, a causa do furor popular é sempre um mistério para os gentis-homens -- "por que urram tanto?" -- perguntam. "Estão com fome?" "Que se dê pão" - diz o papa-figo da Federaçõ Pernambucna de Futebol. "Estão gritando ainda?"... "Que se dê circo" - diz o rei da CBF. Nesse sentido, "pão e circo" significa um tipo de lazer coletivo no qual a coletividade participante submete-se a um mecanismo qualquer de "apaziguamento" de seu furor e/ou de sua tendência à sublevação, sofrendo, com isso, um "afastamento" de seus verdadeiros interesses.

Em suma, a "massa" distrai-se e se esquece da dura realidade -- tal visão pode-se misturar teoricamente com a teoria da catarse e da sublimação, como veremos mais adiante. O futebol, enquanto "pão e circo", seria uma espécie de ópio que anestesiaria os torcedores, desviando-os das mazelas cotidianas e de uma conscientização política da realidade. O futebol produziria, assim, uma "despolitização" das massas, fazendo parte do aparato simbólico de dominação das "classes dominantes". O futebol, enquanto "pão e circo", faria parte das diversas formas de "violência simbólica" que alienam as massas, os trabalhadores e quejandos.

Bem, pode-se fazer várias críticas a essa posição. Uma das observações possíveis seria bem pessoal: minha sensação é a de que, se posição acima for verdadeira, eu seria, digamos assim, um parvo. Sim, um parvo. Bem, primeiro implica dizer que preciso ser apaziguado de alguma forma, mesmo que minha mãe repita que fui e sou um rapaz calmo e pacífico -- de qualquer forma, o famoso "apaziguamento das massas" está indo de água abaixo: o torcedor violento entra violento no estádio e sai tão violento quanto. Segundo, que as partidas de futebol "distraem-me" ao ponto de esquecer a dura realidade brasileira e a existência dos Ricardo Teixeira -- em suma, vou ao estádio e volto "limpo" de rancor e de raiva contra o mundo.

Não sei se é porque tenho um ressentimento danado contra o establishment ou porque seja vacinado contra a alienação, mas o problema é que não me esqueço de nada! Posso me distrair, é claro, e o futebol é uma forma de distração, mas nenhum mecanismo cognitivo entorpece meu senso crítico por causa do futebol.

Mas você é um pequeno-burguês! - exclama um espírito de porco (confesso que, depois da vitória dos palmeirenses, passei a valorizar a porqueira da vida).

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Certo, sou um pequeno-burguês, e sendo assim, tenho uma vida melhor, uma educação formal e mais acesso às informações, podendo combater um pouco mais eficazmente a "alienação". Mas isso quer dizer que o "popular" é um débil mental que vai ao estádio e "esquece" que é miserável, que há pobres e ricos, sacanagens, dominação, repressão, exploração nesse mundo? A "alienação" causada pelo efeito "pão e circo" do futebol seria seletiva, ao ponto de poupar um pequeno-burguês, mas não um "plebeu"? Um mecanismo seletivo de classe?

Evidentemente, há imbecis no povo, tanto quanto há na pequena ou grande "burguesia"; afinal, a imbecilidade não é um monopólio de classe. Mas não consigo compreender - ou, pelo menos, até hoje nunca li tal explicação - como funciona esse mecanismo cognitivo de "despolitização" do torcedor. Seria o espetáculo em si? Mas como? A bola teria uma função hipnótica, causando um efeito de distanciamento da realidade? Mas como? Seria o efeito de distraimento?

