terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Romantismo e as Ciências Sociais


"O Andarilho sobre as Brumas",
de Caspar David Friedrich

No momento, estou iniciando na graduação de Ciências Sociais da UFPE um curso sobre modernismo e pós-modernismo. Não estou muito interessado naquilo que Berman chama de modernidade sólida, ou seja no império da razão, da disciplina, do registro contábil, da previsibilidade, mas naquilo que ele chama visão diluidora da modernidade, e que Scott Lash chama modernidade estética, e eu, simplesmente, modernismo. A teoria sociológica estabeleceu desde muito cedo um diálogo produtivo com os movimentos estéticos que se posicionaram de modo crítico ou laudatório em relação ao mundo moderno, industrial.

Essa constatação, todavia, nunca é levada muito a sério, pois no mais das vezes os sociólogos estão interessados em demonstrar a solidez de seu conhecimento, o quanto ele é sisudamente científico. Muito de passagem, costuma-se falar, por exemplo, do impressionismo simmeliano; não seria, de fato, difícil apontar na obra de Georg Simmel um vitalismo que o aproxima da ênfase que o Impressionismo dá ao movimento como traço não apenas da vida moderna, mas de sua estética. O antiformalismo simmeliano, seu ensaismo também são elementos que o conectam a este tipo de estética. Simmel parece, portanto, ser uma ovelha desgarrada entre os clássicos - já se falou, para poder dar coerência a uma visão pobre, mas corrente da sociologia clássica, que ele seria pós-moderno temporão (Cf Weinstein, D. e Michael Weinstein. 1993. Postmodern(ised) Simmel).

Por tudo isso, acredito que seja frutífero reconhecer a enorme importância que o romantismo tem na consolidação de uma vertente interpretativa nas ciências sociais. Primeiro poderíamos falar de algumas referências comuns. Quem já leu o Discurso sobre os Fundamentos e a Origem da Desigualdade entre os Homens poderá de imediato retirar algumas conclusões. Romântico em sua idealização de uma infância perdida da humanidade, em sua crítica radical ao processo civilizador, Rousseau é neste livro uma referência duradoura para as ciências sociais. Derrida, por exemplo, observa a influência deste livro na obra de Lévi-Strauss, em seu carinho pelo bom selvagem. Gerd Bornheim, acredita que Rousseau (ou uma interpretação simplificada de sua obra) seja uma influência mais direta no proto-romantismo alemão, mas especicamente no movimento Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto). A busca de uma relação mais direta do homem com a natureza, a valorização do irracional, do genial ( concebido como força não racional), são alguns valores que aproximaria Rousseau do proto-romantismo alemão.


Introduz-se assim a crença, à qual todo o Romantismo permanecerá fiel, de que a irracionalidade é uma força positiva: o caos constrói, compõe. Daí o tema do demoníaco no Sturm und Drang, que leva a considerar o gênio o valor máximo. O gênio é o Kraftmensch, o homem habitado pela força da natureza, que faz dele um demiurgo apto a manifestar todas as suas possibilidades, o infinito da pulsação cósmica que traz consigo e o anima. Antecipando Nietzsche, é caracterizado como uma espécie de super-homem. A ordem, a virtude, a moral são substituídas pelo caos criativo, pela força do gênio, pelas paixões vitais além de toda medida (Bornheim G. In Guinsburg, O Romantismo, p. 82)

Uma outra vertente do Romantismo alemão, parte, não de Rousseau, mas do Iluminismo kantiano. Lembremos, a propósito, de Schleiermacher, célebre por sua contribuição na consolidação de uma hermenêutica científica, e que esteve muito próximo dos círculos onde transitavam figuras destacadas, tais como os irmãos Schlegel ou Novalis. Se esses pensadores colocam-se sob a influência kantiana tal como ela é processada por Fichte, eles não compartilham com o pensador de Könisberg seu entusiasmo pelas Luzes, seu otimismo em relação a começar um mundo novo, de realização do pontecial de liberdade do ser humano, a partir de uma ruptura com o passado. O Iluminismo pretendeu ser um movimento de ruptura, a inauguração de uma ordem social inteiramente racional, cuja legitimidade teria que ser constantemente conquistada no presente do diálogo entre os seres humanos. Em contraste, e em oposição, Novalis, Schleiermacher ou os Schlegel viam a tradição como um manancial importante de reflexão e produção artística.

