terça-feira, 4 de novembro de 2008

Esboço de uma pesquisa intercontinental sobre um camelo


Frédéric Vandenberghe (Professor – IUPERJ)

Um francês, um inglês e um alemão receberam a incumbência de fazer um estudo sobre o camelo.

O francês foi ao Jardim Botânico, lá passou meia hora, fez perguntas ao guarda, jogou pão para o camelo, cutucou o bicho com a ponta do guarda-chuva e, de volta à casa, escreveu para seu jornal um folhetim cheio de piadas e ditos picantes.

O inglês, levando a cesta do chá e um confortável material de acampamento, foi montar sua tenda nos países do Oriente de onde trouxe, depois de uma estada de dois ou três anos, um enorme livro cheio de fatos sem cronologia nem conclusão, mas de inegável valor documental.

Quanto ao alemão, com supremo desprezo diante da frivolidade do francês e da falta de idéias gerais do inglês, fechou-se em seu quarto para redigir uma obra em vários volumes intitulada: Idéia do camelo tirada do conceito do eu.

(Le Pèlerin, 1º de setembro de 1929, apud Ferry e Renaut, 1988)


Sabemos que um realista crítico analisaria o camelo à maneira de um filósofo alemão com tendências analíticas e místicas. Tomando a existência do animal como um fato, ele: a) analisaria transcendentalmente as condições de possibilidade da observação de qualquer camelo; b) explicaria suas ações efetivas e potenciais através da abdução, partindo dos efeitos observáveis para as causas transfactuais (mas eficazes), identificadas a tendências internas dos mecanismos gerativos; c) e, finalmente, subsumiria dialeticamente toda a pesquisa existente sobre o camelo em um sistema dialético totalizante que buscaria liberar todos os camelos, de modo a realizar o florescimento universal de todos os animais (incluindo os humanos) neste mundo (e também nos outros mundos).

Para não sobrecarregar a análise, limitemo-nos ao momento “b” e vejamos como esta análise conceitual poderia proceder:

“Suponhamos que estamos interessados em explicar (no sentido de Hempel e Hume) o comportamento de um certo indivíduo N, digamos um elefante [ou um camelo - FV]. Um conhecimento total do estado de coisas antecedente nos permitiria predizer o seu comportamento? Não – pois se N é caracterizado por uma estrutura e complexidade internas, ele pode se comportar diferentemente nas mesmas circunstâncias externas em virtude de seus diferentes estados interiores. Assim, o que acontece quando cutuco um [camelo] depende, pelo menos em parte, do estado em que ele está, e.g, se está dormindo ou não; e, portanto, nessa medida, o estado total do universo, do qual o [camelo] ocupa uma parte, será uma variável” (Bhaskar, 1975: 75).

A refutação transcendental do determinismo da regularidade pressuposto pelo modelo nomológico-dedutivo prepara o terreno para uma abordagem mais praxiológica e etológica das práticas, hábitos e costumes – em suma, do ethos – do camelo. Como um sociólogo humanista, eu buscaria inspiração na nova etologia, que, no rastro do inovador trabalho de campo de Jane Goodall, Frank Dewaal e outros primatólogos, utilizou a técnica de observação participante para revelar que os animais são dotados de sentimentos morais, como compaixão, simpatia, solidariedade e até perdão. Se Thelma Lowell pode fazer com que carneiros se pareçam com macacos, não há razão para não se assumir que os camelos não podem chorar como os elefantes.

Mas, ainda que estas reflexões meta-metodológicas sobre a etnografia humanista possam auxiliar a investigar o animal com o devido cuidado, elas não responderiam à questão mais antropológica sobre como um/a brasileiro/a faria uma pesquisa intercontinental sobre o camelo. Como gringo, eu honestamente não sei. O Brasil não é para iniciantes, como reza a famosa frase de Nelson Rodrigues. A questão é intrigante, mas, como sinto que tenho primeiramente de ir para a Índia para fazer alguma pesquisa comparativa sobre camelos e elefantes, não arriscaria uma resposta ainda. Recorro, então, aos leitores e leitoras do Cazzo: como um/a brasileiro/a faria uma pesquisa intercontinental sobre o camelo?
Algumas respostas fornecidas por ilustres colegas:
A) Jairo Nicolau (Professor – IUPERJ):

O estudo do camelo em duas versões da ciência política brasileira:
1. Do camelólogo empírico: Depois de diversas medições e aplicações do índice ICE (índice de corcovas efetivas), ele descobre que não se trata de um dromedário. O ICE do camelo = 2; do dromedário = 1; da mula = 0.
2. Do camelólogo teórico: Depois de ler tudo sobre as três tradições de estudos camélicos, sugere um curso em três módulos chamado As concepções de camelo na tradição européia: as versões francesa, inglesa e alemã.