Confesso que, durante uma partida de futebol, esqueço-me momentaneamente do DEM e quejandos, mas declaro que faço a mesma coisa quando escuto música, quando assisto a um filme no cinema, quando estou lavando os pratos... Em suma, geralmente o ócio e o lazer distraem-me o suficiente para esquecer-me momentaneamente das mazelas do cotidiano e da dura realidade brasileira. No fundo, não é propriamente um esquecimento, e sim uma mudança de foco e de atenção. Partindo do princípio de que a normalidade da cognição humana não passa necessariamente pela obsessão, podemos supor que não ficamos o tempo todo concentrados num tema ou assunto. Assim, mudar de tema ou se distrair com uma atividade de lazer, isto é, assistir a um jogo de bola, por exemplo, não significa um esquecimento ou um distanciamento duradoiro da realidade.

A teoria do futebol como "pão e circo", advogada por alguns setores da esquerda, retoma mutatis mutandis o velho preconceito conservador contra o lazer das classes populares. Se o conservador gostaria de ver, no fundo, o trabalhador não parando de trabalhar (férias? Que desperdício!), o "esquerdista" gostaria de ver o trabalhador não parando de... militar. Nesse sentido, o futebol ocuparia o tempo da militância, inviabilizando a luta de classes -- quem não se lembra da "proibição" de torcer pelo Brasil na copa de 70, quando nitidamente a ditadura estava instrumentalizando as vitórias da canarinha?! O conservador e o "esquerdista", assim, reencontram-se numa velha encruzilhada, onde reproduzem uma velha mania elitista: a dos educadores das massas - essa plebe que, se não trabalha, vai gastar o dinheiro na bebida; se não milita, vai alienar-se no futebol!

Contudo, não nego que o futebol também seja um instrumento de controle social, embora tanto quanto as férias ou a escola. Tais instituições, incluindo o fut, não têm uma natureza fixa; nesse caso, uma natureza alienada. São espaços coletivos que podem ou não ser instrumentalizados (à direita ou à esquerda), dependendo da conjuntura histórica. O fut, como manifestação coletiva da vida em sociedade, oferece um "campo" onde as pessoas expressam sentimentos, emoções e descontentamentos que podem ou não ser vinculados a outras "instituições sociais", como a política. E tais vinculações são históricas, e não ontológicas, isto é, não são dadas de forma evidente como se fizessem parte da natureza do futebol.

Por que reduzir o ato de torcer por um clube de futebol a uma compensação ilusória? Por que transformar o gosto pelo espetáculo num distanciamento da realidade? É inegável o prazer que um torcedor sente em assistir a uma partida de futebol, mas duvido muito que tal hedonismo apague-lhe a diferença entre a diversão e o cotidiano, independentemente do fato de viver numa sociedade onde seu dia-a-dia tem como horizonte a exclusão social e a quase ausência de mobilidade social. Não é porque gritei feito um louco pelo Santinha, exclamei invectivas febris contra a Coisa ou saí completamente extenuado depois de uma vitória ou de uma derrota do meu clube, que perdi a minha capacidade prosaica de dar sentido à minha vida e às minhas preocupações.

Enquanto torcedor, não estou condenado necessariamente à passividade política, à alienação e à reprodução das relações de dominação. Degusto o "pão" e vou ao "circo" -- mas juro que a minha alma não fica corrompida, mesmo voltando "pra lá de Bagdá" ao lar; em suma, permaneço intacto espiritualmente. Pelo menos, é o que descubro no outro dia quando -- para o bem ou para o mal -- olho-me no espelho...

Já, já, continuo...

Artur Perrusi

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Notas sobre Futebol e Violência - I



Como pode ser bárbaro um povo que tem como maior abstração de
triunfo o grito de gol
?” Carlos Drummond de Andrade

Depois do artigo de Jorge Ventura, aproveitando o ensejo, publico outro escrito sobre futebol. Inclusive, confesso que a decisão de publicar esse texto surgiu depois de uma conversa com... Cynthia! Sim, ela mesma, a toda-poderosa do PPGS. Foi quando de uma banca de concurso lá em Rio Tinto, na Paraíba. Num bate-papo sem muitas pretensões, a dita-cuja fez uma confissão inusitada:

_Artur, eu adoro futebol...
_Como?!
_Eu adoro futebol!
_Você?!
_Sim, o que é que tem?
_Não sei... É meio estranho. Qual a relação entre futebol e realismo crítico?
_Nenhuma. Não entendi a pergunta.
_Deixa pra lá...

