quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A concepção de individualidade em Georg Simmel

"Crepúsculo", obra de George Grosz, 1922

Por Ana Rodrigues - Doutoranda no PPGS/UFPE

É possível afirmar que o surgimento da sociologia é concomitante ao nascimento do indivíduo da modernidade, que se caracteriza por uma transformação fundamental na relação entre indivíduo e sociedade e por um maior espaço conferido àquele nas relações sociais. Assim, muito embora a consolidação da sociologia como disciplina autônoma tenha sido marcada por um esforço em desvendar as determinações sociais na explicação da vida social, sempre houve um interesse, por parte de seus melhores teóricos, pela análise das dimensões individuais (Martucelli, 2007b).
A análise do indivíduo nunca esteve completamente ausente da sociologia clássica. Mesmo Durkheim, que é considerado um autor holista, reconheceu que as sociedades modernas outorgam um espaço mais amplo ao indivíduo, chegando a afirmar que este havia se convertido na religião da modernidade. Em 1898, Durkheim publicou um texto – “O individualismo e os intelectuais” – em que em que apresenta duas concepções de individualismo: uma negativa, que rende homenagem ao indivíduo particular (egoísmo), e uma positiva, que considera cada indivíduo como representante da humanidade e da razão e rende homenagem à pessoa humana. O autor defende essa segunda concepção, denominada como “individualismo abstrato” por Martucelli e Singly (2012, p. 16).
Mas é sobretudo Simmel que destaca a crescente liberação do indivíduo das antigas dependências históricas nas sociedades modernas, buscando desenvolver uma teoria sociológica do individualismo de maneira menos maniqueísta que seu contemporâneo, Durkheim. Em O indivíduo e a liberdade, Simmel identifica dois tipos de individualismo desenvolvidos na cultura europeia a partir do século XVIII, fundamentados em duas concepções distintas de liberdade. De acordo com Martucelli e Singly (2012, p. 20), o interesse da obra de Simmel é que, diferentemente de Durkheim, ele não estabelece nenhuma hierarquia entre esses dois individualismos e desloca os termos do problema, tentando compreender de que maneira essas duas concepções opostas se articulam.
A primeira noção de individualismo desenvolve-se a partir do século XVIII e tem na liberdade a sua motivação mais íntima. Segundo Simmel (2005, p. 108), a liberdade se torna a bandeira universal por meio da qual o indivíduo protege seus mais variados desconfortos e tenta se autoafirmar perante a sociedade. O ideal da liberdade individual defende a liberação do indivíduo das instituições religiosas, políticas e econômicas que constrangem os potenciais da personalidade de maneira não-natural. É necessário, portanto, libertá-lo de todas essas influências e das desigualdades artificialmente produzidas para que o indivíduo possa desenvolver todos os valores internos e externos de sua personalidade.
Essa concepção de individualismo tinha como fundamento a igualdade universal, seja esta fundada na natureza, seja na razão ou na humanidade. O centro do interesse dessa época é o homem abstrato, que constitui a essência de qualquer pessoa particular, ao contrário do homem historicamente situado, singularizado e diferenciado pelos seus pertencimentos sociais. Com isso, Simmel (2005, p. 109) aponta um contexto de pertencimento prévio e mútuo entre direito, liberdade e igualdade, uma vez que o homem genérico, que representa o núcleo essencial do homem individualizado, aparece em cada indivíduo particular sempre que este seja libertado das forças sociais e desvios históricos que violentam sua essência mais profunda. Para Martucelli e Singly (2012, p. 19), a concepção de individualismo como independência individual, apresentada por Simmel, corresponde ao “individualismo abstrato” de Durkheim.
Simmel (2005, p. 111) também destaca que “esse conceito de individualidade implica, em sentido prático, o laissez faire, laissez aller”, uma vez que se em todos os homens é possível encontrar o homem abstrato como sua essência e se pressupõe o seu desenvolvimento perfeito, então as relações humanas não necessitariam de intervenções reguladoras especiais. No entanto, o autor afirma que não se conseguiu eliminar totalmente as sombras da liberdade nos indivíduos, uma vez que a igualdade manifestava-se de maneira muito imperfeita na realidade.  Ademais, a própria suposição de que após a conquista da liberdade, seguiriam-se novas iniquidades e opressões impulsionou o acréscimo da exigência da fraternidade ao de liberdade e de igualdade, pois “apenas a renúncia eticamente voluntária que esse conceito expressa pode evitar que a liberdade fosse acompanhada do oposto da igualdade” (Simmel, 2005, p. 111).
De acordo com Simmel (2005, p.111), se a consciência geral daquela época sobre a essência da individualidade escondeu essa contradição entre igualdade e liberdade, ela aparece novamente no século XIX. Nesse momento, surge uma segunda concepção de individualismo que se contrapõe à síntese do século XVIII e sua fundamentação da igualdade pela liberdade e vice-versa. Nessa concepção, há uma ênfase na desigualdade e a liberdade permanece como o denominador comum também com o correlato oposto. Contudo, é importante destacar que se, por um lado, o autor aponta a contraposição entre as duas concepções de individualismo, por outro, ele busca apreender sua articulação, mostrando que o individualismo do século XIX pressupõe a concepção do século XVIII, fundamentada na igualdade. Nas suas palavras, “tão logo o eu, no sentimento da igualdade e universalidade, sentiu-se forte o bastante, passou a procurar a desigualdade, mas apenas aquela que surgia como uma lei interna” (Simmel, 2005, p. 112).
