quinta-feira, 27 de março de 2008

Fenomenologia do Humor



A fim de demonstrar como os alguns conceitos da fenomenologia social de Schütz podem ser aplicados na realidade, transcrevo, abaixo, uma resenha de um livro de Peter Berger, ainda inédito no Brasil.

Desde a antiguidade clássica tem-se refletido sobre a natureza do humor e do riso como fenômenos que possibilitam algum tipo de compreensão acerca do mundo social. Filósofos, antropólogos e psicólogos têm produzido uma literatura relativamente extensa sobre o tema que, no entanto, recebeu pouca atenção sistemática por parte de sociólogos. O tema foi solenemente ignorado pelos chamados “pais fundadores” da sociologia e, ainda hoje, percebe-se uma lacuna significativa na produção sociológica, especialmente teórica, do humor. Ao se questionar sobre as possíveis causas dessa negligência, Michael Mulkay (1988) sugere que muitos sociólogos confundem o “não-sério” com o “trivial” e, portanto, não digno de investigação. Ao fazê-lo, desconsideram que é justamente a separação simbólica entre humor e a ação “séria” que possibilita que os atores sociais se utilizem dele para propósitos bastante sérios e que torna o humor uma área essencial de investigação sociológica.

Redeeming Laughter, de Peter Berger, parece constituir uma exceção honrosa (e extremamente bem-humorada) a este fato. A crermos em seu autor, no entanto, a sociologia “não é de forma alguma central” ao argumento do livro. Será?

Em seu Convite à Sociologia: Uma Perspectiva Humanista, Berger (1963) argumenta que o que realmente importa para o estudo da sociologia

(...) é a curiosidade que agarra qualquer sociólogo diante de uma porta fechada por trás da qual existem vozes humanas. Se se trata de um bom sociólogo, ele ou ela quererá abrir esta porta a fim de entender aquelas vozes. Por trás de cada porta fechada antecipará alguma nova faceta da vida humana ainda não percebida e compreendida.

Se este for um critério de relevância válido, então se pode afirmar que Redeeming Laughter é, na pior das hipóteses, um convite irresistível para se tentar compreender as vozes distorcidas pelo riso que se apresentam em nossa vida cotidiana. Na melhor, como pretendo argumentar, Berger lança luz sobre algumas características importantes da sociedade contemporânea ao se debruçar sobre a sensibilidade cômica moderna. E isso, de uma perspectiva fundamentalmente, embora não exclusivamente, sociológica.

O próprio título do livro aponta para uma ambigüidade sugestiva: “redimindo o riso” (diante de nós sociólogos?) e “riso redentor” (sinal de sua “obsessão” sociológica com a questão da transcendência?). Esta ambigüidade, característica do próprio humor, é levada às suas últimas conseqüências no que diz respeito à apresentação do material empírico trabalhado. Recheado de piadas, algumas bastante filosóficas, como é o caso dos Koan (aquelas pequenas parábolas em forma de adivinhação) proferidos pelos Zen budistas, o mundo social é por vezes apresentado como uma coleção de incongruências. O humor judaico, em particular, é apresentado de forma primorosa, chamando a atenção para a relação entre marginalidade, intelectualidade e um tipo de humor mordaz, cerebral, urbano, sofisticado e, freqüentemente, fazendo de seus próprios valores objeto de ridículo. Por outro lado, a ambigüidade própria ao material é reforçada à medida que Berger resiste a um “erro” comum em muitos estudos do humor, especialmente aqueles centrados em abordagens mais lingüisticamente orientadas: a análise das piadas e seu conseqüente “assassinato”. Mas a recusa analítica de parte de seu material empírico não significa dizer ausência de sistematização. As teses centrais do livro, expressas pelo próprio Berger (1997: X), merecem ser citadas em toda sua extensão:

O humor – isto é, a capacidade de se perceber algo como engraçado – é universal; não há cultura humana sem ele. [O humor] pode ser seguramente percebido como um elemento necessário da humanidade. Ao mesmo tempo, o que parece engraçado às pessoas, e o que elas fazem para provocar uma resposta humorística, difere enormemente de época a época e de sociedade a sociedade. Colocado de outra forma, o humor é uma constante antropológica e é historicamente relativo. Ainda assim, para além ou por trás de toda relatividade, existe um algo que o humor supostamente percebe. Este algo é, precisamente, o fenômeno do cômico (que, se você preferir, é o correlato objetivo do humor, a capacidade subjetiva). De suas expressões mais simples às mais sofisticadas, o cômico é experienciado como incongruência.

Além disso, o cômico faz surgir um mundo separado, diferente do mundo da realidade comum, que opera segundo regras diferentes. È também um mundo no qual as limitações da condição humana são milagrosamente superadas. A experiência do cômico é, por fim, uma promessa de redenção. A fé religiosa é a intuição (algumas pessoas de sorte diriam a convicção) de que a promessa será mantida.