Cynthia baixou a cabeça, olhou para o lado e disse, quase num susurro:

_Eu torço loucamente pelo Santinha.
_Incrível!
_Tenho até uma falsa cobra coral de estimação.
_Uau!

E começou a cantar o hino do Santinha:
Nos anais, nos calendários /Fiquem sempre por lembrança /Teus lauréis extraordinários/ De bravura e de pujança/ Nos esportes tua história/ É orgulho a que faz jus/ Este símbolo de glória /Que é teu nome Santa Cruz...

Incrível, ela sabia decorado o hino oficial do clube! E insistiu em cantá-lo inteiro. Notei que os canaviais ficaram em silêncio. Pensei em tampar minhas orelhas, mas achei indelicado. Sofri calado.

_Mas... por que você nunca falou disso?
_É Jonatas. É fanático pelo Náutico. Ele ficaria magoado.

Sim, ela tinha razão. Todo alvirrubro é meio suscetível. Não era bom magoá-lo. Nunca se sabe a reação. Enfim...

Assim, em homenagem ao amor futebolístico de Cynthia, publicarei um texto sobre violência e futebol — como é grande, publicarei aos poucos, em capítulos. Originalmente, apareceu no extinto site Futiba, onde assinava uma coluna chamada “Fora do Eixo”; como artigo, foi publicado na Revista Caos (aqui). O texto, contudo, não tem um estilo “acadêmico”; além do mais, acredito que discutir futebol tem como referência estilística… a mesa de bar e algumas cervejinhas. Dessa forma, não seria um texto propriamente “sério” e tem tudo pra cair “nos braços do adjetivo ululante”.

INTRODUÇÃO

Há muito, uma inquietação ronda o cotidiano de todo torcedor: a questão da violência no futebol! Sou um amante do fut e, enquanto tal, venho ficando preocupado com o recrudescimento da violência. Por isso, decidi analisar algumas questões relativas ao tema “futebol e violência”. Assunto difícil e complexo, mas sobretudo abrangente: futebol e violência são grudes do nosso cotidiano! Fazem parte, digamos assim, de nossas vidas. E discutir problemas que repercutem diretamente no nosso dia-a-dia pode não ser tão monumental assim (como, por exemplo, seria debater a Política ou a Arte), mas é muito mais árduo, já que são assuntos que dizem respeito a todos e, portanto, todos podem meter o bedelho - todos opinam, logo não há especialistas na matéria, estando todos em pé de igualdade na discussão; pois, nesse Brasil velho e enfadado, não há assuntos mais “democráticos”…

Sim, “respiramos” futebol e violência no dia-a-dia. Atualmente, para a imensa maioria do povo brasileiro, essas duas “entidades” são fontes de “extrema preocupação” - em casa, na rua, no trabalho, no bar; tão extremas que são comezinhas, mesmo banais, fazendo parte inclusive da formação de nossa identidade. Em suma, para os brasileiros, futebol e violência são assuntos “universais”, sem distinção de raça, classe ou renda. Até Cynthia gosta de futebol, imaginem vocês...

E se ficamos alegres com a "universalidade" do futebol, permanecemos perplexos diante da generalidade da violência; pior, ficamos pasmos diante do encaixe quase perfeito entre o futebol e a violência. É a violência dos jogadores; dos técnicos, quando fabricam, entre outras coisas, táticas de “contenção” do jogo e do adversário; dos dirigentes, no seu modus faciendi; da dita “rivalidade” entre as torcidas; da mídia, quando une, entre outras coisas, futebol e ufanismo… É violência lato sensu: física, simbólica, ideológica, o diabo a quatro.