Simmel (2005, p. 112) afirma ainda que após a libertação dos indivíduos de suas antigas dependências históricas, o movimento segue adiante e estes indivíduos tornados autônomos buscam agora distinguir-se entre si. Nesta segunda concepção, o importante não é o indivíduo como tal, mas sim o que este tem de único e distinto. Desse modo, intensifica-se a procura moderna pela diferenciação, a busca do indivíduo por si mesmo, por um ponto de solidez e ausência de dúvidas, que se torna tanto mais necessária quanto maior a complexidade da vida. E essa busca não pode ser encontrada em instâncias externas à própria alma. Para o autor, as relações com os outros são apenas estações no caminho em busca de si mesmo. Tais relações são importantes seja porque o indivíduo se sente igual aos outros e sozinho com suas próprias forças, precisando do apoio desse tipo de consciência, seja porque os outros são importantes na comparação e visão da própria singularidade e individualidade do próprio mundo.
Essa concepção de individualismo encontrou seu filósofo em Schleiermacher, para quem não apenas a igualdade, mas a diferenciação é uma obrigação ética. Simmel (2005, p. 113) denomina esse individualismo de qualitativo em oposição ao individualismo numérico do século XVIII e afirma que o romantismo alemão foi o primeiro canal por meio do qual essa concepção permeou a consciência do século XIX.
Segundo Simmel (2005, p. 114), a primeira concepção de individualismo é o produto do liberalismo racional da Inglaterra e da França, enquanto a segunda é uma criação do espírito germânico. Embora em constante tensão, o autor afirma que essas duas grandes forças da cultura moderna procuram um equilíbrio nas mais diversas esferas. No entanto, até o século XIX, os dois tipos de individualismo só foram unidos na constituição de princípios econômicos. Nesta esfera, a concepção da liberdade e da igualdade fundamenta a livre concorrência, enquanto a personalidade diferenciada é o fundamento da divisão do trabalho. Simmel (2005, p. 115) adverte que as consequências “da concorrência sem peias e da especialização da divisão do trabalho para a cultura interna não se deixam apresentar exatamente como o maior benefício dessa cultura”.
A análise de Simmel do individualismo não se restringe ao esboço da emergência de diferentes ideias filosóficas e suas respectivas raízes culturais, dado que ele também busca apreender as mudanças sociais que possibilitaram seu surgimento. Na Filosofia do Dinheiro, Simmel mostra de que maneira o desenvolvimento de uma economia monetária possibilitou uma margem crescente de liberdade individual e, consequentemente, um maior domínio da consciência pelo indivíduo.
De acordo com Simmel (1977, p. 348), o desenvolvimento de uma economia monetária conduziu a uma maior objetividade das relações sociais. Na medida em que o dinheiro se torna o mecanismo universal de troca, ele permite determinar a igualdade exata dos valores de troca, devido às suas propriedades de divisibilidade e aproveitabilidade ilimitada. Como ele pode ser somado e dividido de maneira ilimitada, ele permite a adoção de um critério quantitativo na apreensão dos produtos, reduzindo toda qualidade e individualidade à questão: “quanto?”. Portanto, nos mais diversos fenômenos, dentro da economia monetária, os objetos tornam-se cada vez mais indiferentes em sua singularidade e individualidade, carentes de essência e intercambiáveis (Simmel, 1977, p. 361).
O princípio da objetividade adotado pela economia monetária também conduziu a uma transformação da forma real que tomam as relações de dependência, possibilitando o desenvolvimento da liberdade individual. Simmel (1977, p. 338) explica que, enquanto nas formações sociais anteriores, a vinculação e o direito do senhor abrangiam não apenas o produto do trabalho como também a personalidade do trabalhador, a economia do dinheiro conduz a uma separação completa da personalidade como tal frente às relações de dever. A adoção do princípio da objetividade frente ao da personalidade conduz a uma transição em que o limite do tempo de trabalho começa a ser determinado e, em seguida, não se exige mais um tempo e uma força de trabalho determinados, mas um produto determinado do trabalho. Desse modo, não há uma subordinação a outra personalidade subjetiva. O dinheiro despersonaliza as relações.
Do mesmo modo, no sistema de trabalho assalariado, o trabalhador adquire certa independência frente ao empresário isolado, devido à frequência com que a economia monetária muda o empresário e pela possibilidade múltipla de eleger ou substituir a este que a forma do salário garante ao trabalhador, concedendo-lhe uma liberdade completamente nova, dentro de suas ataduras. Contudo, Simmel (1977, p. 359) destaca que a liberdade do trabalhador é também a liberdade do empresário, que não existia nas formas de trabalho mais vinculadas. Em sentido social, a liberdade, como a ausência de liberdade, constitui uma relação entre seres humanos.
