quarta-feira, 17 de março de 2010

O romantismo e as ciências sociais 2


Eugène Delacroix: La liberté guidant le peuple (1830)

Jonatas Ferreira

Entender o que significou o Romantismo nesse espaço mais restrito, ou seja, na França e na Alemanha, em todo caso, tampouco é uma tarefa simples. Basta que se considere o que pode ter representado essa reação ao classicismo em um e em outro contexto. A estética clássica, em sua busca pelo equilíbrio formal, pela ordem, pela contenção, por temas de bom gosto tem muito mais condições históricas de prosperar na França que na Alemanha. Com muito mais propriedade, ali se busca uma etiqueta da contenção, do gesto bem dosado, do gesto que em sua graça ateste a distância que separa a civilidade do cortesão da brutalidade na qual viviam as camadas pobres da população. A prosperidade e 'progresso' franceses, em contraste com a situação alemã (politicamente fragmentada, economicamente retardatária), requer formas sociais e culturais que falem em nome de uma razão abstrata, cosmopolita. A grande engrenagem absolutista naquele país demanda uma etiqueta e uma estética da contenção pois apenas elas manteriam harmonioso o corpo social.

E se ali se falava em um retorno à Antiguidade Clássica era precisamente porque o francês agora se percebia com reedição desse padrão máximo de civilidade. Em O Processo Civilizador, Elias nos ajuda a entender esse processo, dentro do qual poderíamos opor um cosmopolitanismo, humanismo, racionalismo francês a este outro processo cultural mais atento com a questão da identidade, do particular, do nacional. Em outras palavras, é possível opor a ideia francesa de civilização, e através dela um humanismo francês vindo da Renascença, ao conceito mais alemão de Kultur, onde a Reforma Protestante fala mais alto. Não é fortuito, portanto, que dois expoentes do classicismo alemão, como o são Goethe e Schiller, sejam também influências determinantes no romantismo daquele país (Bornheim, p. 84). O sentido da oposição romântico-clássico é melhor capturado através da análise do caso francês do que daquilo que ocorreu culturalmente na Alemanha, historicamente mais próxima próxima do romantismo.

A esse respeito, é ilustrativo a forma como Simmel (p. 49) contrasta o estilo germânico de Rembrant (esse holandês do século XVII) à arte clássica românica. (E eu estou com preguiça de traduzir isso:)

If Rembrandt’s art may be considered the highest embodiment of the Germanic side, the contrast between the two could be summed up as follows: where classicism seeks to present form in the appearance of life, Rembrandt sought to present life through the appearance of form. The artistic personality of the classical world always sees a particular form based on a lawful interrelationship of the parts of a surface, which more or less prescribes the outline of the subject matter, often schematically, but certainly in a wonderfully poised, harmonious and monumental manner; and this law predetermines the subject matter’s life to realize this form and to seek the meaning of its artistic becoming in this form.


É interessante citar e analisar esse olhar retrospectivo que Simmel produz acerca de uma certa força romântica que impede o estilo germânico de se render plenamente ao formalismo classicista. Entre outros motivos, o curioso é vê-lo produzir uma análise vitalista deste estilo, quando é o próprio estilo germânico, seu sentido histórico e cultural, que oferecem as condições de possibilidade de qualquer vitalismo. Entre o estilo românico, italiano, latino, se quiserem, e o estilo nórdico, germânico, há uma oposição entre duas alternativas opostas de produzir um equilíbrio entre energia vital e forma. Essa seria, para Simmel, a oposição mais fundamental que subjaz aos atributos que associamos mais acima às ideias de uma civilização francesa (abstração, racionalismo, pendor pela matemática) e uma cultura alemã (particularidade, nacionalidade, sentimento). Pensado a partir dessa chave, o vitalismo de Georg Simmel nada mais seria que uma manifestação tardia de um romantismo inerente à própria cultura germânica.

Vejamos isso mais claramente recorrendo ao próprio texto "Estilo Germânico e Clássico Românico" (publicado em 1918) – e, mais uma vez, o caboclo Macunaíma me impede de traduzir a citação, que não é pequena (“Ai, que preguiça!”).

