"Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate": Isso é um blog de teoria e de metodologia das ciências sociais
terça-feira, 13 de março de 2012
Os Intelectuais e seus Compromissos Sociais: uma reflexão sobre responsabilidade
A pedido d@s estudantes do Curso de Ciências Sociais, a mesa redonda programada para o dia 14 de março foi adiada para o dia 29 de março (sexta feira). A ideia é que a discussão possa ocorrer em local que comporte um número maior de pessoas do que a sala de seminários do PPGS. Abaixo, o novo convite, que inclui a participação do D.A. de Ciências Sociais:
Mesa Redonda
OS INTELECTUAIS E SEUS COMPROMISSOS SOCIAIS: Uma reflexão sobre a responsabilidade
Silke Weber
Luciano Oliveira
D.A. de Ciências Sociais
Data: 29/03/2012 (quinta-feira)
horário: 18:00 h.
local: AUDITORIO DO CFCH/UFPE
sexta-feira, 9 de março de 2012
Anti-Realismo e os chamados “Estudos”
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| A reconstrução de Berlim |
O texto abaixo consiste num excerto da introdução do novo livro de Frédéric Vandenberghe, cujo título (provisório?) é Bhaskar etc.: Essays in Realist Social Theory. Sua proposta geral é a de um “realismo metacrítico” (uma elisão entre o “realismo crítico” e a “filosofia da metarrealidade” de Roy Bhaskar), ou um ponto de transição entre a teoria crítica e a desconstrução, por um lado, e a reconstrução, por outro. Embora tenha cá minhas dúvidas de quão bem-vinda será essa proposta por grande parte dos realistas (por Bhaskar, em particular), a necessidade dessa transição já havia sido sugerida pela canadense Carrie Hull (The Ontology of Sex). Falta a Hull, entretanto, o fôlego teórico e filosófico de um Vandenberghe e que possibilite transformar essa intuição em um programa de pesquisa consistente. Ou, talvez, lhe sobre aquilo que, num momento de raro mau-humor, Frédéric poderia atribuir à sua inserção nos “Estudos”. Pouco importa. Para mim, que também me interesso por uma crítica aos pós-ismos que não jogue fora o bebê com a água do banho, o trecho em questão revela não apenas o tipo de contribuição que uma abordagem realista poderia trazer para a teoria social, mas também, por meio de sua ironia fina, o prazer de pensar e de escrever que deveria orientar o trabalho de qualquer intelectual. A “traíção” do texto em inglês foi feita por mim. [Cynthia Hamlin]
Por Frédéric Vandenberghe
Ao mesmo tempo em que nossos sociólogos neoclássicos apresentavam suas teorias gerais do mundo social, o posmodernismo apareceu na cena e tornou-se a febre do fin de siècle. As raízes do posmodernismo encontram-se na crise intelectual do marxismo ocidental. Como sintoma de seu tempo, expressa uma descrença geral nas filosofias da história que prometem um futuro radiante e, no entanto, são cúmplices da perpetuação do presente. O posmodernismo recusa toda referência a “mecanismos causais” subjacentes que produzem os fenômenos, a “estruturas profundas” que controlam os eventos ou a “grande narrativas” que dirigem a história. Ao evitar a profundidade e promover a superficialidade, prende-se à superfície das coisas e textos, coisas-como-textos, e vagueia-se por lá. Apesar de sua denúncia reiterada de todos os discursos de autoridade, baseia-se fortemente em uma série de injunções antifilosóficas que vão de encontro ao espírito do realismo crítico: “Não deveis tecer grandes narrativas históricas, construir grandes retratos societais, entreter grandes ideais utópicos ou pensar profundos pensamentos filosóficos” (Hoy and McCarthy, 1994: 218).[1]
Com o benefício da retrospecção, agora podemos entender o posmodernismo, que começou como um movimento na arquitetura e nas artes (Connor, 1989), como uma tentativa sistemática de trazer questões estéticas de representação para a filosofia, em geral, e para a epistemologia, em particular. Quando esse tema estético, que considera toda representação como uma versão possível da realidade, é estendido para as ciências, a ontologia desliza para uma “filosofia decorativa”[2]: a realidade não é um pressuposto da ciência, mas um ‘pro-jeto’ e um ‘pro-duto’ de suas representações. Assim como ocorre nas artes, considera-se que os discursos científicos (textos sem autores) “performam” as realidades que supostamente descrevem. De acordo com os posmodernistas, por baixo do discurso, fora do texto, nas entrelinhas, não há nada, senão texto. Nada além de textos, discursos e signos que proliferam e se disseminam. Desconstruída e destruída, a realidade (sem aspas) é textualizada e reaparece como “realidade”. De acordo com os aftermodernists a realidade é, no melhor dos casos, uma Ding an sich [coisa-em-si] a que ninguém tem acesso; no pior, uma reificação do discurso que se apresenta como natureza e, dessa forma, proíbe a proliferação de outros discursos e a realização de outros mundos.
Neste ponto, onde o realismo é rejeitado como uma ordem restritiva às margens da criatividade, o estético torna-se político. Para os posmodernistas, toda afirmação científica e filosófica deve ser lida e decodificada como uma afirmação política. Isso pode não ser sempre uma postura consciente dos próprios autores, entretanto ela é apropriada pelo radical do campus a fim de exibir seu progressismo e sua correção política. Nas leituras textuais, politizadas, da “realidade”, sempre há um subtexto político que é reprimido e que pode ser encontrado nas margens, possibilitando que se releia o cerne do texto de uma perspectiva oposta. Os posmodernistas saúdam a proliferação de textos como um ato transgressor de liberação. Quando a inclusão universal é recodificada como uma forma de exclusão da particularidade, a ‘jaula de ferro da razão’ começa a desmontar nas emendas. Visões alternativas da realidade revelam mundos diferentes daqueles que as versões hegemônicas da realidade permitem. Quando a hegemonia é então invocada como uma força repressiva que inibe a proliferação de mundos, a injunção só pode ser a de se recusar o Um, liberar os Muitos e dar voz ao Outro da Razão.
