quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A conversão à antropologia como condição de uma antropologia das conversões

"Infinity Mirroed Room - Love Forever". Instalação de Yayoi Kusama, 1994.

Por Diogo Correa* - Doutorando, Iesp-Uerj


21 de Agosto de 2013, culto de ação de graças na Igreja Assembleia de Deus.

Pastor Zé do Galão: “Vamos ouvir o nosso amado irmão? Amém? Vamos ouvi-lo em sua oportunidade”.

Sentado no banco mais próximo ao púlpito, eu olho para ele, surpreso. Embora fosse o culto de ação de graças que eu mesmo propusera e fizera em agradecimento ao apoio que me fora concedido ao longo da pesquisa, eu não esperava naquele momento falar; menos ainda ser chamado ao púlpito assim, de supetão. Sim, antes do culto, aquilo havia passado pela minha cabeça, é verdade. Mas, no momento em que fui chamado, o culto já estava praticamente em seu momento derradeiro. E ali, naquele exato momento, já não achava mais que seria chamado. Não mesmo. Ao ver que estava surpreso, o pastor Zezinho olhou novamente pra mim, e logo reafirmou de modo carinhoso o que dissera: “sim, é você mesmo! Vem, filhão!”

Nos quase dois anos de trabalho de campo, foi a primeira e única vez que eu iria ocupar aquele espaço. No curto caminho até o púlpito, tal como frequentemente ocorre nos momentos finais de um personagem, um filme veio-me à mente. Repentinamente, dei-me conta de aquele momento era o fim de um ciclo da tese, talvez o mais importante: era o fim do meu trabalho de campo. E agora? O que dizer? Simplesmente agradecer com um “muito obrigado”?

Enquanto pensava e caminhava na direção do púlpito, as pessoas, os fiéis que assistiam ao culto, gritavam, como de praxe: “Oh Glória! Meus Deus! Aleluia! Glória a Deus!”. E todas essas vozes mescladas ajudavam a (re)produzir uma atmosfera retrospectiva que me remetia imediatamente às minhas primeiras incursões no universo da Igreja. Com a pequena diferença, é claro, de que tudo aquilo, agora, já não me era mais completamente estranho. Daí porque surgiu-me naquele exato instante a simples e mesmo óbvia ideia: por que não tentar fazer um breve relato dessa história? A história de como, pouco a pouco, tornei-me parte daquele universo? Ou de como, progressivamente, aquele universo tornara-se parte de mim? Já no púlpito, dei um abraço no pastor, agradeci a oportunidade, e cheguei a brincar: “Pô, você podia ter me avisado, quem sabe eu até pregava?”. Risonho, ele apenas disse: “Amém, irmão? Pode falar com as suas palavras, agradecer”.

