quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mais uma da imprensa pernambucana...

Em nota no Caderno C4 do Diário de Pernambuco de hoje, a jornalista Luce Pereira publicou o seguinte texto, sob o (excelente) título de "Papeiro Pomposo":

Os termos nascidos [sic] para batizar teses em universidades são tão pomposos que até criações do gênero besteirol completo ficam parecendo coisa séria. Sexta-feira, no Seminário do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE, um doutorando apresenta trabalho em torno do tema - Sentidos ambivalentes e possíveis descontruções da hetenormatividade via programa televisivo recifense papeiro da Cinderela.

Segue a resposta, com solicitação de publicação no referido jornal, assinada por mim, por Eduarda e por Silke:

Em nota publicada no dia 24/11 no Diario de Pernambuco, a jornalista Luce Pereira utiliza o tom pejorativo para se referir à tese de doutorado desenvolvida por Marcelo Miranda no Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFPE. Destacando o título de um trabalho acadêmico, a jornalista sugere que os termos utilizados nas universidades emprestam seriedade a criações do “gênero besteirol” – desqualificando, dessa forma, a pesquisa desenvolvida pelo doutorando no Programa supracitado, bem como a própria produção cultural contemporânea neste gênero. A fim de compreender como um produto cultural pode ser uma “coisa séria”, convidamos a jornalista a participar do Seminário intitulado “Sentidos ambivalentes e possíveis desconstruções da hetenormatividade via programa televisivo recifense papeiro da Cinderela”, a se realizar na Sala de Seminários do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, 12 andar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE.

Cynthia Hamlin, Maria Eduarda Rocha e Silke Weber (Professoras do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE)

24 comentários:

Edilson disse...

Me surpreendi com a coluna Diário Urbano, da Jornalista Luce Pereira, com a nota: "Papeiro pomposo".
O título do trabalho citado, está em conformidade com a pesquisa que se propõe, assistí uma apresentação do citado doutorando, em um encontro de gênero, com trabalho sobre esse título e foi elogiadíssima.
Aqui, aconselho a respeitada colunista do diário de Pernambuco, para que aceite o convite, vá ao seminário e comprove se o título está dentro do padrão que se estabeleceu para a pesquisa ou se realmente é pompa demais para cinderela.
edilsoncostape@hotmail.com

Marcela disse...

Talvez precisa-se é pixar o "coisa séria" um tiquinho mais no óculos de grau do mundo. Não sei, parece mais um discurso que se baseia numa idéia de ciência que (pelo menos pra mim) não faz mais sentido algum.

Anônimo disse...

Lamentável e preconceituosa a percepção da jornalista. Por meio de trabalhos acadêmicos (entretanto, não exclusivamente) é que se busca a compreensão do ser humano de forma mais ampla com a possibilidade, inclusive, de fomentar ações afirmativas e políticas públicas voltadas aos diferentes grupos que compõem a sociedade abrangente. Sendo um produto cultural, o "Papeiro" reflete as visões de mundo locais e, desta forma, se torna objeto de reflexões e análises. Infelizmente a limitação de alguns não permite enxergar o que está subjacente a estes produtos, gerando comentários como o da jornalista. Todavia, a busca pelo conhecimento nunca é tardia e, após conhecer trabalhos como o de Marcelo Miranda, ela poderá ampliar o olhar sobre o conhecimento produzido na academia, assim como repensar categorias como "besteirol" e afins, para remeter-se àquilo que não é classificado enquanto erudito, culto...

Ligia Barros Gama (Biomédica e Antropóloga)

Leonardo disse...

Lamentável a ironia da jornalista Luce Pereira em sua nota...mais que irônico, o seu discurso é explicitamente preconceituoso, tanto em relação ao programa Papeiro da Cinderela quanto ao trabalho desenvolvido pelo citado aluno no PPGS...

Não sei o que passa na cabeça de pessoas como essa ao escrever um texto dessa natureza, este sim talvez um verdadeiro besteirol discursivo, que só por constar num Caderno de um grande jornal, parece realmente ser coisa séria, digna de respeito.

Não costumo ter reações assim, mas é impossível ficar calado diante de certas falas proferidas por pessoas que acreditam ser baluartes do bom gosto cultural...

Ester disse...

