domingo, 13 de janeiro de 2008

Judith Butler: Drag Queen, Pensamento Crítico e Estratégia Política



Durante os anos de 1990, a revista neo-zelandeza Philosophy and Literature realizava um concurso chamado Bad Writing Contest, a fim de ridicularizar aquilo que considerava como os excessos da escrita acadêmica. A vencedora do ano de 1998 foi Judith Butler – as medalhas dos anos imediatamente anteriores foram para Frederic Jameson e para Roy Bhaskar, respectivamente. Incidentemente, todos os três estão no topo da minha lista do que considero os maiores intelectuais vivos. Questões estéticas (e teóricas) à parte, o que esses intelectuais têm em comum é o fato de que seus trabalhos são de difícil leitura, em parte por sua formação “enciclopédica” (por falta de um termo mais adequado), em parte porque suas obras representam algo realmente original. Em minha modesta opinião, não se trata, portanto, de má argumentação ou de má escrita, mas de uma dificuldade genuína em formular (e compreender) algo novo a partir do que está dado.

Butler não é para os fracos de espírito. Sua leitura é lenta, trabalhosa, exige interrupções freqüentes a fim de que possamos nos inteirar de suas premissas. Mas ela é uma daquelas autoras que, ao fim desse esforço, nos deixa com a sensação de que algo novo foi construído. Se concordamos ou não, são outros quinhentos, mas nada como uma nova perspectiva para nos fazer questionar nossas próprias crenças. Acredito que este seja um dos princípios mais fundamentais da idéia de crítica, já que é isto que impede que o pensamento congele, se cristalizando em dogma.

Uma de suas principais armas é o uso da paródia e da ironia como potenciais críticos, isto é, como potenciais para a articulação daquilo que os pós-estruturalistas chamam de “contra-discursos”, ou de discursos que se opõem aos hegemônicos. Um exemplo disso é a própria teoria da qual ela é um dos principais representantes, a teoria queer. O termo queer, em inglês, quer dizer estranho, esquisito, e é usado como termo pejorativo na linguagem cotidiana para se referir às pessoas gay. Em parte impulsionados pelo movimento gay, o que esses teóricos fizeram foi se apropriar de forma irônica do termo a fim de transformar algo negativo em positivo, em uma auto-denominação que denota orgulho. Vale lembrar que a ironia é uma forma de discurso na qual se diz o oposto do que se quer dizer – uma abertura para a ambigüidade, para a desestabilização do sentido. De maneira resumida, pode-se dizer que a teoria queer refere-se a uma combinação do pensamento teórico gay e lésbico, que deriva da ênfase que o feminismo pós-moderno e a teoria pós-colonial colocam na ironia como uma estratégia de oposição aos discursos dominantes. A paródia, para Butler, aparece como o modo por excelência pelo qual o gênero é “performado”, uma formulação que exige alguns esclarecimentos. Comecemos pela noção de discurso.

O discurso pode ser concebido como a efetivação de “um conjunto de regras que autorizam o que é permitido dizer, como se pode dizê-lo, quem pode dizê-lo, sob que circunstâncias etc.” (Salles, 2006: 35), ou seja, como a efetivação daquilo que Foucault chamou de formação discursiva. De um ponto de vista ligeiramente diferente do descrito acima, a noção de discurso pode ser intercambiável com a noção de prática, entendida no sentido específico de “uma combinação de elementos lingüísticos e a ação nas quais esses elementos estão inseridos, (....) [uma] totalidade de palavras e ações” (Laclau, 1998: 9) que são, por sua vez, regidas por regras. A este conjunto de palavras, ações e regras dá-se o nome de discurso, uma noção que está muito próxima à de jogos de linguagem de Wittgenstein. Apesar das diferenças entre as diversas concepções de discurso, de forma geral, seus defensores argumentam que as diferentes culturas interpretam e nomeiam os objetos e os sujeitos segundo as normas sociais, e este ato de nomeação é considerado constitutivo daquilo que nomeia.