Esta passagem é instrutiva sob vários aspectos. Em primeiro lugar, ela nos permite vislumbrar que, de um ponto de vista teórico, Berger já define sua posição, embora sem se preocupar em oferecer uma exposição sistemática das alternativas. Dentre os principais grupos teóricos ou paradigmas relativos ao estudo do humor e do riso (superioridade, alívio, incongruência) [1], ele parte da perspectiva kantiana que concede um status epistemológico à experiência cômica ao sugerir que ela envolve (ou gera) uma percepção distintiva da realidade. O que provoca o riso é a percepção de algo contraditório, isto é, uma incongruência. Mas é apenas quando se questiona sobre que tipo de incongruência está em jogo que podemos perceber o edifício teórico-metodológico que dá sustentação à empreitada de Berger. Para o nosso autor, fiel à tradição fenomenológica de Alfred Schütz que foi desenvolvida por ele próprio e por Thomas Luckmann, a incongruência se dá entre o humor como uma “província finita de significado” e a “realidade suprema” do que chamarei aqui, talvez não totalmente em acordo com Berger, de “discurso sério”.

O termo “realidade suprema” (paramount reality), cunhado por Schütz, refere-se ao que os fenomenólogos, a partir de Husserl, chamam de mundo da vida. O mundo da vida diz respeito a um setor daquilo que os seres humanos experienciam como realidade, ou seja, aquele que abordamos a partir da atitude natural ou ingênua, que “tomamos por garantido”, que consideramos como simplesmente dado. Para Schütz, no entanto, a realidade suprema não esgota o universo daquilo que constitui a realidade para os seres humanos. Existem enclaves ou ilhas dentro desta, as chamadas “províncias finitas de significado” que são experienciadas quando saímos temporariamente da realidade suprema da vida cotidiana. Essas províncias finitas de significado, ou “sub-universos”, na terminologia de William James, têm um número de características que as distinguem da realidade suprema: um estilo cognitivo específico, uma consistência nos limites de suas próprias fronteiras, um sentido exclusivo de realidade que difere não apenas da realidade suprema, mas também de outras províncias de significado e da qual só se pode sair ou entrar por meio de um “salto”, uma forma distinta de intencionalidade ou consciência, um tipo específico de epoché ou suspensão da dúvida, formas específicas de espontaneidade, de auto-experiência, de socialidade e de durée (ou perspectiva do tempo) (Berger, 1997: 7-8). Exemplos de tais províncias finitas de significado seriam o mundo dos sonhos, as experiências estéticas intensas (como quando somos arrastados para dentro de uma pintura ou nos deixamos levar por uma música), a experiência religiosa, uma experiência sexual especialmente ardente etc.

A contribuição de Berger é no sentido de considerar o humor como uma província finita de significado que, embora menos fechada do que o mundo dos sonhos, por exemplo, surge no seio da vida cotidiana, transformando-a momentaneamente e depois desaparecendo. É por essa razão, acredita o autor, que freqüentemente anunciamos a passagem do discurso sério para o discurso humorístico (e vice-versa) por meio de introduções do tipo “você conhece aquela do português?”, ou “agora, falando sério”. [Estas passagens dizem respeito aos "saltos de fé" de que falam Schütz e também Simmel]

Por fim, a passagem citada nos permite vislumbrar a tese propriamente sociológica defendida por Berger. Após a exposição de diferentes formas de expressão cômica (o “humor benigno”, a bufonaria, a tragicomédia, o chiste, a sátira, o humor negro, dentre outros) Berger conclui, talvez de forma excessivamente otimista, que, de maneira geral, a experiência do cômico apresenta um mundo sem dor. O humor, como província finita de significado, representa, sobretudo, uma abstração da dimensão trágica da experiência humana. Claro que tal abstração não representa uma inversão epistemológica completa, mas, mais propriamente, um ato de fé - “ao não sabermos, só nos resta acreditarmos” (Berger, 1997: 214). Fé em uma redenção que ainda está por vir. Em outros termos, a experiência do cômico é percebida como um sinal de transcendência, como uma manifestação de um universo que contém “sinais visíveis de graça invisível”. Esta ligação (inevitável, em se tratando de Berger?) entre humor e religião parece minimizar o “lado negro” do primeiro. Embora o autor reconheça que existam exceções para a abstração da dor por meio da experiência cômica, mesmo o humor negro parece ser percebido como uma neutralização da dura realidade da vida cotidiana. Isto, no meu entendimento, representa uma limitação importante ao tratamento do humor como um mecanismo de exclusão social.

