domingo, 7 de setembro de 2008

Sem Pênis e Sem Inveja



Desde ontem estou ocupada com uma tese de doutorado sobre poder e mulheres. Lá, a autora revela uma série de estereótipos, tanto do senso comum, como da ciência, sobre uma suposta passividade feminina, inclusive na esfera doméstica. Existe uma produção bibliográfica bastante grande sobre os pressupostos que informam as concepções sobre identidade feminina. Apesar disso, acho que poucos textos conseguem expor a existência desses pressupostos de forma tão leve e despretensiosa quanto a "brincadeira" de Gloria Steinem em seu Mémórias da Transgressão: Momentos da História da Mulher no Século XX (Rio: Rosa dos Tempos, 1997). Trata-se do equivalente literário da ironia de Warhol na capa desenhada para o Velvet Underground: "descasque devagar e veja". Um adendo: se estiver na TPM, melhor ainda.

Cynthia

Se os Homens Menstruassem

por Gloria Steinem

Morar na índia me fez compreender que a minoria branca do mundo passou séculos nos enganando para que acreditássemos que a pele branca faz uma pessoa superior a outra. Mas na verdade a pele branca só é mais suscetível aos raios ultravioleta e propensa a rugas.

Ler Freud me deixou igualmente cética quanto à inveja do pênis. O poder de dar à luz faz a "inveja do útero" mais lógica e um órgão tão externo e desprotegido como o pênis deixa os homens extremamente vulneráveis.

Mas ao ouvir recentemente uma mulher descrever a chegada inesperada de sua menstruação (uma mancha vermelha se espalhara em seu vestido enquanto ela discutia, inflamada, num palco) eu ainda ranjo os dentes de constrangimento. Isto é, até ela explicar que quando foi informada aos sussurros deste acontecimento óbvio, ela dissera a uma platéia 100% masculina: "Vocês deveriam estar orgulhosos de ter uma mulher menstruada em seu palco. É provavelmente a primeira coisa real que acontece com vocês em muitos anos!"

Risos. Alívio. Ela transformara o negativo em positivo. E de alguma forma sua história se misturou à índia e a Freud para me fazer compreender finalmente o poder do pensamento positivo. Tudo o que for característico de um grupo "superior" será sempre usado como justificativa para sua superioridade e tudo o que for característico de um grupo "inferior" será usado para justificar suas provações. Homens negros eram recrutados para empregos mal pagos por serem, segundo diziam, mais fortes do que os brancos, enquanto as mulheres eram relegadas a empregos mal pagos por serem mais "fracas". Como disse o garotinho quando lhe perguntaram se ele gostaria de ser advogado quando crescesse, como a mãe, "Que nada, isso é trabalho de mulher." A lógica nada tem a ver com a opressão.

Então, o que aconteceria se, de repente, como num passe de mágica, os homens menstruassem e as mulheres não?

Claramente, a menstruação se tornaria motivo de inveja, de gabações, um evento tipicamente masculino:

Os homens se gabariam da duração e do volume.

Os rapazes se refeririam a ela como o invejadíssimo marco do início da masculinidade.

Presentes, cerimônias religiosas, jantares familiares e festinhas de rapazes marcariam o dia. Para evitar uma perda mensal de produtividade entre os poderosos, o Congresso fundaria o Instituto Nacional da Dismenorréia.

Os médicos pesquisariam muito pouco a respeito dos males do coração, contra os quais os homens estariam, hormonalmente, protegidos e muito a respeito das cólicas menstruais.

Absorventes íntimos seriam subsidiados pelo governo federal e teriam sua distribuição gratuita. E, é claro, muitos homens pagariam mais caro pelo prestígio de marcas como Tampões Paul Newman, Absorventes Mohammad Ali, John Wayne Absorventes Super e Miniabsorventes e Suportes Atléticos Joe Namath — "Para aqueles dias de fluxo leve".

As estatísticas mostrariam que o desempenho masculino nos esportes melhora durante a menstruação, período no qual conquistam um maior número de medalhas olímpicas.