Alguns teóricos do esporte dirão que violência e futebol sempre estiveram intrinsecamente relacionados, e o que vemos atualmente é a renovação histórica dessa eterna relação. Ora, se a violência fundou a cultura humana, ela estaria também diretamente conectada à gênese do futebol. Por que tantas metáforas guerreiras no meio futebolístico? O futebol não seria a guerra feita por outras maneiras? O futebol, e o esporte de forma geral, não é uma “catarse” que sublima e apazigua o instinto violento do ser humano? Pode ser, e voltaremos a discutir tal visão do futebol no texto, pois os argumentos são poderosos e pertinentes.

Contudo, mesmo admitindo que futebol e violência tenham uma relação profunda, a impressão atual é a de que, assim como a violência vem desnaturando o tecido social brasileiro, o mesmo vem acontecendo com o futebol - uma das maiores causas do esvaziamento dos estádios em São Paulo, por exemplo, seria provavelmente a violência. Talvez estejamos vivendo uma situação limite, ultrapassando uma fronteira que separa, algumas vezes de forma indistinta, a "civilização" da barbárie.

O excesso de violência vem transformando qualitativamente nossa visão da sociedade e nosso ponto de vista sobre o futebol. E sendo o esporte um modo de agir e conhecer a realidade humana, e sendo o futebol o esporte fundamental do povo brasileiro, e sendo ele um amálgama de nossa identidade, um deslocamento nesse ponto de vista, uma mudança determinada justamente pela violência pode trazer, a médio e longo prazo, resultados preocupantes. Se a violência desnaturar de vez o futebol, penso que o imaginário brasileiro mudará, se já não está mudando, e pra pior.

Por fim, para terminar esta introdução, devo dizer que o texto tem como função lançar questões, estabelecer discussões… Se os leitores começarem a se questionar sobre o problema do futebol e da violência, saberei que valeu a pena tê-lo escrito. Em suma, não pretendo oferecer aos leitores uma resposta ao tema - resposta bem mais variada e complexa do que sonha meu limitado conhecimento - mas sim abrir um leque de questões.

VIOLÊNCIA NO FUTEBOL OU VIOLÊNCIA DO FUTEBOL?


Queimando o tutano para escrever este texto, comecei a tentar explicitar, na minha mente, qual era realmente a questão que estava examinando. Explico: vou analisar a violência no futebol ou a violência do futebol? No início, pensei que tal problema fosse um tanto inócuo, produto talvez da minha confusão mental. Depois, fui verificando que não, de fato a interrogação era legítima e podia trazer alguns esclarecimentos interessantes, principalmente se fosse entendida como um procedimento pedagógico que facilitasse a separação do joio do trigo, e por aí vai. Na verdade, a confusão não era somente um produto da minha vocação cognitiva, mas também resultado do exame das diversas posições sobre o assunto, muitas das quais completamente discordantes entre si.

no futebol…

Assim, uma visão edulcorada do futebol, quando este é entendido - alguns exemplos entre muitos outros - como uma “revolução do lazer”, uma “celebração do tempo livre” ou a “união universal entre os homens”, certamente examinará a violência no futebol. Ora, neste caso a violência viria de “fora”, sendo externa ao futebol, isto é, não seria intrínseca ao campo futebolístico. A violência no futebol seria conjuntural, pois trazida de outro meio, este sim violento - por exemplo: seja via Estado (instrumentalização pela política), seja por uma outra esfera social (instrumentalização pelo racismo) - que se apropriaria do nosso esporte favorito. Sem tal violência, que circunda as fronteiras do meio futebolístico, não haveria, portanto, violência no futebol. No fundo, não precisaríamos do conceito de violência para entendermos o futebol, enquanto objeto de estudo.