Foi então, naquele exato momento, que tive “uma experiência” no sentido de John Dewey, e intui a conversão pela qual eu havia passado. Em meu silêncio momentâneo, imerso na pausa reflexiva que prenuncia a fala, cheguei a lembrar de um antigo email de Daniel Cefaï, em Outubro de 2011, quando eu acabara de voltar de Paris, após um tempo de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em que ele dizia: “você está muito teórico, para falar da conversão dos teus nativos, você precisará passar pela tua própria!” Não, não se tratava obviamente de “go native”, de virar evangélico e passar a falar nos mesmos termos que os dos meus pesquisados. Claro que não. O Daniel se referia, antes, à conversão a que todos aqueles que objetivam fazer um trabalho de campo, e mergulham em um verdadeiro engajamento etnográfico, precisam necessariamente passar. Sim, ali eu realizara que aquela experiência havia me transformado. Eu não era decerto mais a pessoa que, quase dois antes, pisara naquela favela e entrara naquela Igreja. E se o ambiente tornara-se outro é porque o meu corpo, o meu organismo também havia igualmente passado por uma transformação. Sim, como os meus nativos, eu também havia passado por uma conversão, mas uma conversão distinta daquela dos meus pesquisados, já que uma conversão à etnografia. E o encerramento do ciclo etnográfico era como uma espécie de carimbo, de licença, salvo-conduto, passaporte: eis que agora você está apto a ir para a próxima fase, a escrita da tese. A sensação era de que, naquele momento, eu finalmente me tornara alguma espécie de antropólogo ou sociólogo, sei lá. Simplesmente eu intuía que eu mesmo me tornara algo diferente do que eu era ou do que eu havia sido quando entrei no campo. Eu passara, naquele momento, pelo que Anselm Strauss define como um incidente crítico que nos faz perceber que não somos mais o mesmo de antes. Em suma, eu próprio passara, para citar William James, por “uma diferença que faz diferença”. E isso se dava ao modo de uma espécie de percepção sensível, intuição de que  algo irreversível havia ocorrido, de que eu mesmo fora acometido por uma espécie de turning point. Não havia mais volta. E, por isso, só agora eu podia, enfim, falar sobre esse algo do qual eu só tinha duas certezas: ele não se reduzia a uma psicologia introspectiva, nem a uma digressão teórica solipsista. Sentia-me agora, não, como Tim Ingold define a antropologia, preparado para fazer “filosofia com os outros dentro”, mas, de modo distinto, sentia-me capaz de fazer a “filosofia dos outros, só que comigo dentro”. Sim, era isso: o fim do campo era a passagem de um limiar do processo conversivo pelo qual eu havia passado, e continuaria passando ao longo da escrita da tese. De forma confusa, mesclada, ambígua, compactada, numa espécie de bloco íntegro (e múltiplo) de espaço(s)-tempo(s), tudo isso me veio à mente naquele momento. E era sobre isso, no final das contas e ainda que desengonçadamente, aquilo sobre o que eu queria (e deveria) falar. Em segundos, eu passei a ter algo a dizer; em milésimos, me senti ocupando o espaço deles, e com o corpo naquele lugar, um ponto de vista nunca antes tão próximo dos próprios nativos. O púlpito tornara-se agora meu espaço e um testemunho possível passara a me habitar. Tudo se passava como se eu mesmo tivesse enfim atravessado o outro lado do espelho: além do meu corpo estar ali, onde sempre habitara o corpo dos outros, eu tinha finalmente, como eles aliás sempre tiveram, um “testemunho” a dar, uma história de transformação a contar, enfim algo, na linguagem deles, a dizer. E do mesmo modo que Deus, em seu poder absoluto de agência, era, na cosmologia deles, quem os clamava e os conferia a força necessária para a conversão, eu me dei conta, de modo análogo, de que eles, os meus nativos, eram o que, ao longo do trabalho de campo, haviam me interpelado, me feito desejar e realizar o ato conversivo – sim, para a conversão etnográfica. Para fazer a “filosofia deles, comigo dentro” era preciso não aceitar o Deus deles, mas, de modo distinto, fazer da própria alteridade dos meus nativos o meu próprio Deus. Sim, os “outros” eram o meu Deus, e era a eles a quem eu devia fidelidade. E ser fiel, no caso, significava saber que aceitar a alteridade como Deus não é o mesmo que aceitar o Deus da alteridade. Por isso, é verdade que a minha conversão não era tanto aquilo que eles imaginavam, menos ainda esperavam. E nem eu. Mas o importante era que entre a minha conversão e a conversão deles havia uma similaridade formal ao preço de “dissonâncias” ou “equivocidades” concretas. E era, ao fim e ao cabo, a história dessa dissonância, dessa fricção de diferenças que eu queria contar. Eram, portanto, essas dissonâncias e os contrastes que emergiam da diferença entre as duas conversões que seriam, no final das contas, a minha própria tese. Mas além de contar a história dessas dissonâncias e equivocidades e suas decorrentes comparações, eu queria, enfim, tentar dar uma resposta a algo que eu tanto havia adiado, tergiversado, fugido ou simplesmente recusado a responder aos meus nativos, pois até então eu não podia ou não tinha algo a dizer. Entendi, naqueles poucos segundos, que eu poderia dar aos meus nativos a resposta para a pergunta que eles tanto me fizeram: “afinal, Diogo, quando você vai se converter?” Senti que era isso que eu precisava responder, “testemunhar”, pois eu passara, naquele exato momento, a ser habitado por uma resposta possível. Foi então que virei-me para as pessoas que ali estavam, peguei o microfone e me pus a falar:

Boa noite a todos. Quero agradecer a presença de cada um de vocês nesse culto de ação de graças. Um culto que, como a maior parte de vocês bem sabe, é em agradecimento ao apoio e à recepção que tive, aqui, para a realização da minha pesquisa. Uma pesquisa que se tornará a minha tese de doutorado. Eu sei que nem todos que estão aqui presentes estão a par disso e, por isso mesmo, talvez alguns estranhem a mensagem que darei no púlpito. Pois ocupo esse espaço privilegiado, hoje, não para falar, como de praxe, como pastor, evangelista, presbítero, diácono ou membro da Igreja, mas simplesmente como pesquisador.