At work here is the classical Romanic impulse toward lucid panorama and rational unity in the exterior realm of appearances. By contrast, in Rembrandt’s art, as in all typical Germanic art, no such overarching schema abstracts away from individuality: each picture retains its own form, in which no other content can be inserted, and only by inhering in this particular content can any form exist; a general form would be meaningless. It follows that it is life that determines representation – the life always of the individual human being, which can proceed only through this one canal. Individual life here so naturally rejects generalization that it does not even need to exhibit its difference from others. Wherever Italian art stresses the aspect of the individualized – most notably in the quattrocento – it does so always by means of an intentional accentuation, a deliberate foregrounding of the figure from the crowd, or through something like a principle of comparison, a yardstick or a common denominator of some kind, which stretches across even greatly heterogeneous objects (Simmel, p. 49; meus grifos)


O classicismo na França signfica Corneille, Molière, Racine, isto é, uma arte cortesã, cuidadosa, formal, matemática, num certo sentido. Pensemos no recurso constante que Racine faz aos temas consagrados da antiguidade clássica: Fedra, Andrômaca, Alexandre o Grande. Desses, li e me lembro de Fedra – vi Fernanda Montenegro fazer a personagem umas dez vezes; eu fazia um bico como fiscal da SBAT e não cansava de ver a grande dama do teatro nacional sofrer de amor (com muita dignidade, sem se rasgar, nem armar barraco) pelo enteado, Hipólito. Como já falamos acima, levava-se muito a sério nos tempos de Boileu e Racine a Poética de Aristóteles, seu apelo à ordem, proporção, ao equilíbrio entre imaginação e forma, ao “bom-gosto” na escolha dos temas. Essa era uma arte feita para o prazer da corte dos Richelieu, Mazarin, de Luís XIV. Pensemos também no genial Molière, no Burguês Fidalgo, por exemplo. Não é esse um libelo contra a falta de gosto do burguês, de sua vã tentativa de tornar-se um gentil-homem, um homem de gosto? Pobre Monsieur Jourdain, a tomar aulas de etiqueta e dicção que transformarão sua fala em um grotesco ornejar... Sobre quais pressupostos essa arte se produz? Jacques Barzun nos ajuda a entender isso. E uma vez mais recorrerei a uma citação que é a forma mais rápida de ir ao ponto.

What lent support to the seventeenth-century view that reason and nature are one is that the classical scheme os society coincided with a great scientific epoch; an epoch, moreover, specializing upon the one branch of science most congenial to the classical temper. I mean mathematics. For mathematics also abstractsand generalizes and yields simplicty and certainty while appearing to find these ready-made in nature.


A ideia de que a sociedade deva funcionar como um relógio, com suas engrenagens harmonica e equilibradamente funcionando, é clássica e, enquanto tal, adequada a um mundo político presidido por um relojoeiro maior, por um reio absoluto. Racionalismo, matemática, equilíbrio formal são aqui ideias políticas que se completam. O problema é que uma revolução burguesa em curso, coloca em xeque o aparato ideológico que legitima o absolutismo – permitam-me aqui simplificar as coisas. Sobre essa tensão histórica que monta, o Romantismo rousseauiano prospera. Contra as etiquetas, contra a formalidade da vida cortesã, de seu ideal de civilidade, Rousseau propõe um mergulho na própria fonte de vitalidade humana, em uma nudez sem artifícios que constituiria a própria essência e força da natureza humana, sufocada pelo artificialismo da cultura absolutista. O Romantismo francês é marcado por essa postura anti-classicista que pode ser capturada no seguinte trecho do Discurso sobre as Ciências e sobre as Artes.

“Como seria agradável viver entre nós, se a aparência fosse sempre a imagem das disposições do coração, se a decência fosse a virtude, se nossas máximas nos servissem de regras, se a verdadeira filosofia fosse inseparável do título de filósofo! Mas, tantas qualidades muito raramente vão refluídas, e a virtude não anda assim com tanta pompa. A riqueza do ornamento pode anunciar um homem opulento, e sua elegância um homem de gosto: o homem são e robusto é reconhecido por outros sinais; é sob a vestimenta rústica de um lavrador, e não sob os dourados do cortesão que se encontrarão a força e o vigor do corpo. O ornamento não é menos estranho à virtude, a qual é a força e o vigor da alma. O homem de bem é um atleta que tem prazer em combater nu; despreza todos esses vis ornamentos que dificultam o uso das suas forças e cuja maior parte só foi inventada para ocultar alguma deformidade” . http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000012.pdf).


