sexta-feira, 10 de junho de 2011

“Vadia sim, feminista não!”

Kathleen Hanna, da banda punk Bikini Kill, uma das principais representantes do movimento conhecido como Riot Grrl.


Por Cynthia Hamlin


Se você não está de férias em Marte, provavelmente já ouviu falar das Marchas das Vadias, mas talvez não saiba que se trata de uma onda de protestos contra a culpabilização das vítimas de estupro e de outras formas de violência sexual. A primeira Marcha das Vadias (Slut Walk) aconteceu em 3 de abril deste ano, em Toronto, Canadá e, desde então, tem ganhado o mundo, já tendo ocorrido em mais de 20 países. 


Tudo começou em 24 de janeiro, quando o policial Michael Sanguinetti proferiu uma palestra para um grupo de estudantes da Universidade de York sobre como evitar a violência sexual. “Disseram que eu não deveria dizer isso”, ele disse assim mesmo, “mas as mulheres devem evitar se vestir como vagabundas (sluts) para não se tornarem vítimas”. Indignadas, as estudantes responderam organizando a primeira Marcha das Vadias, que reuniu cerca de 3.000 pessoas, em sua maioria mulheres, em torno de uma mensagem simples e direta: os homens não têm o direito de estuprar ou abusar sexualmente das mulheres, independentemente do que elas estejam vestindo.
 


Sanguinetti não poderia ter imaginado as repercussões de suas palavras diante do poder das redes sociais em ajudar a divulgar e cristalizar protestos – algo que os estadunidenses têm hiperbólica e narcisisticamente chamado de Twitter Revolutions (aqui). E se os protestos que têm se espalhado pelo globo como um rastrilho de pólvora já eram difíceis de serem previstos, menos previsíveis ainda foram os efeitos que esses protestos geraram em relação ao que geralmente se entende por ativismo feminista.


Embora a não-culpabilização das vítimas seja uma demanda histórica do feminismo, não há uma associação direta entre as Marchas e o movimento feminista que, no caso brasileiro em particular, as tem apoiado mais do que organizado. Isso, de determinada perspectiva, é bom, pois significa que questões surgidas no seio de grupos específicos foram incorporadas como legítimas pela sociedade mais ampla. Além dessas demandas, as Marchas das Vadias parecem ter ainda incorporado uma estratégia  política de reapropriação irônica de determinados discursos, uma estratégia geralmente associada ao que se conhece como teoria queer (aqui e aqui). Nas palavras de Solange de Ré (2011), uma das organizadoras da Marcha de São Paulo, “achamos propício o nome dessa marcha, pois foi uma maneira irônica que encontramos de reinvindicar o nome que recebemos diariamente, desde uma cantada mal sucedida a uma discussão qualquer.”



A “política da ironia” tem gerado um intenso debate nos jornais de língua inglesa acerca de sua eficácia na eliminação da violência contra mulheres e, em termos mais gerais, de suas implicações para o movimento feminista. De um ponto de vista teórico, a questão é colocada pela crítica literária Linda Hutcheon (1994: 2) nos seguintes termos: “por que alguém escolheria usar este estranho modo de discurso no qual você diz algo que não quer realmente dizer e espera que as pessoas compreendam não apenas aquilo que você realmente quer dizer, mas também sua atitude em relação a isso?”. De um ponto de vista mais mundano, a questão tem por vezes sido identificada a uma espécie de (anti)feminismo ingênuo, conforme ironizado por uma jornalista do New York Post: “justo aquilo pelo que as mulheres do mundo têm clamado: se autodenominarem vadias” (Powers, 2011). Outras vezes, a questão é colocada como uma estratégia feminista equivocada:

O foco na reapropriação da palavra vadia não resolve o verdadeiro problema. O termo vadia está tão profundamente enraizado na visão patriarcal “santa/puta” da sexualidade das mulheres que está além de qualquer redenção. A palavra está tão saturada com a ideologia segundo a qual a energia sexual feminina merece punição que tentar mudar seu significado é uma perda de recursos feministas preciosos (Dines e Murphy, 2011).


