domingo, 21 de julho de 2013

Aceleração e Congestionamento: notas sobre o sentido político e existencial da resistência à velocidade na contemporaneidade (1.1)




Jonatas Ferreira

Que eu saiba, devemos a Paul Virilio a constatação certamente contundente de que a aceleração, a velocidade se tornaram elementos políticos centrais na reprodução do capitalismo. Para ele, a capacidade de determinar o ritmo das sociedades contemporâneas em suas dimensões cultural, econômica, existencial, biológica etc., e não a mera ocupação de territórios, seria o fundamento da dominação política nos dias atuais. Num contexto de proliferação da informação e de inovação tecnológica, a dominação deve ser analisada como fenômeno dromopolítico. "Assim, a guerra e a política não são mais travadas pelo controle e ocupação do espaço, mas pelo comércio do e no tempo" (Virilio, 1996, p. 13). Algumas páginas adiante, ele observa em um tom algo apocalíptico: "A inteligência dromocrática não se exerce contra um adversário militar mais ou menos determinado; ela se exerce como um assalto permanente ao mundo e através dele, como um assalto natureza do homem" (Ibid., p. 69). No que concerne ao pensamento ocidental, a questão da natureza do homem como Heidegger e Derrida nos ensinam, é um tema sensibilíssimo. Refletir sobre o quanto podemos acelerar o metabolismo de nosso organismo, sobre nossa capacidade de dar respostas às demandas sistêmicas do capitalismo pode ser uma forma interessante de recolocá-la. O quanto aguentamos sem que nos desumanizemos? Evidentemente, se buscarmos uma abordagem mais ampla do tema da aceleração, constataríamos que o pensamento moderno oferece uma rica trajetória teórica até que os conceitos de dromocracia, de dromopolítica definam aspectos tão essenciais de nossos envolvimentos técnicos com a realidade. Hermínio Martins, no recente Experimentum Humanum, de 2013, proporciona uma excelente revisão bibliográfica embora bem mais que isso seja ali oferecido - relativa ao conceito de aceleração nas sociedades modernas. Neste livro aprendemos que, no alvorecer do século vinte, "o historiador norte-americano Henry Adams falava de uma 'lei da aceleração' governando a história ocidental" (p. 305). Mais especificamente, tratava-se ali de uma aceleração promovida pela sucessão de tecnologias cada vez mais sofisticadas. A economia também se mostrou um solo fértil para refletir sobre esse conceito. Staffan B. Linder, em The Harried Leisure Class, ao tratar da aceleração do consumo, é um dos inúmeros exemplos arrolados e discutidos por Martins da importância deste conceito neste campo – sobre o Experimentum Humanum falaremos em um próximo post.

Quando penso nas considerações de Virilio acerca do que chama dromocracia, sobre aceleração tecnológica e suas implicações políticas, parecem-me claros os perigos de uma análise por atacado, de uma teorização que, concentrando sempre em aspectos sistêmicos da reprodução capitalista, e da disseminação tecnológica, negligencia dados concretos de resistência às tendências dromopolíticas contemporâneas. Creio que essa observação se aplicaria a várias das contribuições analisadas por Martins. Curioso que, quando grandes teóricos falem da sociedade da informação, por exemplo, pensemos em Pierre Levy, tudo se passa como se computadores em questão nunca dessem pau, que muitos de nós não tivessem que conviver com o padrão de qualidade da Microsoft, por exemplo, ou que no Brasil as infovias não fossem tão cheias de buracos. Navegar no ciberespaço pode ser uma experiência cuja celeridade seria comparável aquela que eu, criança, e o leitor ou a leitora há de me perdoar o prosaico da analogia, apresentava ao pescar caranguejo com meu pai no mangue que existia entre a Iputinga e o Rio Capibaribe. Isso que parece evidente na periferia do ciberespaço, é um elemento fundamental para refletirmos sobre a aceleração tecnológica nos seus vários âmbitos. Recentemente, ao entrevistar uma psicanalista de origem argentina na cidade de São Paulo, Isabel Marazina, essa ideia me ocorreu, creio que no contexto das reflexões da própria Isabel: considerar o congestionamento, o engarrafamento uma dimensão essencial em qualquer formulação teórica sobre a aceleração. E isso aprendemos de modo muito simples com os problemas de mobilidade característicos da urbanidade brasileira. A aceleração dos indivíduos não conduz de modo irrevocável à celeridade sistêmica; pelo contrário, ela pode resultar em paralisação dos movimentos individuais. Uma conclusão semelhante pode ser tirada quando analisamos os postulados econômicos do liberalismo, caso a mão invisível da providencia não garantisse proporção e harmonia ao cosmos. Na dúvida de estar Deus morto ou vivo, o capitalismo aprendeu a se planejar minimamente, mas creio que o problema aqui se mantém mesmo diante da evidência de esforço macroeconômicos de  planejamento, sobretudo quando consideramos que o capitalismo pressupõe um reprodução global, ampla.