Ainda que eu visitasse a favela desde 2002, não tinha nenhuma familiaridade com o mundo evangélico. A própria favela ainda era-me um lugar distante. Pouco a pouco, no entanto, isso mudou. E hoje, quando venho aqui, quando entro nessa Igreja, sinto-me em um mundo não apenas compreensível, mas que, em alguma medida, me compreende. E isso só foi possível em razão da ajuda e do apoio de algumas pessoas que hoje preciso agradecer em particular. Em primeiro lugar, ela não teria sido possível sem o Beija-flor, meu amigo e irmão, a quem talvez até fosse justo atribuir uma co-autoria ao que de bom haverá na tese. Foram madrugadas e dias não apenas aqui, mas também em conversas ao telefone sobre as experiências que vivenciamos ao longo desse tempo. Quero agradecer também ao Pastor Zé pelos longos diálogos e pela disponibilidade sempre incrível em ajudar. Agradeço ao evangelista Neto, por sempre contribuir para o trabalho. Ao Pastor Reinaldo pela autorização e pela total liberdade dada à pesquisa. Ao Charles, pela paciência e perseverança nos quase sessenta encontros gravados que fizemos juntos. Ao João, ao Moisés, ao Linha e a todos os outros que estiveram comigo nessa jornada. Peço desculpas aos tantos outros que não mencionarei, pois se assim o fizesse acabaria o tempo de que disponho pra falar!

Além desse agradecimento, queria falar sobre uma outra questão. Já que me foi conferido o privilégio de falar aqui, no púlpito, queria dar um “testemunho” que espero que sirva de resposta a uma pergunta com a qual tantas vezes vocês me interpelaram. Pois só agora dou-me conta de que fiz, sim, uma pesquisa, mas não uma pesquisa acadêmica em sentido restrito e abstrato. Não fiz um acúmulo de abstrações e de ideias, não coletei apenas relatos e entrevistas. Aqui conheci pessoas concretas e reais, compartilhei de seu cotidiano, fui afetado por seus sentimentos e sofrimentos, tornei-me partícipe direto de seu ambiente e tornei-me sensível às agências, seres e entidades que lhe são parte integrante. Enfim, posso dizer que compartilhei um mundo com e o mundo de vocês. E que todo esse processo foi certamente um aprendizado que livro nenhum, por mais interessante e brilhante que fosse, poderia me dar. Nenhum mesmo.

Mas, para ir direto ao ponto, agora vou tentar responder à pergunta que vários de vocês me fizeram ao longo do trabalho de campo – inclusive hoje. Em vários momentos da pesquisa, vocês me perguntaram: “E aí, Diogo, quando você vai se converter?” Ou então: “Diogo, quando você vai aceitar Jesus e congregar conosco, em nossa Igreja?” Bom, pra adiantar, eu queria dizer que sim, eu me converti. E que foram vocês que fizeram com que eu me convertesse. Mas, não sei dizer bem ao certo se felizmente ou infelizmente, essa conversão não se deu no sentido que vocês, em geral, atribuem a essa palavra. E sei que essa diferença não é certamente desprovida de ambiguidades e uma certa desconfiança por parte de alguns de vocês, de alguns membros, como certos amigos que fiz aqui me relataram. Eu sei que já fui chamado de “jornalista da Rede Globo” e até de “Satanista”. Bom, como sempre disse, sou apenas um sociólogo ou antropólogo – ou, melhor dizendo, talvez tenha verdadeiramente me tornado no convívio reiterado com vocês, além do aprendizado e das transformações que pude passar graças a vocês. Em todo caso, talvez vocês não tenham percebido, e talvez eu mesmo só me dê efetivamente conta disso agora, mas esses quase dois anos foram para mim uma conversão. O trabalho de campo, esse método de pesquisa que se ensina na antropologia que a boa forma de produção de saber e de conhecimento só pode ser extraída por lenta e reiterada coexistência, por compartilhamento de afetos, sentimentos, percepções e sensações certamente me transformou. Mas, como disse acima, a conversão do antropólogo ou do sociólogo não é a mesma que a do crente. E, paradoxalmente ou não, a condição do meu trabalho depende disso, pois é justamente nessa diferença ou dissonância entre a conversão que o trabalho de campo produziu em mim, enquanto pesquisador, e a conversão que Deus produziu em vocês, como fiéis e crentes, que tornará a minha tese possível. Será essa diferença entre as nossas conversões que me permitirá escrevê-la. É disso que se trata.