É, no entanto, sob a forma de hipóteses a serem exploradas que a contribuição de Berger se revela realmente redentora para a sociologia do humor. Ao definir a sensibilidade cômica moderna como sardônica, distanciada, baseada no chiste e nos jogos de linguagem, relaciona-a a outras características da modernidade, como seu intelectualismo e seu controle emocional. O humor carnavalesco da Idade Média desaparece à medida que a modernidade o domestica e aprisiona em instituições como o bobo da corte e a comédia formal. Para Berger, é possível que o mesmo processo que dá conta da secularização do mundo moderno explique o desencantamento do humor e sua adaptação a um período histórico que se julga superior a todos os outros em função de sua suposta racionalidade. Entretanto, para o autor, o mundo moderno desencantado gerou suas próprias incongruências e o humor pode ser uma delas, pois, se por um lado a sensibilidade cômica contemporânea é a própria expressão do desencantamento, por outro, o humor representa uma reação a ele. E conclui com o otimismo habitual: “Enquanto o homem (sic) moderno ainda puder rir de si mesmo, sua alienação dos jardins encantados de tempos distantes não será completa”. Mais uma vez, fica uma pergunta no ar: e quando é o outro o objeto do riso? Como o estudo do humor pode ajudar a revelar as relações de poder entre diferentes grupos sociais? Questões desta ordem não são facilmente vislumbradas por meio da abordagem proposta por Berger. Seja como for, Redeeming Laughter merece ser lido por todos aqueles que, sociólogos ou não, se interessam por vozes humanas por trás de portas fechadas.

Notas:

[1]O principal insight da teoria da superioridade é que, ao degradar outros, elevamos nosso próprio status, e o riso dirigido ao infortúnio de outros refletiria nossa suposta superioridade. Este tema pode ser encontrado em autores como Platão, Aristóteles, Thomas Hobbes e Henri Bergson (Koller, 1988). A teoria da incongruência, às vezes chamada de teoria da ambivalência, tem em Kant seu principal expoente e, em linhas gerais, defende que o riso deriva de uma incongruência entre quadros de referência distintos. A teoria do alívio, defendida especialmente por Freud (1960 [1905]), analisa o humor e o riso em termos de uma função catártica, isto é, em termos da liberação de energia psíquica que ocorre quando rimos de algo que, de outra forma, estaria reprimido.

Bibliografia

BERGER, Peter. Invitation to Sociology: A Humanistic Perspective. Garden City, NY: Anchor Books, 1963. Disponível em: http://www.sociosite.net/topics/sociologists.php#BERGER Acessado em 10 de maio de 2006.
BERGER, Peter. Redeeming Laughter: The Comic Dimension of Human Experience. Berlin e Nova York: Walter de Gruyter, 1997.
FREUD, Sigmund. Jokes and their Relation to the Unconscious. In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. 8. Londres: Hogarth Press, 1960 [1905].
KOLLER, Marvin. Humor and Society: Explorations in the Sociology of Humor. Xx: Cap & Gown, 1988.
MULKAY, Michael. On Humor: Its Nature and its Place in Modern Society. Londres: Blackwell, 1988.

A referência do artigo original:

Hamlin, Cynthia Lins. "Redeeming Laughter: The Comic Dimension of Human Experience". Revista Brasileira de Sociologia da Emoção , 5(15/15), pp. 286-291, Set/Dez 2006.

5 comentários:

* Geninha Paiva * disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
* Geninha Paiva * disse...

E quando o indivíduo não é capaz dos tais "saltos" da sua "província finita de significado" para a "realidade suprema"? Será, Cys, que os Gênios - não falo de personagens inteligentes da nossa história, falo de GÊNIOS - possuem essas duas realidades? E, se possuem, será que sabem distingüir?

Se eu me chamasse William James, falaria em "sub-universo", sim, extamente como ele falou. E ainda diria que o "sub-universo" pode ser a "realidade suprema" para muitas pessoas.

Será que um bipolar enxerga a fronteira? Será que um esquizofrênico consegue? Será que eu ou vc conseguimos?

Beijos

Cynthia disse...

Vixe! Sei não. Talvez Artur, nosso psiquiatra de plantão, possa te ajudar nessa.

Beijos.

Dirceu disse...

Excelente texto Cynthia. Muito bom mesmo. Comento depois. beijos
Dirceu

Victor Zacharias disse...

Muito bom. Eu me interesso pelo tema humor e gostei de ler e aprender sobre humor no texto que vc apresentou.
O que vejo no humor são expressões ditas eufemisticamente sobre a ética da sociedade vivida, como no filme Hancock que apresenta pela primeira vez um super herói negro, mas que é bébado e destrói mais do que salva. Entre outras coisas tem sua imagem reabilitada por um RP de plantão, enquadrando o rabugento e bêbado super herói negro em uma estética da sociedade americana.
Até mais !