Simmel (1977, p. 352) adverte que a economia monetária não possibilitou apenas uma liberação do indivíduo, mas também uma configuração especial das relações de dependência mútua que, ao mesmo tempo, deixa margem para um máximo de liberdade. Isso porque essa economia estabelece uma série de vinculações, inexistentes nas formações econômicas anteriores. A dependência de outras pessoas alcançou esferas completamente novas, devido à crescente divisão moderna do trabalho e a especialização das faculdades humanas que a acompanha, além do aparecimento de técnicas mais complexas e de um número maior de intervenções para atender mesmo às necessidades mais elementares. Mas o outro lado do processo de divisão do trabalho é justamente que, à medida que o sujeito se torna dependente de um número crescente de prestação de serviços, ele se torna independente das personalidades que se encontram por trás destes, porque só permite a ação de uma parte das mesmas, “excluindo por completo as outras cuja conjunção é precisamente o que dá lugar à personalidade” (Simmel, 1977, p. 354).
Desse modo, a economia monetária facilita a separação do elemento pessoal das relações entre os seres humanos através de sua essência objetiva. Se o homem se torna, por um lado, mais dependente de uma grande quantidade de provedores, ele é muito mais independente da pessoa isolada e concreta que lhe presta um serviço e que pode ser substituída com facilidade e frequência. Em consequência disso, o indivíduo recebe como recompensa “a indiferença em relação com as pessoas e a liberdade de intercâmbio com elas” (Simmel, 1977, p. 356).
Para Simmel (1977, p. 357), esta é a situação mais favorável para produzir a independência interior e o ser-para-si individual. É só a partir do exercício desta liberdade, que é possível desenvolver a individualidade, de ampliar o núcleo do eu por meio da vontade e sentimento individuais. O autor destaca que tal individualidade não pode ser percebida como uma ausência de relações, mas, precisamente, como uma relação muito determinada com os demais. Uma relação que pressupõe, como toda relação, elementos de aproximação e elementos de distanciamento. Segundo ele, a configuração mais favorável de ambos os elementos para explicar a independência tanto em sua qualidade de fato objetivo como de consciência subjetiva parece se manifestar quando se dão relações extensas com outros homens, dos quais foram distanciados todos os elementos que são de natureza individual. Nas suas palavras,
“a causa e o efeito destas dependências objetivas, nas quais o sujeito como tal é livre, residem na trocabilidade das pessoas; na troca voluntária dos sujeitos ocasionada através da estrutura da relação se revela aquela indiferença do elemento subjetivo, que leva o sentimento da liberdade” (Simmel, 1977, p. 358).

A personalidade surge, assim, como a contraposição subjetiva das circunstâncias de dependências objetivas e de indiferença impostas pela economia do dinheiro que conduz a um largo processo de diferenciação social, do qual resulta a acentuação da importância do eu, por um lado, e da coisa, por outro. Simmel (1977, p. 361) afirma que o surgimento da personalidade é ao mesmo tempo o processo de surgimento da liberdade, uma vez que tudo o que chamamos de personalidade – a unidade de elementos psíquicos, sua concentração em um só ponto, a insubstituibilidade de sua essência – implica também a independência e exclusão de todo o exterior e o desenvolvimento de acordo com as leis da própria essência – a que se chama liberdade.
Segundo Simmel (1977, p. 362), em ambos os conceitos se manifesta um ponto último e profundo da essência do indivíduo que enfrenta a todo objetivo, exterior e sensorial, que se origina tanto fora como dentro da sua própria natureza. Tanto o conceito de liberdade quanto o de personalidade constituem uma “expressão do fato de que aqui surgiu a contrapartida do ser natural, contínuo e objetivamente determinado, contrapartida cuja originalidade não somente reside na aspiração a uma posição especial frente a ele, senão também na busca de uma conciliação com ele mesmo”.
Além da economia do dinheiro, o crescimento dos círculos sociais, que acompanha o seu desenvolvimento, é percebido por Simmel como uma importante transformação para o aumento da liberdade e da individualidade. O autor tenta compreender de que maneira a personalidade se acomoda nos ajustamentos às transformações sociais advindas com a vida na metrópole, lugar em que essa economia se desenvolve. Simmel (1973, p. 12) busca apreender as condições psicológicas criadas pela vida na metrópole, tendo em vista que a mente humana procede a partir de discriminações entre a impressão de um dado momento e o que o precedeu, e a metrópole extrai uma quantidade de consciência maior que a vida rural. O autor afirma que a base psicológica do tipo metropolitano de individualidade consiste na intensificação de estímulos nervosos, resultantes da alteração brusca e ininterrupta de estímulos interiores e exteriores.
Diante do ritmo de vida e da rápida convergência de imagens em mudança na metrópole, o indivíduo metropolitano desenvolve uma consciência elevada e uma predominância da inteligência. Segundo Simmel (1973, p. 13), a reação aos fenômenos metropolitanos é transferida a um órgão menos sensível e bastante afastado da zona mais profunda da personalidade, enquanto a intelectualidade assume a preservação da vida subjetiva contra o poder avassalador da vida metropolitana.
Ademais, as relações emocionais íntimas entre pessoas fundadas em sua individualidade, comuns nos pequenos círculos, dão lugar a relações racionais e anônimas, em que se trabalha com o homem como um número, um ser que é em si mesmo indiferente. Simmel (1973, p. 14) afirma que essa atitude “prosaicista” está tão inter-relacionada com a economia do dinheiro que não se sabe se foi a mentalidade intelectualística que primeiro criou essa economia, ou se esta última determinou a primeira.