Muito frequentemente, as leituras politizadas que os posmodernistas fazem da prática científica levam a uma confusão entre os registros político e filosófico – como se a correção política pudesse se sobrepor a correção epistêmica! Quando os textos científicos são lidos como qualquer outro gênero, a distinção entre ciência e literatura entra em colapso. Do ponto de vista do realismo crítico, a confusão de registros e de gêneros tipicamente inverte epistemologia e ontologia. Em vez de considerar visões alternativas da realidade como diferentes visões da mesma realidade, a distinção elementar entre descrições do real e aquilo a que elas se referem é desconstruída, com o resultado de que o elo que liga as interpretações à realidade é rompido e o relativismo pode proliferar à vontade. Qualquer coisa vale. Tudo é uma questão de interpretação (e, como Nietzsche complementaria, “interpretações de interpretações”). O posmodernismo não apenas dispensa uma teoria da [verdade como] correspondência, ele também exclui explicitamente as teorias discursivas da verdade. Sem um compromisso com o diálogo, a discussão e o consenso, a ‘fusão de horizontes’ que marca toda tentativa genuína de compreensão é negada. Entre diferentes comunidades linguísticas, não há ponte. Apenas diferença, incomunicabilidade e incomensurabilidade. Se Habermas e Giddens introduziram a hermenêutica nas ciências a fim de delimitar o âmbito das ciências naturais, os posmodernistas universalizam a hermenêutica para além dos seus limites, com o resultado de que as ciências naturais são agora vistas como uma sub-área das humanidades.
Não obstante as aparências, o ‘pós’ de posmodernismo, pós-estruturalismo e outros pós-ismos não é tanto um marcador temporal, mas espacial. O prefixo indica o que acontece à “teoria francesa” (Cusset, 2005) quando ela atravessa o Atlântico e a filosofia decorativa adentra os departamentos americanos de literatura comparada. Quando o mesmo processo de deslocamento ocorre nas ciências sociais, os vários pós-ismos da filosofia dão origem a uma rapsódia de investigações pós-disciplinares acerca do nexo poder/discurso – os chamados ‘Estudos’, que entram em competição direta com as ciências sociais e podem mesmo desarranjá-las (como evidenciado pela crise da antropologia). O impacto do marxismo cultural de Gramsci e da genealogia de Foucault nos chamados ‘Estudos’ não podem ser subestimados.[3] Seja como estudos culturais, de gênero, de raça ou qualquer outro “Estudo” derivado de um pós-ismo, como os estudos subalternos, diaspóricos e pós-coloniais, por ex., a variedade de sociologias e antropologias decorativas geralmente exploram e expõem a conexão entre discursos, poder e práticas. Essa combinação de ênfase estruturalista em discursos, genealogia foucauldiana e práticas wittgensteinianas tornou-se tão comum que ela poderia ser considerada como o “novo consenso ortodoxo”. Por meio de uma generalização e concatenação das leituras de suspeição de Marx, Nietzsche e Freud (ou Bourdieu, Foucault e Lacan), os discursos, os textos e as imagens são reconduzidos à realidade de base da violência que expressam, assim como da que escondem. Representações da realidade na linguagem não propriamente reprimem, mas produzem os sujeitos cognoscentes e os objetos de conhecimento enquanto objetos que são “aclamados” por discursos que os trazem à existência e assujeitados pelo trabalho sutil da governamentalidade e do poder. O ponto central do exercício interpretativo dos ‘Estudos’ parece consistir em uma exposição de como classe, gênero e/ou raça aparecem e se intersectam nas rachaduras e fendas do discurso. Uma vez que o subtexto do poder é des/coberto, o autor geralmente revelará pistas de outras vozes que esperam ser liberadas das margens do texto. Por meio da identificação com o outro excluído que pressiona contra o texto, o analista pretende subverter seu centro e, dessa forma, apressar a morte do Iluminismo. O impulso para liberar o Outro da Razão e mover-se para além das armadilhas do pensamento identitário não é, no entanto, necessariamente regressivo. As revelações sobre alteridade efetuadas por Derrida, Levinas e Judith Butler estão em sintonia com as lembranças de Adorno acerca da mimesis. Há, aqui, uma voz genuinamente ética que deve ser ouvida (Honneth, 2000: 133-170). Mas, frequentemente, a indignação moral e a denúncia política que têm se tornado a marca dos ‘Estudos’ funcionam apenas como uma justificativa velada do ressentimento e da raiva. Neste sentido, os chamados ‘Estudos’, embora venham de uma tradição diferente (os estudos culturais britânicos e o pós-estruturalismo francês), podem de fato fingir continuar a teoria crítica, embora sem a sofisticação filosófica da primeira geração da Escola de Frankfurt, do compromisso moral da segunda e do compromisso com a análise sociológica da terceira.
Referências
CONNOR, Steven. 1989. Postmodernist Culture: An introduction to theories of the contemporary. Cambridge: Basil Blackwell Inc.
CUSSET, F. (2005) French Theory. Barcelona: Editorial Melusina.
HONNETH, Axel (2000). Suffering from indeterminacy: an attempt at a reactualization of Hegel's Philosophy of right : two lectures. Amsterdam: Van Gorcum.
HOY, David C.; McCARTHY, Thomas (1994). Critical Theory. Cambridge, MA: Blackwell.
ROJEK, Chris; TURNER, Bryan (2000) Decorative sociology: towards a critique of the cultural turn. The Sociological Review 48 (4), Nov. pp. 629-648.
VANDENBERGHE, Frederic (2006). L'aftérologie et le décalogue de la déconstruction. X-Alta, v. 9, pp. 195-206.
Notas
[1] Para o Decálogo da desconstrução, veja também Vandenberghe, 2006.
