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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A ausência de cidadania dos imigrantes ou o confuso pertencimento ao Estado-nação

Imigrantes albaneses chegam à Itália, 1991 (Fonte: Corbis)

Por Raquel Camargo - Professora Substituta do Dept. de Ciências Jurídicas da UFPB

H. Arendt nos ensina que o Estado-moderno, desde o seu início, assumiu a forma de Estado-nação. Ou, nos termos de Habermas, com o “desencantamento do mundo” a organização que veio suprir a contento a necessidade de racionalização da vida, sem perder o componente da transcendência, foi exatamente o Estado-nação. Mistura engenhosa e criativa, porém quase improvável, o Estado-nação forneceu a melhor resposta: um novo modo de legitimação do poder – republicano e racional – convivendo com o pertencimento, mais ou menos espontâneo, mais ou menos forjado, a uma ideia de nação pautada no compartilhamento de uma língua, de uma história e de uma vontade difusa de “viver junto” (RENAN, 1992). Em outras palavras, o Estado-nação, ao pertencimento a uma comunidade de livres e iguais – o Estado – juntava um sistema de representação capaz de produzir sentido para a alma – a nação.

Ao falar desse tema, que tanto me estimula e inquieta, não posso deixar de mencionar o meu próprio itinerário pessoal, longo e surreal, de convencimento de um membro de minha banca de defesa final do mestrado da possibilidade de usar este binômio (Estado-nação) sem estar cometendo a maior incoerência jurídica de todos os tempos. Quando eu estava perto de vencê-lo pelo cansaço, chegamos a um acordo meio bizarro: cada vez que eu pronunciasse ou escrevesse a polêmica expressão, deveria me justificar mostrando as razões de fazê-lo. Pois bem, acho que sou dura na queda, não desisto: volta e meia retorno com o problemático, porém não menos fascinante, Estado-nação.

Começo tentando fazer justiça, dizendo que compreendo as inquietações do meu professor. Ora, falar em Estado-nação é trazer a todo momento um componente de pertencimento cultural e acreditar numa ideia “vaga”, historicamente datada, de compartilhamento de crenças, identidades, hábitos e vários outros elementos inventados para que encontrássemos certo sentido no ato de vivermos juntos. Portanto, juridicamente falando, e já pedindo desculpas pelo trocadilho, acreditar nesse sentido não faz mais nenhum sentido. Tal atitude é, inclusive, nociva, pois implica em excluir do pertencimento ao Estado todos aqueles que não podem se inserir na “comunidade imaginada” (ANDERSON, 2008) que convencionamos chamar de nação. Devemos, pois, seguindo este raciocínio, substituir a expressão “Estado-nação” por “Estado-territorial”, e ao nos referirmos à dimensão pessoal do Estado, devemos então falar em “povo”, não em “nação”.

Essa fórmula/estratégia de substituição tem um objetivo claro e configura uma tese defendida por vários autores, sobretudo aqueles que têm uma inserção transdisciplinar no campo da política e do direito internacional (CORRAL, 2006). A ideia é de que, como diria Schnnaper (2003), alguns conceitos escondem verdadeiras teorias. Assim, trocar “Estado-nação” por “Estado-territorial” seria defender a ideia segundo a qual, nos Estados democráticos, o povo não precisa mais se configurar como nação para que haja o pertencimento estatal, basta fazer parte dos limites territoriais dentro dos quais o Estado exerce a sua jurisdição. A principal e melhor consequência deste rearranjo é que a cidadania deixaria de depender da nacionalidade e os estrangeiros poderiam ser tornar cidadãos.