Evidentemente, diante do exposto acerca da mobilidade brasileira, ou quando pensamos sobre as diversas velocidades que compõem o ciberespaço, um pensar tecnocrático afirmaria a necessidade de um esforço racionalizador ainda mais robusto. Em princípio, nossas observações sobre este lado epimeteico - pois Epimeteu é aquele cuja ineficiência finda por ameaçar a existência da humanidade - da aceleração nada mais seria que falta de condições ou disposição racionalizadora. O fato de o ruído, a tendência à desorganização da matéria, ser um elemento inerente à própria noção de informação não deve nos desnortear acerca de nosso compromisso com esta última - e, evidentemente, com um mínimo de racionalidade. Se a presença de vírus eletrônicos parece estar associada ao próprio fluxo informacional, não há dúvida que nossos esforços devem ser direcionados no sentido de uma limitação de seu poder entrópico. No que concerne ao problema de mobilidade no Brasil, bem sabemos que ela corresponde a interesses políticos bastante específicos e que, dessa perspectiva, ela é bastante racional. Pensemos nos termos em que são outorgadas concessões de exploração dos transportes públicos nas metrópoles brasileiras, ou perguntemo-nos por que razão uma mesma empresa pode prestar serviços de pavimentação tão ruins no Brasil e de excelência em outras partes do mundo. Do mesmo modo, a questão da aceleração e do congestionamento se torna mais interessante quando percebemos que um vírus não é um mero acidente técnico, mas um produto econômico e político - ele sempre nos remete aos interesses de quem o produziu ou aos interesses que contraria. Em todo caso, é com o poder e com a impotência que nos deparamos quando temos nossos sistemas invadidos, ou nosso arquivos infectados, por esses entes tecnológicos.

Assim, quando manifestantes hoje ocupam ruas e avenidas de grandes cidades no Brasil, na Turquia ou no Egito, é a suposta inevitabilidade da aceleração, ou seja, a contestação de um padrão de hegemonia dromocrática, que entra em pauta. Independentemente de esses manifestantes terem ou não como objetivo explícito de seus protestos uma 'slow life',  'slow city - isso quase nunca é o caso, aliás - o controle da velocidade constitui parte da pressão política que exercem quando lutam por melhor saúde, menos corrução, mais recursos para a educação etc. Se há aqui uma capacidade clara de produzir um evento político contra-hegemônico é porque existe a percepção de que essas vias são economicamente sensíveis e porque implicitamente se assume que o controle do fluxo nestes espaços constitui um ato político crucial. Se, em algumas dessas manifestações, e aqui nos reportamos especificamente ao caso brasileiro, a lentidão do trânsito nas grandes cidades aparece como tema mais visível das próprias paralisações afinal a maioria de nós quer transportes públicos de melhor qualidade, um trânsito mais racional, ruas em bom estado de conservação -, não devemos esquecer que o controle da aceleração aqui surge, de forma contundente, como tema político. Impedir o fluxo normal da Avenida Paulista, por exemplo, demanda uma compreensão política clara do sentido econômico de tal paralisação.

Há poucos anos, Maria Rita Kehl publicou um livro muito interessante sobre aspectos psicológicos envolvidos na aceleração da vida. Em O Tempo e o Cão, aprendemos que a depressão que hoje afeta a vida de uma parte considerável da vida dos indivíduos que vivem nos grandes centros urbanos - e, evidentemente, não apenas nestes grandes espaços, como pode atestar as estatísticas de consumo de substâncias psicoativas da pequena cidade de Itacuruba pode ser entendido como um depoimento político, independentemente de termos aqui uma ação política. Diante daquilo que Benjamin chamaria de empobrecimento da experiência, alguns indivíduos produzem algo que, da perspectiva da manutenção do sistema, seria considerado um ruído. Esses indivíduos simplesmente mostram uma inapetência constrangedora com respeito aos produtos que a vida quotidiana disponibiliza. Tomando de empréstimo o argumento de Pierre Fédida, e sua psicanálise de base fenomenológica, Maria Rita Kehl afirma: "A depressão é a expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado" (2009, p. 22). Em oposição à mobilização constante dos recursos demandada pela dinâmica do consumo, da inovação tecnológica, o indivíduo deprimido parece colocar em questão e em evidência o próprio empobrecimento da experiência ao recusar um compromisso com um mundo constantemente desvalorizado pela dinâmica da aceleração. Contra a velocidade vertiginosa e a mobilização de todos os entes, o deprimido em sua inapetência com respeito à realidade que o cerca impõe a temporalidade do inconsciente, a temporalidade de um "tempo que não passa". E o tempo não passa, primeiramente, porque os eventos se sucedem sem que nada possa alcançar uma significação especial. Nada se destaca no contexto da da sucessão dos fatos, nada pode constituir um evento. Para Fédida, assim, o estado depressivo, num certo sentido, deve ser entendido como constitutivo da própria psiquê: sem a ilusão deste tempo imobilizado não há propriamente subjetividade. Como bom fenomenólogo, para ele o acesso às estruturas mais fundamentais de nossa subjetividade só ocorre quando a atitude natural diante da realidade é colocada em suspensão, quando o mundo em sua funcionalidade, em seu ser-para-a-mão, diria Heidegger, é colocado em questão. "O melancólico ficou preso em um tempo morto, um tempo em que o Outro deveria ter comparecido, mas não compareceu. Já o tempo morto do depressivo funciona como um refúgio contra a urgência das demandas de gozo do Outro. Em seu refúgio, o depressivo tenta se poupar do imperativo de satisfazer o Outro; no entanto, quanto mais ele se esconde, mais fica a mercê Dele" (Ibid., p. 21).