[2] A frase ‘filosofia decorativa’ é adaptada da crítica de Rojek e Turner (2000) à ‘sociologia decorativa’, termo que eles usam para se referir a “uma vertente da estética modernista devotada a uma leitura textual e politizada da sociedade e da cultura”.
[3] Gramsci foi, claro, a referência central de Stuart Hall, assim como de Ernesto Laclau e de Chantal Mouffe. Enquanto Hall é a figura fundadora dos estudos culturais britânicos (que se metamorfoseou em posmodernismo quando chegou aos EUA), Hegemony and Socialist Strategy (não-traduzido e desconhecido na França), que formaliza a lógica da inclusão/exclusão, é considerado o clássico do pós-estruturalismo. O que quer que tenha restado dos estudos culturais originais fundiu-se agora com os estudos sobre governamentalidade. Os estudos de subalternidade indianos também se basearam em Gramsci, mas quando começaram a se misturar com o pós-colonialismo de Said e chegaram à cidade de Nova York deram uma virada posmoderna decisiva.
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segunda-feira, 5 de março de 2012
Um livro necessário
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| Sand, Shlomo. A Invenção do Povo Judeu. São Paulo, Benvirá, 2011, 573 pp. |
Por Gadiel Perrusi - Professor aposentado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE
Shlmo Sand é historiador e professor da Universidade de Tel-Aviv. Ativista da esquerda israelense, integra a nova escola historiográfica e arqueológica surgida nos anos de 1980, em Israel, que tem revolucionado os estudos científicos sobre o povo judeu, suas escrituras sagradas e, do ponto de vista político, questionado o estabelecimento e a consolidação do Estado de Israel no Oriente Médio.
A Constituição de Israel afirma o direito sagrado dos judeus em ocupar – ou reocupar – grande parte do Oriente Médio em função da promessa divina que lhes fizera Jeová, há cerca de três mil e quinhentos anos. Trata-se da célebre aliança entre Abraão e Jeová sobre a propriedade do território de Canaã, a Grande Promessa confirmada em Isaac, Jacó, Moisés e tantos outros personagens bíblicos, bem como coletivamente ao povo judeu através de inúmeras passagens alternativas.
Na verdade, é isso o que diz a tradição judaica. Tanto quanto, aliás, a própria tradição cristã.
O povo judeu teria sido expulso e exilado do seu país, tendo, portanto, o direito de retornar ao seu antigo território mesmo que tais expulsão e exílio houvessem ocorrido na Antiguidade. O último registro data da revolta de Bar Kokhba, em 132 E.C (Era Comum).
É a famosa Diáspora, a primeira tendo ocorrido sob o império babilônico-persa, a partir do Século VI A.E.C (Antes da Era Comum).
E esse é o fundamento para a criação de um estado etnocentrista como Israel. Um estado-nação “dos judeus de todo o mundo”, no qual somente pode ser cidadão quem puder provar que é judeu.
Os árabes sob a jurisdição israelense, por exemplo, não podem ser cidadãos plenos.
É como se, ad absurdum, nossos indígenas apresentassem à ONU um pedido de reintegração de posse e de soberania sobre todo o território brasileiro sob a alegação de que eles já o ocupavam pelo menos há doze mil anos antes da chegada dos europeus. Com isso, estariam reivindicando a formação de um Estado Nacional indígena - tupi-guarani, tamoio, caetés ou seja lá o que fosse - que deveria se estabelecer soberanamente por estas plagas.
Não importa se Tupã, Guaraci, Jaci ou qualquer outra divindade assim lhes houvessem prometido.
A primeira parte do livro de Shlomo Sand concentra-se nos conceitos de povo, nação e estado nacional tais como a Ciência Política atual vem estatuindo. Nada de novo por aí.
As novidades começam na análise da obra de intelectuais judeus que, ao longo do século XIX e primeira metade do XX, paulatinamente, vêm construindo ou reconstruindo os conceitos de povo e de nação aplicados aos judeus europeus, especialmente os do leste. Tais conceitos formaram o embrião do sionismo e, depois, toda a base filosófica e política do retorno à Eretz Israel, especialmente frente a imperdoável barbárie nazista. Bem como à própria legitimação do moderno estado-nação israelense.
É o que o Autor chama de “A Invenção do Povo Judeu”.
A análise não deixa de ser interessante especialmente pela nossa ignorância da bibliografia judaica de quase duzentos anos. Na verdade, a grande questão subjacente a toda essa exuberante literatura poderia ser resumida numa só expressão: a questão judaica.
Questão, diga-se de passagem, criada, alimentada e envenenada pelo próprio Cristianismo, em especial pela ICR.
E é difícil ignorar que o antissemitismo cristão parte de uma ideia absolutamente original, isto é, que o povo judeu é culpado de “deicismo”.
E, por azar, mataram logo o deus cristão!
Contudo, não temos até ai, muita originalidade científica. São assuntos discutidos largamente em todas as épocas, pelo menos no mundo cristão e, ao que parece, não há muito mais a acrescentar à extensa bibliografia produzida.
Nesse momento, no entanto, entra a nova escola historiográfica israelense. E o restante do livro, mais de sua metade, torna-se simplesmente arrasador.
Em primeiro lugar, com a exposição crítica dos textos bíblicos e do ensino oficial israelense, totalmente baseado na Bíblia. Na verdade, um fundamentalismo mais agudo e entranhado do aquele encontrado nos Estados Unidos da América.
A Bíblia, ─ leia-se, o Antigo Testamento ─ em quase todos os sentidos, tinha razão. Pelo menos, para o Ministério da Educação de Israel.
Segue-se, no livro de Sand, a desconstrução das Sagradas Escrituras nos pontos mais significativos, em especial na sua teologia monoteísta exclusivista, criada por uma elite intelectual judaica sob o domínio babilônico e fortemente influenciada pela cultura persa e, depois, pelo helenismo.
Um monoteísmo tardio, portanto.