Não é que não considere esse resultado o melhor possível, ao contrário. Dentro do melhor dos mundos possíveis é exatamente isso o almejado, que o mundo não mais se divida em Estado-nações e os estrangeiros possam ter acesso a uma cidadania que lhes garanta direitos fundados no princípio do indivíduo, e não no pertencimento nacional. A história, porém, nos deixa calejados. Como dar concretude ao povo senão através da nação? Claude Lefort (2003) não tinha razão ao dizer que o povo sem nação é mera abstração? Quando eu falo em “povo”, como posso atribuir uma forma a essa massa disforme senão por via da nação? O povo... Mas que povo? O povo francês, o povo inglês, o povo brasileiro etc. Por outro lado, não foi exatamente através do Estado-nação que conseguimos dar forma e conteúdo ao Estado, desde Hobbes pensado como uma pessoa fictícia?

As palavras dão nomes as coisas, são suportes, ou melhor, signos linguísticos que trazem significados e nos permitem representar o mundo. Mas as coisas existem! No caso da nação, por mais que a palavra expresse uma invenção do mundo da cultura, isto é, do mundo dos significados, ela não foi pensada em meio a um vazio. Ela é uma ficção, sim, mas nem por isso é uma mentira. Ficções são invenções que de alguma forma representam a realidade. A nação não pode ser observada da maneira como observamos um fenômeno da natureza, por exemplo. Porém, a nação traduz um sentimento que não pode ser negligenciado (acabamos de assistir as Olimpíadas em Londres, por sinal...).

Longe de mim achar que o modelo de Estado-nação não gera exclusões as mais drásticas possíveis. É exatamente a nação, ou melhor, a criativa mistura entre Estado e nação, que faz com que a até hoje a cidadania dependa da nacionalidade. Consequencia disso: os imigrantes estrangeiros não podem ser considerados cidadãos, o que os colocam em uma situação delicada na hora de fazer valer seus direitos.

De fato, é impossível negar a crise do modelo de Estado-nação. “Crise”, no entanto, não implica em superação imediata, e sim em um momento agonizante a partir do qual novos e desconhecidos caminhos podem ser imaginados. As crises configuram momentos ideais para pensar, questionar e vislumbrar novas possibilidades. O importante, nesse exercício, é “não jogar fora o bebê junto com a água do banho”, como faz, por exemplo, Mario Vargas Llosa ao culpar o Estado-nação por todos os males e todas as crueldades produzidas pela humanidade e acusá-lo do exemplo privilegiado de uma imaginação maligna (SCHNNAPER, 2003).

Para esse tipo de reflexão, a leitura de Butler me parece uma ótima opção. Ao tentar rearranjar a ideia de Estado-nação, ela parte de uma mistura tão criativa e improvável quanto àquela que deu origem a esse conceito: literatura comparada, política, estética e uma pitada de filosofia da linguagem. Uma associação muito livre de ideias e observações da realidade que nos levam ao estimulante conceito de “contradição perfomativa”. A que isso dá nome? Explico-me.

Butler, observando da janela de sua casa uma manifestação de imigrantes que acontecia em uma rua qualquer de Los Angeles, foi levada a exercer sua imaginação e nos brindar com o belíssimo articulado de ideias que compõe o livro Quem canta o Estado Nação?. A situação é a seguinte: no ano de 2006, imigrantes hispânicos em situação irregular fizeram uma marcha na qual foi cantado, como forma de protesto, o hino nacional estadunidense em espanhol. Butler viu nessa manifestação performática o caldo perfeito para a reflexão sobre imigrantes ilegais sem nacionalidade, portanto sem cidadania.

A primeira coisa que Butler identificou foi a existência de um “nós”, isto é, um sujeito coletivo, que ao cantar hino em espanhol reivindicava, de forma performática, a inclusão na nação estadunidense. Esse pedido de inclusão, porém, não era tão simples, pois não se tratava apenas de se inserir em uma ideia já existente de nação. O buraco, ou melhor, a nação, era mais embaixo: o ato de cantar o hino estadunidense em espanhol trazia consigo o problema da igualdade, sem a qual o “nós” que compõe a nação fica impronunciável (BUTLER, 2009). A igualdade necessária para pronunciar o “nós” que compõe a nação, porém, é excludente. Tanto que, na ocasião, Bush se pronunciou para deixar claro que “o hino nacional só se canta em inglês”, do contrário, ele deixa de ser nacional. Está montado o drama. Parece que o máximo que poderia ser feito em termos de inclusão na ideia de nação era admitir um pouquinho de pluralismo para incluir umas tantas pessoas e depois redefinir os critérios de igualdade para a partir daí excluir umas tantas outras.