Eu sempre achei que alguns cursos mereciam mais aulas de Sociologia... Mas eu fico pensando se o jornal não deve a sociedade mais q publicação da nota enviada. Acho que seria justo a publicação de textos (p público diversificado, de jornal) de sociologia, sobre esses temas cotidianos e nada como a Sociologia do humor e da cultura para começar!

verí disse...

bem que o velho e bom e "pop" pierre bourdieu apontou no seu (e de outros menos pop) "ofício do sociólogo":
"mais do que outros especialistas, o sociólogo está exposto ao veredito ambíguo e ambivalente dos não-especialistas que se sentem com a autoridade de dar crédito às análises propostas, com a condição de que estas depertem os pressupostos de sua sociologia espontânea..."

esta foi a maneira elegante de explicar como gente que não entende (com o perdão do palavrão) porra nenhuma de sociologia, se acha no direito de discutir a referida sociologia.
só lamento pra essa mulher que se mostra tão petulante, obtusa e preconceituosa numa mesma fala. que ela encontre a luz ou desista de publicizar seus pensamentos estéreis. arf...

verí disse...

ps: BOURDIEU, 2007, p. 36

Anônimo disse...

Discordo do presente comentário da jornalista, pois termos "pomposos", ler-se categorias êmicas, representam a mais pura articulação do trabalho científico com a necessidades pós-modernas de nossa sociedade. Na medida em que ambas sempre foram interelacionais e interdependentes. Basta uma rápida piscadela em teorias "Queer" ou de gênero para termos a humildade de afirmarmos que não sabemos de tudo, e que não podemos falar bem de tudo, evitando assim blasfêmias de trabalhos sérios que representam a ânsia de nossa sociedade machista , preconceituosa e desinformada. (Marcelo G.Ferreira- Antropólogo)

Kali disse...

Gente, isso é muito grave, porque não é a opinião ignorante, curta e preconceituosa de uma jornalista, pelo visto não muito séria...
Além de educativo, no convite a um melhor entendimento do trabalho, acredito que o jornal deve sim uma retratação pela afronta à Instituição UFPE e ao PPGS, não dá prá deixar a coisa por isso mesmo, inclusive penso que a pro-reitoria de pesquisa deveria intervir.
O trabalho é sério e tem muito a dizer desse nosso mundo contemporâneo...
A seriedade com que o PPGS leva suas atividades de formação não pode ser ultrajada dessa forma.
Bem, essa é minha opinião, e se quiserem ajuda, tô aqui.

Anônimo disse...

Às vezes a pressa e a superficialidade como as notícias são apuradas no "outlet" jornalístico fazem com que nos deparemos com notas infelizes, preconceituosas e completamente aquém da envergadura de um trabalho de tese principalmente numa temática tão difícil como a que o doutorando se presta a enfrentar.
No mínimo a jornalista, já conhecida pela sua coluna, poderia se retratar para não ficar tão feio para ela, profissionalmente.

Jampa disse...

Eu acho que o preconceito da jornalista tem o pequeno mérito crítico. Podemos discutir algumas coisas que ficam implícitas nas relações acadêmicas, como a questão dos objetos prioritários de estudo. Existem de fato objetos mais sérios do que outros? Coisas mais urgentes a serem estudadas? As razões pelas quais um(a) jornalista julga como pompa as palavras de um trabalho acadêmico podem sugerir, além do proconceito anti-intelectualista (justificado ou não), um verdadeiro conceito (pensado, refletido) sobre um gênero marginal de produção cultural. Se besterol não pode ser considerado coisa séria,supõe tal opinião baseada na própria despretenção do projeto astístico em questão, por que estudaríamos isso? Já ouvi muito discurso elitista dentro da própria universidade e um momento como esse daria ensejo a um debate sério sobre a importância da escolha dos objetos de estudo nas ciências sociais que não podem(as ciências), como fez a jornalista, apenas reproduzir o julgamento normativo que a própria sociedade produz. Boa parte do jornalismo tem contribuído "a contrario sensu" para o aprimoramento da democracia do conhecimento.

Anônimo disse...

Não sei onde há mérito nisso... críticas são aceitáveis, mas antes de mais nada, é necessário que: 1- conheça-se o trabalho; 2- conheça-se as teorias que estão embasando o trabalho; e 3- a funcionalidade para a sociedade.
Conheci o trabalho numa apresentação e achei muito importante, principalmente para a desconstruções ou parodizações (?) dos sentidos heteronormativos.
Existe mesmo objetos mais importantes que outros? Interessando a quem? De qual lugar você fala isso?
Não quero prestar muita atenção nessa escorregada da jornalista, mas respeito é bom e todo mundo gosta!
Sem mais,
Azevedo
azevedo_m@hotmail.com

Anônimo disse...