Embora não devamos reduzir o Romantismo de Rousseau a algum tipo de irracionalismo, pois afinal esse é o escritor do Contrato Social, parece evidente que ao condenar o articialismo, o formalismo necrosado, ao arremeter sobre o Antigo Regime, ele se aproxima discursivamente desse tipo de postura. Mesmo aqui, no entanto, ao opor um “bom selvagem” ao “homem civilizado” ele é influente. Derrida, como já indicamos aqui no Cazzo, faz um estudo muito interessante dessa influência na obra de Claude Levi-Strauss. De qualquer modo, poderemos sempre afirmar acerca de J-JR o que constata Guinsburg (1978, p. 14):“Com Montesquieu e Rousseau, as instituições, costumes e normas sócio-jurídicas passam a ser entendidas como produto das condições, do comércio e contrato dos seres humanos”. E dessa perspectiva poderemos interpretar mais generosamente o techo abaixo.

“Com efeito, tanto ao folhear os anais do mundo como ao suprir crônicas incertas com pesquisas filosóficas, não se encontra uma origem dos conhecimentos humanos que corresponda à idéia que a respeito gostamos de formar. A astronomia nasceu da superstição; a eloqüência, da ambição, do ódio, da adulação, da mentira; a geometria, da avareza; a física, de uma vã curiosidade; todas, e a própria moral, do orgulho humano”. (Rousseau, http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000012.pdf)


Mas, se a separação entre um mundo clássico e absolutista e um mundo romântico e burguês é uma tarefa mais simples de ser realizada na França, o que dizer do Romantismo Alemão, cujas referências fundamentais estiveram de algum modo envolvidas em traduzir o mundo românico, latino, seu racionalismo, para uma cultura mais germânica? Ora essa questão é a questão que Kant se coloca na Crítica do Julgamento e a sua resposta é em certa medida esquizofrênica. Parte de sua terceira Crítica é dedicada a pensar as condições de possibilidade de uma estética fundada no sentimento de prazer diante do Belo, que descreveria a meu ver a trajetória do classicismo. Uma segunda parte dessa obra fundamental, entretanto, é dedicada a pensar o sentimento do Sublime, que constituirá não apenas o campo dentro do qual trafegará o Romantismo, mas em grande medida orientará o próprio modernismo como um todo. Se no sentimento do belo havia uma esperança de que o equilíbrio, a harmonia, a proporção e a ordem ainda pudessem falar acerca da relação do homem do século XVIII com o seu mundo, ao descrever o sentimento do sublime Kant percebe que a desproporção, a precariedade das formas, a finitude desamparada do ser humano irão sepultar as esperanças clássicas de um mundo equilibrado. E esse mundo em desequilíbrio é o mundo industrial.

Por sobre a contribuição kantiana, Schiller realiza a sua própria. Sobre essas duas, virão Novalis e os irmãos Schelegel que nos proporão uma arte reflexiva e vital.

(por editar)

segunda-feira, 15 de março de 2010

O romantismo e as ciências sociais 1


Théodore Géricault: Le radeau de la Meduse (1819)

Jonatas Ferreira

Para possível desespero de Cynthia, estou novamente às voltas com a questão da importância do Romantismo nas ciências sociais. Mais uma vez estou trabalhando nisso que entendo como primeira expressão de uma crítica à sociedade industrial que, entre os séculos XVIII e XIX, se formava na Europa a partir de ritmos bem variados. Sem o Romantismo fica complicado entender a emergência de uma sociologia não positivista no velho mundo, ou seja, fica difícil entender em que tradição se inscreveria a hermenêutica de Schleiermacher e Dilthey, o impressionismo que marca a obra de Simmel, o azedume de Weber em ensaios como Ciência como Vocação ou Política como Vocação. As referências, as pistas estão ali, aguardando um trabalho de investigação que, de algum modo, estou me propondo a fazer já faz algum tempo.

Falemos de alguns rastros que nos indicam estarmos no bom caminho. Weber cita explicitamente Tolstoi e Nietzsche naqueles dois escritos, como haveremos de lembrar. Diz-nos que a modernidade necessita abrir espaço para forças irracionais, carismáticas, que a retirem da ossificação que o industrialismo e a burocracia moderna implicam. Diz-nos que a racionalização da vida a que assiste a cultura ocidental não pode conferir sentido a nossa existência etc. etc. Fala-nos ali de temas caros à sensibilidade romântica, tais como a morte, o empobrecimento da vida nos processos de civilização etc.