Felizmente Butler não parou por aí. E se considerássemos que manifestações como estas são exercícios retórico-performativos que, de tão improváveis, paradoxais e contraditórios poderiam nos fornecer novos modelos para reorganizar o poder? Afinal, não são das misturas mais impensáveis e experimentais que surgem os imponderáveis da vida? Vejamos então até que ponto o exercício da imaginação pode nos levar: a tal marcha dos imigrantes é uma contradição performativa em todos os seus termos – e seria uma catástrofe se não fosse tão inovadora. O hino nacional foi cantado em espanhol, contrariando o requisito monolinguístico da nação, e na rua, espaço público por excelência no qual os imigrantes ilegais não têm o direito de se reunir. Ou seja, os imigrantes que participaram do protesto estavam exercendo direitos que, na realidade, não possuíam. Apropriaram-se daquilo que pediam, tornando visível uma liberdade que, contraditoriamente, não estava lá (BUTLER, 2009). Não se pode deixar de ver a importância simbólica deste ato: a nação estava se reproduzindo em termos retóricos não autorizados através dos imigrantes!

O que realmente existiu e o que pôde ser gerado com esse ato político contraditório e performático? Que relação se pode traçar entre o que entendemos por nação, ou, se preferirmos, a nossas representações de nação, e a realidade que se deixa ser observada? Em outras palavras, esse tipo de exercício imaginativo é útil para resolver, ou ao menos explicar, os problemas que realmente importam? O que consigo perceber observando a realidade é que, no mundo de hoje, as pessoas se deslocam cada vez mais e nesses movimentos os limites e fronteiras, ainda que não passem de construções imaginárias, repercutem de forma muito real na vida de todos nós. É só experimentar atravessar uma fronteira nacional sem um visto ou um passaporte alegando ser cidadão do mundo para que se sinta na pele os efeitos do não pertencimento nacional. O que me faz concluir que o Estado-nação é problemático, mas, ainda assim, não podemos prescindir de refletir e nem mesmo de considerar a existência, talvez tardia, dele. E uma boa maneira de fazer isso é se acostando em autores que, de forma criativa, tentam resignificar a própria realidade.

Acabo, pois, como Butler, sem encontrar uma resposta certa para o problema da exclusão dos imigrantes estrangeiros do pertencimento nacional, mas acreditando que as contradições são bem vindas. Devemos levá-las em conta se queremos mudar aquilo que, embora saibamos uma construção e por isso passível de ser relativizada, ainda nos apresenta como praticamente imutável. É o caso do Estado-nação.
Confesso que gostei do que escutei na rua. Soava bem, era uma linda canção. Creio que nos deixa com uma pergunta acerca da relação entre linguagem, performatividade e política. Uma vez que deixamos de lado o ponto de vista que afirma que nenhuma posição política pode basear-se em uma contradição performativa, e admitimos a função performativa como uma declaração e um ato cujos efeitos se despregam no tempo, então podemos considerar a tese oposta, isto é, que não pode haver uma política de mudança radical sem contradição performativa [...] (BUTLER, 2009).

Referências

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
BUTLER, Judith; SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Quién le canta al Estado-Nación? Buenos Aires: Paidós, 2009. 
CORRAL, Benito Aláez. Nacionalidad, ciudadanía y democracia. ¿A quién pertence La Constituición? Madrid: Tribunal Constitucional, 2006. 
HABERMAS, Jürgen. A inclusão do outro. Trad. George Sperber e Paulo Astor Soethe. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
LEFORT, Claude. Nação e soberania. In: NOVAES, Adauto (org.). A crise do Estado-nação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
RENAN, Ernest. Qu’est-ce qu’une nation? Et autres essays politiques. AGORA, 1992.
SCHNAPPER, Dominique. La communauté des citoyens. Paris: Galimard, 2003.
WEBER, Max. Economia e Sociedade. Vol.2. Brasília: UNB, 2004.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Judith Butler e a Colonização do Sexo pelo Gênero



Cynthia Lins Hamlin (UFPE)
Maria Betânia Ávila (SOS Corpo)

Este artigo é um desenvolvimento de algo postado aqui anteriormente sob o título Judith Butler: Drag Queen, Pensamento Crítico e Estratégia Política.