De forma geral, os debates midiáticos acerca das Marchas têm focado na possibilidade da apropriação positiva do termo como estratégia feminista, isto é, de forma a abalar as estruturas (machistas, patriarcais, heteronormativas etc) que lhes dão sustentação. A resposta a isso tem variado, mas parece haver um certo consenso de que, independentemente da possibilidade de ressignificação ou positivação do termo, a importância da Marcha tem sido defendida com base em seus objetivos e no reconhecimento de diversas formas de ativismo feminista (aqui e aqui). No Brasil, é nesses termos que gente como Marjorie Rodrigues, Tica Morena, Bianca Cardoso e Lola Aronovich têm se posicionado (aqui, aqui e aqui). Pessoalmente, faço coro a elas, particularmente a Lola, que demonstra uma certa preocupação em relação à necessidade de se tirar a roupa para caracterizar a vadia e, assim, chamar a atenção da mídia:

O problema é que, desta forma, além de nos expormos a marmanjos que avaliarão quais manifestantes “podem” se despir (essa vale a pena ver pelada, essa só deveria usar burca), estamos nos encaixando num dos papéis esperados das mulheres, o de objetos sexuais. E estamos também acostumando uma mídia cada vez mais preguiçosa a só dar destaque a ações políticas plenas de ativistas seminuas.


Mas essa preocupação nem de longe se iguala à que senti quando li um texto, atribuído à mesma Solange de Ré que ajudou a organizar a Marcha de São Paulo, na página do Facebook dedicada à Marcha de Recife (aqui):

(...) os grupos feministas acabam sendo o oposto do machismo. E na nossa marcha nós deixamos claro que não éramos feministas, e sim femininas. Não queremos exterminar da terra a raça-homem [sic]. Apoiamos toda forma de liberdade, incluindo os grupos homossexuais (fem/masc), porém sentimos que esses grupos feministas acabam chegando com muita agressividade e são formados, na sua maioria, apenas por lésbicas, o que já denuncia seus objetivos.
Como assim? Vadia sim, feminista não? Espero que isso tenha sido um engano. Caso contrário, acho que tenho más notícias para esta moça, assim como para as pessoas que postaram comentários elogiosos a esta afirmação: a reivindicação irônica do termo Slut está calcada não apenas nos movimentos gay e lésbico que deram origem à teoria queer, mas também no Riot Grrl, movimento musical de raízes feministas que contestava a ausência de mulheres na cena punk (aqui e aqui).  Em outros termos, em tudo aquilo que quem quer que tenha escrito aquela aberração parece abominar (vai um valiunzinho aí?).

Talvez isso seja mesmo um indicativo de que, como estratégia política, a ironia é uma faca de dois gumes...

Referências

Dines, Gail;  Murphy, Wendy (2011) “SlutWalk is not sexual liberation”. The Guardian, 08 de maio de 2011. Disponível em: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/may/08/slutwalk-not-sexual-liberation
Hutcheon, Linda (1992). Irony’s Edge: the theory and politics of irony. Londres e Nova York, Routledge.
Powers, Kirsten (2011). “ ‘Slut Walk: feminist folly.” New York Post, 12 de maio de 2011. Disponível em: http://www.nypost.com/p/news/opinion/opedcolumnists/slut_walk_feminist_folly_6wtwkoKdY0RgRtGfWTe47H
, Solange (2011). “Marcha das Vadias em São Paulo: antes e depois”. Revista Fórum, 08 de junho de 2011. Disponível em: http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9330

33 comentários:

mester disse...

Muito bom La Hamlim!!É um medo de se colocar como feminista...

Franzé Matos disse...

Muito legal Cynthia, depois do contato com Ciências Sociais e o pessoa super gente fina do curso que pude descobrir, que não apenas meu vocabulário, mas meus atos mascarados de uma alcunha de gentileza, não passava de um machismo recalcado. Tenho tentando me policiar infinitamente mais... E já nem uso "O homem" nas minhas citações filosóficas, haha. Espero que seja incrível essa marcha, pois passou do tempo de direitos ao menos semelhantes.

Alyson Freire disse...

Olá, Cynthia, tema interessante para se debater.