Nos relatos históricos, também. E não foram poupados os patriarcas judeus como Abraão, Jacó, Moisés, Josué, entre os mais votados fundadores dos antigos judeus (que o Autor prefere chamar de “judaenses”, para distingui-los dos modernos judeus).
Nem, tampouco, os ícones reais mais preciosos como, por exemplo, Davi e Salomão, criadores de um imaginário Reino Unificado que jamais teria existido. Pequenos e insignificantes monarcas de um pequeno e insignificante reino montanhoso como Judá.
Reis glorificados, cerca de 600 anos pos factum, pelos escritores bíblicos do exílio e do pós-exílio babilônico e assim repassados a toda a cultura posterior, inclusive e, principalmente, à nossa (V. Finkelman, Israel & Silberman, Neil Asher – A Bíblia não tinha razão - São Paulo, A Girafa, 2003).
Mitos, aliás, de um passado pouquíssimo glorioso. Salvo, fato excepcional, pela produção de uma riquíssima literatura histórico-teológica, cristalizada na Bíblia, e que se enraizou nos três sistemas monoteístas da atualidade, como se fosse uma verdadeira lavagem cerebral.
Contudo, um dos mais importantes objetos de estudo do livro consubstancia-se em outro mito recorrente entre os judeus modernos: a expulsão e o exílio da antiga Eretz Israel, isto é, as sucessivas diásporas.
Trata-se do mito do “judeu errante”, punido, segundo os cristãos, pelo assassinato de Jesus Cristo. Mito criado pelos cristãos e interiorizado pelos judeus modernos.
A desmistificação do “judeu errante”, na verdade, torna-se o centro da argumentação de Shlomo Sand. A jornada histórica em busca da autoconsciência do povo judeu é, a meu ver, brilhante do ponto de vista da erudição e da argumentação científica.
Em suma, não houve “diásporas”. Os milhares, ou milhões, de judeus espalhados pelo mundo, do norte da África com os bérberes, passando por toda a bacia mediterrânea até os confins do leste europeu, não passavam, de fato, de convertidos ao monoteísmo judaico que, especialmente a partir do regime hasmoneu (Século II A.E.C.), tornara-se missionariamente agressivo.
Pelo menos até o Século IV E.C., o judaísmo era muito mais numeroso e influente do que o cristianismo que só ultrapassa o primeiro, em número de fiéis, quando Constantino o escolhe como religião oficial do Império.
Em suma, o que tais grupos partilhavam era apenas a fé monoteísta do judaísmo e práticas litúrgicas comuns embora bastante diferenciadas.
Nesse caso, a bibliografia apresentada é, absolutamente, irrefutável.
A ênfase ao grupo dos khazares, por exemplo, na formação do “povo iídiche” (milhões de indivíduos), que sobreviveu por mais de quinhentos anos durante a Idade Média nos arredores de Kiev, não deixa de ser iluminadora para compreensão da consciência judaica ocidental.
O mito do “judeu errante” também determina o sentimento identitário dos judeus como povo e nação. Povo geneticamente herdeiro dos “judaenses”, proporcionando-lhe, portanto, uma identidade étnica.
Foram gastos, aliás, milhões de dólares em Israel em pesquisas genéticas a procura do “gene judeu”. Ironicamente, os judeus encontram-se com os nazistas na crença de uma “raça” de sangue.
Até o momento, o tal gene ainda não foi encontrado!
O brilhante estilo literário e a clareza da exposição científica da pesquisa de Shlomo Sand nos conduzem com serenidade, e quase aceitação, a um bloco de conclusões.
O Estado de Israel foi construído pela aceitação jurídica de mitos antigos, de mais de dois mil anos, sancionados pela ONU.
Os modernos judeus não são geneticamente herdeiros dos “judaenses”, isto é, dos antigos judeus. Tanto quanto os egípcios atuais nada têm a ver com Quéops, Quéfren e Miquerinos. Nem tampouco os italianos têm qualquer filiação étnica com Júlio Cesar, os franceses com Asterix - o gaulês - ou os gregos cristãos ortodoxos com Sócrates, Platão e Aristóteles.
Os modernos judeus têm em comum entre si apenas uma filiação de fé religiosa, originada do judaísmo rabínico tardio, construído a partir da E.C.
Por sob as aparências de um Estado Democrático de Direito, Israel seria, substancialmente, uma Teocracia disfarçada. A cidadania é restrita aos judeus, definidos como tal pelo rabinato que controla o seu Ministério do Interior. Consequentemente, a cidadania é derivada da ideologia religiosa dos sacerdotes. De fato, não há em Israel o Registro Civil, inexistindo o jus sanguinis e o direito de nascimento no território. Por isso mesmo, os árabes palestinos, mesmo tendo nascido em Israel, não são considerados cidadãos israelenses.
O Estado de Israel apresenta uma fragilidade política, inerente à sua própria formação, incompatível com um Estado Democrático de Direito. Ele exerce um colonialismo interno sob a população árabe residente e não pode, a longo prazo, se legitimar e aspirar à paz no Oriente Médio, enquanto não modificar suas bases ideológicas e políticas, tornando-se um Estado plural laico em que possam conviver, em pé de igualdade, cidadãos com ideologias religiosas diferentes.
A conclusão básica de Shlomo Sand é simples: Israel está a caminho de um desastre político, com gravíssimas repercussões internacionais, e sua sobrevivência, para além dos mitos fundadores, somente poderá ser assegurada com sua transformação num Estado Judaico-Palestino.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Monitoria em Fundamentos de Sociologia
Estou solicitando uma vaga para monitoria na disciplina de Fundamentos de Sociologia no Curso de Ciências Sociais (bacharelado). A disciplina será ministrada às segundas (16:00 - 17:50h) e quintas-feiras (14:00 - 15:50h) e um(a) monitor(a) será selecionado(a) com base nos seguintes critérios:
- análise do histórico escolar;
- análise de carta de intenções, justificando interesse na monitoria da disciplina em questão;
- disponibilidade para participar das aulas no horário definido acima.