Com base em pressupostos como estes, Judith Butler tenta demonstrar que categorias de identidade como sexo e gênero são efeitos de instituições, práticas e discursos, e não a origem ou a causa destes últimos. A relação que ela estabelece entre sexo e gênero subverte radicalmente o que a teoria feminista estabelecia até então. Mas deixo esta subversão para ser tratada em outra ocasião. O que me interessa aqui é mostrar como esta autora trabalha a ironia e a paródia como uma forma de crítica e também de estratégia política. Foquemos, então, na categoria gênero, o que não me parece totalmente absurdo, dado que, ao contrário de grande parte da teoria feminista, Butler argumenta que o gênero pode ser concebido como totalmente independente do sexo. O que ela quer dizer com isto é que “homem” e “masculino” podem facilmente significar um corpo masculino ou feminino, e “mulher” e “feminino”, um corpo masculino ou feminino (Butler, 2003). Em outras palavras, em seu esquema teórico, Butler implode todo e qualquer fundamento biológico e concentra-se nas formas como os atributos de gênero são regulados, gerando padrões identitários relativamente estáveis, ou identidades de gênero inteligíveis. Partindo de uma perspectiva genealógica, Butler vai em busca das “condições de possibilidade” da emergência de determinados discursos ou formulações de sexo/gênero; dito de outra forma, daqueles elementos sociais/culturais que garantem a inteligibilidade de certas formulações do que seja “masculino” ou “feminino”, ao passo que impede outras (por torná-las inconcebíveis, ou impossibilidades lógicas, como a existência de outros sexos ou identidades de gênero)(Butler, 1993).

Um exemplo prosaico da forma como o discurso pode afetar certas formulações do que é masculino ou feminino ou, de forma mais geral, determinadas concepções de identidade e de sujeito, foi um episódio do programa de televisão apresentado por Luciana Gimenez, o Superpop. No que considero uma versão contemporânea do circo dos horrores, Gimenez entrevista um casal de lésbicas. Uma delas se autodefinia como lésbica; a outra, como uma travesti lésbica não-operada. Ao desfiar um rosário de queixas relativas ao preconceito e à incompreensão alheia, em termos mais teóricos, à impossibilidade de serem reconhecidas como sujeitos capazes e responsáveis por suas próprias vidas, as duas se vêem atônitas diante da solução ao problema apresentada por Gimenez. Ora, argumentou ela, embora uma das moças se definisse como travesti lésbica, na verdade, em sua essência (biológica) ela era homem. O argumento irrefutável assumiu mais ou menos a seguinte forma: “você tem um pinto?”, pergunta Gimenez, “sim”, responde a moça, “então você é homem e, já que se relaciona com uma mulher, não é gay”. E continua, para a outra “se ela é homem e você é mulher, então você também não é gay”. Assim, quase que num passe de mágica, Luciana Gimenez resolve o problema das duas. Difícil é explicar isso para o resto do mundo, assim como extirpar os sentimentos delas de que eram mulheres que gostavam de mulheres. Mas, do meu ponto de vista, o mais interessante nessa história toda foi o silêncio das moças diante deste argumento. Embora parecessem discordar veementemente do veredicto, nenhuma das duas foi capaz de articular uma narrativa que conferisse sentido às suas existências no mundo – nem para elas, nem para os outros.

(continua...)

Cynthia Hamlin

5 comentários:

Artur disse...

Como analisar uma realidade complexa sem a utilização de uma escrita complexa? Além do mais, o simples, nas ciências sociais, não é simplicidade, mas também produto do complexo (danou-se!). Mesmo assim, muitos autores gostam do hermetismo e de confundir escrita complexa com escrita complicada. Ainda acho que a melhor forma, nas ciências sociais, é a melhor forma de expressar um contéudo -- caso as ciências sociais sejam, de fato, uma forma de narrativa, que se evite a identificação completa com a narrativa literária, até por um motivo absolutamente prosaico: nós, cientistas sociais, não somos bons escritores (hehe). Convenhamos, é uma baita pretensão sermos escritores.

Sobre as premissas de Butler: tenho dificuldade em perceber processos de identificação e relações de gênero como puros artefatos sociais. Nesse sentido, incomoda-me esse absoluto construtivismo social. Toda a constituição e a formação de processos de identificação e de relações de gênero passam estritamente por uma sociogênese? Isso não é reducionismo sociológico?

Não digo que Butler faça isso, mas desconfio de uma velha divisão de trabalho (lembro Durkheim) entre uma parte inata do comportamento humano, que será objeto da biologia e, em parte, da psicologia, e uma parte adquirida, que será objeto da cultura. A briga será disciplinar e em torno da demonstração de que determinado objeto (identidade e gênero, por exemplo) tem um fundamento biológico, para alguns, ou sociológico, para outros.

