terça-feira, 8 de junho de 2010

Matança



8 comentários:

verí disse...

uhuuuu...

quando a esmola é demais o santo desconfia.
e eu andava mesmo desconfiada do nível de bom senso da dove...
contudo, a idéia vendida por eles ainda é beeeem melhor do que as outras idéias da industria da beleza. (se é que podemos chamar de idéias e ressaltando que a dove é uma parte bastante importante dessa própria indústria.)

Cynthia disse...

Pois eu acho que foi uma grande sacada de marketing. Creio que tudo começou com a Body Shop inglesa nos anos 90: produtos supostamente eco-politicamente corretos, feitos a partir de matérias-primas extraídas por comunidades indígenas do mundo inteiro, embalagens recicláveis nas próprias lojas, substituição das modelos magérrimas por belas fotos em sépia e PB de corpos de mulheres negras de meia idade etc.

O problema é que a forma como essas matérias primas e mão-de-obra eram exploradas revelavam o capitalismo mais selvagem: nenhum estudo de impacto ambiental ou de etnodesenvolvimento lhes dava subsídio. Quando foi vendida para uma grande empresa a coisa se tornou ainda pior e o pouco de preocupação ecológica tornou-se puro marketing.

Creio que a Dove apostou em apenas um dos lados dessa equação, deixando especialmente visível (como diz Zizek, o capitalismo é pornográfico: não esconde nada) a forma como patriarcalismo e capitalismo se reforçam mutuamente, ainda que sejam estruturas independentes. Queria que o velho Engels tivesse visto isso.

De qualquer forma, acho que você tem razão em um ponto, Verí: não dá para negar o alcance das propagandas como as da Dove, da Body Shop, da Aveda e da Natura e seu impacto na forma como as meninas mais jovens encaram seus corpos. Efeitos perversos à parte, já é alguma coisa, né?

Anônimo disse...

Acho super legal esse tipo de apontamento. Mas confesso que agora fico tonta toda vez que vou comprar roupa ou shampoo. Onde comprar peças que não envolvam alguma condição de trabalho ruim? Cuja tinta não tenha poluído rios, causado intoxicação em animais ou alguém de comunidade próxima etc? Ou como (com quê?) tomar banho sem causar um baita dano ao meio ambiente etc? Às vezes parece que não tem saída...

Cynthia disse...

Cara anônima (estou me sentindo uma colunista da seção de beleza da Marie Claire),

Procure saber que marcas empregam crianças (Nike e Adidas), exploram o trabalho feminino por meio da "flexibilização" (vendedoras da Avon e da Natura), fazem testes em animais, devastam o meio ambiente. Em outros termos, consumo consciente. Faço isso sempre que possível.

Alternativamente, limite-se ao uso de produtos de marcas como Channel e Lancôme. Embora elas sejam absolutamente incorretas do ponto de vista ecológico, seu uso se torna bastante limitado pelo preço exorbitante. Em outras palavras: use a lógica do mercado. Faço isso sempre que possível.

Depois avalio se a culpa supera a sensação de ter adiado o surgimento uma ruguinha de nada ou o contrário. Para sua informação, o placar anda empatado. Pelo menos por enquanto.

Grande abraço.

Anônimo disse...

Pois é, Cynthia. Mas esse é justamente o problema... eu bem que tento pesquisar e realizar o tal "consumo consciente", mas fazendo uma ronda por lojas, por produtos de beleza, higiene etc, estou prestes a acreditar que quase nada se salva em todos esses aspectos. Será?

De qualquer forma, é sempre um prazer ver as iniciativas desse blog.

Um abraço.

Cynthia disse...

Cara anônima,

essa parece ser uma característica das sociedades contemporâneas: temos que decidir muita coisa que não é mais estabelecida pela tradição. Neste sentido, a informação é um bem precioso. Mas caso a gente não queira endoidar de vez em busca de todo tipo de informação, produtos e estilos de vida que se adequem perfeitamente àquilo que seria ideal, eu acho saudável tentar estabelecer algumas prioridades que dizem respeito, sobretudo, à dimensão ética da nossa existência. Veja quais são as suas!

Boa sorte.

Antônio Lino Jr disse...

Prezada Cynthia,antes de mais nada, já começo louvando as benesses da globalização, pois, a ela atribuo a condição de reencontrar você por aqui. Ponto pra mim.Vejo que aquela brasiliense com projetos nos idos 90 de ser arqueóloga, consolidou-se como intelectual. O que não me surpreeende e sei que muito mais você tem a consagrar.No tocante ao debate em si, por mais que você observe resquícios de conservadorismo em Bauman, é nele que aponto para uma mlehor observação a despeito desse tema eco-sustentável. Sobretudo quando, em Sociedade Individualizada, com muita propriedade, Bauman destaca sobre o dilema contemporâneo entre transitar pelo corolário da liberdade e comprometer um certo estado de incerteza e insegurança que é intrínseco ao mundo pós-moderno. Por enquanto me dou por satisfeito quando tenho acesso a suas producentes observações analíticas. Bjs e bom te ver por aqui.

Cynthia disse...

Não acredito! Você é o Lino que estudou comigo? Que bom te ver por aqui! Seja bem-vindo ao Cazzo.

Quanto ao debate que você menciona, de fato a ética não pode ser pensada em termos individualistas (e creio que onde Bauman trabalha melhor isso é em seu "ética pós-moderna"). Simplesmente não dá mais para vivermos como se nossas escolhas não tivessem impacto sobre o meio-ambiente, sobre o trabalho alheio etc. Mas diante dos dilemas bem colocados pela anônima, não tem como escapar do estabelecimento de certas prioridades - que podem e devem ser revistas mediante novas informações.

Depois te mando um email.

Beijo!