Por isso, retorno à pergunta: “Diogo, você se converteu?” Sim, certamente que sim. Cheguei aqui no dia 21 de Novembro de 2011 e hoje, no dia 21 de Agosto de 2013, estou certo de que não sou mais o mesmo. Como vocês, sinto uma descontinuidade real entre o que eu era e o que eu sou agora. Tornei-me, em alguma medida, “um novo homem” – e posso dizer, ao menos no que concerne a minha tese, que praticamente “tudo se fez novo”. Mas enfatizo novamente que a descontinuidade que experimento é qualitativamente diferente da de vocês.

Peço que me perdoem por isso, por essa diferença, e pela minha teimosia em não apenas mantê-la como em exaltá-la aqui nesse púlpito. Afirmo, contudo e talvez paradoxalmente, que é ela, essa dissonância ou contraste entre as nossas conversões que me permitirá não reduzi-los ou deformá-los através dos conceitos sociologia ou da antropologia, mas, quem sabe, conseguir mudar, reformar ou mesmo deformar um pouquinho que seja a antropologia e sociologia através de vocês. E assim, por um lado, ajudar a evitar diversos preconceitos transfigurados em conceitos que não apenas sociólogos e antropólogos, mas muitas outras pessoas nos outros espaços da cidade, compartilham sobre os crentes, atribuindo-lhes características de forma apressada e desconectada do mundo de suas formas de vida... Aliás, esse será o modo que eu encontro, a partir de agora, de retribuir tudo o que me foi dado: um trabalho sério, que leve vocês a sério, sem reduzi-los as coisas que por vezes vocês são comumente o são. E inspiro-me em vocês para isso, já que pretendo levar vocês a sério tanto quanto vocês o fazem com Deus ou Jesus.

Mas é também preciso que vocês saibam que, assim como a fidelidade à Deus nunca é dada, mas diariamente conquistada e reafirmada– o que implica na existência recorrente de falhas e pequenas infidelidades –, o mesmo posso dizer com relação a pesquisa e a vocês. Eu provavelmente incorrerei em erros e muito possivelmente não poderei lhes ser integralmente “fiel”. Em todo caso, assim como a conversão pra vocês é um longo e árduo processo que exige dedicação, seriedade, esforço e práticas contínuas como orar, jejuar, ler a palavra, etc, para que a “ligação” e a “intimidade” com espírito de Deus não sejam perdidas, assim também terá de ser, a partir de agora, a minha própria “conversão”. Também precisarei me dedicar com afinco a certas práticas que me permitirão “ficar ligado” e “em sintonia” com vocês: a leitura das notas de campo, a (re)escuta das entrevistas, dos vídeos e o retorno aos outros materiais que pude acumular ao longo de nossa extensa convivência. Esse será o material que, no final das contas, me ajudará a não deixar, digamos, a tese e o “vínculo” com vocês “esfriar”. Peço de antemão perdão pelas possíveis “recaídas” que terei no processo de escrita; comprometo-me, ainda assim, a me “vigiar” continuamente para que, na tese, eu não me “desvie” do caminho de vocês. Talvez assim eu consiga realizar a tese que eu desejo, isto é, uma tese cujo objetivo não é outro senão descrevê-los na complexidade que pude apreender e perceber no processo de convivência reiterado. Só assim, quem sabe, eu mesmo seja capaz de fazer uma antropologia com vocês dentro ou, o que talvez seja melhor, a filosofia (ou mesmo a teologia) de vocês, só que comigo dentro. E tudo isso em respeito e em conformidade com o primeiro mandamento da boa etnografia: tentar fazer com que o estudo sobre o outro seja capaz de dizer mais sobre o outro enquanto outro, e menos sobre nós mesmos, pobres e sempre falíveis antropólogos e sociólogos que somos.

É isso, meus caros. Já me estendi demais. Termino a minha fala então com um “muito obrigado” que expressa a gratidão infinita que sinto pela conversão que vocês me levaram a desejar e a realizar. Assim como, sem a força de Deus, a conversão e a transformação de vocês não teria sido jamais possível, posso dizer igualmente que, sem vocês, a minha tese não poderia assumir a existência que ela assumirá a partir de agora. Finalizo então dizendo que eu reconheço que não teria forças para escrever a tese sem essa vigor maior que pude extrair de vocês e que, a partir de agora, carregarei comigo pelos próximos anos. Não mesmo. Muito obrigado por tudo.