Generais, direitistas, políticos e fundamentalistas religiosos citariam a menstruação ("men-struação", de homem em inglês) como prova de que só mesmo os homens poderiam servir a Deus e à nação nos campos de batalha ("Você precisa dar seu sangue para tirar sangue"), ocupariam os mais altos cargos ("Como é que as mulheres podem ser ferozes o bastante sem um ciclo mensal regido pelo planeta Marte?"), ser padres, pastores, o Próprio Deus ("Ele nos deu este sangue pelos nossos pecados"), ou rabinos ("Como não possuem uma purgação mensal para as suas impurezas, as mulheres não são limpas").

Liberais do sexo masculino insistiriam em que as mulheres são seres iguais, apenas diferentes. Diriam também que qualquer mulher poderia se juntar à sua luta, contanto que reconhecesse a supremacia dos direitos menstruais ("O resto nãc passa de uma questão") ou então teria de ferir-se seriamente uma vez por mês ("Você precisa dar seu sangue pela revolução").

O povo da malandragem inventaria novas gírias ("Aquele ali é de usar três absorventes de cada vez") e se cumprimentariam, com toda a malandragem, pelas esquinas dizendo coisas tais como:

— Cara, tu tá bonito pacas!
— É cara, tô de chico!

Programas de televisão discutiriam abertamente o assunto. (No seriado Happy Days: Richie e Potsie tentam convencer Fonzie de que ele ainda é "The Fonz", embora tenha pulado duas menstruações seguidas. Hill Street Blues: o distrito policial inteiro entra no mesmo ciclo.) Assim como os jornais, (TERROR DO VERÃO: TUBARÕES AMEAÇAM HOMENS MENSTRUADOS. JUIZ CITA MENSTRUAÇÃO EM PERDÃO A ESTUPRADOR.). E os filmes fariam o mesmo (Newman e Redford em Irmãos de Sangue).

Os homens convenceriam as mulheres de que o sexo é mais prazeroso "naqueles dias". Diriam que as lésbicas têm medo de sangue e, portanto, da própria vida, embora elas precisassem mesmo era de um bom homem menstruado.

As faculdades de medicina limitariam o ingresso de mulheres ("elas podem desmaiar ao verem sangue").

É claro que os intelectuais criariam os argumentos mais morais e mais lógicos. Sem aquele dom biológico para medir os ciclos da lua e dos planetas, como pode uma mulher dominar qualquer disciplina que exigisse uma maior noção de tempo, de espaço e da matemática, ou mesmo a habilidade de medir o que quer que fosse? Na filosofia e na religião, como pode uma mulher compensar o fato de estar desconectada do ritmo do universo? Ou mesmo, como pode compensar a falta de uma morte simbólica e da ressurreição todo
mês?

A menopausa seria celebrada como um acontecimento positivo, o símbolo de que os homens já haviam acumulado uma quantidade suficiente de sabedoria cíclica para não precisar mais da menstruação.

Os liberais do sexo masculino de todas as áreas seriam gentis com as mulheres. O fato "desses seres" não possuírem o dom de medir a vida, os liberais explicariam, já é em si castigo bastante.

E como será que as mulheres seriam treinadas para reagir? Podemos imaginar uma mulher da direita concordando com todos os argumentos com um masoquismo valente e sorridente. ('A Emenda de Igualdade de Direitos forçaria as donas de casa a se ferirem todos os meses": Phyllis Schlafy. "O sangue de seu marido é tão sagrado quanto o de Jesus e, portanto, sexy também!": Marabel Morgan.) Reformistas e Abelhas Rainhas ajustariam suas vidas em torno dos homens que as rodeariam.

As feministas explicariam incansavelmente que os homens também precisam ser libertados da falsa impressão da agressividade marciana, assim como as mulheres teriam de escapar às amarras da "inveja menstrual".

As feministas radicais diriam ainda que a opressão das que não menstruam é o padrão para todas as outras opressões. ("Os vampiros foram os primeiros a lutar pela nossa liberdade!")

As feministas culturais exaltariam as imagens femininas, sem sangue, na arte e na literatura.

As feministas socialistas insistiriam em que, uma vez que o capitalismo e o imperialismo fossem derrubados, as mulheres também menstruariam. ("Se as mulheres não menstruam hoje, na Rússia", explicariam, "é apenas porque o verdadeiro socialismo não pode existir rodeado pelo capitalismo.")