A meu ver, a SlutWalk e a política da ironia que a embasa são proveitosos em alguns pontos. Primeiro, no sentido de questionar o discurso machista da culpablização das mulheres, como a professora destacou. Mas, o mais interessante é que a SlutWalk, para usar uma expressão cara à teoria Queer, se vale de uma retórica performativa de gênero que põe em xeque a arbitrária inter-relação em nosso léxico e cultura de equacionar sensualidade feminina, posturas provocantes, com autorização da violência e da agressividade masculina. Mais do que uma simples redescrição do uso e dos sentidos dos termos, elas politizam a linguagem, intervindo criticamente e performativamente em nosso vocabulário e suas associações. De modo que em função dessa redescrição semântica e da retórica performativa de gênero, questionam e desnaturalizam a validade da imposição normativa de certas formas de feminilidade e de comportamento masculino e viril perante à sensualidade, à liberdade e expressão sexual dos corpos das mulheres.

A questão que me pergunto é sobre a eficácia política desse movimento na construção de consensos intersubjetivos sobre a necessidade e pertinência de condenar e recusar num nível ético e prático a violência de gênero e a crueldade. A meu ver, como estratégia de mobilização e visibilidade, ele é extremante feliz e frutífero. Em sociedades expressivistas e mediáticas como as nossas, movimentos performativos como esse ganham uma repercussão e adesão imediatas. As políticas da ironia são nesse sentido muito úteis e pertinentes. Elas nos tornam conscientes, nos chamam a atenção, mobilizam intensamente, para certos problemas, mas não proporcionam a solução, em última instância. Penso que, talvez, a dimensão pedagógica da ação política seja um tanto quanto atenuada pelo caráter mais expressivo e performativo da ação. Será que essa retórica performativa de gênero é capaz de suscitar nos próprios machistas, e na sociedade em geral, motivos que o façam avaliar suas posturas, e identificar a violência embutida e praticada em seus discursos e comportamento? Enfim, talvez seja muito cedo para qualquer tipo de avaliação desse tipo.

Erica disse...

Concordo muito!! Questionei o medo de se assumir o nome de feminista no muro do evento! Pensamos muito parecido, inclusive, tinha postado para o Jesus: do jeito que a coisa vai, tô vendo a hora alguém levar um cartaz "Vadia sim, feminista não!" kkkkkk... Aproveitem por mim a Marcha, estou longe e não posso ir! =)

Carolina disse...

Igualmente faço coro à vocês, porém...
[e isso vai soar crítico] Por um certo aspecto compreendo esse tipo de posicionamento de alguma mulher que chegue ao "vadia sim, feminista não". Não criemos pânico: Entendemos que a feminista teve sua imagem deturpada ao longo da história, o que ainda confunde e afasta o (in) consciente coletivo que se acomoda às discussões superficiais. Diria, talvez, motivada pela capacidade de se indignar algumas vezes confundida com a capacidade de acumular raivas sem direcioná-las (particularmente, tive problemas com algumas feministas da FENED que queriam excluir os meninos de todas esferas de construção. Entendo o espaço de organização interna, acho imprescindível, mas como avançamos sem debate?)
Um cheiro.

Cynthia disse...

Oi, Alyson,

Eu não estava querendo teorizar muito sobre esse assunto porque acho que o momento é outro, mas não resisto à sua provocação. Creio que existe uma dimensão claramente elitista na ironia, no sentido de que ela se opõe àquilo que Wittgenstein define como jogo de linguagem. Para que seja entendida como irônica, a performance tem que ser oposta ao senso comum, o que, especialmente no nível da linguagem, implica uma forma refinada de atividade intelectual (no caso de Butler, em particular, essa oposição se dá apenas via a criação de excedentes de significado, o que, convenhamos, é deixar muito espaço para a contingência quando se trata de uma performance política no sentido estrito do termo).

Por outro lado, é justamente por seu caráter de indecidibilidade que a ironia possibilita a reprodução dos sentidos intersubjetivamente compartilhados, como é o caso da citação que tirei do facebook. Se, por um lado, a figura fala de uma "reapropriação irônica"do termo "vadia", por outro, reafirma todos os elementos do discurso binário a que supostamente se opõe ao reproduzir de forma extremamente preconceituosa o estereótipo da feminista lésbica. Ressignificou o que? Absolutamente nada.