A obra de Judith Butler representa o ápice de um movimento, iniciado na década de 1980, do que poderíamos, na esteira de Habermas, chamar de colonização do sexo pelo gênero. De acordo com esta autora, as distinções sexuais devem ser percebidas como efeitos de gênero, isto é, como algo socialmente construído via discurso. Ao se enfatizar o caráter socialmente construído não apenas do gênero, mas também do sexo, o discurso é concebido como a fonte primária de poder, e projetos emancipatórios são freqüentemente reduzidos a processos de identificação e desidentificação o que, em última instância, pode levar a uma prática política individualista e voluntarista. Com base em uma ontologia realista, argumentamos que embora o discurso tenha um impacto causal na constituição dos sujeitos, esses sujeitos devem ser concebidos como agentes com poderes que também dizem respeito a propriedades materiais extra-discursivas, incluindo seus corpos. Neste sentido, a diferença sexual é percebida como parte integrante do tipo de agente que somos, o que coloca limites e possibilidades às políticas emancipatórias empreendidas.

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“Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Com esta afirmação, Simone de Beauvoir (1989) inaugura uma nova fase nos estudos acerca da desigualdade entre homens e mulheres, uma espécie de paradigma ou de programa de pesquisa cujo foco versa sobre a análise dos fatores sociais e culturais que subjazem àquela desigualdade. As décadas de 1960 e, em especial, de 1970, servem de palco para a desnaturalização da feminilidade e da sexualidade em geral, sendo que uma das principais ferramentas analíticas deste processo, especialmente na tradição de pesquisa anglo-saxã, é a distinção entre sexo e gênero. De um ponto de vista puramente conceitual, no entanto, Beauvoir tem pouco ou nada a ver com esta distinção.

Utilizado como sinônimo de sexo na literatura desde o século XV, é apenas na década de 1950 que o termo gênero perde sua conotação meramente gramatical (Haig, 2004) e adquire um contorno que o torna especialmente útil para a agenda de pesquisa dos estudos feministas e de mulheres disseminada a partir de Beauvoir. Inspirado pelos conceitos de status e de papel sexual desenvolvidos por Talcott Parsons, John Money introduz o termo “papel de gênero” em um artigo de 1955 para dar conta de “todas aquelas coisas que uma pessoa diz ou faz para se revelar como tendo o status de menino ou de homem, menina ou mulher, respectivamente” (Money apud Haig, 2004: 90). Em 1966, refletindo acerca deste conceito, Money afirma ter importado o termo para a sexologia a fim de “tornar possível escrever sobre pessoas que chegavam ao consultório como homem ou como mulher, mas das quais não se podia afirmar que seu papel sexual, no sentido especificamente genital, era masculino ou feminino, na medida em que tinham tido uma história de defeito congênito dos órgãos sexuais” (Ibid: 91).