De acordo com as normas da Proacad, são requisitos para a monitoria:
- ser estudante regularmente matriculado e cursando disciplinas em curso de graduação da UFPE;
- não ter concluído nenhum curso de graduação ou habilitação do curso;
- ter cursado e obtido aprovação na disciplina a que se refira a monitoria ;
- não apresentar histórico escolar com reprovação não recuperada;
- ter disponibilidade de 12 horas semanais para as atividades de monitoria.
O histórico e a carta de intenções devem ser enviados para o meu email (cynthiahamlin@hotmail.com) até as 12:00h do dia 29 de fevereiro. O resultado da seleção será divulgado entre @s interessad@s no dia 02 de março, até as 18:00h.
Cynthia Hamlin
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
A BORRACHA DA “ESQUERDA” PERNAMBUCANA E O SILÊNCIO INTELECTUAL
Por Wellthon Leal
No dia 20 de janeiro de 2012 estudantes e trabalhadores se encontraram em frente ao histórico Colégio Pernambucano, para protestar contra mais um aumento de passagem do transporte “público” do atual governo de Eduardo Campos. Para surpresa de todos os manifestantes presentes, no momento em que caminhávamos em direção ao palácio do Governador, a tropa de Choque lançou bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e spray de pimenta nas pessoas que participavam do ato pacifico. Foram atingidos desde pessoas que passavam nas ruas a cadeirantes e idosos que estavam no ato protestando lado a lado.
Sobre esse primeiro ataque do Estado “legítimo”, vale lembrar a montagem inescrupulosa que a Rede Globo Nordeste fez, ao filmar um estudante revidando aos ataques do Choque com uma pedra, acusando durante o Jornal Nacional de ter “atacado” um grupo de 50 homens, armados com escudos e capacetes, e a força policial teria simplesmente reagido ao ataque dos “violentos” estudantes. Uma discussão sobre a mídia seria realmente interessante a ser feita não apenas desse episódio como em toda repercussão que a mídia tem feito em relação aos protestos recentes que tem ocorrido no Recife. Se bem que isso não é o foco do que pretendo discutir aqui, mas acho fundamental olhar para a repercussão midiática, com atenção para sinalizar e compreender de melhor maneira o que ocorre de fato com a movimentação política no Estado de Pernambuco.
O outro episódio sabido por todos, sobretudo os acadêmicos da UFPE, foi após a dispersão dos manifestantes que iam ao palácio do governo; esses se refugiaram na Faculdade de Direito do Recife (FDR) como meio de dialogar entre si o andamento do protesto, já que ali num espaço sob jurisdição federal seria possível se refugiar dos PMs que estavam prendendo sem motivos algumas pessoas presentes no ato. Tentando dar andamento a manifestação, estudantes saíram da FDR, permanecendo em frente ao espaço federal para protestar.

Mas novamente a tropa de Choque atirou balas de borrachas em manifestantes porque estes estavam atrapalhando a ordem da cidade. Ao entrar na FDR, a surpresa pela violência policial continuou, o Choque jogou bombas dentro do espaço federal, e atirou em estudantes que estavam dentro da UFPE. Inclusive um aluno do Centro de Filosofia e Ciências Humanas foi atingido por uma bala de borracha no braço com uma distância pequena [1], outro manifestante foi socorrido por receber uma bala a curta distância no peito causando um sangramento intenso.
Estudantes em pânico e em choro gritavam contra a PM e se desesperaram ainda mais ao ver duas alunas da UFPE serem carregadas por PMs para serem presas porque estavam participando do protesto e não tinham conseguido correr para dentro da FDR. Ao assistir a cena, eu me indagava: como a Tropa de Choque fora autorizada pelo Governador para atacar um protesto pacifico? Como o Governador estava pouco se importando com as leis sobre liberdade de expressão, pelas quais tantas pessoas lutaram nesse país? Assisti uma cena de ataque a um espaço federal, algo que só ocorreu na ditadura, e assistia a isso assustado, tamanha a violência gratuita promovida pelo governador em quem votei.
Infelizmente a resposta dada pela Reitoria da UFPE sobre a invasão do seu Campus foi que “A DSI destaca ainda que, na área federal, não houve registros envolvendo manifestantes e servidores do CCJ/FDR e também não ocorreu dano ao patrimônio público, durante o episódio." Nota do Reitor Anísio Brasileiro [2]
Veja o vídeo do ataque a FDR:
Não é o que os jornalistas e 200 manifestantes dizem sobre o fato, e nem o que vídeos flagrantes do ataque do Choque mostram. Manifestantes foram, sim, atacados e atingidos dentro de um espaço federal. Ao ler essa nota do Reitor, me lembrei o quanto a preocupação política dos fatos vem tomando o lugar dos direitos básicos dos cidadãos.

Não apenas a atual gestão da UFPE tem feito vistas grossas à violência que ocorreu no dia 20 de janeiro, como também deputados da frente popular – a mesma que se considera “de esquerda” –, têm amenizado e acreditado nas versões manipuladas como a da Rede Globo Nordeste e do Diário de Pernambuco. Este último caracteriza que o problema de trânsito, cujos protestos causam, é mais impactante do que cobrar cerca de 170 reais mensais de trabalhadores do Recife num país cujo salário mínimo custa 622 reais, mas não indaga por que tanta gente usa carro e causa engarrafamentos.
As razões para se compreender o que se passa no Consórcio Grande Recife obviamente são menos importantes para parte da mídia, já que durante a reunião para se decidir sobre o aumento das passagens a imprensa não pôde acompanhar [5] e pouco se questionou a respeito. A liberdade de expressão de fato não apenas em Recife, como em todo país, é mediada pelo direito de o mercado pôr o que deseja na capa do jornal e pelos desejos dos partidos sejam de “esquerda” ou direita escolherem o que será destaque, além de que os partidos trabalham para garantir doações e acordos mais lucrativos para suas campanhas de manutenção de poder e aparelhamento do Estado. O povo é quem acaba sofrendo e recolhendo os resquícios que caem da mesa em que empresários e políticos tem se fartado.
