sexta-feira, 15 de maio de 2009

Notas sobre Futebol e Violência - I



Como pode ser bárbaro um povo que tem como maior abstração de
triunfo o grito de gol
?” Carlos Drummond de Andrade

Depois do artigo de Jorge Ventura, aproveitando o ensejo, publico outro escrito sobre futebol. Inclusive, confesso que a decisão de publicar esse texto surgiu depois de uma conversa com... Cynthia! Sim, ela mesma, a toda-poderosa do PPGS. Foi quando de uma banca de concurso lá em Rio Tinto, na Paraíba. Num bate-papo sem muitas pretensões, a dita-cuja fez uma confissão inusitada:

_Artur, eu adoro futebol...
_Como?!
_Eu adoro futebol!
_Você?!
_Sim, o que é que tem?
_Não sei... É meio estranho. Qual a relação entre futebol e realismo crítico?
_Nenhuma. Não entendi a pergunta.
_Deixa pra lá...

Cynthia baixou a cabeça, olhou para o lado e disse, quase num susurro:

_Eu torço loucamente pelo Santinha.
_Incrível!
_Tenho até uma falsa cobra coral de estimação.
_Uau!

E começou a cantar o hino do Santinha:
Nos anais, nos calendários /Fiquem sempre por lembrança /Teus lauréis extraordinários/ De bravura e de pujança/ Nos esportes tua história/ É orgulho a que faz jus/ Este símbolo de glória /Que é teu nome Santa Cruz...

Incrível, ela sabia decorado o hino oficial do clube! E insistiu em cantá-lo inteiro. Notei que os canaviais ficaram em silêncio. Pensei em tampar minhas orelhas, mas achei indelicado. Sofri calado.

_Mas... por que você nunca falou disso?
_É Jonatas. É fanático pelo Náutico. Ele ficaria magoado.

Sim, ela tinha razão. Todo alvirrubro é meio suscetível. Não era bom magoá-lo. Nunca se sabe a reação. Enfim...

Assim, em homenagem ao amor futebolístico de Cynthia, publicarei um texto sobre violência e futebol — como é grande, publicarei aos poucos, em capítulos. Originalmente, apareceu no extinto site Futiba, onde assinava uma coluna chamada “Fora do Eixo”; como artigo, foi publicado na Revista Caos (aqui). O texto, contudo, não tem um estilo “acadêmico”; além do mais, acredito que discutir futebol tem como referência estilística… a mesa de bar e algumas cervejinhas. Dessa forma, não seria um texto propriamente “sério” e tem tudo pra cair “nos braços do adjetivo ululante”.

INTRODUÇÃO

Há muito, uma inquietação ronda o cotidiano de todo torcedor: a questão da violência no futebol! Sou um amante do fut e, enquanto tal, venho ficando preocupado com o recrudescimento da violência. Por isso, decidi analisar algumas questões relativas ao tema “futebol e violência”. Assunto difícil e complexo, mas sobretudo abrangente: futebol e violência são grudes do nosso cotidiano! Fazem parte, digamos assim, de nossas vidas. E discutir problemas que repercutem diretamente no nosso dia-a-dia pode não ser tão monumental assim (como, por exemplo, seria debater a Política ou a Arte), mas é muito mais árduo, já que são assuntos que dizem respeito a todos e, portanto, todos podem meter o bedelho - todos opinam, logo não há especialistas na matéria, estando todos em pé de igualdade na discussão; pois, nesse Brasil velho e enfadado, não há assuntos mais “democráticos”…

Sim, “respiramos” futebol e violência no dia-a-dia. Atualmente, para a imensa maioria do povo brasileiro, essas duas “entidades” são fontes de “extrema preocupação” - em casa, na rua, no trabalho, no bar; tão extremas que são comezinhas, mesmo banais, fazendo parte inclusive da formação de nossa identidade. Em suma, para os brasileiros, futebol e violência são assuntos “universais”, sem distinção de raça, classe ou renda. Até Cynthia gosta de futebol, imaginem vocês...

E se ficamos alegres com a "universalidade" do futebol, permanecemos perplexos diante da generalidade da violência; pior, ficamos pasmos diante do encaixe quase perfeito entre o futebol e a violência. É a violência dos jogadores; dos técnicos, quando fabricam, entre outras coisas, táticas de “contenção” do jogo e do adversário; dos dirigentes, no seu modus faciendi; da dita “rivalidade” entre as torcidas; da mídia, quando une, entre outras coisas, futebol e ufanismo… É violência lato sensu: física, simbólica, ideológica, o diabo a quatro.

Alguns teóricos do esporte dirão que violência e futebol sempre estiveram intrinsecamente relacionados, e o que vemos atualmente é a renovação histórica dessa eterna relação. Ora, se a violência fundou a cultura humana, ela estaria também diretamente conectada à gênese do futebol. Por que tantas metáforas guerreiras no meio futebolístico? O futebol não seria a guerra feita por outras maneiras? O futebol, e o esporte de forma geral, não é uma “catarse” que sublima e apazigua o instinto violento do ser humano? Pode ser, e voltaremos a discutir tal visão do futebol no texto, pois os argumentos são poderosos e pertinentes.