Já faz tempo que estou me devendo um post sobre ironia. Qualquer dia desses eu crio coragem e escrevo.

Abçs

Cynthia disse...

Erica, seria uma boa ideia para um cartaz. Aliás, se você quiser fazer e me emprestar por uns minutinhos, eu vou adorar! ;)

Carolina, eu acho que o estereótipo existe e eu mesma já compartilhei dele em alguma medida. Mas lanço uma questão para provocar: é mais fácil "ressignificar" o termo vadia ou o termo feminista?

Abçs

Cynthia disse...

Franzé, semestre que vem tem metodologia na graduação de novo. Continuo precisando de um filósofo.

Falar nisso, você não gostaria de se juntar ao grupo de epistemologia feminista?

Poly disse...

oxe, eu estava de férias em Marte... kkkkk..

fernanda disse...

affe... eu sou feminista e lésbica e estou até agora tentando entender que "objetivos" são esses que são denunciados quando alguém se auto-intitula feminista... alguém me explica?

Tâmara disse...

Editora bajulada!
Seu texto ta' bombando no facebook, hein? Coisa boa!
Comento para dar uma força à sua di'vida de um texto sobre a ironia. Quando li o final deste,você colocando que isso indica que a ironia é uma faca de dois gumes, fiquei pensativa: lia a citação da liderança e me perguntava se esse movimento (ou pelo menos a versão representada por essa moça)usa realmente a ironia como estratégia ou simplesmente tem objetivos diferentes e potencialmente conflituais em relação ao feminismo. Essa identificação feministas/lésbicas, ainda por cima articulada à palavra "denu'ncia"?! Ora, denu'ncia é palavra do universo da transgressão ou do crime. Seriam as feministas e as lésbicas transgressoras ou criminosas em relação às reivindicações dessa "vadia"? Por que? Isso tudo é um convite urgente para que você ponha mãos à obra. Beijão

Alyson Freire disse...

Olá, Cynthia

Que bom que você cedeu a tentação. Já estava preocupado com que talvez fosse, pelo objetivo central de seu texto, um comentário inapropriado, inoportunamente teórico, quando a discussão é muito mais política. Enfim, mas quem gosta de teoria é dificil resistir a não fazer essas coisas meio escolásticas.

Pois então, fico também no aguardo de seu texto. Meu ceticismo quanto à pertinência política da ironia se assemelha ao seu. Não sei até que ponto um ato de fala é capaz de desencadear coletivamente conseqüências políticas e culturais, de sorte que a reapropriação irônica de termos para novos usos não-convencionais implique uma superação dos sentidos, preconceitos e funções presentes em seu contexto original. Pode até desvinculá-lo de seus naturalizados usos e efeitos normativos, mas daí a superar nas mentes e corações das pessoas uma série de estruturas fortemente interiorizadas há um longo caminho. A citação do Facebook que o diga...

Abraços,

Le Cazzo disse...

Parabéns pelo sucesso do texto e pela iniciativa da discussão, Cynthia. Jonatas

Cynthia disse...

Fernanda, o objetivo das feministas lésbicas é "exterminar da terra a 'raça-homem'". Isso não é óbvio???

:)

Cynthia disse...

Oi, Tâmara,

Você anda circulando pelo feice, é? Eu acho que é uma boa ferramenta de pesquisa para quem se interessa por movimentos sociais.

Quanto ao uso da ironia como estratégia política por parte da figura em questão (que, convenhamos, não sei com certeza se foi a moça que organizou a marcha em São Paulo, embora uma declaração semelhante, ainda que menos virulenta, tenha sido assinada por ela na Revista Fórum), eu acho que você tem razão. Se a performance foi irônica, foi "apesar" dela, já que, na ironia pós-moderna, o que importa não é a intenção de quem fala/age. Mas se nos ativermos ao discurso dela como um todo e sem considerar a morte do sujeito, aí danousse: o significado hegemônico foi reafirmado por meio de suas contradições performativas.