B) José Maurício Domingues (Professor – IUPERJ):

No caso brasileiro, creio que, no espírito da paródia descrita, podemos dividir a questão em duas. Em termos conceituais, duas soluções seriam as mais prováveis: uma que se apropria do que todos os três disseram e julga os camelos brasileiros em função da medida que a ciência européia estabelece, negativamente – não temos camelos ou temos uma mistura de camelo com jegue (logo, estamos perdidos); a outra, supostamente positiva, afirmaria que não temos camelos, mas que se fizermos tudo certo um dia nossos jegues virarão camelos. Enfim, metodologicamente, acho que seria a mesma solução do francês, provavelmente sem o seu charme. Felizmente, temos muitas exceções a essa paródia, mas nem tantas como seria desejável.

C) Adalberto Cardoso (Professor – IUPERJ)

Aproveito as profundas ponderações de José Maurício Domingues para sugerir uma variante. O brasileiro esperaria as reflexões do alemão ou do francês (os ingleses não as criam, não é mesmo?), então usaria as categorias de um ou de outro para analisar o jegue como se ele fosse um camelo, concluindo que jegues são seres muito complexos e multidimensionais, quase como camelos, e que, portanto, a camelagem (ou camelidade) é múltipla. E isso sem jamais se perguntar se o camelo existe realmente.

D) Gláucio Ary Dillon Soares (Professor – IUPERJ)

Um pesquisador brasileiro entra na Internet; verifica onde há camelos; acidentalmente, descobre que também existem dromedários, escreve um projeto sobre o racismo de duas corcovas, apresenta à CAPES, recebe o auxílio, vai para Paris, onde escreve um relatório pós-moderno sem nunca ter visto um camelo ou um dromedário.

P.S: O relatório é aprovado.

E) Thamy Pogrebinschi (Professora – IUPERJ)

O pesquisador brasileiro vestiria uma bermuda, calçaria um par colorido de sandálias havaianas, iria para o boteco da esquina, pediria um chope bem gelado e começaria a batucar na mesa um sambinha: “um camelo, ôô, é um pouquinho de Brasil, iaiá...”.

F) Luiz Antônio Machado (Professor – IUPERJ)

O brasileiro tomou conhecimento da variedade de estudos sobre o camelo quando estava realizando seu pós-doutorado em uma universidade islandesa. Durante a conferência que foi convidado a fazer pelo colega sueco que dirigia o Instituto da Latinidade, resolveu aproveitar o tema, que estava na ordem do dia. Referiu-se ironicamente ao etnocentrismo característico de todas as variantes sociológicas do imperialismo, lembrando inclusive o cavalo de batalha – sem trocadilho, ele disse – que Geertz havia feito com a tartaruga do mito primitivo, objeto de sua descrição densa. Como alternativa, propôs uma nova leitura, multicultural porém de viés econômico, para o estudo dos animais.

Nosso conferencista foi muito aplaudido pelos estudantes (maciçamente coreanos) por sua demonstração de que a periferia nada tem a ver com quadrúpedes. Ele provou que o animal que deveria ter recebido a atenção dos estudiosos, por ser representativo da realidade das formações sociais periféricas – cauteloso, sugeriu que, em um primeiro momento, restringia-se às de língua portuguesa –, é bípede: a galinha (na variante de granja, não d’angola, apesar da proximidade entre as duas). Verdade que houve alguma crítica, especialmente centrada na hipótese de a galinha de granja ser mera derivação da autêntica galinha d’angola, desvirtuada pelo processo de acumulação que a absorveu e massificou. Saliente-se que esboçou-se uma discussão lateral, a partir da afirmação de Marx de que a chave da anatomia do macaco é a anatomia do homem. Quanto ao homem, não havia dúvida sobre ser bípede; já o macaco, se não fosse bípede, desmontaria toda a argumentação, e não havia acordo quanto à sua classificação. Mas esta linha de debate foi abandonada, salvo por um ou outro recalcitrante, dada a convicção generalizada de que o marxismo está, ou deveria estar, enterrado.
O sucesso da conferência foi tal que o brasileiro viu-se praticamente forçado a propor um grupo de trabalho internacional sobre a relação entre os animais e as transformações culturais no capitalismo globalizado. E tem sido insistentemente sondado para candidatar-se a presidente da Associação Internacional de Sociologia. Com a modéstia e o desapego que o caracterizam, tem dito um constrangido “sim” a todos os que o procuram para isso. Parece que já há quem esteja repensando toda a teoria sócio-animalesca de modo a incorporar, em uma perspectiva de conjunto, as duas pernas decepadas. Dada a gravidade da questão, acho indispensável avaliar a oportunidade dessas modificações.