 [Abraço do pastor Zezinho]


*Agradeço Bruno Reinhardt pela leitura e pelas sugestões feitas ao texto.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Emoção e sociabilidade em rede: uma pequena introdução sobre a sedução dos sentimentos no Facebook (trabalho em progresso)



Jonatas Ferreira[1]
Cristina Petersen Cypriano[2]
            
A capacidade de mobilização e de articulação social e política das redes de sociabilidade baseadas na Internet - tais como aquelas abrigadas pelo Facebook ou Twitter - tem despertado o interesse de diversos atores, analistas e cientistas sociais. Um exemplo disto é a atenção que este tipo de media vem despertando entre os políticos profissionais. Em 16 de outubro de 2013, o ex-presidente Lula conclamava os seus seguidores no Facebook a atuar neste novo espaço técnico da seguinte forma: “Vamos utilizar essa ferramenta fantástica que é a internet para falar do nosso projeto, mostrar o que já fizemos e, claro, ouvir críticas, sugestões e questionamentos”[3]. Comentando o livro de Manuel Castells Redes de Indignação e Esperança, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso analisava a importância da tecnologia na viabilização de protestos na Islândia, Espanha e Egito: “Por trás desses protestos está o cidadão comum informado e conectado pelas redes sociais e por toda sorte de modernas tecnologias de informação”.[4] Dada a relevância evidente deste meio sociotécnico, não admira que políticos profissionais passem a buscar o apoio de especialistas em comunicação e em redes sociais para compreender e intervir nesse novo espaço de sociabilidade. Recentemente, por exemplo, Dilma Rousseff convidou ao Palácio do Planalto Jeferson Monteiro, o criador da personagem paródica Dilma Bolada, de enorme popularidade nas redes sociais baseadas na Internet. Com 1,4 milhão de seguidores no Facebook e 26 mil no Twitter, a personagem de Monteiro pode se dar ao luxo de obter espaço na agenda da Presidente da República, precisamente no momento em que seu autor havia decidido descontinuar as postagens envolvendo sua criação.
O forte prestígio da personagem Dilma Bolada não pode, entretanto, ser avaliado apenas segundo os critérios da elevada audiência que ela obteve. Em um contexto, como é o das redes sociais on-line, onde todos os integrantes administram suas próprias páginas – pessoais ou institucionais – e se colocam como produtores de conteúdos, tanto quanto como consumidores e divulgadores, “o valor é cada vez mais calculado através da abrangência atingida por replicações, replies, menções, comentários, curtições e compartilhamentos de conteúdos”. Diferentemente do poder que se manifesta pela somatória dos seguidores, a “abrangência traduz o valor como a potência que consegue alcançar e o quanto pode mobilizar uma comunicação no interior das timelines” (Malini & Antoun, 2013, p.216). Nas comunicações em rede, os formadores de opinião se distinguem não pela contabilidade do número total de receptores, mas sim pelo cultivo da participação ativa daqueles que recebem os conteúdos postados. Sob vários aspectos, esse potencial dialógico é entendido como parte constitutiva da própria dinâmica estabelecida neste tipo de rede social. Recentemente, a propósito, os administradores do Facebook decidiram tomar medidas contra o que identificam como chamadas fraudulentas, posts de aparência sedutora, iscas (clickbaits), que, uma vez abertos, mostram conteúdo sem qualquer relação com as promessas iniciais: [5] sob uma chamada em que figura o vídeo de um terno animal de estimação, por exemplo, encontrar-se-ia uma propaganda qualquer. A identificação da fraude é possível - e este é o ponto - pela contabilização do tempo médio gasto por internauta ao abrir a chamada e pela proporção do número de comentários e compartilhamentos que esses ensejam, dada a quantidade total de acesso. A participação é sempre a atitude esperada.
Retomemos o ponto com o qual abrimos este texto. Dada sua incontestável força política e social, as mobilizações em rede também vêm ganhando uma atenção especial de um segmento das ciências sociais (ver, por exemplo, Lecomte, 2013; Dobwor, 2013; Singer, 2013). No que pese a importância desses estudos, em geral, eles compartilham de uma visão distanciada destes fenômenos, quer este afastamento seja garantido por alguma perspectiva econômica, na qual o político, o social e o cultural sempre parecem se subsumir, ou numa análise técnica que invariavelmente toma a rede como um fato dado e mesmo comparável a outros tipos de redes, como aquelas que podem ser percebidas entre insetos (a esse respeito, ver Ferreira e Fontes, 2014). Neste texto, por outro lado, procuramos recuperar um pouco dos conteúdos emocionais que forjam os “laços” e os “nós” dessas redes sociais e técnicas. Parece evidente que, a esse respeito, devemos partir de uma constatação bastante difundida entre os estudiosos da tecnologia: os engajamentos pelos quais se encadeiam as ações nas redes sociais on-line são tecidos pela interface entre seres humanos e máquinas. Os “pontos” que compõem a intrigante topologia reticular dos movimentos coletivos via Internet “são conectadas não por laços sociais per se, mas sim por vínculos sócio-técnicos. Elas são unidas por conexões tão técnicas quanto sociais” (Lash, 2001, p. 112). Daí decorre a desconcertante impressão de que “já não se sabe ao certo se existem relações específicas o bastante para serem chamadas de ‘sociais’”, ao mesmo tempo em que “o social parece diluído por toda parte e por nenhuma em particular”, como observa Latour (2012, p.19). Isso que parece um truísmo, infelizmente, não se traduz em análises que deem conta dos dois polos que compõem o fenômeno em questão.