Em relação a um possível conflito entre a teoria queer e os movimentos feminista, gay, lésbico e transsexual, isso é uma grande bobagem associada à noção confusa de pós-feminismo. Butler, a musa inspiradora dos que se dizem pós-feministas, afirma acerca desses últimos: "nenhum desses movimentos (gay, lésbico e trans) é, em minha visão, pós-feminista. Todos eles encontraram importantes recursos conceituais e políticos no feminismo, e o feminismo continua a colocar desafios a esses movimentos e a funcionar como um importante aliado" (Undoing Gender, p. 8).

Beijos!

PS. Como estão as Marchas aí na França?

Cynthia disse...

Obrigada, Jonatas. Jorge e Ratton foram representando a ala masculina dos professores do PPGS na Marcha, mas sentimos sua falta.

Tâmara disse...

Cynthia,
Você quer dizer marcha-ré? Porque eu acho que é a u'nica marcha que tem funcionado bem na França 2011...Exageros à parte, los indignados espanho'is inspiram-se num velho resistente francês, mas les indignités franceses preferem ler a manifestar: fizeram do manifesto do resistente o best seller do Natal, mas são apenas em torno de mil na Bastilha - embora a poli'cia não brinque, tem expulsado-os quase todo dia! Teve uma marcha de mulheres ha' duas ou três semanas , mas não foram as vadias e sim feministas sem complexos e num quadro nacional: combate a certos absurdos que foram ditos e reditos em nome da presumpção de inocência de Dominique Strauss-Khan.

Quanto à ironia, estou esperando com impaciência seu texto. Motivando-a com uma du'vida de minha conversação interior: se a ironia po's-moderna independe da intenção de quem fala/age, uma estratégia, por definição, parece que deve ser conscientemente intencionada, independentemente de sua pertinência ou de seus resultados...Não? Acho que estou concluindo que o sujeito é um morto-vivo...

Cynthia disse...

A estratégia deve ser intencionada, sim, Tâmara, mas a questão é que os significados escapam às intenções dos agentes e, portanto, não podem ser buscados no nível subjetivo. Acho que o caso em questão ilustra isso perfeitamente, seja pela abertura intrínseca ao discurso irônico, seja pela performance da moça ter tido o efeito oposto ao que ela acreditava. Agora, se este último caso pode ser interpretado como mero assujeitamento (no sentido de que o agente é concebido como mero "efeito" das estruturas), aí são as contradições decorrentes da morte do sujeito...

Juliana disse...

Excelente texto!

Cynthia disse...

Obrigada, Juliana.

Anasha Gelli disse...

Ótimo texto! E deu vontade de levar a cabo outra dicussão - sobre os vários feminismos, suas convergências e diferenças.

Cynthia disse...

Seria mesmo uma boa discussão, Anasha. Ano passado trabalhamos isso no nosso grupo de teoria e epistemologia feminista. Só não sei se teria fôlego para colocar isso aqui em forma de posts. Você não gostaria de iniciar a discussão?

Abç

Julia Moysés disse...

Cynthia, acho que esse esvaziamento político dos movimentos também está no ritmo das redes sociais. Sempre que me auto-proclamei vadia, no entanto, não pensava na ironia (que, sim, é o mote da marcha) mas nos conceitos dos outros sobre quem é ou não a vagabunda. Para a maioria, eu me encaixo. Sou uma vadia, no sentido literal, sem ironia. E se vadia é a mulher que reconhece, respeita e vivencia os seus desejos, é uma vadia que quero ser.

Cynthia disse...

Julia, você acha que as redes têm esvaziado os movimentos sociais? Eu tenho a impressão contrária, embora ache que muitos dos que se manifestam favoravelmente em relação a uma causa qualquer não cheguem a se engajar realmente.

Quanto à sua definição de vadia, acho que ela está mais para a noção de autenticidade do que de "vadiagem". De qualquer forma, creio que menos importante do que tentar demonstrar a equivalência entre o que é ser autêntico e o que parte do senso comum estabelece como a mulher vadia é reconhecer que toda e qualquer mulher tem direito à segurança. Se não for esse o princípio básico, corre-se o risco de se estabelecer uma gradação entre os diferentes tipos de mulher e as que são mais ou menos merecedoras desse direito fundamental, não acha?