"convidamos a jornalista a participar do Seminário intitulado “Sentidos ambivalentes e possíveis desconstruções da hetenormatividade via programa televisivo recifense papeiro da Cinderela”, a se realizar na Sala de Seminários do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, 12 andar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE".

Quando?

Cynthia disse...

O seminário será amanhã, dia 26 de novembro, às 9:00h.

Foi mal...

Anônimo disse...

Éé esperamos que a "Jornalista" sem criatividade compareça hoje no seminário. Mais com certeza ela não ira comparecer! O que ela quis é chamar atenção, é óbvio! que é a principal intenção da Impressa.

Pois bem sei e conheço o trabalho do Professor Marcelo Miranda. Admiro a pessoa dele.

Nailton,

wellthon disse...

É deplorável ver um veículo de comunicação agir com tanta discriminação e superioridade a uma ciência sociológica.
Sinceramente, um comentário arrogante desses não deveria ter espaço em um Jornal desse porte.
Entretanto acredito que o mais infeliz é que a crítica feita a algo assim pela imprensa é facilmente respondida como "contra a liberdade de expressão". Como já havia dito outra vez aqui no Blog; a nossa mídia tem sérios problemas com relação ao seu papel e importância de difusão social e confundem a liberdade com irresponsabilidade.

jrtl disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
jrtl disse...

JAIMINHO:

É triste, para dizer o mínimo, a forma como uma "profissional" se utiliza da visibilidade de uma coluna de jornal tão importante para emitir opinião tão descabida sobre um trabalho realizado com rigor acadêmico e científico.
A referida jornalista parece ter antipatizado com o título da tese e se achou no direito de criticar um trabalho do qual não tem o menor conhecimento!
Pior, esta senhora, utiliza-se da liberdade de imprensa para destilar seu preconceito, não reconhecendo como legítima determinadas expressões culturais, no caso o "besteirol"!
Ela deve acreditar ainda na ultrapassada visão de superioridade de uma cultura dita "erudita" em detrimento da cultura popular e de "massa"!
Necessitamos de uma imprensa verdadeiramente democrática!!!!!

Anônimo disse...

Nota infeliz e, certamente, pouco refletida da referida jornalista. Na ânsia de publicar a notícia, fez constar um título, não um título batizado pela academia para parecer “pomposo”, mas sim um título publicitário, bem adequado ao métier jornalístico mais rasteiro: “papeiro pomposo”. Fez a lição de casa: chamou a atenção para si e criou a polêmica, mas como um “bom” jornalismo rasteiro deixou a desejar na profundidade de sua crítica. O que ela entendeu a partir do título do trabalho de Marcelo - Sentidos ambivalentes e possíveis desconstruções da hetenormatividade via programa televisivo recifense papeiro da Cinderela? Se o título não lhe disse nada, melhor seria ter pesquisado, buscado se informar melhor para melhor informar.
Ratifico todas as críticas postadas neste espaço: o que é um objeto passível (sério) de ser analisado sociologicamente? Quem pode dizer o que é importante? O que seria um título apropriado? Para quem?
A jornalista desmoralizou publicamente o doutorando Marcelo, pesquisador comprometido com seu trabalho e com a mudança de um mundo a partir de uma perspectiva feminista, mas ela não fez apenas isso, ela atentou contra a nossa dignidade profissional, pesquisadoras e pesquisadores, que nos interessamos não apenas por temas reconhecidos como sociológicos ou por grandes pesquisas estatísticas, mas também, pelos não-ditos racistas (Sales), pelos cheiros que classificam as pessoas (J.S. Martins), as “pequenas”/simbólicas violências contra as mulheres e vulneráveis (Bourdieu), os besteiróis televisivos (assistidos aos montes e formadores de opiniões) que podem desconstruir, ou não, os princípios da heteronormatividade (M. Medeiros), enfim...
Retratação pública JÁ! Abaixo a ignorância! Liberdade de expressão de nossa linguagem e interesses acadêmicos (tão plurais quanto nossa realidade social). Abaixo a ditadura do jornalismo de reputação duvidosa.
Sheila Bezerra.

luchito disse...

Não me surpreende a necessidade contemporânea de se discutir o papel do jornalismo frente a responsabilidade com os Direitos Humanos. Muito se confunde liberdade de expressão com falta de respeito, de sensibilidade e ética profissional.
Se a jornalista tivesse um pouco de cuidado e maturidade profissional , poderia ter ao menos assistido a apresentação do trabalho a fim de tecer críticas tão levianas.
Luciano Freitas- Vice-presidente da ONG Leões do Norte

Patricia Menezes disse...

