domingo, 30 de setembro de 2012

A dor do outro distante (parte 2): caridade, justiça e a criança faminta



Por Gabriel Peters (doutorando, IESP/UERJ). A parte um deste artigo pode ser lida aqui.

Por volta da década de 70, a foto da criança africana subnutrida, com olhos assustados e aparência esquelética, já havia adquirido o estatuto de ícone irresistível do sofrimento humano – um ícone no sentido de uma estrutura representacional com base na qual diversas novas imagens de tragédias foram produzidas e interpretadas (Kurasawa, 2009). Tal imagem também tinha sido amplamente mobilizada a serviço da hipótese de que a ação em favor dessa criança derivava do mais básico senso de humanidade diante de uma criatura com nenhuma responsabilidade por sua dor, estando, portanto, para além de considerações ou divisões políticas e ideológicas. Um momento de reforço massivo dessa iconografia foi o frisson, no mundo euro-americano, em torno da fome na Etiópia em 1984, quando imagens vívidas de penúria e sofrimento obtiveram enorme impacto público e levaram à subsequente realização do concerto Live Aid em julho de 1985, voltado a angariar fundos para o auxílio à população etíope atingida pela tragédia.

No entanto, enquanto alguns celebravam tal demonstração pública de compaixão por co-habitantes distantes do globo, os chamados críticos “educativos” ou “educacionalistas” lamentaram o que viram como a vergonhosa transformação de imagens de sofrimento em itens de consumo, bem como a instauração de um ritual hedonista em que a dor do outro serviria de pretexto a uma celebração autocongratulatória da própria generosidade. Assim como os teóricos da dependência haviam sustentado que a riqueza dos países desenvolvidos e a pobreza dos países subdesenvolvidos representavam duas faces de uma mesma moeda, com a primeira servindo de sustentáculo para a segunda graças à estrutura assimétrica da economia internacional, os educacionalistas começaram a fustigar a exploração das imagens da “criança africana faminta” por entidades humanitárias como a Oxfam.

Em vez de informar os ricos doadores ocidentais a respeito das assimetrias estruturais de poder econômico e político que subjaziam à produção da miséria, as organizações caridosas alimentariam um espetáculo sentimental no qual o doador se eximia de responsabilidade propriamente política ao refugiar-se em uma benevolência autoindulgente (Baudrillard, 1994: 67). Em vez da reflexão crítica sobre as causas sistêmicas da pobreza, o regime de doações motivado pelo poder emocional das imagens alicerçava um sentimento de superioridade condescendente entre os “heróis” do Primeiro Mundo que prestavam auxílio a impotentes terceiro-mundistas – como na foto em que o diretor da Oxfam segura em suas mãos uma criança subnutrida em Biafra (Cohen, 2001: 178). Contra o discurso da caridade pragmática e apolítica, que julgavam contribuir para uma naturalização ideológica da miséria no mundo, os críticos educacionalistas da representação espetacularizada do sofrimento levantaram bandeiras da justiça social: a substituição do alívio local e imediato por mudanças econômicas estruturais, uma práxis política voltada ao empoderamento dos “sofredores” – e não uma consideração paternalista dos mesmos como vítimas indefesas - e assim por diante.

Vários desses debates acirrados foram, de certa forma, dramaticamente condensados na história de um indivíduo, o fotógrafo sul-africano Kevin Carter. Em 1993, Carter registrou, em uma famosa foto, o momento em que uma menina sudanesa se arrastava para um campo de alimentação montado pela Organização das Nações Unidas (ONU) enquanto, ao fundo, um abutre permanecia à espreita. A foto valeu a Carter um premio Pulitzer em 1994 e gerou uma enorme comoção em torno ao destino (desconhecido) daquela criança. No entanto, críticos se apressaram em denunciar a priorização dada ao registro fotográfico em detrimento do auxílio imediato à menina (com alguns chegando ao ponto de afirmar que o papel do fotógrafo na situação era homólogo ao do próprio abutre). Apenas dois meses após ser premiado, Carter terminou por cometer suicídio. Embora não se possa reduzir as motivações de seu ato a um único fator, seu destino passou a simbolizar contundentemente as profundas ambivalências e dilemas morais implicados no trabalho de tornar visível o sofrimento.

Nem oito nem oitenta

As críticas educacionalistas foram e são obviamente importantes. No entanto, embora os meios mais tradicionais de comunicação ainda tenham muito a aprender com elas, tais críticas penetraram tão intensamente no mundo das organizações humanitárias que alguns de seus limites puderam saltar à luz. O reconhecimento de tais limites não aponta, obviamente, para um abandono da preocupação com condições e consequências estruturais em favor do foco exclusivo sobre a ideia de auxílio humanitário emergencial e compensatório. Ele reclama apenas o sóbrio reconhecimento de que, se por um lado “as intervenções em emergências complexas não são ‘soluções’ porque as próprias emergências não são problemas autônomos em si mesmas, mas sintomas de...problemas subjacentes”, também “seria um erro pensar que a resposta humanitária deveria ou poderia ser simplesmente abandonada em favor de um trabalho direto sobre os problemas subjacentes” (Calhoun, 2008: 88).