Abçs

Julia Moysés disse...

Oi Cynthia, acho que as redes sociais aceleram, para o bem ou para o mal, processos que sempre aconteceram. Vejo mais vantagens do que desvantagens e sou uma entusiasta das redes, mas me incomoda profundamente que as causas sociais se convertam em botons, cantadas em baladas, modinha. Me refiro a esse esvaziamento, que, enfatizo, não é causado pelas redes. Em BH, ele é notório na auto-intitulada esquerda festiva. Acabou o conflito. Protestar agora não é causa, é cool.Trata-se, no entanto, de uma percepção leiga.

Quanto à questão da vadiagem X autenticidade, concordo plenamente. Contudo, me declarar "autêntica" incomoda menos. Entendo o problema com o termo. Adorei a sua análise. Mas essa também é uma questão midiática. Marcha das Autênticas não pegaria, não seria curtida, não se converteria em viral mundial. Mas compartilho do seu temor.

Esse blog foi uma feliz descoberta.

Cynthia disse...

Ooops! Onde eu escrevi "menos importante", leia-se "mais importante".

Quanto ao aspecto de marketing, Julia, você tem toda razão. Marcha das autênticas seria o fim da picada. Acho que a própria difusão dos propósitos da manifestação (e nisso o pessoal que tem organizado as novas marchas tem feito um excelente trabalho) tem contribuído para fixar o sentido dos seus objetivos. Isso certamente deixa menos espaço para interpretações e posicionamentos excludentes e conservadores, como os observados na chamada para a marcha de Recife.

E que bom que você gostou do blog. Seja bem-vinda!

verí disse...

hummm... fiquei pensando sobre o texto... o fato de uma pessoa não se auto-intitular feminista não quer dizer que ela não seja, em suas ações no "mundo da vida", feminista. ainda que eu seja meio avessa à percepções meio pós-modernas de morte do autor e afins, de um ponto de vista pragmático, pouco importa se a criatura que disse "vadia sim, feminista não" se percebe ou não enquanto membro da última categoria, uma vez que, segundo consta, parece que ela era uma das principais figuras da marcha e, portanto, quer ela queira, quer não, a atuação dela no mundo foi altamente feminista.
Talvez seja um ideal perfeito demais querer mulheres “emancipadas E feministas” ao mesmo tempo. Conheço mulheres que se reconhecem no tal discurso “feminina, mas não feminista” e que, em suas vidas, acabam colocando em prática uma série de comportamentos altamente endossados pelo(s) feminismo(s).
Eu estar pensando isso é, na verdade, meio maluco, porque eu tendo a ser bem pouco relativista, mas, talvez, seja preciso dar licença para essas tais “femininas” não quererem ser entendidas como “feministas”. É legítimo não querer ser reconhecido/a como alguma coisa. Se elas não se entendem como feministas, mas têm atitudes desta ordem, então tá tudo certo.
Claramente, não acho que isso resolva o problema, mas como movimento inicial, uma “feminina” de atitudes feministas, conta mais do que nenhuma. Ou seja, independentemente se feministas, ou femininas, num mundo onde a desigualdade de gênero ainda é clara, em alguma medida, somos todas vadias. O importante mesmo é que marchemos lado a lado. Se um dos grupos vai cooptar o outro, aí, talvez seja um segundo passo a ser marchado...

Cynthia disse...

Veri, o problema não é simplesmente de identidade. O problema é uma dupla contradição:

1- lutar contra o preconceito e a exclusão com base em mais preconceito e exclusão;

2- defender a possibilidade de desestabilização de um significado que se baseia num conjunto de oposições binárias e, implicitamente, se utilizar dessas mesmas oposições a fim de se diferenciar das "feministas lésbicas". Ou seja: pressupõe-se o que se quer negar.

Haja contradição, né, neguinha?

Anônimo disse...

Perdoe-me o anonimato, mas é que quero evitar algumas polarizações oriundas de estigmas.