A sociedade brasileira não questiona e não se indaga sobre os aumentos das tarifas dos transportes público. Esse fato só é problemático quando impacta na inflação de modo que atinja não apenas ao trabalhador que recebe 622 reais ou ao estudante que raramente tem uma bolsa de manutenção acadêmica, mas também aos que estão no alto do poder.

Portanto, segundo nossa sociedade, nossos partidos de “esquerda” e nossa mídia, a passagem cara é problema quando “baderneiros” (como bem diz a capa da Folha de Pernambuco de vide foto acima) saem às ruas para lembrar que não concordamos com a decisão que destina mais de 170 reais de cada trabalhador para as empresas de transporte público da Região Metropolitana do Recife, enquanto o:
“Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que o brasileiro teria que ganhar um salário mínimo de R$ 2.398,82, em janeiro, para suprir suas necessidades básicas, como alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. Ou seja, o salário mínimo deveria ser 3,86 vezes maior do que o que está em vigor - de R$ 622,00.” [3]
A Grande Recife Consórcio (Grupo de Empresas de ônibus) detém a concessão pública do Estado para transportar pessoas na RMR. O estranho e inquestionável por nossa sociedade, mídia, partidos de “esquerda” etc. é que essas empresas não competem entre si tal como pressupõe a concessão pública. Ao contrário, o termo “cartel” seria mais interessante de ser posto ao Grande Recife, visto que apenas quatro famílias e um vereador possuem 11 empresas de ônibus que representam quase toda a frota de transporte público na capital Pernambucana. O nosso governador tem questionado isso durante suas campanhas eleitorais, inclusive no vídeo que fala que faz parte da política de seu partido (PSB) diminuir os preços das tarifas. (vide vídeo) [4]
Vale lembrar que apesar da capa da Folha de Pernambuco mostrada acima várias vezes textos tanto no Diário de Pernambuco, como no Jornal do Commercio, a TV Jornal, a TV Tribuna e TV Clube apoiavam a causa e o protesto pacifico. Conversei com alguns jornalistas, inclusive ancoras nacionais que cobriam os protestos, e ouvia claramente que a direção do jornal alterava e moldava as matérias. A critica aqui se põe ao papel que a empresa midiática assume ao tornar o patrocinador mais importante que o leitor. Um exemplo interessante disse foi apresentador Cardinot que apoiou os estudantes e chegou até a divulgar os protestos nas rádios em que apresenta programas. É de se esperar que o diretorias de redação tenham sido chamadas atenção, caso que suponho ser da mesma capa da Folha de Pernambuco. (vide o vídeo de Cardinot no fim do texto).
Soledade sem Solidariedade
No dia 24 de janeiro, novamente a Policia Militar de Pernambuco atacou estudantes que estavam fazendo passeata pacifica na Avenida Conde da Boa Vista. Estive presente nos momentos de tensão e presenciei na Rua da Soledade a cena em que um PM dá uma chave de braço em uma garota de 14 anos e saca a arma de fogo para que ninguém se aproximasse dele.

Uma foto que comoveu o Estado e se espalhou pelas redes foi de uma estudante de Fisioterapia que estava indo almoçar e foi abordada por um PM que também lhe deu uma chave de braço. Entre gritos de desespero e sprays de pimenta (fui atingido diretamente no rosto por um spray quando tentava segurar uma garota que recebia um mata leão). A sensação de levar um spray no rosto é a pior possível, ficar sem enxergar é o mínimo diante da dor que toma conta do rosto, nariz, boca, olhos... É de fato desesperador.
Aos gritos, corri para não ser preso, coisa que, aliás, chegou a ser feita com a jornalista do Diário de Pernambuco Juliana Colares, que, ao ser vista por PMs tirando fotos da violência policial, recebeu voz de prisão e foi encaminhada ao carro da PM – após mostrar documentos que provaram que era uma jornalista é que ela foi liberada. Outras pessoas que estavam tirando fotos tiveram seus aparelhos confiscados por policiais.

A agressão era gratuita, as mulheres pareciam ser o alvo, e caso alguém tentasse impedir também seria agredido e preso – foi o meu caso, eis o motivo do spray no rosto e do estudante de Música que levou um murro no rosto e foi socorrido. Correndo em direção ao Derby avistei um PM agredindo uma garota e agarrando-a para imobilizá-la, cerca de 7 pessoas tentaram saber porque ela teria recebido voz de prisão, o PM com cerca de 1,80 de altura não respondia e apenas falava que queria levar ela para o carro. Indignadas, as 7 pessoas conseguiram após muita insistência arrancar a garota dos braços do PM.

Enquanto isso na Rua da Soledade outros manifestantes ofereciam flores a Tropa de Choque, como critica a violência gratuita promovida pelo Estado.
Lembro-me bem das palavras do comandante do Choque durante protesto da Marcha das Vadias ocorrido em 2011 em que disse: “Eu sou o ESTADO, tenho o poder e faço o que me mandam, não quero ninguém na rua e se não obedecer nós resolvemos!”. Minutos depois, um PM chama um manifestante de “frango”(sic).
Não apenas em Recife, mas também em Pinheirinho, em Fortaleza, em Teresina e outras capitais do Brasil, tem se visto a cada dia o poder, no qual o Estado se abarca, ser usado contra a própria população que questiona as políticas injustas aplicadas e também por cobrar promessas não cumpridas, como no caso do nosso Governador Eduardo Campos.
De fato, o que se percebeu no Recife é que os jovens através do Facebook conseguiram se articular sem a interferência da mídia. Partidos, organizações estudantis e estudantes não ligados a nenhuma “agremiação” propagaram o questionamento, sobre o que seria justo a ser pago por um transporte que deveria permitir a livre circulação de pessoas na RMR, e se indagaram sobre a desculpa de que a lógica de aumento e repasse através da inflação seria algo justo a ser cobrado.
