domingo, 27 de março de 2011

Fabiana Quem???

Estou aqui roubando tempo de um artigo que preciso terminar porque estou com a séria impressão de que meu cérebro travou. Sabe essas travadas que não só fazem com que a gente fique horas olhando para uma página em branco que se recusa a cooperar, mas que impedem a compreensão das coisas mais simples do cotidiano? Pois resolvi tomar uma atitude e, já que não posso pedir ajuda para terminar meu artigo, peço ajuda para entender o que diabos se passou na cabeça do pessoal da Reitoria da UFPE quando teve a ideia abaixo:



Sinceramente, não bastassem as singelíssimas "homenagens" que ajudam a reproduzir os estereótipos de feminilidade mais infames, agora, dentro da academia, financiado com dinheiro público, somos homenageadas com o que tem tudo para ser um monólogo intelectual de altíssimo nível por alguém cujas credenciais são definidas pela própria reitoria como "atriz da globo". Nada contra Fabiana Carla, que deve ser super gente-boa. Mas, convenhamos, não se trata de nenhuma Simone de Beauvoir para merecer um lugar exclusivo num ambiente que deveria se orientar por debates intelectuais que promovam a articulação entre Universidade e sociedade. Cadê as representantes da Universidade? Cadê o debate? Será que a Progepe, incidentemente, gerida por uma mulher, não consegue pensar em uma programação que traga ao menos algumas das questões relevantes que vêm sendo debatidas pelas intelectuais da UFPE? 

Juro que tenho o maior orgulho da Universidade onde trabalho, mas essa foi de dar vergonha alheia. 

Cynthia




18 comentários:

Fernando disse...

Cynthia: Não sei quem é Fabiana Carla. Portanto, nada posso dizer a respeito dela. Mas identifico no evento que você justamente critica mais uma evidência da subordinação da universidade à cultura televisiva que no Brasil de ordinário não passa de entretenimento para idiotizar as massas. Não consigo imaginar uma cultura autenticamente democrática que não promova a interdependência dentro do sistema cultural baseada na autonomia dos agentes e instituições. No Brasil passamos a viver numa atmosfera cultural dominada por padrões de cultura de massa (leia-se antes de tudo mercantilização dos bens culturais)que concorre antes de tudo para reforçar toda a sorte de desingualdade e conformismo apreensíveis no nosso sistema cultural.
Fernando.

Tâmara disse...

Vixe Maria!!!!
Ajudar a compreender acho que não consigo não. Como você indica, o problema não é a presença de atrizes (da Globo, Record ou seja la' o que for) mas a redução do tema à palestra de uma so' pessoa, cujo ti'tulo, diga-se de passagem, lembra mais produto de auto-ajuda do que debate reflexivo. Nesse sentido, fica a desconfiança de que uma Pro-Reitoria nomeada Gestão das Pessoas e Qualidade de Vida tem afinidades eletivas com o mercado da auto-ajuda. Parece-me assustador!

Alia's, porque o evento foi organizado para data tão posterior ao dia da mulher? Sera' que foi para compatibiliza'-lo com o calenda'rio de lançamento da obra da moça? E a banda vai figurar como fundo musical do coquetal de lançamento? E a Globo vai passar?

Eu, hein, tô besta! Não admira que isso perturbe sua concentração para o artigo...

Cynthia disse...

Nando, até onde sei, Fabiana Carla é conhecida por sua atuação em um programa "humorístico" global de altíssimo nível: Zorra Total. Praticamente o Monty Python brasileiro, com sua ironia cortante e sofisticada...

De matar!!!!

Cynthia disse...

Tâmara, não é apenas o fato de ser essa atriz global, ou apenas ela, mas também é isso! O que essa criatura fez de relevante em relação às mulheres, além de trabalhar em um programa de televisão cuja representação feminina não poderia ser pior? Impressionante...

Anônimo disse...

Bom dia Cynthia,
Sempre leio o blog, mas nunca dei "pitaco" por aqui, achei sua preocupação muito válida , não consigo ver o proveito dessa apresentação com o dia da mulher.. Sinceramente...
Bem que zorra total queria ser ao menos 1% do monty python...rs

Thais

Cynthia disse...

Thais, não me diga que você não se sentiu homenageada!!! Ô mulherada difícil!

Seja bem-vinda ao Cazzo!

raquel.lindoso disse...