De que modo entender o vitalismo simmeliano, sem aceitar a enorme contribuição que o movimento romântico confere à cultura modernista como um todo e ao vitalismo, em particular? E como falar em vitalismo sem mencionar Nietzsche; ou Nietzsche sem citar Wagner e Schopenhauer? Como discorrer acerca de temas como "interpretação endopática", entender exegese como diálogo, ou seja, como falar em Dilthey e Schleiermacher, sem passar pela contribuição fundamental dos irmãos Schlegel e de Novalis?

E, no entanto, o que é mesmo Romantismo?

A resposta a essa questão nos coloca diante de uma diversidade de contribuições considerável. O que as torna romântica? O que torna Lord Byron, Rousseau, Hamann, Herder, Novalis, Nietzsche, Tolstoi, Pushkin, Wagner, Brahms, Beethoven, Caspar David Friedrich, Stendhal, Burke, Goethe românticos? A literatura que trata do assunto parece unânime em reconhecer essa dificuldade e propor algumas soluções. A primeira delas, seria aceitar um corte cronológico, que iria das duas ou três últimas décadas do século XVIII à segunda metade do século XIX - o que coloca novas dificuldades. Não lembro ao certo se foi Novalis ou August Schlegel a afirmar que considerava o Dom Quixote, ou seja, uma obra do século XVI, o exemplo mais acabado de arte romântica. Os dois, em todo caso, acreditariam encontrar no trabalho de Cervantes uma forma perfeita daquela postura que eles afirmavam ser a essência da nova arte: reflexividade. A arte deve não apenas ser uma produção que visa ao prazer, à ilustração, ao aperfeiçoamento etc., mas realiza-se enquanto tal apenas quando for também capaz de pensar o próprio ato de produzir. O que seria da ideia modernista da vanguarda artística sem essa pressuposto fundamental: a arte tem de ser ao mesmo tempo artística e meta-artística, ou seja, deve ser reflexiva.

Jacques Barzun também acredita que Pascal, por seu turno, que sua insistência no caráter ambíguo da condição humana - fadada à miséria e à grandeza, à queda e ao mesmo tempo a ser o ponto mais alto da criação - o tornariam um romântico avant la lettre (perdoe-me, leitor(a), o hábito provinciano de usar expressões francesas, inglesas, alemãs em texto tupiniquim. Prometo tomar jeito e jamais voltar a repetir a graça). Pois, então, o gajo era romântico temporão.

Esse caminho esclarece, portanto, bem pouco e geralmente resulta em conclusões do tipo: romantismo é irracionalismo; romantismo é anti-industrialista; romantismo é buscar sempre o sentimento em lugar da razão; romantismo é fuga do real. Para todo romântico que se possa encontrar com uma ou outra ou todas essas características, ainda um segundo, terceiro, quarto e quinto será recordado que fugiriam aos chavões. Barzun acredita que uma melhor alternativa seria, então, falar em problemas típicos da cultura romântica, cujas soluções poderiam ser múltiplas. Assim, seriam questões gerais sobre as quais os mais diversos românticos se debruçaram: uma oposição a formas estéticas caducas, que perderam a vitalidade diante de situações históricas particulares, isto é, com a ascensão da burguesia ao poder, a percepção da necessidade de ir além das tarefas negativas do Esclarecimento, a percepção de um novo lugar do artista e do intelectual nessa nova sociedade.

Em todo caso, não evitaremos necessariamente uma abordagem esquemática a esse tema através do caminho proposto por Barzun. Procurando também questões centrais da cultura romântica, Ernst Fischer (183, p. 63) afirma: "O romantismo foi um movimento de protesto, de protesto apaixonado e contraditório contra o mundo burguês capitalista, contra o mundo das "ilusões perdidas", contra a prosa dos negócios e dos lucros".

O que se perde aqui, de partida, é a possibilidade de perceber que o Romantismo possa ter significado coisas relativamente distintas em realidades sociais por vezes bastante dessemelhantes. Até porque o capitalismo não avançou do mesmo modo na França, Inglaterra e Alemanha e um eventual protesto à emergência e consolidação da burguesia nesses contextos certamente significaria coisas distintas, mesmo da perspectiva marxista que orienta Fischer. Se falarmos especificamente da caducidade de certas formas estéticas que o movimento romântico tem em mira, ou seja, se falarmos de uma oposição à arte cortesã, ao classicismo, também aqui teremos casos bastante específicos. O pensamento clássico, seu formalismo, seu humanismo de inspiração greco-latina, penetrou bem mais na França, por exemplo, do que na Alemanha. Esta última muito mais marcada pela Reforma protestante que pela Renascença, segundo afirma Gerd Bornheim (1978).

