sábado, 20 de novembro de 2010

É errado comer a sua tia

Mulheres e crianças Tupinambá devorando o corpo de um prisioneiro, por Theodor de Bry (1557)

O sociólogo canadense Fuyuki Kurasawa (2004) cunhou o termo “imaginação etnológica” a fim de propor uma inversão no olhar intercultural tradicional e “antropologizar” - no sentido de desfamiliarizar, desnaturalizar e contextualizar - os costumes, crenças e arranjos institucionais do Ocidente por meio da justaposição de uma série de "alteregos não-ocidentais". Embora fique aí a indicação do excelente livro de Kurasawa, eu quero mesmo é falar de outro livro, o Eating your Auntie is Wrong, the Stephen Arnott. Trata-se de uma brincadeira antropológica, uma espécie de imaginação etnológica (des)invertida, ou uma compilação daquilo que Arnott chama de “os costumes mais estranhos do mundo”. Abaixo, uma pequena amostra do avesso do avesso de Kurasawa, ou o politicamente incorreto dos estudos pós-coloniais. Entre parênteses, minhas reflexões sócio-antropológicas sobre as citações do livro do Arnott.

“Em algumas tribos aborígenes, fatias de carne eram retiradas de um cadáver pouco antes de seu enterro. Essas fatias eram entregues às pessoas enlutadas, para serem comidas. No entanto, algumas normas regulavam quem comia quem. Por exemplo, um homem podia comer o marido de sua irmã e a mulher de seu irmão, mas não seus próprios filhos. Uma criança não podia comer seu pai, enquanto que uma mãe podia comer seus filhos e vice-versa”. (E foi em resposta a essas práticas bárbaras que surgiu o complexo de Édipo).

“ Na América do Norte, os Algoquin e os Huron costumavam casar suas redes de pesca com jovens mulheres. Acreditava-se que as redes ficariam mais felizes com suas esposas e pegariam mais peixes”. (Caso a poligamia fosse proibida entre esses povos, fico imaginando as terríveis dúvidas que acometiam essas pobres moças: “um homem ou uma rede, um homem ou uma rede?”).

“Os gregos antigos acreditavam que uma mulher não poderia conceber se colocasse sobre o umbigo um tubo contendo o testículo de um gato”. (Infelizmente o livro não especifica o momento exato em que isso deve ser feito, de forma que talvez seja melhor tentar o método dos antigos egípcios: fezes de crocodilo. Sim, melhor depois, em consideração ao seu parceiro).

“As obrigações de alguns reis de tribos da África Ocidental eram tão perigosas e desagradáveis que os candidatos tinham que ser seqüestrados e forçados a assumir o trono”. (Parece incrivelmente familiar...)

“Os romanos antigos acreditavam que cortar o cabelo no mar traria má sorte. A crença sobreviveu na Marinha Real Britânica e os marinheiros só cortavam seus cabelos durante tempestades violentas, já que, pela lógica, o tempo não podia piorar”. (Um claro indício da “mentalidade primitiva” dos ingleses, que, obviamente, não conheciam as leis de Murphy).

“Na Índia, um espirro único era sinal de má sorte, mas espirros múltiplos eram considerados boa sorte. Outra pessoa espirrando à sua frente ou ao seu lado direito significava má sorte, enquanto um espirro vindo de trás ou da esquerda era bom. Se alguém espirrasse enquanto plantava sementes, aplicava um remédio ou começava a aprender alguma coisa, isso era sinal de sucesso. O espirro de um quadrúpede, de uma pessoa em frente a uma janela, de um homem com os cabelos despenteados ou de alguém carregando instrumentos de tortura era sempre sinal de má sorte”. (Por isso, a educação no hinduísmo antigo envolvia a aprendizagem de quatro princípios básicos: a vida virtuosa (dharma), o acúmulo de riqueza (artha), o prazer pelos sentidos (kama) e a ciência do espirro (tchim). Como esta se mostrou excessivamente complicada, foi depois substituída pelo princípio do desprendimento (moksha), de onde deriva a ideia de reincarnação).

Cynthia Hamlin

Referências (afinal de contas, isso é um blog acadêmico!)

Kurasawa, Fuyuki (2004). The Ethnological Imagination: a cross-cultural critique of modernity. Minneapolis e Londres, University of Minnesota Press.
Arnott, Stephen (2004). Eating your Auntie is Wrong: the world’s strangest customs. Londres, Ebury Press.

6 comentários:

Artur disse...

Haha!

Mais risos: haha!

Kali disse...

Adorei os parênteses...
Acopanhando o companheiro Artur nos "hahas" recordo-me de quando era criancinha lá no agreste meridional, na Suíça pernambucana, na cidade das flores, as proibições da minha vó:
- se estiver fazendo careta e o galo cantar, você ficará assim prá sempre;
- apontar estrelas dá verruga nas mãos;
- chinelo emborcado agoura a morte da sua mãe;
- nada de tomar banho quente e sair no vento frio, pois "entroncha"...

Agora, comer a tia... vai depender... se a bicha for tinhosa rende um bom churrasco e a gente ainda se livra da peste! Ãh? Ah, o outro sentido? Deixa prá lá, olha Édipo!
Hahaha...

Cynthia disse...

Só Edipo nada! Butler já disse que a heterossexualidade compulsória antecede o tabu do incesto. No teu caso, a proibição é dupla, de forma que espero que a tia tinhosa seja uma figura meramente retórica.

Cynthia disse...

Aliás, dupla, não: tripla. É muito tabu para quebrar de uma vez só, Kali. Melhor deixar pra lá mesmo.

Kali disse...

Hahahahaha!

Ester disse...

adorei, cynthia!!