 Entendendo as redes sociais baseadas na Internet como fenômeno socio-técnico, nossa abordagem não está à procura de pontos de origem em algum dos componentes da interface homem-máquina. Considera, antes, que trata-se de uma especial forma de relação que atualmente muitos de nós estabelecemos com as tecnologias de informação e comunicação, uma relação na qual somos autorizados e autorizamos, somos habilitados e habilitamos, somos capacitados e capacitamos a agir de forma imprevista (Latour, 2012). A partir dessa perspectiva, nossa intenção neste pequeno texto é perceber como a emoção é um componente fundamental das próprias dinâmicas sócio-técnicas – e, ao mesmo tempo, que a emoção encontra na interface entre humanos e dispositivos os ingredientes fundamentais que possibilitam e estimulam sua expressão. Tomaremos aqui o caso do Facebook como objeto de nossa análise e argumentaremos que a emoção é ali uma pressuposição do próprio dispositivo oferecido e, acreditamos, um dos motivos de seu enorme sucesso, de seu incontestável apelo. Lançado em 2004, por Mark Zuckerberg, o Facebook conta hoje com mais de 1 bilhão de usuários ativos – que utilizam a rede social ao menos uma vez ao mês –, dos quais mais de 60 milhões estão no Brasil.[6]
No que diz respeito à mediação tecnológica do Facebook, é notável o fomento à composição de coletivos de sociabilidade, considerando que esta é uma forma específica de relação social que pode ser definida, com Simmel (1983), pela mutualidade no cultivo do laço social per se, pela troca de conteúdos de cunho pessoal, pelo aspecto lúdico das interações, pelo prazer recíproco da sociação - embora finalidades instrumentais possam interferir neste processo, elas não são condições de partida para os usuários do Facebook. Assim, o site oferece um serviço que investe na sociabilidade entre seus frequentadores, na medida em que incentiva algum tipo de reciprocidade na disponibilização de conteúdos provenientes de suas vidas pessoais e promove interações em torno desses conteúdos. O fato de a emoção ser um ingrediente e uma moeda de troca importante em redes sociais como o Facebook – que nos faz pensar em uma espécie de economia da dádiva em que laços são reforçados entre aqueles capazes de mostrar uma sensibilidade afim - talvez possa ser apreciado em primeiro lugar pelo fato de os laços que a compõem serem caracterizados como laços de “amizade”. Ainda assim, não é incomum que essa reciprocidade seja rompida unilateralmente de forma a preservar de alguma forma o laço. Isso ocorre, por exemplo, quando deixamos de seguir um determinado amigo, ou deixamos de ser seguidos por ele, por atitudes julgadas inconvenientes: postar exageradamente, por vezes sobre um único assunto, mostrar opiniões ou valores considerados inadequados, etc. À importância da continuidade deste “laço fraco”, o Facebook está atento: é possível poupar um “amigo” ou “amiga” da triste verdade de que ele ou ela se tornou um chato.
Para alguns, aquilo que no Facebook “nós designamos convencionalmente pelo nome de ‘amizade’ é um tipo de ligação inteiramente específica dos ambientes sociais da Web” (Casilli, 2010: 270). Isso significaria aceitar que, embora possua a mesma nomeclatura de um vínculo social off-line, trata-se de um tipo de laço que não existe senão nas dinâmicas típicas do mundo on-line. Ao tratar de fenômenos técnicos desta natureza, todavia, é sempre importante analisar a ambiguidade dos meios que estes dão lugar, o processo de contaminação mútua que existe por exemplo entre dinâmicas off e on-line. Por isso mesmo, é importante analisar o que comumente entendemos por amizade e ver como esse valor é negociado nas redes sociais. Na língua inglesa “essa amizade assistida por computador toma o nome de friending. O neologismo designa o ato de ‘amigar’ ou de ‘tornar-se amigo de’ alguém” (Casilli, 2010: 271). Não é de se admirar que essa forma de ligação assuma o estatuto de uma ação, uma vez que abarca o movimento voluntário e persistente de tecer e manter laços on-line, sejam quais forem as motivações dos indivíduos. O convite explícito para celebrar um laço de amizade no mundo virtual – que só tem paralelo no universo infantil – dá bem uma ideia de quão significativa é a ideia de ação neste âmbito. Esse exercício de tornar-se amigo, invariavelmente, está condicionado às possibilidades e às restrições dos sistemas informáticos.
A importância do uso do termo amizade para o sucesso do Facebook está associado, de maneira intuitiva, à ideia de que se trata de um ambiente onde se fica à vontade na medida em que seus frequentadores são convidados a se assegurar da qualidade dos laços que são ali formados. A sugestão é a de que estão todos entre amigos, senão, entre amigos de amigos[7]. A escolha do nome amizade - em torno do qual parecem se constituir as dinâmicas desta rede social - é sintomática da possibilidade que certos laços sociais têm de ser mais fortes que outros.[8] Quando indagado sobre as vantagens de fazer parte desta rede, não é incomum escutar de seus usuários que a possibilidade de manter contato com pessoas distantes espacialmente ou com amigos antigos dos quais se perdeu o contato estaria entre as mais atraentes. Assim, recursos disponíveis nesta plataforma, tais como “cutucar” parecem reforçar a pretensão de intimidade e emotividade sobre os quais os laços seriam fortalecidos. Entretanto, além da postagem de conteúdos, acreditamos que as ações de “curtir”, ou seja, de manifestar apreço, admiração, ou identidade com respeito a um conteúdo, e de compartilhar esses mesmos conteúdos estejam entre as ações que mais fortalecem os laços dentro da rede.[9]