Assim, embora nos próximos posts venha a falar do Romantismo francês, e especialmente na influência de Rousseau, como Bornheim, dedicarei especial atenção ao caso alemão, dada a sua inquestionável importância para o surgimento de uma tradição crítica nas ciências sociais.


Isso, porém, farei amanhã. Agora, vou ver se encontro algo bem romântico para ilustrar e fazer fundo musical a esse post.

(Por revisar)

sábado, 13 de março de 2010

A venda do Hospital da Tamarineira

No último sábado, 13 de março, estive numa manifestação em defesa do Hospital Ulysses Pernambucano, do Hospital da Tamarineira, como todos conhecemos esse espaço de tratamento de pacientes psiquiátricos graves. Com toda a reforma psiquiátrica ocorrida nos últimos vinte anos, nunca se falou contra a necessidade de um hospital para internamento de quadros psiquiátricos agudos. E, no entanto, agora, interesses maiores que a saúde dos pacientes do HUP querem se impor. Durante a manifestação do sábado, escutamos atentos o discurso do Professor Othon Bastos, que, com autorização do autor, transcrevo abaixo. J. F.


CRIME PRESTES A SER CONSUMADO

Por Othon Bastos*

Há cerca de três anos, vimos denunciando pelos periódicos locais a cobiça e os propósitos mercantilistas da “Santa Casa de Misericórdia” e da Mitra Diocesana, em relação ao Hospital da Tamarineira e de seu precioso entorno. Logo após o carnaval deste ano, D. Fernando Saburido OSB, sucessor do malfadado D. José Cardoso, tornou-se arauto de atos anteriores à sua posse e anunciou pela imprensa falada, escrita e televisiva a triste notícia da negociata da venda do referido imóvel a um grupo comercial do Rio de Janeiro. A cobiça inicial consumava-se em desastrada transação, efetuada à socapa, contendo sanções contra os vendilhões do patrimônio sanitário e ambiental do povo e da cidade do Recife.

A ilicitude do ato é do conhecimento público, o que já foi demonstrado historicamente. Há registros de propriedade desde 1551, ato de venda à Congregação do Oratório do Recife realizada em 1710, mas a Escritura de Aforamento à Congregação de São Felipe Néri é datada de julho de 1826. No governo do Barão de Lucena (Henrique Pereira de Lucena) foi iniciada a construção do Hospital da Tamarineira com recursos públicos e donativos de particulares. Por fim, foi inaugurado em 1874, em pleno segundo reinado, quando o trono e o altar encontravam-se unidos. Logo, o que pertencia a Igreja Católica também era patrimônio do Estado e vice-versa. A seguir, a Congregação dos Oratorianos afastou-se do Recife. Como era de costume, à pia “Santa Casa de Misericórdia do Recife” foi entregue a administração da Tamarineira, o que se verificou até 1924, quando foi reintegrada ao Governo do Estado, na gestão do Dr. Sérgio Loreto, sendo Secretário de Saúde o ilustre Dr. Amauri de Medeiros. Era dirigido, então, o Hospital de Alienados pelo Prof. Ulysses Pernambucano, fundador da Escola de Psiquiatria do Recife, ainda viva e presente no cenário científico brasileiro.

A luta atual pela preservação do espaço de Saúde, representado pelos serviços psiquiátricos históricos lá existentes e ainda em funcionamento, e também pela manutenção da última reserva ambiental devidamente tombada pelos órgãos competentes, tem sido assumida pelos intelectuais do Recife, pelos psiquiatras, trabalhadores de Saúde Mental e voluntários integrantes dos “Amigos da Tamarineira”. Trata-se, na realidade, do último pomar remanescente dos antigos quintais desta pobre cidade tão devastada pela insaciável febre imobiliária. Fato semelhante ocorreu em Lisboa, há 20 anos, em relação ao Hospital Júlio de Matos, localizado no bairro de Portela. A reação dos órgãos médicos portugueses impediu a consumação deste atentado. Quem conhece os serviços psiquiátricos londrinos, parisienses e alemães tem ciência de que todos aqueles serviços centenários preservam sua aparência externa, enquanto são interiormente modernizados. Refiro-me ao Maudsley Hospital, à Salpétrière, à Sainte Anne, ao Hospital de Heidelberg, etc.