O autor também destaca que o caráter objetivo da economia do dinheiro – com suas características de exatidão, calculabilidade, etc. – são introduzidos à força pela complexidade e extensão da existência metropolitana, de modo que ele não está apenas intimamente ligado a essa economia, mas também conduz a uma objetivação crescente de conteúdos existenciais. Desse modo, esse caráter permeia o conteúdo da vida e favorece a exclusão daqueles impulsos irracionais e instintivos, que tentam determinar o modo de vida de dentro, ao invés de receber a forma de vida geral de fora. Na Filosofia do Dinheiro, Simmel (1977, p. 347) destaca que é justamente essa capacidade de observação objetiva, de prescindir do eu, que separa os homens, no puramente psicológico, das ordens animais inferiores. E é isso o que impulsiona o processo histórico ao seu resultado possivelmente mais nobre e à formação de valores em que os interesses de uma parte não exclui o outro, senão abre caminho a ele.
Simmel (1973, p. 15) afirma que não há fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado à metrópole quanto a atitude blasé, que expressa a relação entre uma estrutura da mais alta impessoalidade e, em contraposição, uma subjetividade altamente pessoal. Em princípio, essa atitude resulta dos estímulos contrastantes que são continuamente impostos aos nervos. Mas o autor acrescenta que essa fonte fisiológica da atitude blasé é acrescida de outra que flui da economia do dinheiro e corresponde ao embotamento do poder de discriminar toda qualidade dos objetos, de modo que nenhum objeto merece preferência sobre outro. Para o autor, “esse estado de ânimo é o fiel reflexo subjetivo da economia do dinheiro completamente interiorizada” (Simmel, 1973, p. 16).
Simmel (1973, p. 17) explica que na atitude blasé, os nervos encontram na recusa a reagir aos incessantes estímulos a última possibilidade de acomodar-se ao conteúdo e à forma de vida metropolitana. Assim, a autopreservação da personalidade é alcançada ao preço da desvalorização de todo mundo objetivo; uma desvalorização que no final arrasta a personalidade da própria pessoa para uma sensação de igual inutilidade. Além disso, sua autopreservação em face da cidade exige dele um comportamento de natureza social negativa, como a reserva. Essa reserva assume a forma de um fenômeno mais geral da metrópole, conferindo ao indivíduo uma quantidade e qualidade de liberdade pessoal que não tem analogia sob outras condições.
Esse aumento da liberdade está relacionado ao crescimento dos círculos sociais. Segundo Simmel (1973, p. 19), os pequenos círculos permitem apenas relações restritas com os outros grupos e não podem permitir a liberdade individual e o desenvolvimento interior e exterior próprios, uma vez que guardam as realizações, a conduta de vida e a perspectiva do indivíduo. Mas à medida que o grupo cresce, a unidade interna do grupo se afrouxa, bem como a demarcação original contra os outros grupos, possibilitando relações e conexões mútuas. Assim, o indivíduo ganha liberdade de movimento, ao mesmo tempo em que adquire uma individualidade específica, decorrente da divisão do trabalho tornada necessária com o crescimento do grupo.
O caráter extensivo da metrópole para além de suas fronteiras físicas e a independência individual contribuem para que o aspecto quantitativo da vida seja transformado em traços qualitativos de caráter. Simmel (1973, p. 21) afirma que “o homem não termina com os limites do seu corpo ou a área que compreende sua atividade imediata. O âmbito da pessoa é antes constituído pela soma de efeitos que emana dela temporal e espacialmente”. Deste modo, a liberdade que acompanha este processo não deve ser entendida apenas no sentido negativo, como liberdade de mobilidade. O ponto essencial é que a particularidade e incomparabilidade que todo ser humano possui sejam expressas de alguma forma na elaboração de um modo de vida. A liberdade no sentido de o indivíduo estar seguindo as leis de sua própria natureza só se torna óbvio para ele e para os outros se as expressões dessa natureza diferirem das expressões de outras. A pessoa se volta para diferenças qualitativas, buscando atrair de alguma forma a atenção do círculo social, explorando sua sensibilidade e diferenças. Do mesmo modo, a crescente divisão do trabalho na cidade moderna compele o indivíduo a se especializar em uma função na qual não possa ser prontamente substituído por outros. Esse processo conduz a uma diferenciação crescente (Simmel, 1973, p. 22).
Portanto, a individualidade para Simmel decorre de condições externas, como o pertencimento a diversos círculos sociais separados entre si e, ao mesmo tempo, do trabalho interior, íntimo. Apesar da grande contribuição teórica de Simmel para pensar o crescente processo de individualização na modernidade, ele foi praticamente esquecido depois da Primeira Guerra Mundial e maioria dos sociólogos abandonou a ênfase dos clássicos na importância das formações psíquicas particulares dos indivíduos na explicação da vida social.
Contudo, Martucelli e Singly (2012, p. 23) destacam que a concepção de individualidade desenvolvida por Simmel se torna central quase um século depois para uma corrente sociológica denominada de “Sociologia do Indivíduo”, que defende a necessidade de uma nova abordagem teórica à escala individual, haja vista a intensificação do processo de individualização na sociedade moderna, a partir da segunda metade do século XX – o que muitos teóricos chamam de segunda modernidade. Esses teóricos afirmam que, diante desse processo, o indivíduo não pode ser mais definido apenas pelos vínculos herdados e pelas determinações sociais. Faz-se necessário prestar mais atenção no trabalho que o indivíduo realiza sobre si mesmo. Simmel torna-se um dos principais precursores dessa corrente pela sua ênfase, por um lado, na crescente divisão interna dos indivíduos e a independência entre as diversas partes de seu ser e, por outro lado, na existência de um conflito interior entre essas partes (Martucelli e Singly, 2012, p. 34).