Como exemplo de efeito perverso, os debates em torno ao atual mal-estar do estado de bem-estar social mostraram que a tese de que a caridade humanitária fere o autorrespeito e o poder de iniciativa daqueles que são seus beneficiários, a mesma tese outrora utilizada para defender a substituição das caridades privadas por padrões institucionalizados e impessoais de justiça distributiva, pôde ser instrumentalizada em favor da própria defesa de uma dissolução desses últimos na fase mais recente do capitalismo (Sennett, 2003). De modo similar, é fundamental reconhecer que a legítima preocupação com a dignidade dos indivíduos afetados por uma crise humanitária pode, por outro lado, terminar por esvaziar o que deveria permanecer sendo a mensagem central: a de que aquelas pessoas estão em uma situação de vulnerabilidade tal que as torna dependentes de ajuda externa. Com efeito, ao invés de uma pintura da condição do sofredor com cores de vergonha e indignidade, é precisamente o reconhecimento de vulnerabilidades (Turner, 2006), dependências e riscos compartilhados (Beck, 1999) o que constitui a condição mesma de possibilidade do altruísmo econômico, social e político em uma arena cosmopolita.

O problema colocado pelo delineamento de uma posição informada pela crítica educacionalista, mas que não se reduza à mesma, é similar ao que já encontramos, em post anterior, a respeito do impasse ético-político a que nos levam certas críticas céticas ou “iconoclastas” (Kurasawa, 2009) aos modos banalizantes, espetaculares, consumistas e “pornográficos” pelos quais o sofrimento distante é apresentado nos meios de comunicação. Tais críticas parecem sugerir, implícita ou explicitamente, que aquelas características seriam corolários inevitáveis da representação midiática de crises humanitárias. Boltanski notou o beco sem saída a que chega essa forma de denúncia totalizante:

A crítica [cética, iconoclasta] é fácil, mas a arte é difícil. É, portanto, apropriado perguntar aos críticos o que eles querem e o que propõem. Aqueles aos quais nos referimos não o dizem claramente. (...)Como os espectadores são manipulados e enganados pela evocação de desafortunados e pelas imagens de sofrimento que lhes são mostradas, uma solução [sic] imediatamente vem à mente: pare de dar sua atenção ao infortúnio; não se preocupe mais com isso, não diga nada sobre o sofrimento (Boltanski, 1999: 180)

O crucial é escapar à visão simplista de que estaríamos condenados a uma escolha entre representar o sofrimento distante segundo imagens e narrativas convencionais que apenas levariam à apatia ético-política e à transformação da dor do outro em espetáculo de consumo ou, ao contrário, abdicar de qualquer intenção de representação, o que significaria estranhamente substituir uma apatia ligeiramente incômoda por uma letargia acalmada pela simples ignorância. Para além dessa dicotomia, a verdadeira tarefa consiste, portanto, na busca dos instrumentos imagéticos e textuais eticamente mais apropriados e eficazes para engajar a subjetividade dos receptores. A preocupação educacionalista com a contextualização estrutural das tragédias mostradas ou com a difusão de alternativas de intervenção que possam ir além do alívio imediato faz parte do percurso, mas a imagem agônica do sofredor concreto (essa, esse...e mais um milhão como esse e essa) é a principal e talvez a única senda pela qual podemos despertar sentimentos morais no que, caso contrário, seria uma compreensão puramente intelectual de dados sociológicos e estatísticos[i].

A apresentação descontextualizada dos eventos trágicos deveria, sim, ser substituída por um modo informacionalmente rico de exposição que contenha a referência a causas sistêmicas pouco visíveis ou a alternativas de intervenção não apenas emergenciais como duravelmente transformadoras. Mas é simplesmente implausível supor que a maior parte dos receptores seja formada de estoicos ou kantianos cujas subjetividades morais possam ser engajadas de modo puramente racional. Se a exibição da foto de uma criança em desespero obviamente não encapsula todos os determinantes da miséria no mundo, ela não deixa de apontar para a instância última que faz com que uma tragédia humanitária possa ser nomeada como tal:
Sabemos que a pobreza no Terceiro Mundo é uma questão complexa. Mas, avarentos cognitivos que somos, paramos de registrar quando as pessoas começam a falar da crise da dívida, do FMI e do preço dos grãos de café. (...) Objetivos políticos e objeções éticas de fato importam se a criança faminta e os cadáveres flutuando no rio passam a representar a “África”. Mas essas imagens certamente não podem ser suprimidas. Miséria, doença e sofrimento desnecessários, milhões de seres humanos perdendo suas vidas...: esse é o problema, todo o problema e nada além do problema. (Cohen, 2001: 184-185).

Notas

[i] Foi pensando provavelmente nesse descompasso entre racionalidade e sentimentalidade na compreensão de tragédias humanitárias que Bertrand Russell escreveu que a marca de um ser humano civilizado seria a capacidade de chorar após ler uma tabela de números.

Referências

BAUDRILLARD, Jean. The illusion of the end. Cambridge: Polity Press, 1994.
BECK, Ulrich. World risk society. Cambridge: Polity Press, 1999.
BOLTANSKI, Luc. Distant suffering: morality, media and politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
CALHOUN, Craig. The imperative to reduce suffering: charity, progress, and emergencies in the field of humanitarian action. in BARNETT, M. & WEISS, T. (org.) Humanitarianism in question: politics, power, ethics. Ithaca: Cornell University Press, 2008.
COHEN, Stanley. States of denial: knowking about atrocities and human suffering. Cambridge: Polity Press, 2001.
KURASAWA, Fuyuki. Socio-visual constructivism, visual ambiguity and the iconography of distant suffering. Mimeo, 2009.
SENNETT, Richard. Respeito: a formação do caráter em um mundo desigual. São Paulo: Record, 2004.
TURNER, Bryan. Vulnerability and human rights. University Park, PA: The Pennsylvania State University Press, 2006.