Há igualmente um estranho silêncio e omissão das autoridades constituídas do Estado e do Município em relação a estes fatos, as quais parecem mais preocupadas com as próximas eleições. D. Fernando Saburido, monge beneditino, deve estar por certo intimamente dividido entre a defesa dos interesses e deveres da Mitra e os seus princípios éticos emanados da Ordem de São bento, tão contrastantes entre si. Mas, até a presente data, não se preocupou em receber em audiência os dirigentes dos serviços de saúde, ora ameaçados. Limitou-se a expor seus argumentos a um grupo restrito de parlamentares, vereadores e demais representantes do poder legislativo. Pouco importam os protestos veiculados pela imprensa não comprometida da cidade, contendo a opinião de parcela representativa da população e de técnicos de notório saber. As especulações financeiras, por certo, têm falado mais alto.

Resta-nos, porém, o pronunciamento de um terceiro poder, o Judiciário, representado pelo Ministério Público, a quem caberá julgar a ilicitude da transação, assim como das autoridades defensoras do meio ambiente, a quem cabe zelar pelo patrimônio comum do povo desta cidade indefesa.

*Professor Titular de Psiquiatria das Universidades Federal e Estadual de Pernambuco. Professor Emérito da UPE.

Lançamento de livro

quinta-feira, 11 de março de 2010

Max Weber e o trânsito brasileiro



Luciano Oliveira (Professor do DCS e do PPGD da UFPE)

Uma das teses que - parodiando o Macaco Simão - já defendi mais de uma vez neste espaço é a de que o Brasil é o país do artigo pronto! Hoje direi mais: o Brasil é o país do artigo acadêmico dado de bandeja. Por isso fico às vezes sem entender os nossos candidatos a mestres e doutores em Sociologia, desesperados por não conseguirem achar um tema para suas dissertações. Saiam às ruas e abram os olhos! – é a recomendação que lhes dou.

Esse abrir de olhos, naturalmente, não se refere ao olhar do senso comum. Para este, ainda hoje, o sol continua girando em torno da terra. Todos nós “vemos” isso. Mas todos nós sabemos também que essa é uma verdade apenas aparente, e que por trás da aparência, se me perdoam a redundância, há um nível de verdade mais verdadeira a que temos acesso através do saber produzido por figuras como Galileu, cujas descobertas se deram contra as evidências mais imediatas. Do mesmo jeito, o olhar sociológico, aquele que antevê artigos em cada esquina, também se vale de telescópios de outro tipo produzidos por figuras que “viram” o que normalmente não vemos. Max Weber foi uma delas.



Homenagem a Silke

Ah, Silke...

Sou um silkete de carteirinha, confesso. Sou desse clube privilegiado dos que foram seus orientandos e orientandas. Se, atualmente, sou um bom orientador, devo tudo a essa experiência; se não sou, o problema é meu, é claro, que não aproveitou bem as lições.

De todos @s silketes, sou o favorito, o que causa embaraço e ciumeira. Não posso fazer nada, pois a predileção é um fato. Mas Silke é discreta sobre esse assunto. Aliás, ela é discreta. Vai fazendo as coisas e as coisas vão se acumulando e, quando olhamos, vemos uma montanha gigantesca de coisas do tamanho do Everest (mestres, doutores, papers, artigos, livros, o escambau). Ela acha que é um dever e que não fez mais do que sua obrigação. No seu trabalho, o dever significa um modus faciendi e a obrigação, um compromisso republicano.

Ela é uma fonte de inspiração, uma referência, um marco, um porto de seguro, um baluarte -- tão ligados?!

Ela recebeu uma homenagem. Vejam, abaixo:



Uau! Ela tá bonitona, hein?!

Artur Perrusi.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Discutindo "o homem" no dia internacional da mulher


Plágio descarado de idéia retirada do Philosopher's Magazine sobre obra de Roy Lichtenstein

Por Robson Fernando (aluno do Curso de Ciências Sociais da UFPE)

Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.

Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).