Referências bibliográficas

MARTUCELLI, Danilo (2007a). Cambio de rumbo: la sociedade a escala del Individuo. Santiago: LOM Ediciones.
____________. (2007b) Lecciones de Sociología del Individuo. Santiago.
MARTUCELLI, Danilo & SINGLY, François de (2012). Las Sociologías del Individuo. Santiago: LOM Ediciones.
SIMMEL, Georg. (1977). Filosofia Del Dinero. Madrid: Instituto de Estudios Politicos.
_____________(2005). “O Indivíduo e a Liberdade”. In: J. Souza e B. Oelze (Orgs.) Simmel e a Modernidade. Brasilia: Ed. UnB.
____________ (1973). “A metrópole e a vida mental”. In: VELHO, Otávio Guilherme (Org.) O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
___________ (1950). “The Stranger”. In: WOLF, Kurt H. The sociology of Georg Simmel. New York, Knickerbocker Printing Corp.



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Emoção e sociabilidade em rede: uma pequena introdução sobre a sedução dos sentimentos no Facebook (trabalho em progresso)



Jonatas Ferreira[1]
Cristina Petersen Cypriano[2]
            
A capacidade de mobilização e de articulação social e política das redes de sociabilidade baseadas na Internet - tais como aquelas abrigadas pelo Facebook ou Twitter - tem despertado o interesse de diversos atores, analistas e cientistas sociais. Um exemplo disto é a atenção que este tipo de media vem despertando entre os políticos profissionais. Em 16 de outubro de 2013, o ex-presidente Lula conclamava os seus seguidores no Facebook a atuar neste novo espaço técnico da seguinte forma: “Vamos utilizar essa ferramenta fantástica que é a internet para falar do nosso projeto, mostrar o que já fizemos e, claro, ouvir críticas, sugestões e questionamentos”[3]. Comentando o livro de Manuel Castells Redes de Indignação e Esperança, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso analisava a importância da tecnologia na viabilização de protestos na Islândia, Espanha e Egito: “Por trás desses protestos está o cidadão comum informado e conectado pelas redes sociais e por toda sorte de modernas tecnologias de informação”.[4] Dada a relevância evidente deste meio sociotécnico, não admira que políticos profissionais passem a buscar o apoio de especialistas em comunicação e em redes sociais para compreender e intervir nesse novo espaço de sociabilidade. Recentemente, por exemplo, Dilma Rousseff convidou ao Palácio do Planalto Jeferson Monteiro, o criador da personagem paródica Dilma Bolada, de enorme popularidade nas redes sociais baseadas na Internet. Com 1,4 milhão de seguidores no Facebook e 26 mil no Twitter, a personagem de Monteiro pode se dar ao luxo de obter espaço na agenda da Presidente da República, precisamente no momento em que seu autor havia decidido descontinuar as postagens envolvendo sua criação.
O forte prestígio da personagem Dilma Bolada não pode, entretanto, ser avaliado apenas segundo os critérios da elevada audiência que ela obteve. Em um contexto, como é o das redes sociais on-line, onde todos os integrantes administram suas próprias páginas – pessoais ou institucionais – e se colocam como produtores de conteúdos, tanto quanto como consumidores e divulgadores, “o valor é cada vez mais calculado através da abrangência atingida por replicações, replies, menções, comentários, curtições e compartilhamentos de conteúdos”. Diferentemente do poder que se manifesta pela somatória dos seguidores, a “abrangência traduz o valor como a potência que consegue alcançar e o quanto pode mobilizar uma comunicação no interior das timelines” (Malini & Antoun, 2013, p.216). Nas comunicações em rede, os formadores de opinião se distinguem não pela contabilidade do número total de receptores, mas sim pelo cultivo da participação ativa daqueles que recebem os conteúdos postados. Sob vários aspectos, esse potencial dialógico é entendido como parte constitutiva da própria dinâmica estabelecida neste tipo de rede social. Recentemente, a propósito, os administradores do Facebook decidiram tomar medidas contra o que identificam como chamadas fraudulentas, posts de aparência sedutora, iscas (clickbaits), que, uma vez abertos, mostram conteúdo sem qualquer relação com as promessas iniciais: [5] sob uma chamada em que figura o vídeo de um terno animal de estimação, por exemplo, encontrar-se-ia uma propaganda qualquer. A identificação da fraude é possível - e este é o ponto - pela contabilização do tempo médio gasto por internauta ao abrir a chamada e pela proporção do número de comentários e compartilhamentos que esses ensejam, dada a quantidade total de acesso. A participação é sempre a atitude esperada.