Inicialmente desenvolvido para lidar com situações de intersexualidade, o conceito de gênero mostrou-se frutífero para o programa de pesquisa feminista das décadas de 1960 e 1970 ao sugerir uma distinção entre o sexo biológico, caracterizado por critérios anatômicos, hormonais ou cromossômicos, e o gênero, relativo àquelas características socialmente construídas relativas a homens e mulheres, como papéis sociais, divisão do trabalho, características psicológicas, comportamentais etc. (Oudshoorn, 2000). Estavam lançadas as novas bases sobre as quais as relações entre o biológico e o social, o natural e o cultural, influenciavam-se mutuamente. Em uma concepção típica do período, Gayle Rubin (1975: 159) define o que denomina de “sistema sexo/gênero” como “o conjunto de arranjos por meio dos quais a sociedade transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana e nos quais essas necessidades sexuais transformadas são satisfeitas”. Apesar de concepções como esta apontarem para um certo borramento de fronteiras entre o natural e o social/cultural, está pressuposta uma autonomia relativa das duas ordens em questão e, neste sentido, independentemente do peso causal atribuído pelos diferentes autores aos elementos biológicos ou sociais, a realidade objetiva de fatores destas duas ordens era tida como um dado.




sábado, 13 de dezembro de 2008

Exuberância sem Crítica?



Por Judith Butler

Poucos de nós estão imunes à festividade destes dias. Os meus amigos de esquerda escrevem-me dizendo que sentem algo parecido com uma “redenção”, ou que “o país nos foi devolvido”, ou ainda que “temos um dos nossos na Casa Branca”. É claro que ao longo do dia sinto-me, tal como eles, tomada pela surpresa e a excitação, já que a idéia de ver o regime de George W. Bush pelas costas é um alívio enorme. E com a idéia de que Obama, um candidato negro, progressista e sensível muda a história, nós sentimos o cataclisma, à medida que ele produz um novo terreno. Mas pensemos atentamente neste novo terreno, mesmo que não conheçamos neste momento todos os seus contornos. A eleição de Barack Obama, ainda que não possa ser hoje completamente apreciada, é historicamente significativa, mas não é, nem pode ser, uma redenção e, se subscrevermos à forma superior de identificação que ele nos propõe (“estamos todos unidos”) ou que nós propomos (“ele é um de nós”), arriscamo-nos a acreditar que este momento político vencerá os antagonismos que são constitutivos da vida política, especialmente da atual vida política. Sempre houve bons motivos para não abraçar o ideal da “unidade nacional” e para fomentar suspeitas face a uma identificação uniforme e absoluta com um líder político. Afinal de contas, o fascismo baseava-se em parte nessa identificação com o líder, e os republicanos usam o mesmo tipo de expediente para conseguir mobilizar os afetos politicos quando, por exemplo, Elizabeth Dole, olha para a sua audiência e diz: “Adoro cada um de vocês.”

Para ler o artigo na íntegra (numa tradução não muito cuidadosa), clique aqui. Para lê-lo no original, em inglês, clique aqui.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Judith Butler: Drag Queen, Pensamento Crítico e Estratégia Política (II)



Não é preciso fazer referência a um argumento tão acéfalo para compreender qual o problema aqui. O que está em jogo é justamente aquilo que Butler coloca como questão no vídeo que Jonatas postou abaixo, relativo à identidade das vítimas do Holocausto: “o que é dar uma descrição [account] de si quando não se é totalmente transparente para si mesmo e quando não se pode relatar sua vida em forma narrativa [isto é], quando as condições lingüísticas e sociais da própria existência não são totalmente compreendidas ou não estão disponíveis em uma descrição narrativa?”. Reclamar uma identidade é dar uma descrição daquilo que somos, é exigir que sejamos reconhecidos como sujeitos (ou, para Butler, mais propriamente, como agentes); é estabelecer as bases para a solidariedade política, dado que estabelecer interesses comuns pressupõe uma definição mínima daquilo que importa para nós.