G) César Guimarães (Professor – IUPERJ)

Nos dias que correm, pesquisadores brasileiros haveriam de preferir pesquisas aplicadas, com recursos da agência financiadora pertinente: “o uso do camelo nas secas nordestinas”; “o cultivo familiar de camelos na produção de renda e de cidadania”; “Os camelos também choram? – a corrupção política na administração dos camelódromos” – nesse caso, trata-se de uma tese de doutorado, cuja originalidade já se anuncia no título. Finalmente, no que se poderia chamar um veio mais construtivo, teríamos “A produção social do camelo e a sociabilidade humana nos zoológicos brasileiros – um estudo comparado”!

H) Gabriel Peters (Doutorando – IUPERJ)

O pesquisador Fulano da Silva procedeu a uma exegese minuciosa do clássico "Idéia do camelo tirada do conceito do eu", bem como da ampla bibliografia gerada pelo animado debate acerca dessa obra na academia alemã. Impressionado com a sofisticação filosófica dos camelólogos germânicos, tão distante do empirismo superficial anglo-saxão quanto da pseudo-profundidade afetada da lítero-filosofia francesa, Fulano lamentou a falta de familiaridade dos pesquisadores brasileiros com Kant e Hegel (para não falar em Platão e Aristóteles) e, ao final de seu esforço exegético, publicou "A teoria crítica do camelo", obra em que apresentava fielmente as controvérsias em torno do status ontológico de suas corcovas e das condições para a emancipação camelina.

Beltrana de Souza reconhecia a importância da contribuição alemã às ciências camelológicas, mas julgava que faltava aos alemães a vitalidade retórica, a imaginação heurística e a ousadia crítica dos franceses. Inaugurando toda uma vertente de camelologia francófila no Brasil, ela publica "A estrutura e a corcova: o descentramento do camelo no pensamento francês contemporâneo".
Sicrano Pereira lamentava profundamente que os estudos camelológicos tupiniquins, ao invés de emularem o saudável compromisso anglo-saxão com a minúcia observacional e a clareza discursiva, permanecessem atravancados pelas verborrágicas filosofices "continentais" (ele nunca havia lido Derrida, mas estava certo de que o sujeito [sic] era um charlatão). Tendo até considerado inicialmente a possibilidade de empreender uma investigação dos poucos exemplares da espécie no Brasil, ele prefere redigir a defesa de um "neo-empirismo esclarecido" em um livro intitulado "Você o que está observando?".

Finalmente, Trajana Ribeiro, após uma mirada panorâmica sobre toda essa produção camelológica brasileira, fica abismada com nosso parasitismo em relação ao velho mundo e põe-se a escrever "Camelos fora do lugar: o complexo de inferioridade intelectual terceiro-mundista na camelologia".

Referências

Bhaskar, R. (1975/8). A Realist Theory of Science. Brighton: Harvester Press. [Bhaskar, R. (2000). Uma teoria realista da ciência. Trad. de Rodrigo Leitão, Niterói: UFF, 2000]

6 comentários:

Joao Paulo Filho disse...

Segundo Gilberto Freyre, é melhor não responder essas coisas... Mas dentro da nossa tradição ensaistica, eu diria que o brasileiro olharia para o camelo de dentro de uma rede e diria: -- Ai que preguiça!... e não dizia mais nada.Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho do francês, do inguês e do alemão. É o mito de nossa forma de especular: realismo mágico e maroto. Os nossos camelos são muito parecidos com bodes. E segundo os filosofos do sertão, tais bodes não possuem chifres e as corcovas invisíveis servem apenas para imaginação fertil dos incredulos. Sim, sendo brasileiro... Acredito nisso. Camelos são bodes.

Jefferson Góes disse...

Breve biografia de brasileiro que tem como objeto de estudo o camelo.

Depois de ter incursionado pelas universidades européias, o brasileiro regressará para a universidade pública da qual esteve licenciado e onde trabalhará com os seus alunos as sutis, porém relevantes, diferenças entre o fenômeno do camelo e o camelo em si.