Em suma, nós descobriríamos, como já deveríamos ter adivinhado, que a lógica está nos olhos do lógico. (Por exemplo, aqui está uma idéia para os teóricos e lógicos: se é verdade que as mulheres se tornam menos racionais e mais emocionais no início do ciclo menstrual, quando o nível de hormônios femininos está mais baixo do que nunca, então por que não seria lógico afirmar que em tais dias as mulheres comportam-se mais como os homens se portam o mês inteiro? Eu deixo outros improvisos a seu cargo.

A verdade é que, se os homens menstruassem, as justificativas do poder simplesmente se estenderiam, sem parar.

Se permitíssemos.

10 comentários:

* Geninha Paiva * disse...

Ha ha ha!
"Os homens se gabariam da duração e do volume."
Ha ha ha!
Putz, eu tô imaginando um monte de 'machos' num bar, tomando suas cervejas e falando dos seus fluxos. Esse post foi uma puta de uma coincidência, Cys. Anteontem eu discutia com os meninos sobre a inveja do pênis. Como era uma discussão que não ia ter fim, parei e só disse uma coisa: que eu adoraria vê-los sangrando todo mês só para ver como lidariam com isso. Algumas imagens hilárias vieram à minha cabeça e não sei se ri tanto com esse texto porque ele é engraçado mesmo ou porque foi minha imaginação ganhando forma.
Putz! Muito bom. Mas eu deveria ter esperado por minha TPM para lê-lo.
Beijos, Cys!

cynthia disse...

Pois é, Geninha, esse negócio de inveja do pênis é um dos maiores mitos do século XX. Embora eu às vezes desconfie que algumas pessoas têm inveja do cazzo. Será que uma terapia daria jeito?

beijos

* Geninha Paiva * disse...

Bem, dependendo da alma invejosa, pode ser que a terapia funcione. Se não funcionar, mande a figura pra mim que eu dou jeito. Esse é o tipo de gente que eu preciso pra iniciar meus experimentos em psicologia!

Besos.

Artur disse...

Hehe... essa foi ótima!

Mas inveja do pênis e inveja do útero têm algo em comum: não existem.

Já que a senhora nos colocou menstruando, coloco vocês com um pênis. Gabam-se da menstruação, mas não sabem o fardo de ter um pau. Imagino o constrangimento com o tamanho. Quanto menor, melhor; afinal, são horrorosos. Talvez, um lacinho rosa desse um jeito. Repressão pesada para não crescerem sem controle. Talvez, vocês tivessem uma maior pontaria. Isso seria legal.

Gabam-se da cólica, mas... e a dor de ovo? Dor estranha, ligada ao desejo, uma espécie de somatização da culpa. Não, não sabem o que é isso.

Enquanto nós honraríamos a menstruação, com vocês, ter um pau seria uma vergonha.

Mulheres fálicas...

E o mundo continuaria, como sempre, velho e enfadado.

cynthia disse...

Não tenho a menor dúvida disso, arture. Agora, uma coisa é certa: de gustibus non est disputandum...

Lena disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lena disse...

O problema de comentar um post assim é que tudo fica redundante.

"Os vampiros foram os primeiros a lutar pela nossa liberdade!"


Eu ia até resmungar da falta de tradução de Cynthia, mas meu amigo google já me ajudou: "gosto é gosto". Tem até quem goste de latim! Rsrsrs

Le Cazzo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cynthia disse...

Lena,

É que temos um acordo tácito entre nós: manter uma linguagem o mais sociológica possível. O latim era para compensar o entusiasmo de Artur no comentário acima. Pensei até em pedir a ele que escrevesse os próximos dois posts em latim.

O problema é que ele é adepto de uma certa visão fenomenológica, segundo a qual os conceitos sociológicos devem ser tirados diretamente da linguagem cotidiana. Interpretações de segunda ordem. Considerando que ele entrou numa espécie de crise metodológica anarco-niilista depois que leu Durkheim, acho melhor não forçar a barra e deixá-lo seguir adiante em sua fé na tradição fenomenológica.

Além do mais, o google tá aí pra isso, né?

Anônimo disse...

Será coincidência?

http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/