Contudo, mesmo admitindo que futebol e violência tenham uma relação profunda, a impressão atual é a de que, assim como a violência vem desnaturando o tecido social brasileiro, o mesmo vem acontecendo com o futebol - uma das maiores causas do esvaziamento dos estádios em São Paulo, por exemplo, seria provavelmente a violência. Talvez estejamos vivendo uma situação limite, ultrapassando uma fronteira que separa, algumas vezes de forma indistinta, a "civilização" da barbárie.

O excesso de violência vem transformando qualitativamente nossa visão da sociedade e nosso ponto de vista sobre o futebol. E sendo o esporte um modo de agir e conhecer a realidade humana, e sendo o futebol o esporte fundamental do povo brasileiro, e sendo ele um amálgama de nossa identidade, um deslocamento nesse ponto de vista, uma mudança determinada justamente pela violência pode trazer, a médio e longo prazo, resultados preocupantes. Se a violência desnaturar de vez o futebol, penso que o imaginário brasileiro mudará, se já não está mudando, e pra pior.

Por fim, para terminar esta introdução, devo dizer que o texto tem como função lançar questões, estabelecer discussões… Se os leitores começarem a se questionar sobre o problema do futebol e da violência, saberei que valeu a pena tê-lo escrito. Em suma, não pretendo oferecer aos leitores uma resposta ao tema - resposta bem mais variada e complexa do que sonha meu limitado conhecimento - mas sim abrir um leque de questões.

VIOLÊNCIA NO FUTEBOL OU VIOLÊNCIA DO FUTEBOL?


Queimando o tutano para escrever este texto, comecei a tentar explicitar, na minha mente, qual era realmente a questão que estava examinando. Explico: vou analisar a violência no futebol ou a violência do futebol? No início, pensei que tal problema fosse um tanto inócuo, produto talvez da minha confusão mental. Depois, fui verificando que não, de fato a interrogação era legítima e podia trazer alguns esclarecimentos interessantes, principalmente se fosse entendida como um procedimento pedagógico que facilitasse a separação do joio do trigo, e por aí vai. Na verdade, a confusão não era somente um produto da minha vocação cognitiva, mas também resultado do exame das diversas posições sobre o assunto, muitas das quais completamente discordantes entre si.

no futebol…

Assim, uma visão edulcorada do futebol, quando este é entendido - alguns exemplos entre muitos outros - como uma “revolução do lazer”, uma “celebração do tempo livre” ou a “união universal entre os homens”, certamente examinará a violência no futebol. Ora, neste caso a violência viria de “fora”, sendo externa ao futebol, isto é, não seria intrínseca ao campo futebolístico. A violência no futebol seria conjuntural, pois trazida de outro meio, este sim violento - por exemplo: seja via Estado (instrumentalização pela política), seja por uma outra esfera social (instrumentalização pelo racismo) - que se apropriaria do nosso esporte favorito. Sem tal violência, que circunda as fronteiras do meio futebolístico, não haveria, portanto, violência no futebol. No fundo, não precisaríamos do conceito de violência para entendermos o futebol, enquanto objeto de estudo.

Tais posições são coerentes e vão ao encontro de nossa experiência cotidiana. A maioria absoluta dos torcedores que vai ao campo assistir a uma partida não vivencia - pelo menos, de forma consciente - o futebol como um evento violento ou que produza violência. Mesmo que ocorram “descargas emocionais”, tipo palavrões, raiva da derrota ou gestos intempestivos, provavelmente tais situações não são vivenciadas como um ato violento, como tal. Aparentemente, a violência é trazida de fora, seja pela crise econômica, seja pela crise social e de segurança… Ora, se vivemos numa sociedade ultraviolenta, por que não pensar que tal violência não esteja impregnando - e trazendo-a naturalmente para - o futebol? Violência na sociedade e mesmo da sociedade, logo violência no futebol.

Ainda que exista muita verdade no raciocínio descrito acima, pois explica várias facetas da questão “futebol e violência”, postular uma violência no futebol, isto é, pensá-la como um fenômeno extrínseco ao campo futebolístico, como algo que vem de “fora”, dificulta a compreensão do fenômeno dos hooligans ou das torcidas organizadas. Explico: como a violência vem de “fora” do futebol, e sendo as torcidas organizadas grupos notoriamente violentos, de que maneira, por conseguinte, percebê-los como parte do mundo do futebol, inclusive como torcedores?