Para o romantismo, o passado é fonte de inspiração, e à idéia de uma sociedade racional, ele opõe a emoção como elemento de coesão social e de conexão com este passado. A hermenêutica moderna deve muito a esse movimento artístico. Citarei um trecho do livro O Romantismo, de J. Guinsburg: "Assim, porque tudo se faz "história" no Romantismo, a História se faz então "realidade", integrando historicamente o estudo do desenvolvimento dos povos, de sua cultura erudita e de seu saber popular (folclore), de sua personalidade coletiva ou espírito nacional, de suas instituições jurídicas e políticas, de seus mores e práticas títpicas, de seus modos de produção e existencia material e espiritual, cada vez mais nas linhas de um tempo cada vez mais mítico ou idealizado" (1978, p. 18)

O Iluminismo propunha a idéia de um cidadão abstrato e racional como fundamento de seu projeto de sociedade, um projeto universalista. O romantismo, por outro lado, reivindicava a necessidade de localizar estes indivíduos no contexto de suas comunidades, de suas nações, da história de suas nações. O romantismo foi sem dúvida um fermento importante na formação de uma tradição historicista dentro das ciências sociais. O seu cosmopolitanismo, como vimos na citação acima, dedicando grande atenção às diferenças culturais e a história dos povos, constitui elo entre o historicismo e o romantismo.

Mas esses são também elementos que ligam o romantismo a uma tradição interpretativa nas ciências sociais. Toda a tradição interpretativa de Weber, Simmel, Dilthey seriam impensáveis sem a confluência do historicismo, romantismo e da hermenêutica. A procura dos elementos que configuram o espírito de um povo, ou de uma época, é romântico, antes que seja apropriado por Hegel, ou pela hermenêutica de Schleiermacher ou Dilthey. A busca de uma compreensão emocional do passado, um certo culturalismo, também o são - assim como a ênfase analítica em um sujeito localizado espacial e temporalmente.

E depois eu reviso e amplio isso.
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Jonatas Ferreira

9 comentários:

Stephanie disse...

Uma pergunta um tanto inocente: o texto de Fischer, embora enfatize o qu�o mal�fico o capitalismo foi � arte, pontua que ele tamb�m favorecia seu desenvolvimento. Al�m de propiciar certo isolamento, ou um individualismo "for�ando" certo subjetivismo e alguma originalidade, como mais o capitalismo favoreceu o desenvolvimento art�stico?

Obs: �s vezes quando o autor fala em capitalismo eu penso mais como modernidade, mas � sempre capitalismo mesmo, n�

metodologia disse...

Oi Stephanie,
Você sabe, o texto de Fischer deve ser lido em conjunto com outros que possam dar uma certa perspectiva ao seu bolchevismo militante. Acredito que a arte é inerente ao ser humano. Georges Bataille chegou a afirmar certa vez que o ato que humaniza o ser humano não é a produção de instrumentos (como julgava Hegel, Marx e, acredito, Rousseau). O ser humano é o animal enlouquecido que fabrica uma realidade virtual na parede das cavernas. Antes da técnica, a arte.

Não é necessário chegar a tanto, mas afirmo que a arte é parte de nossa vida, ainda que muitas vezes não percebamos muitas de nossas ações como de caráter artístico. O contador de estórias, de causos, não sabe que o que faz é arte, por exemplo. Então acredito que o que o capitalismo, e, mais amplamente, a modernidade, fez foi desenvolver um tipo específico de arte; uma arte que só é possível neste tipo de sociedade. Uma arte moderna, industrial. Em que sociedade, que não a de massas, poderia surgir o cinema, ou o graffiti?