Do lado da sociologia, uma dicotomia desse tipo não dará conta da materialidade do corpo, já que sexo é efeito do gênero, logo, não tem corporeidade alguma. Concordo que a naturalização total do corpo cria essências (embora as biologias não criem, necessariamente, metafísicas), mas a sociologização completa do corpo não cria arbitrários culturais, flutuando ao sabor dos contextos hegemônicos?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas...

metodologia disse...

Pois é, Artur, concordo com a necessidade de uma escrita complexa para realidades complexas, embora deva admitir que Adorno às vezes me dá nos nervos... Talvez se ele tivesse tido um blog, fosse forçado a pegar um pouco mais leve.

Eu acho que os construtivistas têm razão em relação as relações de gênero, mas quando a questão diz respeito a sexo, acho mais complicado. Por um lado, somos forçados a reconhecer que a biologia (como ciência) é uma instituição humana e, portanto, socialmente construída. Uma série de conceitos biológicos, por ex., relativos à passividade das fêmeas e à atividade dos machos têm origem em Aristóteles e aparecem até hoje. Existe uma pesquisa famosa sobre o Fator Determinante dos Testículos que, ao reconhecer que os fatores anatômicos ou hormonais não podem, por si só, determinar o sexo, recorrem a um mecanismo aristótélico como este: a presença do FDT geraria a atividade do cromossomo Y (ou a transformação do X em Y), enquanto que a ausência dele determinaria a passividade do cromossomo X. Como diz Butler: "Viva Aristóteles!".

O cerne da questão é que não existe um critério biológico único (anatômico, hormonal, cromossômico ou outro qualquer) que dê conta da determinação sexual. E é isso que muitos casos de intersexualidade demonstram. Mas, ao enfatizar tanto os casos de intersexualidade e acabar definindo-os como a norma, creio que escapa ao feminismo construtivista uma alternativa não determinista para a correlação causal entre mecanismos biológicos distintos.

Mas acho que o problema principal é que, ao reduzir a esfera ontológica do corpo à esfera epistemológica (nosso conhecimento sobre o corpo), os construtivistas não podem falar dos limites que a realidade coloca ao discurso.

Deve ser por isso que Butler tem deixado as questões de gênero de lado e partiu para a teoria crítica.

Mas que o problema é complexo, isso é!

Cynthia

Jonatas disse...

McArthur,

Um pequeno comentário (e que não ajuda muito) sobre esta âncora que nos resgata do construtivismo desvairado: o corpo? a natureza? Peguemos a natureza. A questão é saber o que a natureza é - não dá pra torná-la um conceito apodítico - para que ela se converta em tal porto seguro. Estou estudando isso há algum tempo - restrinjo-me à modernidade, pós-modernidade e tecnologia, como julgo que o bom amigo (da onça), o saiba - e não é fácil. Algumas tentativas interessantes: Heidegger e a sua Introdução à metafísica, Clément Rosset e a Antinatureza. (Ia escrever mais, mas acho que merece um post no futuro).

Jonatas

metodologia disse...

Jonatas, meu filho, um post?? Que boa idéia! Aproveita que eu estou empacadíssima no nosso artigo e escreve alguma coisa sobre epistemologia e estética - se der para incluir ética, melhor ainda. E deixa essas provocações de Artur prá lá. isso é uma estratégia política da UFPB contra nós: confundir para governar.

Cynthia

Artur disse...

Bem, parece que não existe certeza apodíctica sobre a natureza (embora, confesse, tenha uma crença de que ela seja demonstrável, mas é só fé...) -- existem várias naturezas na várias ciências da "Natureza". Mas um biólogo evolutivo, cheio de esperteza, faria uma observação parecida: "a questão é saber o que o social é - não dá pra torná-lo um conceito apodítico - para que ele se converta em tal porto seguro". (Confeso que aqui, também, nutro uma crença de que o social seja demonstrável. Em suma, sou crente e tenho fé nas certezas apodícticas). Minha solução de consenso é a seguinte: falar apodicticamente de Natureza somente embriagado e no carnaval (hehe). E teu blog, seu miserável?!