Talvez o fato se torne ainda mais complicado se comentarmos sobre a peça teatral protagonizada pela atriz (Global) Fabiana Karla. Peça cujo título: Sim, Nós Podemos, é no mínimo, discriminatória. A peça faz referência às situações mais constrangedoras, vexatórias e agressivas vividas por pessoas, especialmente as mulheres que estão supostamente fora dos padrões de beleza. Trata-se de um “período tenebroso” do humor brasileiro, baseado na discriminação, na violência e, sobretudo no sexismo. Outro dia ouvi estarrecida de um dos “novos humoristas”, nesse caso um integrante do programa CQC, afirmando que é importantíssimo fazer piadas sobre os paraplégicos, os gordos, os gays, os negros, as mulheres...pois, segundo o tal humorista, essas pessoas se sentiriam representadas pelo humor brasileiro. De fato, um verdadeiro absurdo!

Cynthia disse...

Vai um valiunzinho aí, Raquel?

Anônimo disse...

Parafraseando uma personagem da Fabiana Karla: Isso não pooode.

verí disse...

ai, ai... é assaz cansativa essa história de cientista social ser ignorado em diversos âmbitos das discussões públicas mais notórias pq jornalistas, pedagogos e psicólogos, etc, "entendem" mais de cultura, política e relações sociais do que os próprios cientistas sociais. que aliás, fizeram uma faculdade do que mesmo????

eu até convivia bem com algumas ignoradas dessas. mas ser ignorada no lugar que deveria me endossar, é realmente, no mínimo, embaraçoso.

Suely Oliveira disse...

É mesmo uma pena e uma perda de oportunidade de se fazer uma discussão sobre o Dia Internacional da Mulher e tantos temas dai decorrentes. Já faz algum tempo que recebo "parabéns" no dia 8 de março, sempre agradecendo e reafirmando que este é mais um dia de luta. Concordo com Raquel. É realmente embaraçoso. Um abraço.

Cynthia disse...

Oi, Suely,

Segundo um amigo, isso deve ser parte de uma peça motivacional para funcionários baseada em um modelo tecnocientífico de gestão de pessoal. Ao final, todo mundo deve se abraçar e dizer "eu te amo!". De quebra, alunas e funcionárias ainda saem motivadas a virar intelectuais orgânicas como grande parte das atrizes da globo. No fundo, no fundo, é um projeto neo-Gramsciano.

Tâmara disse...

Cynthia!
Assim também é demais também. Pobre Gramsci, como se não bastasse tudo o que facistas (e comunistas também) fizeram com ele!!!
Mas o pior é que você e seu amigo podem ter alguma razão. Se, nestes tempos interessantes, não é raro ouvir-se capitalista usando Marx para entender melhor o fluxo do capital, por que não pensar que a gestão tecnocienti'fica de pessoal inspira-se no intelectual orgânico de Gramsci? Você so' esqueceu que a Pro-Reitoria ocupa-se também das professoras! Valei-nos Jesus, Maria e José!

Cynthia disse...

Hahaha! Vai ver os etnometodólogos têm razão quando dizem que temos a tendência intrínsica a tentar conferir sentido às coisas; mesmo às que não têm sentido. Mas reconheço que peguei pesado com o pobre do Gramsci, que deve se retorcer no túmulo com essas "técnicas de gestão"...

Anônimo disse...

Cynthia, quero protestar contra o teor altamente preconceituoso dos comentários anteriores e do próprio post em relação à palestra da ilustre atriz da Globo. Com sua rica vivência e experiência de vida, a despeito de não ter recebido um canudo distribuído a peso de ouro pelos centros de controle de produção cultural dos capitalistas opressores, Fabi é uma intelectual de peso que fará rolar de rir feministas, bolchevistas, chauvinistas e simpatizantes. Juntamente com a Banda Maria Fulô e ao som de Rebolation, todo mundo vai poder se articular como nunca antes neste país. Sim, vocês poderão. E deixem de frescura e levem a Simone para o frevobodó, pô!

Cynthia disse...

Pô, anônimo, por que você não disse isso antes? Eu poderia, inclusive, ter substituído minha aula da graduação por essa importante atividade acadêmica. Agora já passou, né?

Antônio Lino Jr disse...

Cynthia,

Começo agradecendo a crítica posta, pois, acabo de ampliar o universo de informes, conhecendo a origem da cidadã. Confesso, nunca vi mais gorda. Agora, penso que a proveitosa gestora, com muito bom gosto, inverteu os propósitos e colocou o poste pra mijar no cachorro, afinal, quando não se consegue explicar o que se vem fazendo, muita gente se auto-proclama Pós-moderno,Pós-industrial ou sei lá o que.

Renan Cabral disse...

Tosco. E ainda mais que é ela sozinha. Até poderia ser interessante um pessoa conhecida do grande público falando num envento como esses. Pra apresentar o debate, a crítica novas pessoas, a mais mulheres... Mas também seria interessante, sobretudo dentro da universidade, que fosse promovido um debate com estudiosos do assunto e da própria Universidade. E que a "figura pública" tivesse alguma história com o feminismo.