É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.


domingo, 7 de março de 2010

O Diverso que nos mete medo. Por que a tolerância não nos basta mais?




Por Zigmunt Bauman


Trecho da videoconferência pronunciada no congresso sobre “A qualidade da integração escolar”, na cidade de Rimini, publicado na edição do dia 16/11/09 do jornal italiano La Repubblica e republicado em Política Democrática: Revista de Política e Cultura, ano 9, no 25, 2010. Tradução de Marco Mondaini. Agradeço a Marcelo Medeiros, meu consultor para assuntos de ciência política, por me haver presenteado com uma cópia de Política Democrática após um profundo debate relâmpago via msn sobre intolerância e democracia em Slavoy Zizek e Paul Ricoeur. Agora vai de presente para Tâmara e demais leitores do Cazzo. A propósito: Política Democrática é blog friendly e autoriza a divulgação de seus artigos, desde que citada as fonte.


Cynthia


Viver com os estrangeiros – que é o fundamento demográfico e social da exposição às diferenças e a qualquer espécie de alteridade - não é de forma alguma um fato novo na história moderna. Mas antes a ideia era, grosso modo, a de que qualquer um que fosse estranho, estrangeiro, diverso de você perderia mais cedo ou mais tarde o seu caráter de estrangeiro.


A política dominante em relação aos estrangeiros, durante a maior parte da história moderna, foi uma política de assimilação: “Vocês estão aqui, estão fisicamente vizinhos; tornemo-nos, pois, vizinhos também espiritualmente, mentalmente, eticamente”, o que quer dizer aceitar os mesmos valores universais, onde, porém, como “universais”, sempre eram entendidos os “nossos” valores. Assim, com essa perspectiva, na qual o ser estrangeiro era apenas um desagradável incômodo passageiro, não existia a ideia de dever aprender a viver com o diverso.


Agora, pela primeira vez na história moderna, conseguimos nos dar conta de que as coisas não são bem assim. A modernidade sempre foi um período de migrações massivas de pessoas de um continente a outro, de uma extremidade do mundo a outra, de uma cultura a outra, e a migração aconteceu por necessidade nas circunstâncias modernas em que, para as pessoas assim chamadas em excesso, pessoas para quem não se podia encontrar uma colocação na sua sociedade de origem, não havia espaço na nova ordem, no novo estado avançado do progresso econômico, sendo forçadas a viajar.




sexta-feira, 5 de março de 2010

Seminário - Diálogos entre feminismo e direito: aportes teóricos e práticas da sociedade.



Local: Auditório Tobias Barreto – Faculdade de Direito do Recife (Praça Adolpho Cirne, s/n, Boa Vista, em frente ao Parque 13 de maio).

Organização: Coordenação de Extensão da Faculdade de Direito do Recife: Prof. Alexandre da Maia, acadêmicos Gabriela Pires, João Marcos Ezaquiel e Felipe Melo França.

Horas-NAC: 20 horas.

Inscrições gratuitas no local do Seminário.


quinta-feira, 4 de março de 2010

Véus muçulmanos na França e olhar sociológico : bom caso da tensão entre análise sociológica e tomada de posição



Tâmara de Oliveira

Chegando há pouco na França, meu coração tropical foi perdendo a paciência: como ela é cansativa, essa République, com seus dilemas sobre a identidade nacional e suas inimigas muçulmanas! Desde o final dos anos 1980 que esse país se enrola com o affaire du voile islamique. Segundo mídias, os franceses estariam em plena quarta questão do véu islâmico, estrelada agora pelo niqab ou véu integral, tipo de vestimenta parecido/confundido com a burka afegã, porque em geral deixa os olhos visíveis mas pode ser complementado por um tecido transparente cobrindo também os olhos. Sem falar nos velhos dilemas de integração, agora com os imigrantes de terceira ou quarta geração. Falando em quarta, um antigo partido trotskista recomposto e renomeado como Nouveau Parti Anticapitaliste, ousou colocar uma jovem adepta do véu (não integral) como sua candidata para as próximas eleições regionais. Lendo certos jornais e artigos, vendo programas ou documentários na tv, consultando sites e blogs e, tomando conhecimento das demandas por legislação repressiva e das queixas na justiça contra outros « atentados aos valores de liberdade e laicidade republicanos », dir-se-ia que a França sofre uma invasão de uma espécie de Quarta Internacional Muçulmana… Haja !