O que vimos no circo dos horrores foi um exemplo claro da impossibilidade de uma formulação alternativa aos significados de “homem” e “mulher”, “masculino” e “feminino”. A inteligibilidade desses termos está ligada àquilo que Butler concebe como “heterossexualidade compulsória”, isto é, como uma instituição social na qual apenas uma classificação binária homem/mulher, macho/fêmea é inteligível. Uma identidade de gênero como “mulher-travesti-lésbica-não-operada” não faz sentido, é aberrante e, mais do que isto, abjeta. Mas como “reconhecer” identidades que não fazem sentido para nós, já que estão além daquilo que a matriz binária hegemônica e compulsória estabelece como possibilidade inteligível? A resposta é: desestabilizando esta matriz de significado; mostrando que não há nada de “natural” ou essencial nem no sexo, nem no gênero. Não desenvolverei, aqui, o argumento de Butler a este respeito, pois ele requer uma descrição bastante detalhada de sua concepção do que se convencionou chamar de sistema sexo/gênero. Para os meus propósitos aqui é suficiente notar que o sexo é, para ela, um efeito do gênero. Como? Bem, o gênero é concebido como um conjunto de gestos desempenhados sob a superfície do corpo, mas que instituem as fronteiras desse corpo a partir dos limites do socialmente hegemônico. Em outras palavras, o sexo é “materializado” por meio da performatividade dos agentes sociais, inclusive por meio de práticas sexuais que “abrem ou fecham superfícies ou orifícios à significação erótica”, reinscrevendo as fronteiras do corpo (Butler, 2003: 190).

Assim, as identidades de sexo e gênero são concebidas como práticas e os sujeitos, como “efeitos de um discurso amarrado por regras” (Butler, 2003: 208). A capacidade de mudança reside no fato de que, embora as performances sejam consideradas como constitutivas do sujeito, este sujeito não é determinado pelas regras (assim como os corpos não são gerados pelos discursos, embora a questão de sua materialidade seja um problema que acho que Butler não consegue resolver). Isto porque as “repetições” das regras via performance nunca são simples repetições, mas sempre geram uma espécie de excedente, pequenas variações que abalam os significados instituídos dessas normas, o que abre espaço para sua desestabilização e, em última instância, para o fim do binarismo que regula a heterossexualidade compulsória. A agência crítica está, portanto, intimamente ligada à possibilidade da desestabilização das normas a fim de que se possa rearticular os termos da inteligibilidade e da legitimidade simbólica via discursos políticos que mobilizem categorias de identidade.

É assim que Butler atribui um papel político importantíssimo às performances de gênero desempenhadas pelas drag queen. A drag queen não procura imitar ou simplesmente repetir as performances das “mulheres”. Uma drag queen é mais do que uma mulher: é uma mulher exagerada, uma paródia de mulher que possibilita problematizar as relações entre essência e aparência. É como se dissesse: “vejam, minha aparência exterior é feminina, mas meu corpo (minha essência) é masculino”, e também (e ao mesmo tempo), “minha aparência exterior (meu corpo) é masculino, mas minha essência interna é feminina”. A drag queen, como os travestis e outros indivíduos transgênero, mostram que não há uma coerência naturalmente dada quando se trata de categorias como sexo, gênero, sexualidade, mas todas são “flutuantes”, culturalmente construídas por meio de repetições de atos estilizados. E quanto mais repetidas são, mais dão a impressão de que são, em algum sentido, naturais, meras representações de alguma essência fixa e imutável.

A paródia e a ironia, sendo gêneros de humor, não garantem a desestabilização de significados instituídos, e Butler reconhece isto. Mais uma vez, recorro a um caso empírico que me foi contado por uma amiga que tenho em comum com o criador de problemas (no sentido butleriano) em questão: ao ser convidado para paraninfo de uma turma em uma grande universidade brasileira, nosso amigo (que, até onde sei, define sua sexualidade como heterossexual), resolveu se “montar” para a cerimônia de formatura na qual estavam presentes os estudantes, outros professores e o reitor. Apareceu de drag, com peruca, maquiagem pesada, um vestido brilhante e sandálias de salto e, segundo minha amiga me contou, fez um discurso maravilhoso que foi ovacionado pelos estudantes. Apesar das reações positivas ao seu discurso, não consigo deixar de imaginar a seguinte cena: “eita! Você sabia que ele era gay?”, pergunta um estudante. “Esse cara nunca me enganou!”, responde o outro, reafirmando o discurso hegemônico de matriz binária. Sei não, mas deve haver formas mais eficazes de estratégia política. E pacíficas, caso o gatinho da foto tenha remetido a algum sentido oculto que escapa à minha autoria...