Retomemos o ponto com o qual abrimos este texto. Dada sua incontestável força política e social, as mobilizações em rede também vêm ganhando uma atenção especial de um segmento das ciências sociais (ver, por exemplo, Lecomte, 2013; Dobwor, 2013; Singer, 2013). No que pese a importância desses estudos, em geral, eles compartilham de uma visão distanciada destes fenômenos, quer este afastamento seja garantido por alguma perspectiva econômica, na qual o político, o social e o cultural sempre parecem se subsumir, ou numa análise técnica que invariavelmente toma a rede como um fato dado e mesmo comparável a outros tipos de redes, como aquelas que podem ser percebidas entre insetos (a esse respeito, ver Ferreira e Fontes, 2014). Neste texto, por outro lado, procuramos recuperar um pouco dos conteúdos emocionais que forjam os “laços” e os “nós” dessas redes sociais e técnicas. Parece evidente que, a esse respeito, devemos partir de uma constatação bastante difundida entre os estudiosos da tecnologia: os engajamentos pelos quais se encadeiam as ações nas redes sociais on-line são tecidos pela interface entre seres humanos e máquinas. Os “pontos” que compõem a intrigante topologia reticular dos movimentos coletivos via Internet “são conectadas não por laços sociais per se, mas sim por vínculos sócio-técnicos. Elas são unidas por conexões tão técnicas quanto sociais” (Lash, 2001, p. 112). Daí decorre a desconcertante impressão de que “já não se sabe ao certo se existem relações específicas o bastante para serem chamadas de ‘sociais’”, ao mesmo tempo em que “o social parece diluído por toda parte e por nenhuma em particular”, como observa Latour (2012, p.19). Isso que parece um truísmo, infelizmente, não se traduz em análises que deem conta dos dois polos que compõem o fenômeno em questão.
 Entendendo as redes sociais baseadas na Internet como fenômeno socio-técnico, nossa abordagem não está à procura de pontos de origem em algum dos componentes da interface homem-máquina. Considera, antes, que trata-se de uma especial forma de relação que atualmente muitos de nós estabelecemos com as tecnologias de informação e comunicação, uma relação na qual somos autorizados e autorizamos, somos habilitados e habilitamos, somos capacitados e capacitamos a agir de forma imprevista (Latour, 2012). A partir dessa perspectiva, nossa intenção neste pequeno texto é perceber como a emoção é um componente fundamental das próprias dinâmicas sócio-técnicas – e, ao mesmo tempo, que a emoção encontra na interface entre humanos e dispositivos os ingredientes fundamentais que possibilitam e estimulam sua expressão. Tomaremos aqui o caso do Facebook como objeto de nossa análise e argumentaremos que a emoção é ali uma pressuposição do próprio dispositivo oferecido e, acreditamos, um dos motivos de seu enorme sucesso, de seu incontestável apelo. Lançado em 2004, por Mark Zuckerberg, o Facebook conta hoje com mais de 1 bilhão de usuários ativos – que utilizam a rede social ao menos uma vez ao mês –, dos quais mais de 60 milhões estão no Brasil.[6]
No que diz respeito à mediação tecnológica do Facebook, é notável o fomento à composição de coletivos de sociabilidade, considerando que esta é uma forma específica de relação social que pode ser definida, com Simmel (1983), pela mutualidade no cultivo do laço social per se, pela troca de conteúdos de cunho pessoal, pelo aspecto lúdico das interações, pelo prazer recíproco da sociação - embora finalidades instrumentais possam interferir neste processo, elas não são condições de partida para os usuários do Facebook. Assim, o site oferece um serviço que investe na sociabilidade entre seus frequentadores, na medida em que incentiva algum tipo de reciprocidade na disponibilização de conteúdos provenientes de suas vidas pessoais e promove interações em torno desses conteúdos. O fato de a emoção ser um ingrediente e uma moeda de troca importante em redes sociais como o Facebook – que nos faz pensar em uma espécie de economia da dádiva em que laços são reforçados entre aqueles capazes de mostrar uma sensibilidade afim - talvez possa ser apreciado em primeiro lugar pelo fato de os laços que a compõem serem caracterizados como laços de “amizade”. Ainda assim, não é incomum que essa reciprocidade seja rompida unilateralmente de forma a preservar de alguma forma o laço. Isso ocorre, por exemplo, quando deixamos de seguir um determinado amigo, ou deixamos de ser seguidos por ele, por atitudes julgadas inconvenientes: postar exageradamente, por vezes sobre um único assunto, mostrar opiniões ou valores considerados inadequados, etc. À importância da continuidade deste “laço fraco”, o Facebook está atento: é possível poupar um “amigo” ou “amiga” da triste verdade de que ele ou ela se tornou um chato.
Para alguns, aquilo que no Facebook “nós designamos convencionalmente pelo nome de ‘amizade’ é um tipo de ligação inteiramente específica dos ambientes sociais da Web” (Casilli, 2010: 270). Isso significaria aceitar que, embora possua a mesma nomeclatura de um vínculo social off-line, trata-se de um tipo de laço que não existe senão nas dinâmicas típicas do mundo on-line. Ao tratar de fenômenos técnicos desta natureza, todavia, é sempre importante analisar a ambiguidade dos meios que estes dão lugar, o processo de contaminação mútua que existe por exemplo entre dinâmicas off e on-line. Por isso mesmo, é importante analisar o que comumente entendemos por amizade e ver como esse valor é negociado nas redes sociais. Na língua inglesa “essa amizade assistida por computador toma o nome de friending. O neologismo designa o ato de ‘amigar’ ou de ‘tornar-se amigo de’ alguém” (Casilli, 2010: 271). Não é de se admirar que essa forma de ligação assuma o estatuto de uma ação, uma vez que abarca o movimento voluntário e persistente de tecer e manter laços on-line, sejam quais forem as motivações dos indivíduos. O convite explícito para celebrar um laço de amizade no mundo virtual – que só tem paralelo no universo infantil – dá bem uma ideia de quão significativa é a ideia de ação neste âmbito. Esse exercício de tornar-se amigo, invariavelmente, está condicionado às possibilidades e às restrições dos sistemas informáticos.