O que podemos pensar, e eu acho que essa é a proposta do curso Sociologia da Modernidade, é como vários movimentos estéticos influenciam e são influencidados por esse contexto histórico. Ou seja, uma resposta mais competente aguarda mais conversas. Abraço, Jonatas

metodologia disse...

Que é isso Jonatas! Resolveu virar garoto-propaganda da Thomson?

Cynthia

Leila Muniz disse...

Ô Jonatas, do jeito que vc tá colocando a arte, tá parecendo que "tudo é arte". Vc quer dizer isso mesmo ou eu entendi errado?

metodologia disse...

Leila,

Desculpe não ter visto antes seu comentário e pergunta. Supondo que você ainda volte a este post, aí vai a resposta. Não acho que tudo seja arte, mas eu poderia devolver para você o problema e perguntar: onde reside a linha de demarcação que permite afirmar que algo é ou não é artístico? Acho difícil de responder a essa pergunta. Sempre que vejo pessoas se debruçando em afirmar algo como uma essência da arte, elas sempre oferecem algo profundamente situado, histórico, sobre o que é a arte. Acho que esse é um caminho de inquirição mais produtivo para nós que trabalhamos nas ciências sociais: entender o que faz com que venhamos a eleger alguns fenômenos claramente estéticos como sendo artísticos e outros não.

Jonatas

Lucas disse...

"Fenômeno claramente estético" não é meio relativo?

metodologia disse...

Oi, Lucas.
Bem, não acho - embora sempre possamos relativizar ou discordar quanto à qualidade estética ou artística de uma manifestação. Embolada é arte ou não? Cinema é arte ou não? Ou, mais específicamente: os repentes de Zé Limeira ou de Patativa do Assaré são ou não arte? O Garoto de Chaplin?
O que torna um fenômeno claramente artístico (melhor que 'claramente estético') é o fato de ele ser socialmente considerado como tal. O que quero dizer é que a idéia de arte é socialmente condicionado: o que não significa dizer que sejamos incapazes de reconhecer o valor artístico de produções cuja cultura nos seja estranha. Assim, embora alguns ornamentos funerários, religiosos possam ser considerados arte por nossa cultura, ela não é necessariamente pela cultura que a produziu. Do mesmo modo, embora o contador de estória não tenha o prestígio social do artista, sua forma de manifestação cultural pode vir a ser reconhecida como arte.

Lucas disse...

Concordo plenamente.

Minha questão é que da condição social da arte resulta que praticamente qualquer coisa pode ser considerada como tal.

Confesso que isso me incomodava um pouco. No entanto, pensando melhor, cheguei à conclusão que o termo "social" não delimita o que seria a "sociedade" em questão.

Resumindo, se um pequeno grupo acha que alguma coisa é arte, aquilo o será para elas, ainda que não seja para mais ninguém. Certo?

P.S.: qual é o limite quantitativo mínimo de uma sociedade? Duas pessoas?

Leila Muniz disse...

Volto sim. Tô sempre dando uma olhada! Eu SABIA que tu ias me perguntar isso. A resposta é que eu não sei, não sei o que delimita o que é artístico ou não. Só sei que nem por isso eu acho que tudo é arte. Como disse Ferreira Gullar "Se eu coloco merda na lata e digo que é arte, eu tô querendo dizer que arte é merda"
A frase é um tanto quanto grosseira mas até que serve.
Acho que não temos grandes problemas então, visto que somos da mesma opinião. Perguntei pq queria saber se caso vc pensasse que tudo é arte, quais seriam os seus argumentos para afirmar tal pensamento. Os que eu ouvi até agora me parecem bem "furadinhos" e não conseguiram me convencer em nada, pelo contrário. A intenção da pergunta não era de polemizar e sim de conhecer argumentos mais profundos. Obrigada pela atenção e gostei bastante disso "eleger alguns fenômenos claramente estéticos como sendo artísticos e outros não". Vou pesquisar mais...