Vi o vídeo sobre a Marcha das Vadias e reconheci alguns de meus ex-professores. Sabia que no Cazzo rolaria algum texto...

Acho ótima essa iniciativa de protestar contra o machismo. Louvável a atitude das pessoas se reunirem e lutarem em prol de um mundo melhor.

Mas, sinceramente, me incomodou ver os "pseudocults" classe média de nossa Cidade brincando de vadias. Mais parece que algumas pessoas estão mostrando a face adolescente, procurando chocar as pessoas. É que nem marcha da maconha, "eu vou porque sou cool", quando nem mesmo saca da questão política por trás das coisas.

E só se pode protestar quando se sabe de tudo? Claro que não. As ruas merecem ser tomadas por todos aqueles que tenham algo a reivindicar. Mas cá entre nós, é muito fácil fechar a Boa Vista quando na verdade o problema está nas periferias. É muito fácil botar uma calcinha ou gritar "inha inha..." quando há milhares que nem sabem o que é machismo.

Seria bom ver esses rostos na militância de outras frentes de reivindicação política extremamente importantes, não só nesse tipo de movimentação "hype", que mais parece uma forma de se vangloriar por chocar as pessoas.

Rídiculo o vídeo feito sobre tal marcha. http://www.youtube.com/watch?v=WunFdSbCZfU&feature=player_embedded

Achei de muito mal gosto essa coisa do cineasta sair atrás das pessoas menos esclarecidas, incentivando-as a expressarem suas concepções sobre o mundo, tendo como pano de fundo universitários.

Queriam chocar? Conseguiram... a mim por confirmar o quanto a ingenuidade contamina a nossa classe médica "pseudo-cultista".

De qualquer forma é um começo, não é? Espero que sim, e em próximos embates possa ver esses mesmos rostinhos, sobretudo, dos universitários.

Cynthia disse...

Anônimo,

Embora questione a eficácia do que chamei aqui de política da ironia, sinceramente, não tive a impressão de que as pessoas que participaram da Marcha ignoravam as questões políticas envolvidas. Uma coisa é questionar a estratégia, excessivamente aberta e passível de interpretações ultra-conservadoras, inclusive por parte de quem afirma defender a causa em questão; outra, questionar o movimento em si.

Também não acho que o problema se manifeste "nas periferias": se existe algo isento de "preconceito de classe", esse algo é o machismo e a violência contra a mulher, que se manifesta em todas as camadas sociais. Neste sentido, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, a ideia de ter que se levar o protesto para as periferias pode esconder uma postura bastante elitista segundo a qual o problema é o outro. O problema somos todos nós.

Quanto ao que você se refere como "classe média pseudo-cultista", talvez fosse interessante refletir sobre o papel da classe média como formadora de opinião, por um lado, e do movimento estudantil como agente de transformações democráticas, por outro. Acho fantástico que essa nova geração de estudantes esteja saindo do marasmo e se propondo a debater questões de interesse público, ainda que nem sempre concorde com os termos do debate.

Ao contrário de você, gostei bastante do vídeo, especialmente da estratégia de entrevistar pessoas com diferentes pontos de vista. Você não acha que é justamente isso que deve fazer uma boa mídia? A fala do vendedor de pipoca me parece particularmente instrutiva: ao titubear diante da pergunta acerca do machismo e antes de sacar seu discurso bíblico, ficou-me a sensação de que, talvez pela primeira vez na vida deste indivíduo, tenha surgido um lampejo de dúvida acerca de algo extremamente naturalizado. Talvez o mesmo tenha ocorrido com muitos estudantes que participaram da marcha.

Em resumo, acho que o saldo foi bastante positivo e, como você, espero que a participação dos estudantes na vida pública não pare por aí.

Abç

Anônimo disse...

Olá Cynthia! Gostei de ver sua resposta, inclusive pelo fato de teres topado debater com um “anônimo”. O debate é algo bastante rico, mesmo que virtualmente. Obriagado!

Concordo quando você diz que o machismo não tem classe. De fato há mulheres que sofrem violência em vários estratos sociais. Mas, sinceramente - as estatísticas podem me desmentir - tenho a impressão de que as mulheres negras e mais pobres – infelizmente pouco presentes no ato em questão – são as maiores vítimas de nossa sociedade tradicionalista.