É necessário aqui afirmar que o processo de reconhecimento e obtenção de prestígio na rede são fundamentais para que as próprias redes aumentem o número de seus nós. O Facebook estimula essa atitude propondo recorrentemente novas amizades, indicando amigos de amigos que talvez o internauta gostasse de incorporar à sua rede de contatos, ou melhor, de amigos. O motivo aqui é simples: a frequência das visitas, a intensidade das interações e seu alcance são os ingredientes a partir dos quais o Facebook obtém retorno financeiro e se dispõe a manter sua plataforma gratuita. Não é segredo que, nesse site, as ligações entre os usuários são os valiosos produtos da sociabilidade. O que o indivíduo curte e compartilha serve de base para que os algoritmos que orientam o Facebook possam oferecer produtos, serviços, sob a forma de propaganda[10]. O que você gosta, aquilo com o que você se identifica, que gostaria de compartilhar, são bases mediante as quais os anunciantes do Facebook podem propor negócios, serviços. Ademais, uma base de dados com informações tão valiosas acerca de gostos, preferências, susceptibilidades afetivas, convicções políticas e morais tem valor financeiro incalculável.
Não é de admirar que um tom afetivo, por vezes mesmo acalorado, circule e se propague, em certas ocasiões de modo furioso, nesta rede social. As opiniões, certezas associadas a esses afetos passam a ser um elemento fundamental na consolidação de laços ou em seu rompimento. Opiniões políticas intoleráveis podem ser objetos de avisos do tipo: “lamento informar, mas todas as pessoas que comungam com o valor x, a opinião y, que considero absurdas, serão excluídas, bloqueadas de minhas redes de contatos”. Esse tipo de anúncio, algo impessoal, reestabelece a diferença básica que existe entre amigo e contato. Além do ato de curtir ou compartilhar, as mensagens que são trocadas quando alguém se sente particularmente tocado por um conteúdo também são importantes no estabelecimento desta dinâmica. Os selfies, ou fotos de situações da vida cotidiana, postados recebem mensagens de incentivo ou expressão de afeto que variam de uma sonora risada em internetês (“hahahaha!” ou “kakakakaka|, carinhas sorridentes ou que distribuem beijos ou piscadelas, coraçõezinhos rubros) são um recurso bastante difundido, mas também comentários como “Linda!!!”, “Own!!”, “Adorei!”, “Que gato!” etc. etc. A própria plataforma oferece um recurso inestimável na manifestação de afetos: o lembrete do dia do aniversário de pessoas de sua rede de contatos, amigos. Há sempre ocasião para mensagens inspiradas, poéticas e respostas comovidas.
A intensidade dos afetos em rede é demonstrada sobretudo por ocasião da morte de celebridades, o que sempre envolve demonstrações emocionadas de admiradores, gente que se mostra “arrasada” diante do que consideram uma perda irreparável. “Choro desde ontem pela morte desse gênio que foi Rob Williams”, “tanta gente ruim continua vivo, por que Ariano Suassuna tinha de morrer?” A compartilha desses sentimentos é algo fundamental à manutenção, intensificação, estreitamento dos laços da rede. E, evidentemente, são passíveis de se tornar uma peça de negociação política e social. A prematura morte de Eduardo Campos constituiu-se em evento de delicada negociação de afetos no Facebook. Laços reforçaram-se, romperam-se ou se esgarçaram a partir da sensibilidade demonstrada por cada um em relação ao trágico evento: aqueles que se mostraram insensíveis à morte do candidato à presidência da República suscitaram a revolta daqueles para quem a oposição política não deveria ir tão longe. Estes, por seu turno, foram acusados pelos primeiros de postura política inconsistente, quando era o caso de serem seus adversários políticos, ou de acomodação. Rupturas de laços ocorreram, independente de afinidades políticas recentes, com base em uma impossibilidade de compartilha de um mesmo pathos.
Esse tipo de comoção que se encadeia como um rastilho pelas redes sociais do Facebook traz para o site importantes subsídios para conhecer seus usuários e a maneira como eles se ligam uns aos outros através das trocas emotivas. O contágio de emoções entre os usuários do serviço foi o tema de uma polêmica pesquisa recentemente publicada. A polêmica se deu a partir da falta de esclarecimento aos participantes da pesquisa quanto à participação deles no experimento, que consistiu basicamente na manipulação, durante uma semana, dos algorítimos que definem os conteúdos que aparecem no “feed” de notícias de cada um dos 700 mil usuários que integraram a pesquisa sem, no entanto, terem sido comunicados de que participariam. A manipulação do algoritmo se deu com base no teor positivo ou negativo das emoções associadas aos conteúdos publicados nos “feeds”, de modo que, durante a semana do experimento, metade deles recebeu apenas publicações que envolvem emoções “negativas” e a outra metade teve acesso exclusivamente ao que aparece vinculado a emoções “positivas”. Ao fim do experimento, constatou-se, entre os usuários pesquisados uma tendência à publicação e ao compartilhamento de conteúdos que vinculam emoções condizentes com aquelas às quais eles tiveram acesso. Segundo os autores, os resultados do experimento demonstram que “as emoções expressas pelos outros no Facebook influenciam nossas próprias emoções”. Eles consideram ter encontrado evidências de que essas influências emocionais processam por “contágio em larga escala via redes sociais." (Kramer et alii, 2014, p. 8789).
Considerando o forte potencial de mobilização social que se dá através dos contágios emocionais nessas redes sócio-técnicas, esperamos que esse texto se mostre contagiante e seja amplamente comentado, compartilhado e curtido. J