Tais posições são coerentes e vão ao encontro de nossa experiência cotidiana. A maioria absoluta dos torcedores que vai ao campo assistir a uma partida não vivencia - pelo menos, de forma consciente - o futebol como um evento violento ou que produza violência. Mesmo que ocorram “descargas emocionais”, tipo palavrões, raiva da derrota ou gestos intempestivos, provavelmente tais situações não são vivenciadas como um ato violento, como tal. Aparentemente, a violência é trazida de fora, seja pela crise econômica, seja pela crise social e de segurança… Ora, se vivemos numa sociedade ultraviolenta, por que não pensar que tal violência não esteja impregnando - e trazendo-a naturalmente para - o futebol? Violência na sociedade e mesmo da sociedade, logo violência no futebol.

Ainda que exista muita verdade no raciocínio descrito acima, pois explica várias facetas da questão “futebol e violência”, postular uma violência no futebol, isto é, pensá-la como um fenômeno extrínseco ao campo futebolístico, como algo que vem de “fora”, dificulta a compreensão do fenômeno dos hooligans ou das torcidas organizadas. Explico: como a violência vem de “fora” do futebol, e sendo as torcidas organizadas grupos notoriamente violentos, de que maneira, por conseguinte, percebê-los como parte do mundo do futebol, inclusive como torcedores?

Não causa surpresa que os membros das torcidas organizadas ou os hooligans sejam percebidos como delinqüentes (e, de fato, muitos o são!) que vêm aos estádios para bagunçar e cometer atos violentos (e, de fato, isso ocorre), mas não propriamente para torcer. Não são torcedores e não fazem parte do ordeiro mundo do futebol - eles vêm de “fora”. Na verdade, fazem parte de um outro mundo, o do crime - não só do crime, pois a violência do hooligan é vista muitas vezes como não humana (animals, como dizem os tablóides ingleses) ou mesmo como inumana. Com efeito, há uma clara tendência de criminalização do “torcedor organizado”, realizada principalmente pela polícia brasileira. Cuida-se do hooligan brasileiro da mesma forma que do marginal: na base da porrada. Torcida organizada e marginalidade são, no senso comum, praticamente sinônimos, e não por mera coincidência.

Talvez um dos méritos da polícia inglesa tenha sido o de compreender - após uma série de condutas erradas, vale dizer - que o hooligan não é um delinqüente propriamente dito, pois até mesmo estatisticamente a delinqüência é minoria na torcida organizada, e sim um torcedor, mas de um tipo diferente. De certa forma, o hooliganismo começou a ser visto como uma violência do futebol, e não apenas como um fenômeno comum relacionado à criminalidade, criando-se inclusive na Scotland Yard uma “unidade especial de inteligência sobre o futebol” para tratar do problema.

Compreender a violência como um fenômeno externo ao campo futebolístico possui outra dificuldade: independentemente de ser intrínseca ou extrínseca, a violência sempre existiu no futebol desde as suas origens. Por exemplo: se as origens do fut remontam à Idade Média, o jogo praticado, até então, era tão violento que, em 1314, o rei inglês Eduardo II proibiu seu exercício; na Inglaterra elisabetana, o futebol, uma espécie de “base football player”, era visto como um jogo vil, conforme afirma o duque de Kent no Rei Lear de Shakespeare; la soule, versão francesa do jogo de bola, era tão violenta que os reis Felipe V e Carlos V tiveram que proibi-la em 1319 e 1369, respectivamente. Assim, os exemplos históricos são numerosos e eloqüentes (vários nos séculos XIX e XX), relacionando sempre futebol e violência. O futebol, historicamente, não parece um campo pacífico invadido externamente pela violência alheia, mas sim um esporte que possui a sua própria violência.

Desse modo, deve-se examinar a violência do futebol e não no futebol? Sim, não, mas sim, mas não, nem isso (eu pareço um tucano falando). Contudo, para facilitar, começarei pelo “sim”, e vejamos até onde isso vai dar…

Até o próximo capítulo!
Artur Perrusi