A importância do uso do termo amizade para o sucesso do Facebook está associado, de maneira intuitiva, à ideia de que se trata de um ambiente onde se fica à vontade na medida em que seus frequentadores são convidados a se assegurar da qualidade dos laços que são ali formados. A sugestão é a de que estão todos entre amigos, senão, entre amigos de amigos[7]. A escolha do nome amizade - em torno do qual parecem se constituir as dinâmicas desta rede social - é sintomática da possibilidade que certos laços sociais têm de ser mais fortes que outros.[8] Quando indagado sobre as vantagens de fazer parte desta rede, não é incomum escutar de seus usuários que a possibilidade de manter contato com pessoas distantes espacialmente ou com amigos antigos dos quais se perdeu o contato estaria entre as mais atraentes. Assim, recursos disponíveis nesta plataforma, tais como “cutucar” parecem reforçar a pretensão de intimidade e emotividade sobre os quais os laços seriam fortalecidos. Entretanto, além da postagem de conteúdos, acreditamos que as ações de “curtir”, ou seja, de manifestar apreço, admiração, ou identidade com respeito a um conteúdo, e de compartilhar esses mesmos conteúdos estejam entre as ações que mais fortalecem os laços dentro da rede.[9]
É necessário aqui afirmar que o processo de reconhecimento e obtenção de prestígio na rede são fundamentais para que as próprias redes aumentem o número de seus nós. O Facebook estimula essa atitude propondo recorrentemente novas amizades, indicando amigos de amigos que talvez o internauta gostasse de incorporar à sua rede de contatos, ou melhor, de amigos. O motivo aqui é simples: a frequência das visitas, a intensidade das interações e seu alcance são os ingredientes a partir dos quais o Facebook obtém retorno financeiro e se dispõe a manter sua plataforma gratuita. Não é segredo que, nesse site, as ligações entre os usuários são os valiosos produtos da sociabilidade. O que o indivíduo curte e compartilha serve de base para que os algoritmos que orientam o Facebook possam oferecer produtos, serviços, sob a forma de propaganda[10]. O que você gosta, aquilo com o que você se identifica, que gostaria de compartilhar, são bases mediante as quais os anunciantes do Facebook podem propor negócios, serviços. Ademais, uma base de dados com informações tão valiosas acerca de gostos, preferências, susceptibilidades afetivas, convicções políticas e morais tem valor financeiro incalculável.
Não é de admirar que um tom afetivo, por vezes mesmo acalorado, circule e se propague, em certas ocasiões de modo furioso, nesta rede social. As opiniões, certezas associadas a esses afetos passam a ser um elemento fundamental na consolidação de laços ou em seu rompimento. Opiniões políticas intoleráveis podem ser objetos de avisos do tipo: “lamento informar, mas todas as pessoas que comungam com o valor x, a opinião y, que considero absurdas, serão excluídas, bloqueadas de minhas redes de contatos”. Esse tipo de anúncio, algo impessoal, reestabelece a diferença básica que existe entre amigo e contato. Além do ato de curtir ou compartilhar, as mensagens que são trocadas quando alguém se sente particularmente tocado por um conteúdo também são importantes no estabelecimento desta dinâmica. Os selfies, ou fotos de situações da vida cotidiana, postados recebem mensagens de incentivo ou expressão de afeto que variam de uma sonora risada em internetês (“hahahaha!” ou “kakakakaka|, carinhas sorridentes ou que distribuem beijos ou piscadelas, coraçõezinhos rubros) são um recurso bastante difundido, mas também comentários como “Linda!!!”, “Own!!”, “Adorei!”, “Que gato!” etc. etc. A própria plataforma oferece um recurso inestimável na manifestação de afetos: o lembrete do dia do aniversário de pessoas de sua rede de contatos, amigos. Há sempre ocasião para mensagens inspiradas, poéticas e respostas comovidas.
A intensidade dos afetos em rede é demonstrada sobretudo por ocasião da morte de celebridades, o que sempre envolve demonstrações emocionadas de admiradores, gente que se mostra “arrasada” diante do que consideram uma perda irreparável. “Choro desde ontem pela morte desse gênio que foi Rob Williams”, “tanta gente ruim continua vivo, por que Ariano Suassuna tinha de morrer?” A compartilha desses sentimentos é algo fundamental à manutenção, intensificação, estreitamento dos laços da rede. E, evidentemente, são passíveis de se tornar uma peça de negociação política e social. A prematura morte de Eduardo Campos constituiu-se em evento de delicada negociação de afetos no Facebook. Laços reforçaram-se, romperam-se ou se esgarçaram a partir da sensibilidade demonstrada por cada um em relação ao trágico evento: aqueles que se mostraram insensíveis à morte do candidato à presidência da República suscitaram a revolta daqueles para quem a oposição política não deveria ir tão longe. Estes, por seu turno, foram acusados pelos primeiros de postura política inconsistente, quando era o caso de serem seus adversários políticos, ou de acomodação. Rupturas de laços ocorreram, independente de afinidades políticas recentes, com base em uma impossibilidade de compartilha de um mesmo pathos.