Butler, Judith. (1993). Bodies that Matter: On the Discursive Limits of Sex. Nova York e Londres: Routledge.
________. (2003) Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Salles, Ronaldo Laurentino. (2006). Raça e Justiça: O Mito da Democracia Racial e o Racismo Institucional do Fluxo de Justiça. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, Recife.


Cynthia Hamlin

domingo, 13 de janeiro de 2008

Judith Butler: Drag Queen, Pensamento Crítico e Estratégia Política



Durante os anos de 1990, a revista neo-zelandeza Philosophy and Literature realizava um concurso chamado Bad Writing Contest, a fim de ridicularizar aquilo que considerava como os excessos da escrita acadêmica. A vencedora do ano de 1998 foi Judith Butler – as medalhas dos anos imediatamente anteriores foram para Frederic Jameson e para Roy Bhaskar, respectivamente. Incidentemente, todos os três estão no topo da minha lista do que considero os maiores intelectuais vivos. Questões estéticas (e teóricas) à parte, o que esses intelectuais têm em comum é o fato de que seus trabalhos são de difícil leitura, em parte por sua formação “enciclopédica” (por falta de um termo mais adequado), em parte porque suas obras representam algo realmente original. Em minha modesta opinião, não se trata, portanto, de má argumentação ou de má escrita, mas de uma dificuldade genuína em formular (e compreender) algo novo a partir do que está dado.

Butler não é para os fracos de espírito. Sua leitura é lenta, trabalhosa, exige interrupções freqüentes a fim de que possamos nos inteirar de suas premissas. Mas ela é uma daquelas autoras que, ao fim desse esforço, nos deixa com a sensação de que algo novo foi construído. Se concordamos ou não, são outros quinhentos, mas nada como uma nova perspectiva para nos fazer questionar nossas próprias crenças. Acredito que este seja um dos princípios mais fundamentais da idéia de crítica, já que é isto que impede que o pensamento congele, se cristalizando em dogma.

Uma de suas principais armas é o uso da paródia e da ironia como potenciais críticos, isto é, como potenciais para a articulação daquilo que os pós-estruturalistas chamam de “contra-discursos”, ou de discursos que se opõem aos hegemônicos. Um exemplo disso é a própria teoria da qual ela é um dos principais representantes, a teoria queer. O termo queer, em inglês, quer dizer estranho, esquisito, e é usado como termo pejorativo na linguagem cotidiana para se referir às pessoas gay. Em parte impulsionados pelo movimento gay, o que esses teóricos fizeram foi se apropriar de forma irônica do termo a fim de transformar algo negativo em positivo, em uma auto-denominação que denota orgulho. Vale lembrar que a ironia é uma forma de discurso na qual se diz o oposto do que se quer dizer – uma abertura para a ambigüidade, para a desestabilização do sentido. De maneira resumida, pode-se dizer que a teoria queer refere-se a uma combinação do pensamento teórico gay e lésbico, que deriva da ênfase que o feminismo pós-moderno e a teoria pós-colonial colocam na ironia como uma estratégia de oposição aos discursos dominantes. A paródia, para Butler, aparece como o modo por excelência pelo qual o gênero é “performado”, uma formulação que exige alguns esclarecimentos. Comecemos pela noção de discurso.

O discurso pode ser concebido como a efetivação de “um conjunto de regras que autorizam o que é permitido dizer, como se pode dizê-lo, quem pode dizê-lo, sob que circunstâncias etc.” (Salles, 2006: 35), ou seja, como a efetivação daquilo que Foucault chamou de formação discursiva. De um ponto de vista ligeiramente diferente do descrito acima, a noção de discurso pode ser intercambiável com a noção de prática, entendida no sentido específico de “uma combinação de elementos lingüísticos e a ação nas quais esses elementos estão inseridos, (....) [uma] totalidade de palavras e ações” (Laclau, 1998: 9) que são, por sua vez, regidas por regras. A este conjunto de palavras, ações e regras dá-se o nome de discurso, uma noção que está muito próxima à de jogos de linguagem de Wittgenstein. Apesar das diferenças entre as diversas concepções de discurso, de forma geral, seus defensores argumentam que as diferentes culturas interpretam e nomeiam os objetos e os sujeitos segundo as normas sociais, e este ato de nomeação é considerado constitutivo daquilo que nomeia.