Levar o protesto para periferia não rola... nossa sociologia é rica de estudos confirmando que nas zonas periféricas recifenses as pessoas costumam se mobilizar em prol de coisas que afetam “diretamente” a sua sobrevivência. Por exemplo: uma comunidade não tem água nem posto de saúde. O grosso de seus habitantes lotam as marchas e assembleias para resolverem tais problemas, podendo até mesmo levantar várias outras bandeiras. Mas ao serem solucionadas a questão da água e do posto, a coisa da movimentação em massa vai se esvaziando, e meio que as outras bandeiras “morrem”. Machismo é um tema tabu e é muito bom que nossa classe média esclarecida, formadora de opinião, esteja antenada nisso. Mas quando a coisa é “Marcha das Vadias”, há aquilo que o vídeo muito bem mostrou. Gente “fantasiada”, gritos do “inha, inha, inha...”. Mas e quando rolou toda aquela discussão do PNDH3? Quantas daquelas carinhas do vídeo estão na construção de políticas públicas que envolvem questões de gênero e sexualidade?

Acho esquisito essa coisa de um movimento que tem como “motivador” um caso ocorrido em outro país e fartamente divulgado por redes sociais. O nosso cotidiano não tem exemplos de violência contra as mulheres que serviriam de “estopim” e fizesse as pessoas lotarem as ruas? A Marcha das Vadias é algo político ou um fenômeno “hype”? Eu protesto pelo fato de realmente querer transformar uma realidade, ou sou mais um ser “cool” brincando de agir a la super homem “Nietzscheano”?

Não quero parecer conservador, até mesmo porque, como já disse, antes uma centena de pessoas agindo “hypemente” do que parada em casa. Até mesmo, como bem dizia um dos “três porquinhos” da sociologia, a revolução nasce da práxis. Não é que dali nascerá algo revolucionário, mas com certeza os laços que foram criados podem servir para gerar sinergias que levem a práticas contestatórias com maior impacto na esfera política.

Mas o grande problema é esse: achar que aqueles estudantes são o ápice da contestação. Nos últimos anos, vários foram as movimentações estudantis... mas nunca receberam apoio dos professores. Agora, meio que por castigo, as mazelas do REUNI começam a tirar o sono de alguns acadêmicos. Mas e quando os estudantes lotaram a reitoria? E a questão do R.U.? (Só para citar algumas ocorridas no seio da própria UFPE).

Sobre o vídeo, me incomoda a exposição negativa, de forma desnecessária das pessoas. Será que se fosse um policial falando aquilo os responsáveis pelo vídeo lançariam as imagens? Eu aposto que não.

Protesto "hype" é bom, mas não acredito que o caminho seja por aí.

Cynthia disse...

Oxe! Pois eu achei o grito de guerra do "inha, inha..." super liberador e se não fosse aquele ambiente rabelaisiano, jamais teria tido dito aquilo. Acho que da próxima vez que estiver estressada, vou cantar essa musiquinha. O elevador do CFCH quebrou? Inha, inha, inha! O trânsito tá uma droga? Inha, inha, inha! É catártico! Melhor que terapia reichiana.

Brincadeiras à parte, não há como professores e alunos estarem sempre do mesmo lado nos protestos na universidade. Os interesses nem sempre são os mesmos, a informação sobre o funcionamento da universidade é diferente, a postura exigida na instituição é diferente e a responsabilidade em relação a ela também. No que diz respeito ao Reuni, por ex., muitos professores se mobilizaram, mas por meio de outros canais, muitos deles inacessíveis aos alunos. Por outro lado, movimento estudantil é um movimento dos estudantes. Uma coisa é os professores apoiarem; outra é achar que fazem parte dele. A pluralidade é uma coisa boa no que diz respeito à democracia.

Em relação ao vídeo, não senti exposição negativa ou desrespeitosa de ninguém. Reitero que gostei bastante.

Abç

Anônimo disse...

Mais uma vez como anônimo...

concordo contigo: não é em toda frente que vc pode ter professores e estudantes juntos.

[]s