Uma vez no solo pátrio, o pesquisador brasileiro logo organizará um grupo de estudos em que, sob as suas rédeas, digo, sob a sua batuta, alunos se esforçarão para demonstrar astuciosamente que são tão obtusos quanto os camelos. O pesquisador, para incentivar-lhes, recomendará a árida leitura dos manuais nos quais sorverão a fórmula mágica segundo a qual poderão eles mesmos se transmutar em pesquisadores: a subserviência de um camelo para suportar longos períodos sem idéias originais acrescida do fardo de um fado que não lhes permitirá trafegar senão pelas dunas formadas pelo pó dos livros escritos pelos pais fundadores da disciplina a que se dedicam.

Na verdade, o pesquisador brasileiro costuma ir à Europa para adquirir a sua segunda corcova, já que sai do Brasil apenas com o grau de mestre. Os que vão em busca da terceira saliência no dorso, isto é, do pós-doutorado, retornam apenas com as corcovas um pouco mais robustas, o que já é uma vantagem, evidentemente.

Disso se deduz que o camelo é a um só tempo o objeto de estudo e o estudioso mesmo. Se se descurou até hoje desta verdade primeira foi em virtude da viciada maneira de se analisar o fenômeno da camelidade que não foi suficientemente dialética, ou seja, apenas um ato metodologicamente falho. Porém, ao atingir tal grau de auto-reflexividade, o pesquisador já teve de percorrer longos caminhos e obrigado se vê a aposentar-se. É agraciado, naturalmente. Penduram-lhe nas corcovas algumas medalhas e lhe recomendam camelinhos que dele ouvirão os segredos de cada deserto. Alguns desses camelinhos ocuparão lugar de destaque na caravana que segue de “sei lá” com destino para “só Deus sabe”. Outros camelinhos serão ressentidos e escreverão textos desta jaez.

Dirceutavares disse...

Frederic

Ah, ah ah.

Adorei a provocação. Brasileiros com uma moldura a colocar palavras e a fazer espumas, espumas, espumas... Meninos em diversão estes brasileiros...

Essas piadas eram muito comum nos anos 60 e 70, "sabe qual é a diferença entre o exército brasileiro, alemão, e inglês?" Elas sairam de moda por que o brasileiro tem agora uma identidade muito clara e consistente?

Mas, vc trás de volta a sua sombra comparativa. Eu ia diozer que vc nos prejudica por apontar um objeto que nao é da cultura brasileira, o camelo e que deveria fazer alusão ao jumento. Mas camelo nao é nem da cultura alemã e nem jumento é autenticamente brasileiro. O estudo científico deveria ter como objeto o papagaio.

Papagaio com cores bonitas, brincalhao e falador a vontade.

Primeiros escritos sobre nossos papagaios, comprovando ser aqui o início do paraíso, seria um dos nosso mitos fundadores.

Eu me apontaria a estudar a representação do papagaio pornográfico como significante primeiro o da perversão brasileira. E que papagaio nao é um signo apolínio jesuítico. E lançarei teses sobre o jesuíta comandando "o Brasil que dá certo" com um papagaio franciscano no seu ombro a embaralhar os seus sentidos.

Gostei da imagem de Jefferson Góes de que nosso camelo tem tres corcovas. E todo este texto poderia virar uma charge, pois visualmente rende muito.

O símbolo da epsitemologia brasileira by Jefferson Góes and Vandeberg é um camelo de três corcovas. Corcovas de graduando, mestre brasileiras e corcova de doutorado europeu ou norte americano.

Saudades.

Anônimo disse...

Fala sério ... brasileiro/a que tem samba no pé não pensaria duas vezes e daria um "pulinho" no camelódromo mais próximo para resolver qq. parada ... afinal, "camelo" por cá é gente nossa ... atire a 1a. pedra quem nunca salvou sua pele com um "é o bicho, cara!!". Daí a total subversão do objeto proposto. Ou a antropofagia, falei?? Ps: tá pensando em "mundo da vida"? (dica de colega-a-mi-ga!Rs)

Anônimo disse...

Fala sério ... brasileiro/a que tem samba no pé não pensaria duas vezes e daria um "pulinho" no camelódromo mais próximo para resolver qq. parada ... afinal, "camelo" por cá é gente nossa ... atire a 1a. pedra quem nunca salvou sua pele com um "é o bicho, cara!!". Daí a total subversão do objeto proposto. Ou a antropofagia, falei?? Ps: tá pensando em "mundo da vida"? (dica de colega-a-mi-ga!Rs)

Gabriel Peters disse...

Erratinha dispensável a uma piadinha infeliz: o título, damattianamente inspirado, do livro de Sicrano Pereira é "Você SABE o que está observando?"

Abs