Não causa surpresa que os membros das torcidas organizadas ou os hooligans sejam percebidos como delinqüentes (e, de fato, muitos o são!) que vêm aos estádios para bagunçar e cometer atos violentos (e, de fato, isso ocorre), mas não propriamente para torcer. Não são torcedores e não fazem parte do ordeiro mundo do futebol - eles vêm de “fora”. Na verdade, fazem parte de um outro mundo, o do crime - não só do crime, pois a violência do hooligan é vista muitas vezes como não humana (animals, como dizem os tablóides ingleses) ou mesmo como inumana. Com efeito, há uma clara tendência de criminalização do “torcedor organizado”, realizada principalmente pela polícia brasileira. Cuida-se do hooligan brasileiro da mesma forma que do marginal: na base da porrada. Torcida organizada e marginalidade são, no senso comum, praticamente sinônimos, e não por mera coincidência.

Talvez um dos méritos da polícia inglesa tenha sido o de compreender - após uma série de condutas erradas, vale dizer - que o hooligan não é um delinqüente propriamente dito, pois até mesmo estatisticamente a delinqüência é minoria na torcida organizada, e sim um torcedor, mas de um tipo diferente. De certa forma, o hooliganismo começou a ser visto como uma violência do futebol, e não apenas como um fenômeno comum relacionado à criminalidade, criando-se inclusive na Scotland Yard uma “unidade especial de inteligência sobre o futebol” para tratar do problema.

Compreender a violência como um fenômeno externo ao campo futebolístico possui outra dificuldade: independentemente de ser intrínseca ou extrínseca, a violência sempre existiu no futebol desde as suas origens. Por exemplo: se as origens do fut remontam à Idade Média, o jogo praticado, até então, era tão violento que, em 1314, o rei inglês Eduardo II proibiu seu exercício; na Inglaterra elisabetana, o futebol, uma espécie de “base football player”, era visto como um jogo vil, conforme afirma o duque de Kent no Rei Lear de Shakespeare; la soule, versão francesa do jogo de bola, era tão violenta que os reis Felipe V e Carlos V tiveram que proibi-la em 1319 e 1369, respectivamente. Assim, os exemplos históricos são numerosos e eloqüentes (vários nos séculos XIX e XX), relacionando sempre futebol e violência. O futebol, historicamente, não parece um campo pacífico invadido externamente pela violência alheia, mas sim um esporte que possui a sua própria violência.

Desse modo, deve-se examinar a violência do futebol e não no futebol? Sim, não, mas sim, mas não, nem isso (eu pareço um tucano falando). Contudo, para facilitar, começarei pelo “sim”, e vejamos até onde isso vai dar…

Até o próximo capítulo!
Artur Perrusi

9 comentários:

Cynthia disse...

É verdade, eu gosto muito de futebol. Eu adoro futebol. Só tem uma coisa no jogo que eu nunca entendi direito: quem é essa tal de bola?

Eita, Arture, você voltou!

Artur disse...

Claro que a senhora sabe. Vc mesma me disse que Roy Bhaskar, através de estudos transcendentais, conceituou que a bola era um "artefato esférico de borracha ou de outro material, freqüentemente envolto em couro, feltro, etc., que, em geral, salta por efeito da elasticidade, e é usado em diversos esportes". Em suma, concluiu que a bola era Real!

Cynthia disse...

É que depois que eu li Laclau, fiquei confusa. Fiquei achando que a bola é simplesmente um efeito de linguagem. Puro significado. Até já ameacei Remo com uma tijolada na cabeça para ele sentir a materialidade do efeito de linguagem, mas você sabe como esses pós-estruturalistas confundem a gente...

Artur disse...

Hehe...

Tenho um vídeo no qual Jonatas chuta com muita raiva uma bola de futebol: _vc é um efeito de linguagem! Vc é um efeito de linguagem, porra!

Depois da tijolada, pegue Remo em flagrante botando gelo no galo da cabeça. Tire uma foto. Isso desmoraliza qualquer pós-pós.

Le Cazzo disse...

Bom, parece que a realidade da bola nunca foi um problema - pra certas torcidas e torcedores, pelo menos.

E, no fundo tanta agressividade, violência, para com o discurso, tanto interesse pelo conflito no futebol esconde um Artur que gostava de falar de táticas, contratações, escalações... Parece que o interesse mudou. Onde está o verdadeiro Artur? Quando ele voltará a falar sobre esses temas quentes? A contratação de Beto Acosta, por exemplo? A Pitu já foi informada, a linha de produção dessa valorosa empresa pernambucana está preparada para a chegada do grande craque?

Acho que amanhã vou assistir ao estádio. E tu? Vamos?

Jonatas

Cynthia disse...

Eita, Artur, disfarça que Jonatas chegou aí.

Que ótimo a contratação de Beto Costa, não?

Artur disse...

Comecei a tematizar a violência por causa do descalabro do Santinha. É uma violência simbólica contra minha alma frágil. Não entendo como Cynthia gosta tanto desse clube. Paixão não se explica. Vai ser fanática assim... Não irei ao jogo. Choverá muito.

É Beto Costa ou Acosta?

Le Cazzo disse...

Mas, General, era a sua chance de ver a realidade da bola em ação - dois gols no fundo dos "barbantes do Cruzeiro" - e tudo isso sem a menor violência.

Anônimo disse...

E esse jogo não tem segundo tempo, não? Zé da Goma