Não vou falar nada do ponto de vista acadêmico. Apesar de todo o conhecimento adquirido por osmose com a convivência entre vcs, não tenho embasamentos científicos para rebater a crítica, se bem que ela foi tão rasa que até seria fácil fazê-lo. Mas prefiro mesmo deixar essa parte para meus amigos sociólogos, antropólogos e demais estudiosos das Ciências Sociais.

Vou falar de gente, que é o que as Ciências Sociais fazem, mas fora da ótica acadêmica.

As relações pessoais e profissionais devem, primordialmente, serem alicerçadas com base no respeito e na ética.

Entendimentos que esta jornalista não teve... Em uma nota tão curta ela conseguiu reunir: pressa em publicar algo que ela deve ter achado "piada pronta", irresponsabilidade com a informação - falar sem checar é um dos erros crassos do jornalismo, e desrespeito pelo trabalho alheio.

Sabemos que muitas pessoas, mas muitas mesmo, sequer sabem a diferença entre mestrado, especialização, doutorado, teses e dissertações. Dentro da própria academia encontramos graduandos que não conhecem/entendem o funcionamento de uma pós-graduação. Ok, isso acontece por diversos motivos que não vêm ao caso. Porém, uma profissional que se dispõe a escrever sobre um trabalho acadêmico tem a OBRIGAÇÃO de saber os meandros que o envolvem. A seriedade dos profissionais envolvidos, a aposta que a instituição fez nesse aluno, o tempo e a dedicação gasto com as pesquisas e sobretudo o saber adquirido e repartido, que pode nos ajudar a entender melhor o mundo. Mas esse benefício nós só temos quando conseguimos baixar nossa prepotência e soberba e deixamos nossa cabeça aberta para novos olhares e perspectivas. Que pena que essa jornalista perdeu uma oportunidade de ver algo novo...

Enfim, se pudesse dar um recado a esta jornalista, diria: não precisamos concordar em tudo, o gostoso é a discussão, mas com ética e respeito...

erliane@yahoo.com disse...

É difícil compreender como uma jornalista da grande mídia pode ter assimilado como “pomposo” um trabalho que propõe a desconstrução da heteronormatividade expressa, justamente, em um programa humorístico local veiculado pela televisão, portanto, à grande massa. Não seria tal adjetivo mais apropriado ao esplendor do sujeito que goza de tamanha autoconfiança a ponto de não se ocupar em conhecer o objeto sobre o qual pretenda manifestar sua opinião, a fim de evitar falácias como a de uma ‘contra-prova’ de mediocridade latente? Penso que esse episódio só reforça a legitimidade do valor que o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco reconhece às diversas pesquisas que propõem, de alguma forma, o rompimento da visão simplista de que fenômenos ‘menores’, ou compreendidos como do âmbito do ‘besteirol’. Para quem se pergunta para que serve a sociologia, está aí um bom exemplo: contribuir para que o sujeito possa romper com o hábito de rir da própria miséria como se esta lhe fosse alheia.

Jampa disse...

Azevedo,oa, o "pequeno mérito crítico" da jornalista era irônico, já que meu comentário visava traduzir a involuntariedade da polêmica sadia que o preconceito da nota causou.Agora, que existe uma hierarquia de objetos e temas no mundo acadêmico, não há como negar. Discutí-los é extremamente difícil porque nessa hierarquia encontramos as tramas da estrutura de dominação acadêmica. A incompetência preconceituosa da jornalista revela uma relação naturalizada do lidar com o acadêmico dada por uma pessoa que escolheu não fazer parte dele. No jargão jornalístico, o mundo acadêmico é desconectado da realidade, o jornalístico, não. Daí outra coisa interessante é que ela sequer pensa que os acadêmicos poderiam, nos dias de hoje, ainda se interessar pela leitura de jornais, muitos menos de uma nota como a dela.O grave equívoco da jornalista, como já bem colocado nos comentários aqui, foi o de exercer mal sua profissão. Porém o que digo é que o preconceito dela tem lastro empírico. Cabe a nós, sociólogos, refletir sobre a base social dos preconceitos reproduzidos na nota? eis minha questão. Preconceitos, porque existe um evidente, contra uma cultura tida como menor; e um subjacente ao primeiro, anti-intelectualista, supondo pompa intelectual num trabalho que ela desconhecia. De onde vem e como operam esses preconceitos?

Cynthia disse...

Jampa,

Suponho que venham de um lugar parecido com aquele de onde vem o termo "professores" para se referir a três mulheres. Mas deixo isso para os especialistas em teoria do reconhecimento.