Somos meros contribuintes para a riqueza das empresas da Grande Recife, obrigados a escolher se iremos comprar um feijão ou ir ao centro apenas com a passagem de ida. A péssima qualidade do serviço público de transporte no Recife se junta ao preço abusivo. Os que conseguem fugir disso se prendem em carros com ar-condicionado para aguentar horas de engarrafamentos nas vias recifenses.
Como se pensar em gerir um Estado repetindo dia a dia a lógica desenvolvimentista, a mesma que causa engarrafamentos insuportáveis dia a dia e joga cerca de milhares de carros diariamente? Ao invés de pensar como melhorar o sistema público e garantir de fato preço digno e justo para a população, a lógica empresarial vem em primeiro lugar, acima dos ideais morais de gestão pública.

Não foi a toa que as empresas boicotaram o projeto de implementação do Veículo Leve sobre Trilhos – uma espécie de metrô leve de superfície de alta tecnologia e pouco poluente que garantiria uma viagem no mínimo digna à população – que ligaria Cabo de Santo Agostinho até Igarassu. Para o Grande Recife Consórcio, esse investimento não valia a pena, porque obviamente seus lucros não teriam mais crescimento exponencial. Afinal é mais interessante lotar ônibus e cobrar R$2,15 ou R$3,25 do que garantir o direito do Estado pelo qual essas empresas foram nomeadas. O projeto foi engavetado dando lugar aos ônibus, é claro.
E os intelectuais com isso?
É com pesar e indagação que vejo parte da academia e dos intelectuais não manifestando a respeito, não apenas sobre a agressão que estudantes têm sofrido durantes os atos, como também pela censura que a Secretaria de Defesa Social tem promovido ao intimar pessoas que estavam organizando os protestos sobre alegação de estar formando “baderna” e também pessoas que manifestavam publicamente via Facebook apoio aos protestos.
Além disso, o não questionamento a respeito do nosso modelo econômico parece ter pairado na academia e nas discussões teóricas, e quando de fato alunos e a juventude vão aplicar nas ruas e nas redes de internet o que se pensa nas salas, são agressivamente reprimidos.
O silêncio de parte da intelectualidade acadêmica de Pernambuco incomoda os estudantes, os seus alunos de sala não apenas por saber que eles haviam passado pela mesma sala de aula décadas atrás, mas também pelo fato de que a solidariedade por vezes é silenciosa e até um ato de violência vista como algo “normal” de se ver no Brasil, alguns caem na relativização dos fatos.
Qual o papel do intelectual então? Ater-se aos ofícios burocráticos de fato é incômodo e preciso, mas quanto ao seu compromisso de construção de pensamentos, indagações que visem a construção e reflexão não apenas cientifica mas social, humanística. Enquanto alguns estudantes apanhavam nas ruas, por viver lá fora o que se escreve nas provas, por vezes não viram o apoio e indignação do que se passava no Recife vinda desses intelectuais.
A necessidade desse reconhecimento da luta e da mobilização social não é para que se ganhe legitimidade, não é para que se fixe a ideia da transferência na qual o status de intelectual garanta que o protesto é correto, mas sim para que se perceba que o que se passa nas ruas também é resultado desses mesmos intelectuais e também é fonte para que eles permaneçam a questionar e a construir o conhecimento. É como escrever os fatos e as digressões destes em momentos sociais cabíveis, entretanto não se lutar com/junto a eles e nem apoiá-los. Os manifestantes não queriam apenas que todos os intelectuais estivessem ali nas ruas junto a eles. Queriam, sim, manifestar que aquilo também lhes pertencia.
Como já se diz no livro em comemoração aos 150 anos do Manifesto do Partido Comunista de Coutinho et al (1998) [6], é preciso que os intelectuais abram suas janelas da sala, do escritório dos gabinetes e olhem para a transformação que ocorre no momento em que se está presente. Não é uma mera critica ao que alguns chamam de “academicismo” mas sim um aviso para os que se prendem em burocracias e questões intelectuais. Olhem para as ruas, vejam e presenciem e vivam para se sentir um intelectual de fato.
Aliás, se até Cardinot se emocionou...
Referências
1 – [http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=_XDpMcFgwhM]
2 – [http://www.ufpe.br/proext/index.php?option=com_content&view=article&id=1211:nota-a-comunidade-universitaria-sobre-episodio-envolvendo-estudantes-no-movimento-contra-o-aumento-da-passagem-de-onibus&catid=6&Itemid=122]
3 – [http://oglobo.globo.com/economia/salario-minimo-deveria-ser-de-239882-diz-dieese-3894268]
4 – [http://www.youtube.com/watch?v=ay0_1bSjrt0]
5 – [http://jconlineblogs.ne10.uol.com.br/deolhonotransito/2012/01/19/imprensa-nao-tera-acesso-a-reuniao-sobre-aumento-das-passagens/]
6 - Coutinho et al. Manifesto Comunista 150 anos Depois. São Paulo: Perseu Abramo, 1998.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Os Intelectuais e seus Compromissos Sociais: uma reflexão sobre responsabilidade
ADIADO PARA O DIA 29/03/12
Nós do Cazzo acreditamos que onde existe capacidade de indignação, mesmo quando não concordamos com seu modo de expressão ou com os princípios que a norteiam, existe salvação, é possível também uma reflexão que ilumine a todos. Somos iluministas, neste sentido. Por isso convidamos para a mesa redonda abaixo. Achamos que a presença do D.A. de Ciências Sociais seria muito importante (Wellthon, tentamos falar com você por telefone, mas não conseguimos). Prometemos colocar o nome do representante do D.A. na chamada, caso o nosso convite seja aceito. Jonatas e Cynthia
OS INTELECTUAIS E SEUS COMPROMISSOS SOCIAIS: Uma reflexão sobre a responsabilidade
Silke Weber
Luciano Oliveira
data: 14/03/2012
horário: 10 h.
local: SALA DE SEMINÁRIOS DO PPGS
Acreditamos que o debate possa tornar mais produtiva a discussão que, de algum modo, tem estado presente nos comentários ao último post. Um texto com o resultado da Mesa Redonda, por exemplo, poderia sair do nosso encontro.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Monopólio da Violência
Por Artur Perrusi. Roubado daqui.