Nota: Todas as citações de frases encontradas nos sites de redes sociais não são literais, mas sim aproximações do que tem sido publicado nesses sites.

Referências bibliográficas
CASILLI, Antonio A. Les liasons numériques: vers une nouvelle sociabilité? Paris: Éditions Du Seuil, 2010.
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[1] Professor associado da UFPE.
[2] Doutora em Sociologia pela UFMG, professora do IEC-Puc Minas.
[6] Estas informnações estão disponíveis em http://tecnologia.uol.com.br/noticias/afp/2014/02/03/facebook-em-numeros.htm. Acesso em 27/08/2014.
[7] Sugestão falaciosa, como o podem comprovar alguns escândalos de proporções nacionais e que teriam como base conteúdos destinados a amigos da rede, ou seja, o caráter público da rede é algo que é cotidianamente negligenciado.
[8] Sobre as noções de força e de fraqueza dos laços em redes socias, ver o já clássico texto de Granovetter (1973).
[9] Aqui é necessário que se diga que não pretendemos reduzir a dinâmica social no âmbito do Facebook ao que a sua arquitetura estimula – não se trata de um argumento behaviorista. Trata-se de entender quais são os pressupostos técnicos dessa arquitetura, considerando que algo como um “comportamento” neste espaço não nos interessa pelo simples motivo que não podemos abstrair as qualidades reflexivas, humanas que, evidentemente, impedem que “estimulo” corresponda a “comportamento”. Por isso mesmo, o que aqui está envolvido são ações de reconhecimento do outro e de si mesmo naquilo que é expresso ao outro, ações de atribuição e de busca de prestígio pelo que se julga serem boas ideias, emoções virtuosas. Este mútuo reconhecimento, fundado na emoção, como tivemos oportunidade de propor acima, pode ser entendido como uma moeda de troca.
[10] http://youpix.virgula.uol.com.br/redes-sociais-2/nao-curtir-coisas-facebook-pode-ser-melhor-coisa-que-voce-vai-fazer-na-vida/