Esse tipo de comoção que se encadeia como um rastilho pelas redes sociais do Facebook traz para o site importantes subsídios para conhecer seus usuários e a maneira como eles se ligam uns aos outros através das trocas emotivas. O contágio de emoções entre os usuários do serviço foi o tema de uma polêmica pesquisa recentemente publicada. A polêmica se deu a partir da falta de esclarecimento aos participantes da pesquisa quanto à participação deles no experimento, que consistiu basicamente na manipulação, durante uma semana, dos algorítimos que definem os conteúdos que aparecem no “feed” de notícias de cada um dos 700 mil usuários que integraram a pesquisa sem, no entanto, terem sido comunicados de que participariam. A manipulação do algoritmo se deu com base no teor positivo ou negativo das emoções associadas aos conteúdos publicados nos “feeds”, de modo que, durante a semana do experimento, metade deles recebeu apenas publicações que envolvem emoções “negativas” e a outra metade teve acesso exclusivamente ao que aparece vinculado a emoções “positivas”. Ao fim do experimento, constatou-se, entre os usuários pesquisados uma tendência à publicação e ao compartilhamento de conteúdos que vinculam emoções condizentes com aquelas às quais eles tiveram acesso. Segundo os autores, os resultados do experimento demonstram que “as emoções expressas pelos outros no Facebook influenciam nossas próprias emoções”. Eles consideram ter encontrado evidências de que essas influências emocionais processam por “contágio em larga escala via redes sociais." (Kramer et alii, 2014, p. 8789).
Considerando o forte potencial de mobilização social que se dá através dos contágios emocionais nessas redes sócio-técnicas, esperamos que esse texto se mostre contagiante e seja amplamente comentado, compartilhado e curtido. J

Nota: Todas as citações de frases encontradas nos sites de redes sociais não são literais, mas sim aproximações do que tem sido publicado nesses sites.

Referências bibliográficas
CASILLI, Antonio A. Les liasons numériques: vers une nouvelle sociabilité? Paris: Éditions Du Seuil, 2010.
CASTELLS, Manuel. Redes de Indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
DOBWOR, Monika; José SZWAKO.“Respeitável público... Performance e organização dos movimentos antes dos protestos de 2013”. Novos Cadernos CEBRAP, 2013 no. 97, novembro: 43-55.
FERREIRA, Jonatas e Breno FONTES. ­“Ágora Eletrônica: algumas reflexões teórico-metodológicas”. Estudos de Sociologia, Vol. 14, no. 2. 2014. No prelo.
GRANOVETTER, Mark S. “The strengh of weak ties”. American Journal of Sociology, 78 (6), 1973, pp. 1360-1380.
KRAMER, Adam T. I., GILLORY, Jamie E., HANCOCK, Jeffrey T. “Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks”. PNAS, Vol. 111 (29), 2014, pp. 8788-8790.
LASH, Scott. “Technological forms of life”. Theory, Culture and Society. Vol. 18 (1), 2001.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA, Bauru: EDUSC, 2012.
LECOMTE, Romain. 2013. “Expression politique et activisme en ligne en contexte autoritaire”. Réseaux, 5, no. 181: 51-86.
MALINI, Fábio & ANTOUN, Henrique. A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Porto Alegre: Sulina, 2013.
SIMMEL, Georg. “Sociabilidade, um exemplo de sociologia pura ou formal”, in: MORAES FILHO, Evaristo. (Org.). Georg Simmel: sociologia. São Paulo, Ed. Ática, 1983.
SINGER, André. 2013. “Brasil, junho de 2013. Classes e ideologias cruzadas”. Novos Estudos CEBRAP, novembro: 23-40.




[1] Professor associado da UFPE.
[2] Doutora em Sociologia pela UFMG, professora do IEC-Puc Minas.
[6] Estas informnações estão disponíveis em http://tecnologia.uol.com.br/noticias/afp/2014/02/03/facebook-em-numeros.htm. Acesso em 27/08/2014.
[7] Sugestão falaciosa, como o podem comprovar alguns escândalos de proporções nacionais e que teriam como base conteúdos destinados a amigos da rede, ou seja, o caráter público da rede é algo que é cotidianamente negligenciado.
[8] Sobre as noções de força e de fraqueza dos laços em redes socias, ver o já clássico texto de Granovetter (1973).
[9] Aqui é necessário que se diga que não pretendemos reduzir a dinâmica social no âmbito do Facebook ao que a sua arquitetura estimula – não se trata de um argumento behaviorista. Trata-se de entender quais são os pressupostos técnicos dessa arquitetura, considerando que algo como um “comportamento” neste espaço não nos interessa pelo simples motivo que não podemos abstrair as qualidades reflexivas, humanas que, evidentemente, impedem que “estimulo” corresponda a “comportamento”. Por isso mesmo, o que aqui está envolvido são ações de reconhecimento do outro e de si mesmo naquilo que é expresso ao outro, ações de atribuição e de busca de prestígio pelo que se julga serem boas ideias, emoções virtuosas. Este mútuo reconhecimento, fundado na emoção, como tivemos oportunidade de propor acima, pode ser entendido como uma moeda de troca.
[10] http://youpix.virgula.uol.com.br/redes-sociais-2/nao-curtir-coisas-facebook-pode-ser-melhor-coisa-que-voce-vai-fazer-na-vida/