Faz pouco, indignei-me com o que aconteceu na Cracolândia, aquele “tratamento” baseado na dor e no sofrimento; agora, a violência cometida em Pinheirinhos. Como estou viajando, não tenho tempo de comentar as conexões entre tais acontecimentos. Assim, recomendo a leitura desse texto (aqui).
Ao mesmo tempo, houve violência contra estudantes no Piauí e no Recife (aqui) – na terrinha, o “tratamento” dado aos estudantes foi realizado por um governo dito de centro-esquerda.
O monopólio da violência, paradigma do Estado Moderno, está sendo utilizado pela direita e pela esquerda. Nesse caso, o uso da violência é “técnico”, pois está embutido numa “formalidade jurídica”. O uso legal, assim, é neutro, porque elimina qualquer julgamento de valor; com isso, cria um permanente problema de legitimidade. É a imposição racionalizada da força (a razão pura da violência) , independentemente do regime de governo (sim, estamos numa democracia — diante de um cassetete, a democracia é “formal”). E o mais paradoxal é sua legalização jurídica, defendida como “direito” pelos governantes. É o direito da violência, cuja vítima não vale nada – há uma indiferença total quanto às consequências do uso do monopólio da violência do Estado. Não há espaço para perguntas banais: quem são as pessoas? Qual é a alternativa à violência? O que fazer com as vítimas? Elas não valem o sacrifício. Pode parecer um paradoxo, mas revela a violência que funda o Estado de Direito Moderno.
Numa sociedade desigual, como a brasileira, a violência é banalizada e se legitima na naturalização da desigualdade (já, já descobrirão o “gene” da pobreza). Quanto mais desigual uma sociedade, mais as possibilidades de autoritarismo atualizam-se no cotidiano. O apoio substancial da população paulistana às ações de limpeza social da Cracolândia é uma manifestação, ainda localizada e dirigida à ralé, dos monstros que habitam nossa “democracia liberal”.
Faz pouco, indignei-me com o que aconteceu na Cracolândia, aquele “tratamento” baseado na dor e no sofrimento; agora, a violência cometida em Pinheirinhos. Como estou viajando, não tenho tempo de comentar as conexões entre tais acontecimentos. Assim, recomendo a leitura desse texto (aqui).
Ao mesmo tempo, houve violência contra estudantes no Piauí e no Recife (aqui) – na terrinha, o “tratamento” dado aos estudantes foi realizado por um governo dito de centro-esquerda.
O monopólio da violência, paradigma do Estado Moderno, está sendo utilizado pela direita e pela esquerda. Nesse caso, o uso da violência é “técnico”, pois está embutido numa “formalidade jurídica”. O uso legal, assim, é neutro, porque elimina qualquer julgamento de valor; com isso, cria um permanente problema de legitimidade. É a imposição racionalizada da força (a razão pura da violência) , independentemente do regime de governo (sim, estamos numa democracia — diante de um cassetete, a democracia é “formal”). E o mais paradoxal é sua legalização jurídica, defendida como “direito” pelos governantes. É o direito da violência, cuja vítima não vale nada – há uma indiferença total quanto às consequências do uso do monopólio da violência do Estado. Não há espaço para perguntas banais: quem são as pessoas? Qual é a alternativa à violência? O que fazer com as vítimas? Elas não valem o sacrifício. Pode parecer um paradoxo, mas revela a violência que funda o Estado de Direito Moderno.
Numa sociedade desigual, como a brasileira, a violência é banalizada e se legitima na naturalização da desigualdade (já, já descobrirão o “gene” da pobreza). Quanto mais desigual uma sociedade, mais as possibilidades de autoritarismo atualizam-se no cotidiano. O apoio substancial da população paulistana às ações de limpeza social da Cracolândia é uma manifestação, ainda localizada e dirigida à ralé, dos monstros que habitam nossa “democracia liberal”.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Hubert Dreyfus: 35 lições sobre Ser e Tempo
Após a série de conferências de John Searle sobre Filosofia da Mente, segue o link para um curso sobre Ser e Tempo, de Martin Heidegger, oferecido por Hubert Dreyfus, em 2002, na Universidade de Berkeley. São mais de 35 horas de aula sobre a obra máxima de Heidegger com um dos maiores filósofos contemporâneos. Um mês inteiro de caminhadas na praia :)
Baixe aqui.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Doze Conferências sobre Filosofia da Mente
Nesses dias de preguiça, nada melhor do que dar umas férias aos olhos e substituir parte das leituras por audioconferências que podem ser ouvidas enquanto se caminha pela praia ou em longos passeios de bicicleta. A série abaixo, proferida por John Searle (em inglês), consiste em uma excelente introdução à sua filosofia da mente. Dividida em 12 partes, com aproximadamente 45 minutos de duração cada uma, a série completa pode ser baixada aqui.
SEARLE, John. The Philosophy of Mind. 12 lectures on audio tapes in the series Superstar Teachers, The Teaching Company. Springfield, VA: 1996.
Conferência 1: Dualism: Descartes' Legacy
Conferência 2: Alternatives to Dualism: Materialism and Its Contents
Conferência 3: Strong Artificial Intelligence
Conferência 4: The Chinese- Room Argument and Its Critics
Conferência 5: Can a Machine Think?
Conferência 6: Is the Brain a Digital Computer?
Conferência 7: Some Solutions to Descartes' Problems
Conferência 8: The Structure of Consciousness
Conferência 9: How to Study Consciousness Scientifically
Conferência 10: How the Mind Works: An Introduction to Intentionality
Conferência 11: The Structure of Action and Perception
Conferência 12: The Construction of Social Reality
Cynthia
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