Mas a depressão é uma experiência de sofrimento excruciante e ninguém, em sã consciência, desejaria colocar em suspensão seus compromissos simbólicos com o mundo, mesmo empobrecido, a um custo tão alto. A psicanálise é pensamento trágico, é pathei mathos, ou seja, acredita no aprendizado pelo sofrimento. Basta que retornemos ao Mal-Estar na Civilização, por exemplo.  Na edição lançada recentemente pela Companhia das Letras, lemos o seguinte trecho desta obra: "O programa de ser feliz, que nos é imposto pelo princípio do prazer, é irrealizável, mas não nos é permitido - ou melhor, não somos capazes de - abandonar os esforços para de alguma maneira tornar menos distante a sua realização" (p. 40). Como alternativa a esse pensar, e seu penar inerente, as dificuldades de manter compromissos com o simbólico podem ser apenas contornadas. Neste caso, também a lógica racionalizadora, a lógica técnica da performance com um valor em si, pode constituir uma alternativa. A força política da indústria farmoquímica, neste sentido, atende a necessidades sistêmicas amplas: sem o controle do metabolismo dos corpos, de seus humores, como continuar acelerando e produzindo? Em todo caso, aqui também a relação entre aceleração e paralisia proporciona um ângulo importante a partir do qual poderíamos pensar no que Virilio chama de "assalto à natureza do homem". Trata-se de um problema tanto mais delicado quanto venhamos a nos dar conta de que o ser humano não tem uma "natureza" e que seu ser no mundo se abre sempre de modo técnico. É essa constatação que permite refletir sobre o que tolerável e o que não, o que deve ser considerado como "empobrecimento da experiência", e o que não deve, reflexão que deve, segundo penso, sempre mobilizar a ideia de democracia.
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3 comentários:

Le Cazzo disse...

Suponho que o(a) leitor(a) eventual deste texto irá encontrar mais erros de digitação do que usualmente encontra em meus textos. Por algum motivo, o editor de texto que uso substituiu todos os "ç", acentuações etc., por caracteres chineses - se é que o meu mandarim anda em dia. Substitui tudo umas duas ou três vezes, mas o problema recorria. Publiquei da melhor maneira que consegui. Jonatas

Alyson Freire disse...

Olá, prof. Jonatas

Texto instigante, sobretudo os últimos parágrafos. Duas coisas vieram a mente lendo o seu texto:

Primeiro, talvez por ter lido recentemente A Solidão dos Moribundos, de Norbert Elias: de que modo e de que maneiras a aceleração da vida altera ou lida com o problema da finitude? Apesar de todos os "avanços" na manipulação da "natureza do homem", o ser-para-morte continua como possibilidade inevitável. Evidentemente, o tempo e a temporalidade são fatores fundamentais na forma culturalmente peculiar pela qual o homem enfrentar a irreversibilidade do seu curso até a última parada, sua morte. Em certo sentido, o pensamento metafísico em geral respondeu a esse o problema do ser-para-morte, da vida que se encaminha progressivamente para o seu irrefreável desfecho, numa chave que é, também, a do tempo e sua aceleração. No caso, anular a aceleração do tempo pelo recurso simbólico ao imóvel dos túmulos, jazigos e do próprio tempo pela eternidade cristã. Além do mais, nesse contexto, parece-me, a morte produz experiência no sentido de Benjamin, pois produz narrativa.

Pois bem, e num chamado mundo pós-metafísico, pobre em experiência e definido pela aceleração superexcitada? Qual é o nosso "racionalismo específico", para falar como Weber, nessa questão da finitude.

A segunda coisa, foi que, nos últimos parágrafos, lembrei de uma filósofa chamada Beatriz Preciado (Teoria Queer). Entre outras coisas, ela busca realizar a genealogia do que chama do dispositivo fármaco-político da produção do gênero durante o século XX. Os gêneros são produtos, entre outras coisas, de tecnologias políticas farmacológicas: pílulas, hormônios, etc.. Ela insere a farmacologia no que se refere a produção das diferenças de gênero sob o signo do biopoder - embora ela chame de tecnopoder. Da mesma maneira, ela possui uma preocupação de relacionar este dispositivo com o capitalismo e seus imperativos funcionais, que chama de heterocapitalismo. Enfim, tenho algumas restrições a abordagem dela, mas é um trabalho interessante de problematização da farmacologia. Abraço,

Le Cazzo disse...

Caro Alyson,

Obrigado por seus comentários - sempre oportunos. Gosto também dos parágrafos finais desse pequeno texto e é por ali que pretendo ampliá-lo. Quanto a Beatriz Preciado, não conheço o seu trabalho. Foi bom você tê-lo mencionado. Vou adquiri-lo e depois conversamos a respeito. Um forte abraço. Jonatas