Com base em pressupostos como estes, Judith Butler tenta demonstrar que categorias de identidade como sexo e gênero são efeitos de instituições, práticas e discursos, e não a origem ou a causa destes últimos. A relação que ela estabelece entre sexo e gênero subverte radicalmente o que a teoria feminista estabelecia até então. Mas deixo esta subversão para ser tratada em outra ocasião. O que me interessa aqui é mostrar como esta autora trabalha a ironia e a paródia como uma forma de crítica e também de estratégia política. Foquemos, então, na categoria gênero, o que não me parece totalmente absurdo, dado que, ao contrário de grande parte da teoria feminista, Butler argumenta que o gênero pode ser concebido como totalmente independente do sexo. O que ela quer dizer com isto é que “homem” e “masculino” podem facilmente significar um corpo masculino ou feminino, e “mulher” e “feminino”, um corpo masculino ou feminino (Butler, 2003). Em outras palavras, em seu esquema teórico, Butler implode todo e qualquer fundamento biológico e concentra-se nas formas como os atributos de gênero são regulados, gerando padrões identitários relativamente estáveis, ou identidades de gênero inteligíveis. Partindo de uma perspectiva genealógica, Butler vai em busca das “condições de possibilidade” da emergência de determinados discursos ou formulações de sexo/gênero; dito de outra forma, daqueles elementos sociais/culturais que garantem a inteligibilidade de certas formulações do que seja “masculino” ou “feminino”, ao passo que impede outras (por torná-las inconcebíveis, ou impossibilidades lógicas, como a existência de outros sexos ou identidades de gênero)(Butler, 1993).

Um exemplo prosaico da forma como o discurso pode afetar certas formulações do que é masculino ou feminino ou, de forma mais geral, determinadas concepções de identidade e de sujeito, foi um episódio do programa de televisão apresentado por Luciana Gimenez, o Superpop. No que considero uma versão contemporânea do circo dos horrores, Gimenez entrevista um casal de lésbicas. Uma delas se autodefinia como lésbica; a outra, como uma travesti lésbica não-operada. Ao desfiar um rosário de queixas relativas ao preconceito e à incompreensão alheia, em termos mais teóricos, à impossibilidade de serem reconhecidas como sujeitos capazes e responsáveis por suas próprias vidas, as duas se vêem atônitas diante da solução ao problema apresentada por Gimenez. Ora, argumentou ela, embora uma das moças se definisse como travesti lésbica, na verdade, em sua essência (biológica) ela era homem. O argumento irrefutável assumiu mais ou menos a seguinte forma: “você tem um pinto?”, pergunta Gimenez, “sim”, responde a moça, “então você é homem e, já que se relaciona com uma mulher, não é gay”. E continua, para a outra “se ela é homem e você é mulher, então você também não é gay”. Assim, quase que num passe de mágica, Luciana Gimenez resolve o problema das duas. Difícil é explicar isso para o resto do mundo, assim como extirpar os sentimentos delas de que eram mulheres que gostavam de mulheres. Mas, do meu ponto de vista, o mais interessante nessa história toda foi o silêncio das moças diante deste argumento. Embora parecessem discordar veementemente do veredicto, nenhuma das duas foi capaz de articular uma narrativa que conferisse sentido às suas existências no mundo – nem para elas, nem para os outros.

(continua...)

Cynthia Hamlin

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Judith Butler (2006)

O som não está grande coisa, mas a partir deste vídeo você poderá acessar outras palestras, comunicações desta importante intelectual que é J.Butler.